A dissolução do coletivo Terceira Margem do Rio revela os limites do progressismo no adventismo brasileiro e aponta as razões para continuar disputando os rumos da instituição
Lembro-me de quando descobri pela primeira vez o que era a Terceira Margem do Rio (TMR). Esgotado após anos à frente de um clube de desbravadores numa igreja conservadora, não conseguia dar forma à insatisfação que sentia, pois meu repertório filosófico, político e artístico era limitado. Só havia a sensação de que ritos vazios não bastavam; de que a sinalização individual de pureza e virtude, o arroz com feijão de toda igreja de bairro, era um peixe faminto que me prenderia em seu ventre para sempre. Mas, com os textos — e, por um breve período, vídeos — da TMR, um novo mundo se abriu para mim, e descobri que o nosso espírito ia além do que nos afogava nas periferias de São Paulo.
Terceira Margem do Rio, pelo que entendo, era o nome dado a um coletivo de jovens homens brancos de classe média, sinceros e bem-intencionados, que eram amigos próximos e construíam suas carreiras profissionais e acadêmicas no entorno do seminário adventista, no Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp), campus Engenheiro Coelho. Edson Nunes, Tiago Arrais, Leonardo Gonçalves, Felipe Valente e Lucas Iglesias criaram um blog para extravasar suas pulsões artísticas e filosóficas, suas reflexões bíblicas perigosas demais para um púlpito tradicional, seus ensaios e análises de textos que lhes eram caros.
O próprio nome do blog vinha do conto de seu autor favorito na época. A terceira margem do rio era uma impossibilidade em termos, um posicionamento que se recusava a estagnar e receber rótulos, num movimento incessante através do fluxo das águas da existência.
Arrisco dizer que, após algum tempo, certo ímpeto missionário também passou a motivá-los — o sonho da redenção pela educação, de que, compartilhando as maravilhas que aprenderam em suas trajetórias privilegiadas de famílias tradicionais adventistas, pudessem melhorar a igreja que tanto amavam. Assim, surgiram as séries de vídeos, as pregações escandalizantes, um selo editorial incipiente, inclusive, em parceria com a Editora Universitária Adventista (Unaspress), que abria espaço tímido para abordagens mais criativas.
Sua missão rendeu frutos — ao menos em minha vida. Graças a eles, redescobri o texto bíblico, e aprendi a me apaixonar e maravilhar pelos sonhos, pesadelos e perigos contidos em páginas que, nos cultos de sábado, pareciam tão domesticadas. Por sua inspiração e encorajamento, estudei hebraico bíblico por conta própria e acabei estudando a Bíblia Hebraica (isto é, o Antigo Testamento) academicamente na Universidade de São Paulo. Com o tempo, mesmo sem nunca ter estudado em Engenheiro Coelho, passei a chamá-los de mentores, professores, e — por que não? — amigos queridos.
As limitações, claro, eram muitas. Jamais conseguiram se livrar totalmente da centralização e hierarquização tão características de estruturas eclesiásticas centradas na liderança pastoral. Tentaram, mas como poderiam? Também estavam aprendendo, afinal, debatendo-se contra suas próprias amarras de fé, classe, raça e gênero. As metodologias que mais poderiam ajudá-los — a leitura bíblica comunitária, as comunidades eclesiais de base, a síntese da teologia da libertação e da educação popular que foram tão poderosas na América Latina do século passado — estavam mortas e enterradas, perseguidas e assassinadas, inclusive em nossa denominação.
Como resultado, e contra seus melhores esforços, tornaram-se algo como heresiarcas na IASD brasileira, autoridades aos pés das quais todo progressista — como convencionou-se chamar o adventista, ou evangélico, que não se conformava com a radicalização de cristãos à direita — gostaria de se sentar e aprender. Entre os escárnios pastorais, eram os “barbudinhos”, alusão pejorativa à estética do grupo que, por terem barbas mais cheias, carregavam o rótulo de comunistas — como era de costume durante a ditadura militar, nas décadas de 1960-1980.
Mas nenhuma limitação, é claro, se comparava às cercas de arame farpado fincadas pela própria liderança adventista no país, cada vez mais apertadas — como bem sabe qualquer um que acompanha a revista Zelota. Aproximadamente dez anos depois do meu primeiro contato com a TMR, nenhum de seus integrantes faz mais parte do adventismo brasileiro. Leonardo Gonçalves e Tiago Arrais não vivem mais no país. Edson Nunes e Felipe Valente deixaram a denominação com centenas de pessoas em 2022, após um episódio de repressão repleto de irregularidades administrativas e patrulhamento ideológico, para criar uma igreja independente: a Um Lugar Comunidade. E hoje, Lucas Iglesias, o último integrante do grupo, anunciou que está cortando vínculos empregatícios com a IASD.
É seguro dizer que boa parte dos que se tornaram progressistas por inspiração da TMR também deixou a IASD nos últimos anos, enxergando que não há mais espaço para viver dentro dela — uma reação compreensível para quem sofreu tantas violências no meio eclesiástico. É seguro dizer, ainda, que boa parte desses ex-adventistas sente certa perplexidade frente à revista Zelota: por que, afinal, permanecer lutando por uma igreja que, aos seus olhos, tem males irremediáveis?
Há, nessa perplexidade, certa romantização ingênua da desinstitucionalização, algo muito típico da classe média. Pensa-se que, frente a uma instituição ruim, basta deixá-la, como se nossas vidas não fossem mediadas inescapavelmente por dezenas de outras instituições, e como se, ao criar-se outra comunidade de fé, não fosse formada outra instituição sujeita aos mesmos problemas que a anterior.
Mais importante é perceber que, para cada ex-adventista que encontrou alternativas de socialização e comunhão religiosa fora da IASD, há centenas, ou milhares, de adventistas para quem o adventismo é seu único abrigo na tempestade da vida. São quase 3 milhões de adventistas na América do Sul (principalmente no Brasil), em sua maioria trabalhadores de baixa renda, mulheres e negros, para quem a instituição adventista é muito mais generosa que as instituições do mercado capitalista e do Estado brasileiro. Para estes, não basta provar, no mundo das ideias, que a teologia adventista é menos cristã e mais sectária que suas dezenas de concorrentes, como se não tivessem todas suas próprias arbitrariedades e acrobacias teológicas. Tirá-los do adventismo não resolverá seus problemas. Transformar a sociedade, sim, é um começo.
É por este motivo que a Zelota permanece também uma revista adventista. Da mesma forma que lutamos para transformar as instituições da sociedade brasileira, tornando-as mais justas para todas as pessoas, é necessário lutar, desde dentro, para melhorar cada uma de nossas instituições religiosas — se não por nós mesmos, pelos que não têm para onde ir. Toda luta dentro da igreja, vencida ou perdida, ensina e transborda para a luta fora dela, no mundo.
Assim avançamos, entre margens e trincheiras, até desembocarmos no sertão virando mar: a vitória final.




