A batalha pelo futuro do mundo jaz no sentido do humano e nas regras para o avanço da IA, como visto na encíclica Magnifica Humanitas do Papa Leão XIV e nos discursos do multimilionário Peter Thiel, residindo na Argentina, sobre o Anticristo


Por Flavia Costa | Doutora em Ciências Sociais pela Universidad de Buenos Aires (UBA), pesquisadora do Conicet e editora. É professora do seminário Técnica, Cultura e Sociedade, e dirige o Observatório de Tecnologias, Sociedade e Ecossistemas Digitales (TecnocenoLab) na Faculdade de Ciências Sociais da UBA. É autora do romance Las anfibias (Adriana Hidalgo, 2008) e de várias publicações sobre tecnologia, cultura e sociedade. Seu livro Tecnoceno. Algoritmos, biohackers y nuevas formas de vida (Taurus, 2021) foi reconhecido em 2024 com o prêmio Konex de ensaio político. Traduzido e adaptado do original em espanhol para a revista Zelota.

“O capitalismo deve ser visto como uma religião, isto é, o capitalismo está essencialmente a serviço da resolução das mesmas preocupações, aflições e inquietações a que outrora as assim chamadas religiões quiseram oferecer resposta.”

Walter Benjamin, O capitalismo como religião, 1921

Um acontecimento tecnológico suscita, pela primeira vez na história, uma veemente encíclica papal de 111 páginas. Em Magnifica Humanitas, Leão XIV chama à “salvaguarda da pessoa humana na era da Inteligência Artificial”. Isso — que por si só indicaria que nos encontramos, com as mais recentes inteligências artificiais (IA) generativas e preditivas, diante de um fato de inédita relevância histórica — parece, no entanto, um episódio a mais da sequência avassaladora de eventos que, desde o final de 2022, envolve o Ocidente em uma vertiginosa convulsão política, social, cultural, espiritual e epistêmica.

Para nos mantermos neste ano, no dia 3 de janeiro, forças militares dos Estados Unidos capturaram o então presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores, em Caracas, e os transferiram para Nova Iorque para enfrentar acusações de narcoterrorismo. A incursão incluiu ataques aéreos sobre a capital e zonas estratégicas militares. Fontes de ambos os governos estimaram que morreram entre setenta e cem pessoas. No final do mesmo mês, o Departamento de Justiça americano publicou mais de três milhões de documentos, imagens e vídeos — “um total de 300 GB de dados”, diz a imprensa — dos Arquivos Epstein, que revelaram uma corrente obscura de equivalências entre bancos internacionais, narcotráfico, políticos, celebridades do espetáculo e da academia, poder judiciário, serviços de inteligência, crimes sexuais, redes de tráfico de meninas e adolescentes, sacrifícios rituais, extorsões e casas reais europeias numa mais que surpreendente decadente reabilitação pública.

No final de fevereiro, começou a guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, que faz sentir seu impacto em todas as economias nacionais do hemisfério. Enquanto isso, prossegue a guerra de Gaza, iniciada em 2023, que inclui o massacre aberto do povo palestino, o pedido de prisão do presidente israelense Benjamin Netanyahu por parte do Tribunal Penal Internacional em novembro de 2024 e as sucessivas detenções e vexames aos integrantes das flotilhas humanitárias que periodicamente buscam ultrapassar, sem sucesso, o bloqueio com suprimentos básicos para os palestinos presos entre os bombardeios massivos, a fome por falta de alimentos, a destruição de escolas e hospitais, e o fechamento de rotas.

Para carregar um pouco mais o ambiente, no dia 18 de abril, a Palantir publicou na rede social X seu manifesto: uma declaração de vinte e dois pontos que resume a visão do CEO da empresa, Alex Karp, sócio de Peter Thiel. O documento defende a fusão entre o Vale do Silício e o complexo industrial-militar para garantir a hegemonia do Ocidente mediante o uso de inteligência artificial. Ele afirma que a era da dissuasão nuclear está chegando ao fim e será substituída por uma dissuasão baseada em IA, desqualificando de antemão qualquer tentativa de debate democrático sobre o uso militar da IA. “A pergunta não é se armas de IA serão construídas; é quem as construirá e com que propósito”, assegura. E, partindo de um supremacismo cultural escancarado, exorta a resistir “à tentação superficial de um pluralismo vazio”, já que, a seu critério, contra o que afirmam os princípios liberais, as culturas [não fala de regimes políticos, mas de culturas] não merecem tratamento igualitário: “algumas produziram avanços vitais; outras continuam sendo disfuncionais e regressivas”.

Neste cenário infernal, nesta atmosfera densamente intoxicada, a Magnifica Humanitas é um documento carregado de humanismo. Apoia-se fortemente na Doutrina Social da Igreja Católica, com persistentes referências ao comum (a verdade como bem comum, a Terra como casa comum, os dados que devem ser tratados como bens comuns, direitos humanos como linguagem comum, discernimento comunitário, comunidade, comunhão), citações precisas de J.J.R. Tolkien — o católico devoto que imaginou as pedras videntes, ambivalentes e pharmakologicas, chamadas Palantir1— e até uma menção explícita ao Beato Enrique Angelelli, assassinado pela última ditadura argentina em 1976.

O texto do Vaticano, publicado no dia 25 de maio, sublinha algumas teses que a filosofia da técnica vem sustentando há anos: que a tecnologia — e especialmente uma infraestrutura linguística e cognitiva, como são os ecossistemas digitais nos quais emergem as novas IAs — “não é neutra, porque tem o rosto daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam”[9]2. Tampouco “é um mero instrumento”, já que “quando se torna critério, acaba por determinar o que é importante e o que pode ser descartado, reduzindo a criação a objeto de exploração e as pessoas a engrenagens dum sistema que quer ser sempre mais eficiente”[92] — uma alusão precisa, seja ou não deliberada, à célebre figura da megamáquina de Lewis Mumford, tão apreciada por Gilles Deleuze e Felix Guattari. Inclusive, mais que um conjunto técnico, a IA, diz a encíclica, é “o ambiente em que estamos imersos e o poder com que temos de lidar”[110].

Deixa de lado, em contrapartida, outras noções do pensamento sobre a técnica que poderiam ter sido contribuições ao seu argumento. A encíclica denuncia, por exemplo, a vontade de poder “prometeica” — os “sonhos prometeicos” da tecnologia [128]. No entanto, há décadas o sociólogo Hérminio Martins e, depois, a antropóloga Paula Sibilia distinguiram entre duas sensibilidades típicas e tradicionais no Ocidente, uma prometeica e outra fáustica; uma alinhada com os interesses humanos e respeitosa dos limites da condição humana, a outra voltada a superar “as limitações derivadas do caráter material do corpo” — assinala Sibilia em El hombre postorgánico — “às quais entende como obstáculos orgânicos que restringem as potencialidades e ambições” humanas. A encíclica também rejeita as diferentes correntes do transumanismo e dos pós-humanismos. Aprofundar-se nas distinções internas dentro do núcleo imaginário ou mitopoético das tecnologias avançadas permite ser crítico sem desdenhar de possibilidades que contribuem, precisamente, para a justiça e o desenvolvimento coletivos, como pesquisas em medicina ou estudos sobre mudança climática; limitando, ao mesmo tempo, a acusação fácil e infalível de “ludita”. O documento é, sim, certeiro e incidental em sua exortação ao cultivo de um “antropocentrismo situado”, que reconhece o humano como “criatura inserida numa teia de relações com os outros seres vivos e com toda a criação” [237].

Ao longo de uma introdução, quatro capítulos e um epílogo, em uma linguagem coloquial, mas não imprecisa, a encíclica se pronuncia contra o “paradigma tecnocrático” [185], ao qual define como “a tendência de deixar que a lógica da eficiência, do domínio e do lucro governe por si só as escolhas pessoais, sociais e econômicas”[92]. Adverte sobre as “novas expressões de escravatura alimentam-se de cadeias econômicas e infraestruturas digitais” [179] e sobre “o colonialismo [que] apresenta, nos nossos dias, um rosto inédito”, já que “não domina apenas os corpos, mas apropria-se dos dados, transformando as vidas pessoais em informações que podem ser exploradas” [178].

Assinala com agudeza que “as IAs modernas são mais ‘cultivadas’ do que ‘construídas’: os programadores não projetam diretamente todos os detalhes, mas criam uma arquitetura sobre a qual a IA ‘cresce’”, e, em consequência, “aspectos científicos fundamentais — como as representações internas e os processos computacionais destes sistemas — permanecem, por enquanto, desconhecidos” [98]. Diante disso, exorta a uma dupla ação: aprofundar a investigação científica e exercitar o discernimento ético e espiritual[99]. E conclui: “Quando um poder desta magnitude se concentra na mão de poucos, ele tende a tornar-se opaco e a fugir ao controle público, aumentando o risco dum desenvolvimento distorcido que gera novas dependências, exclusões, manipulações e desigualdades” [95].

Diante dessa potência concentrada no mundo digital, “num mundo em que poucos sujeitos concentram dados, capital computacional e capacidade normativa”, o documento antepõe os cinco princípios da Doutrina Social da Igreja: “a dignidade inalienável da pessoa, o bem comum, a destinação universal dos bens, a subsidiariedade, a solidariedade e a justiça social” [96]. E sai em defesa das “instituições capazes de proteger a vida em comum”; cita movimentos como a Cruz Vermelha (1863), leis como a abolição da escravidão, organizações multilaterais como a Organização das Nações Unidas (1945), e tratados como a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948).

Nem formalidade administrativa, nem texto críptico, mas, sim, um programa político nítido: um “documento de cultura”. E também, apesar de seu antibelicismo (a isso se refere com “desarmar” a IA), um ataque frontal. Mais um, em um cenário profundamente bélico. Um singular, em um cenário profundamente religioso. Não pouco desconcertante, em um cenário de transvalorações — “inversões”3 — incessantes, virtualmente intermináveis.

O Anticristo como política

No mundo realmente reinvertido, o verdadeiro é um momento do falso.”

Guy Debord, A sociedade do espetáculo, 1967

Nos dias que antecederam a publicação da encíclica, fora divulgado oficialmente que Peter Thiel, um multimilionário de origem alemã e ideias paleolibertárias, fundador da empresa de vigilância massiva mais famosa do Ocidente, a Palantir, havia comprado uma casa de doze milhões de dólares no Barrio Parque, um enclave muito exclusivo na cidade de Buenos Aires, e matriculado seus filhos em uma escola local (sussurrava-se que uma escola católica famosa havia recusado, com precaução diplomática, o pedido de matrícula apresentado por Thiel e seu esposo, o investidor Matt Danzeisen, ex-vice-presidente da BlackRock). Meios de comunicação publicaram fotografias de Thiel jogando xadrez no bairro do Abasto, em um torneio no qual ficou em terceiro lugar. Soube-se, também, que ele havia jantado com economistas a quem, curiosamente, falou menos de economia e mais do Anticristo.

Ele fizera o mesmo em meados de março, mas em Roma, no Palácio Orsini Taverna, onde Lucrecia Borgia viveu quando criança, até que em 1493, aos 13 anos, seu pai, Rodrigo Borja, mais conhecido como o papa Alexandre VI, a casou com Giovanni Sforza, o primeiro dos três casamentos que o valenciano arranjaria para aumentar seu poder. Ali, a poucas quadras do Vaticano, Thiel proferiu quatro conferências a portas fechadas sobre o que ele imagina como o maior perigo iminente da época: o Anticristo. Segundo a Associazione Culturale Vincenzo Gioberti, o grupo cristão conservador que o recebeu, criado em julho de 2023 na própria cidade lombarda de Salò, as palestras giraram em torno de como “forças ocultas trabalham incessantemente com a intenção de destruir o que resta do Ocidente”. A associação tem como missão “restaurar a unidade espiritual dos italianos, partindo de sua identidade católica, suas pequenas pátrias e os costumes herdados do Antigo Regime”. No início de 2026, seu secretário-geral, Matteo Rossi, escreveu um texto perspicaz sobre a decisão do conselho comunal de Salò de retirar a “cidadania honorária” do Duce Benito Mussolini, que começa com uma boutade: “Sinceramente, não sabia que os mortos podiam ter cidadania terrena: pensava que só tinham direito a um domicílio, onde é possível levar-lhes flores…”.

Nas peculiares análises de Thiel, formado em Filosofia por Stanford e reconhecido financiador de projetos neoconservadores, o Anticristo é hoje “um ludita que quer deter toda a ciência”. Em conferências privadas proferidas em 2025 em São Francisco, ele se referiu aos escritos apocalípticos de John Henry Newman e ao romance de Vladimir Soloviev Uma breve história do Anticristo (1900), onde este é retratado como um filantropo sábio que oferece soluções racionais ao caos, “mas só ama a si mesmo”. Segundo descreve o The New York Times, Thiel sustenta que a semântica dos riscos (em particular o chamado risco existencial, mas também as preocupações ambientalistas de personalidades como Greta Thunberg, ou as críticas à tecnologia e à inteligência artificial) é parte da estratégia dos “legionários do Anticristo”, que impulsionariam uma sobrerregulação, fomentando uma governança opressiva generalizada, um “estado totalitário global”. “A forma como o Anticristo tomará o mundo é falando incessantemente do Armagedom”, declarou Thiel ao mesmo jornal em 2025, segundo recorda a correspondente Elizabetta Povoledo. “Falando sem parar do risco existencial e dizendo que, portanto, precisamos de regulamentação”.

Ora, quem falou primeiro do risco existencial ou X-Risk, senão as próprias corporações e instituições, seus diretores e referentes mais conhecidos? O think tank Future of Life promoveu, em 2017, os Princípios de Asilomar, a primeira carta de intenções éticas abertamente conhecida para a inteligência artificial, e impulsionou duas cartas conhecidas em 2023 e 2025: a que pedia por uma pausa a pesquisas em modelos de IA iguais ou maiores que o GPT 4, e a que pedia por uma proibição à Superinteligência, ambas assinadas por personalidades notáveis, como Yuval Harari, Yoshua Bengio, Steve Bannon, os duques de Sussex (estes três últimos na segunda carta). Dando conferências, assessorando as principais potências, investigando e informando cotidianamente sobre o risco existencial, estão desde o prêmio Nobel de Física Geoffrey Hinton até os AI Security Institutes do Reino Unido e dos Estados Unidos, passando pelos grandes meios jornalísticos e os pesquisadores mais destacados em IA, como o próprio Ilya Sutskever, que, ao sair da OpenAI em 2024, fundou uma empresa exclusivamente dedicada a desenvolver uma “superinteligência segura”. A questão do risco existencial é parte da narrativa oficial das big techs, e não uma pouco significativa (estas declarações de Thiel, cabe suspeitar, são parte desse mesmo gesto, submetido a uma calculada inversão).

Para tentar compreender a obsessão de Thiel por apresentar como “Anticristo” os Estados, os saberes e as regulamentações que poderiam limitá-lo, cabe recordar a tese de Jan Assmann em O preço do monoteísmo (publicado em português em 2021), o qual sustenta que o monoteísmo bíblico, ao estabelecer a distinção entre verdadeiro e falso em matéria religiosa, desencadeia um fundo de violência que não é somente antropológico (como o próprio Thiel poderia explicar seguindo, e desviando, a quem, diz-se, foi seu admirado professor, René Girard), mas também cultural e político. O que essa distinção produz, e este é seu preço, é a violência religiosa: os deuses prévios ou deslocados não desaparecem, mas se tornam demônios, forças do mal. Continuam operando clandestinamente, como o reprimido que retorna. Thiel utiliza essa operação em seu benefício. O regulador, a crítica à crise climática, o multilateralismo, a governança da IA: tudo o que ele considera um obstáculo ao avanço tecnológico e à liberdade individual é demonizado como parte da estratégia do Anticristo.

Tem sido assinalado com insistência o paradoxo de que a empresa Palantir, da qual Thiel é cofundador e presidente de seu conselho diretivo, fornece sistemas de inteligência artificial ao Pentágono e é um instrumento-chave em ações americanas e israelenses contra o Irã, bem como nas operações do ICE para rastrear migrantes, atuando, de fato, como uma ferramenta para a criação de um Estado de vigilância. Talvez não seja estéril considerar nosso momento histórico-cultural e conjecturar que o paradoxo é uma tática, não um efeito colateral. Em 2008, quando estourava a crise financeira internacional que derivou na Grande Recessão, a área de software para Inteligência e Defesa da Palantir começou a se chamar Palantir Gotham.

Fundo de investimentos

A “gigantomaquia” em torno do ser é, também e antes de mais nada, um conflito entre ser e agir, entre ontologia e economia, entre um ser em si incapaz de ação e uma ação sem ser — e entre os dois, como aposta, a ideia de liberdade.

Giorgio Agamben, O reino e a glória, 2011

Chegados a este ponto, a imagem tem algo de cena primária. Por um lado, a cena primária de um tipo particular de enfrentamento que o Ocidente conhece bem: o cisma espiritual, a cruzada religiosa. Thiel fala do Anticristo, Leão XIV fala de Babel e Jerusalém. Se trazemos a esta cena os Arquivos Epstein, mobilizam-se relatos ainda mais antigos: Baal e Yahweh, o Bezerro de Ouro, e, sempre e a toda hora quando falamos de tecnologias, Fausto e Prometeu, com a tensão incessante entre um Deus neurótico que limita enquanto cultiva e um Deus, ou demônio, perverso, que goza enquanto endivida. A guerra santa civil que a Europa conhece bem, com suas diversas mitologias, reversões, sequências, prólogos, spin-offs e sempre novas formas de expansão narrativa. A luta contra o Anticristo, nos termos de Thiel, e a luta entre duas culturas, nos termos de Leão XIV: a cultura [genérica] da potência e a cultura civil [específica] do amor.

“Evitemos, portanto, a ‘síndrome de Babel’” — explica a encíclica— “a idolatria do lucro, que sacrifica os mais fracos; a uniformidade, que anula as diferenças; a pretensão de uma linguagem única — mesmo digital — dedicada a traduzir tudo em dados e desempenhos, inclusive o mistério da pessoa. […] Pelo contrário, escolhamos o ‘caminho de Neemias’, que destaca o valor do trabalho conjunto para garantir a segurança da cidade de Deus aos exilados que regressavam […] fazendo da escuta e do diálogo o terreno comum no qual crescem a justiça e a fraternidade”.

Por outro lado, é também a cena primária da cultura num sentido mais restrito: Babel, o labirinto, que, como deixou escrito Borges, pode ser tanto a Biblioteca quanto o deserto. Um labirinto de espaços liminares que, em pleno segundo quarto do século 21, estão, eles também, submetidos à máquina de investimento infinito; os “backrooms da globalização” de que falou Margarita Martínez dias atrás na Dólar Barato e no Cabaret Voltaire. Ou de tempos liminares: o scroll permanente, a fila para entregar um CV, as noites de ansiedade estéril, Godot e toda a série de galimatias e esperas sem esperança que conhecemos tão bem. Do mesmo modo, os vilões como protagonistas “gloriosos” (Coringa, Cruella De Vil, mas também a narrativa calcada dos “meninos sofredores” nas biografias de Elon Musk e Javier Milei) são a operação central de nosso momento cultural, não sua periferia. Recentemente, dois livros refletiram sobre isso, repletos de sugestões: Estéticas liminales, de Valentina Tanni, e o magnífico Fascismo cosplay, de Luis Ignacio García.

Nesta guerra, na “batalha cultural” do signo que seja, a chave — nossa “agência” — é a leitura atenta. Tudo o que pudermos ser, a liberdade que está radicalmente em jogo, depende de nossas habilidades de leitura, nossa capacidade de interpretação, a recepção como atividade cada vez mais elaborada, reflexiva, autoconsciente. E se nosso ambiente cotidiano é um labirinto, a leitura passa a ser um esporte de alto rendimento. É o que nos permitirá captar o choque, a “imagem dialética”, o sinal imprevisível e inequívoco que nos levará até o mastro ao qual nos atar e ancorar o navio, a mente, em meio à tormenta semiótica ilimitada. Uma abertura que o labirinto, previsivelmente, estreita minuto a minuto. A teoria do século 21 costuma invocar “o corpo” como possível superfície de inscrição desse sentido que é âncora e também escada para o céu. Mutatis mutandis, a isso fazem referência as diversas tecnologias do eu que incitam a concentrar a atenção no “aqui e agora”, a “consciência situacional” dos aviadores militares, o mindfulness de sua tripulação.

O século 21 tem sua própria língua, e o rizoma tecno realiza a inversão ludopata de todos os sentidos estabilizados, como se tivéssemos ficado presos em uma espécie de taumatrópio cujas imagens nunca se conectam. A guerra em que as religiões, os mitos, as pesquisas, a astronomia, as creepypastas, os romances, os gêneros do modernismo popular, as estatísticas e a dança são as armas rústicas e ultrassofisticadas com as quais, desde tempos imemoriais, foram criados e disputados territórios afetivos, cognitivos, epistêmicos.

No mundo da economia, “investir” é apostar no futuro de algo que ainda não existe. O investimento clássico — o que Ricardo descrevia, o que Marx analisava — era capital que se adiantava à produção: havia um objeto, um processo, um trabalho, um tempo de produção, e o lucro vinha do ciclo produtivo. Hoje se investe sobre expectativas de valorização futura que não dependem do ciclo produtivo, mas da narrativa e da expectativa que rodeia o ativo. O acontecimento tecnopolítico de grande escala desencadeado pela capilarização das novas IAs a partir do final de 2022 se organizou através da combinação entre um potentíssimo “hype” publicitário (a “bolha” de que se vem falando há meses) e a não menos enorme força com que os grandes poderes fáticos estão impondo uma mutação de cima para baixo: créditos de bancos internacionais, transformações nos planos de estudo e nas modalidades de ensino, pressões em torno da legislação, redesenho da experiência de usuário das grandes plataformas, entre outras ações que ocorreram com uma velocidade nunca vista e sem um horizonte minimamente claro de para onde estamos indo. Tudo isso permite que os processos concretos que estão por trás dos retornos do investimento permaneçam opacos, muitas vezes, inclusive, “securitizados”, inacessíveis. Em parte, porque ainda não existem: estão sendo criados. O “hype” é aquilo através do qual se cria… destruindo (aqui saúdam os schumpeterianos). Não é um acidente: é a forma do negócio.

O que vemos é, já não a reprodução, mas a geração mecânica da própria vida linguística, emocional, cognitiva e cultural. Uma geração de signos incessante e sem referência alguma na “realidade” (brainrot), se por realidade entendemos a cadeia histórica, cultural e simbólica de fatos, ou seja, de relações entre seres humanos (e não humanos). Uma geração de símbolos e de infraestruturas planetárias que, criando diferenças e desigualdades radicais, busca estar parcial, mas decisivamente desencaixada da relação de reciprocidade entre infligir sofrimentos e gozos coletivos, e padecer (ou administrar, via bode expiatório) as correspondentes catarses sacrificiais. A tese do “tecnofeudalismo” descreve este intento, hoje bem-sucedido, mas altamente instável, de restauração de diferenças abismais entre classes que nunca se encontram. Onde o investimento, como gesto simbólico e cultural dominante, é a correspondência, no nível da cultura, da ideia de puro valor de troca: o valor, diz a religião capitalista, é o “preço”. Os esforços de Leão XIV ao redigir, do próprio Vaticano, uma encíclica que exige estabelecer regras, normas, governanças, responsabilidades “humanas”, têm analogias estruturais com os esforços dos defensores da teoria objetiva do valor. No centro está a defesa radical da vida (a cultura do amor) e a limitação das pulsões tanáticas da dominação.

Os deuses não morreram, dizem Peter Thiel e a encíclica, apenas se retiraram. Para convocá-los são precisos rituais cada vez mais ostentosos: gasta-se a própria humanidade inteira (os magnatas das grandes corporações não deixam que seus filhos tenham redes sociais, dizem-nos as redes sociais o tempo todo). Vemo-nos rodeados, assim, de um mundo de inversões — a “imagem dialética” benjaminiana dessa inversão incessante do valor da vida humana, que é o preço de uma economia feita de “fundos de investimento”, e cuja verdade impronunciável, mas completamente visível, é que, em grande medida, os retornos e a extração de valor se produzem mediante a violência, o colonialismo, a escravidão, o vampirismo parasita da acumulação por desapropriação. O sacrifício de nações inteiras, como estamos vendo neste mesmo momento na América Latina.

Em O capitalismo como religião, Benjamin assinala que “o tipo do pensamento religioso capitalista ganha expressão grandiosa na filosofia de Nietzsche”. Em particular, a figura do “super-homem” (o Mais Que Humano, o trans-humanista cabal), “transpõe o ‘salto’ apocalíptico não para o arrependimento, a expiação ou a penitência, mas para a intensificação [Steigerung] aparentemente constante porém descontínua em sua última etapa”. Na esfera profana das tecnologias, isso poderia reconduzir ao escalonamento da capacidade de computação. Na esfera da póiesis, da techné poiética, essa intensificação é autoconsciência, dobra de reflexividade, gramática e gesto que realiza (“transubstancia”) o salto de complexidade. Do labirinto, recordava Leopoldo Marechal, “sai-se por cima, se o alto amor o quiser”.

Claro que sempre o quer. Essa é nossa fé, nossa infinita vitalidade. Nossa vida eterna.

Notas:

1. O nome vem das pedras videntes de O Senhor dos Anéis, que são o que o helenista Louis Gernet chamava ágalma: o objeto precioso que circula nos rituais de doação, que condensa valor social e valor divino simultaneamente, e que pode ser invertido. O objeto sagrado que une pode se tornar o objeto maldito que contamina.

2. N.E.: Os numerais entre colchetes indicam o número do parágrafo da encíclica em que se encontra a citação.

3. N.E.: Em espanhol, “inversiones” pode se referir tanto a “inversões” quanto a “investimentos”, uma ambiguidade importante para o texto.