O Projeto Whitecoat recrutou centenas de adventistas dos EUA para participar de experimentos biológicos perigosos para o “bem” do país, potencialmente contribuindo paro desenvolvimento de armas biológicas
Por Krista Thompson Smith | Traduzido e adaptado do original em inglês por Félix Rodrigues de Lima para a revista Zelota. Republicado em colaboração com SPECTRUM: o periódico e website do Adventist Forum desde 1969. www.spectrummagazine.org
Durante 20 anos, militares adventistas do sétimo dia que serviam como não combatentes participaram de pesquisas sobre guerra biológica defensiva para o Exército dos Estados Unidos. O programa, sediado em Fort Detrick, Maryland, era conhecido como Projeto Whitecoat. Aproximadamente 2.200 adventistas se voluntariaram para experimentos de pesquisa médica, e outros 800 ajudaram no programa como técnicos de laboratório, atendentes de enfermaria e escriturários.1
Tanto a Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD) quanto o Exército elogiaram muito este projeto, porém membros do Congresso, cientistas e a imprensa criticaram o envolvimento da IASD. Algumas das questões levantadas sobre este projeto, em grande parte esquecidas, permanecem sem resposta. O Projeto Whitecoat foi um programa humanitário, dedicado exclusivamente ao desenvolvimento de vacinas e tratamentos para doenças? Ou estavam certos os críticos quando acusaram a IASD de colaborar com o Exército dos EUA, arriscar a saúde de seus membros e até apoiar o desenvolvimento de armas ofensivas para conduzir a guerra biológica? O Projeto Whitecoat continua a levantar concretamente a questão de como a Igreja Adventista deve se relacionar com o governo e seu uso da ciência.
Entre 1953 e 1954, voluntários humanos participaram de um estudo sobre a febre Q, conhecido como programa CD22. O sucesso deste projeto e a autorização para usar voluntários em estudos defensivos abriram caminho para o estabelecimento do Projeto Whitecoat. A origem exata do nome é incerta, mas o primeiro projeto de pesquisa, utilizando especificamente voluntários do Whitecoat, começou em 1958 com o objetivo de identificar a dosagem infecciosa de P. tularensis. Em 1964, os voluntários do Whitecoat também começaram a participar de estudos envolvendo imunizações para tularemia e a VEE (encefalomielite equina venezuelana).2 Quando o Projeto Whitecoat terminou em 1973, com a descontinuação do recrutamento, os voluntários já haviam participado de pesquisas envolvendo encefalomielite equina oriental e ocidental, febre da mosca-da-areia, febre amarela, febre tifoide, febre maculosa das Montanhas Rochosas, febre do Vale do Rift e várias outras doenças. Além disso, os homens do Whitecoat foram usados para comparar máscaras de gás e testar trajes de isolamento para astronautas, além de participarem de inúmeros outros experimentos que usaram tanto homens quanto animais como cobaias.3
Adventistas se unem ao Whitecoat
O envolvimento dos adventistas com o Projeto Whitecoat começou em outubro de 1954, quando George E. Armstrong, cirurgião geral do Exército dos EUA, entrou em contato com Theodore R. Flaiz, secretário do departamento médico da Associação Geral (AG) da IASD. Armstrong desejava obter a aprovação da igreja para que o Exército abordasse recrutas adventistas sobre o voluntariado para um programa de pesquisa que contribuiria significativamente para a saúde e segurança do país.
Líderes da igreja e militares deram várias razões para a escolha dos homens adventistas pelo Exército, variando desde os “bem conhecidos ideais humanitários” da IASD4 até a necessidade básica de restringir o grupo de candidatos. Embora nem todos os voluntários fossem vegetarianos, abstêmios e não fumantes, os adventistas forneceram um grupo de sujeitos de pesquisa relativamente homogêneos. O coronel Dan Crozier, oficial-comandante do Projeto Whitecoat após 1961, explicou: “Devido aos elevados princípios e ao estilo de vida temperante, os homens adventistas são mais uniformes em aptidão física e mentalidade. Encontramos soldados cooperativos e dispostos a servir.”5
A Igreja Adventista já havia demonstrado um histórico forte de cooperação com os militares, ilustrado pela formação do Corpo de Cadetes Médicos. Além disso, muitos médicos adventistas, com total apoio da igreja, frequentaram a faculdade de medicina com bolsas do governo. Durante a Segunda Guerra Mundial, médicos e enfermeiras adventistas do Hospital White Memorial integraram o 47º Hospital Geral do Exército (segundo relatos, com a melhor banda de dança no Teatro do Pacífico).6 Conforme expressou J. R. Nelson, “Os adventistas, embora considerados não combatentes, estão dispostos a servir seu país em tempos de guerra.”7
Líderes da igreja elogiaram os heróis de guerra adventistas da Segunda Guerra Mundial, dando atenção especial às conquistas do Cabo Desmond Doss, um médico não combatente. Doss, que em 1945 salvou mais de 75 homens em uma batalha em Okinawa, recebeu a Medalha de Honra do Congresso. Alguns anos depois, a Comissão de Serviços de Guerra Adventista estabeleceu um campo de treinamento para o Corpo de Cadetes Médicos e o nomeou Campo Desmond T. Doss.8
Com esses eventos em mente, Flaiz respondeu positivamente à proposta de Armstrong. Flaiz escreveu que “se alguém deve reconhecer uma dívida de lealdade e serviço pelas muitas cortesias e considerações recebidas do Departamento de Defesa, nós, como adventistas, estamos em posição de sentir uma dívida de gratidão por essas gentilezas.”9
Essas considerações estavam provavelmente relacionadas aos problemas com a guarda do sábado enfrentados pelos adventistas no serviço. Para manter uma relação positiva com o Exército, algumas medidas de participação eram esperadas. Como um líder denominacional expressou: “O MCC (Medical Cadet Corps — Corpo de Cadetes Médicos) foi criado para ajudar os jovens a serem parcialmente treinados em questões médicas militares como não combatentes, para que pudessem ser designados ao serviço médico, onde os problemas de observância do sábado são muito simplificados.”10 Em parte, a igreja apoiou o Projeto Whitecoat pelo mesmo motivo.11 Um crítico da política da igreja, em um poema sobre o projeto, escreveu: “Somos treinados para servir, não para pensar […] Dizemos ao nosso país, esteja ele certo ou errado:/ ‘Só nos deixe guardar nosso dia sagrado.’”12
Cooperadores de consciência
Nos Estados Unidos, a maioria dos homens saudáveis se registravam como 1-A para serviço regular de combate, enquanto os objetores de consciência, que se opunham totalmente à guerra e recusavam qualquer tipo de serviço militar, escolhiam a opção 1-O. A Igreja Adventista recomendava registrar-se na opção de compromisso 1-A-O: objetores de consciência que entrariam para o serviço militar como não combatentes. Não combatentes serviriam como médicos, mas não carregariam armas.
A igreja encontrou maneiras de apoiar o governo enquanto ele guerreava. Em várias ocasiões, líderes da igreja equipararam a posição 1-A-O a uma espécie de “cooperação de consciência”. Clark Smith explicou:
[…] não somos uma igreja pacifista no sentido técnico do termo. Certamente abominamos a guerra. No entanto, a guerra está no âmbito político, em vez de religioso, e é uma questão sobre a qual, como igreja, consideramos desaconselhável comentar se o governo deve ou não travar essa guerra.13
Apesar dessa posição aparentemente neutra, a igreja incentivou fortemente seus jovens a se registrarem como 1-A-O.14 Vários homens que desejavam receber o status 1-O (objetor de consciência) sentiram que a igreja não apoiava sua decisão. O Concílio de Outono de 1969 votou para recomendar que os jovens considerassem primeiro a classificação 1-A-O, mas que qualquer um que fizesse a escolha pessoal de 1-O também receberia o apoio da igreja.15 Mesmo depois disso, no entanto, às vezes era difícil obter apoio para a posição 1-O.16
Ao defender a posição de recrutamento 1-A-O, os líderes denominacionais apresentaram a igreja de forma positiva ao Exército. O relacionamento resultante entre a IASD e a Unidade Médica do Exército dos EUA (USAMU, mais tarde USAMRIID — U.S. Army Medical Research Institute of Infectious Disease — Instituto de Pesquisa Médica de Doenças Infecciosas do Exército dos EUA) durou 20 anos (1954-1973). Oficiais do Exército selecionavam voluntários do Projeto Whitecoat duas vezes por ano, entre os militares não combatentes que completavam o treinamento individual básico e avançado em Fort Sam Houston, Texas.
Para serem considerados para o projeto, os homens precisavam estar recrutados como 1-A-O e indicar a IASD como sua preferência religiosa.17 Os recrutadores oficiais do Whitecoat eram o oficial comandante e o comandante do destacamento USAMRIID. O Diretor da Organização do Serviço Nacional (NSO) da AG acompanhava esses oficiais do Exército até Fort Sam Houston.18 O representante da AG estava presente para responder perguntas e garantir que não houvesse coerção por parte dos recrutadores do Exército. Os indivíduos elegíveis recebiam uma explicação completa do projeto, incluindo sobre os riscos envolvidos. Uma oportunidade adicional para os homens questionarem os oficiais do Exército era oferecida no dia seguinte, após entrevistas individuais. Naquele momento, aqueles que desejavam se voluntariar para o programa assinavam uma declaração de consentimento com a compreensão de que “os voluntários podem adoecer e que o programa não é isento de riscos.”19
O Projeto Whitecoat tornou-se especialmente atrativo em meados da década de 1960, quando a maioria dos recrutas recebia designações para o Vietnã. Apesar dos ideais elevados de serviço proclamados por alguns voluntários, a maioria dos adventistas se voluntariou para a pesquisa médica por razões mais pragmáticas — principalmente o desejo de permanecer nos Estados Unidos. Outros queriam aprofundar seus conhecimentos médicos ou evitar confrontos relacionados ao sábado, enquanto alguns foram incentivados a participar por amigos e familiares.20 Alguns dos participantes foram selecionados por suas habilidades atléticas, já que o oficial comandante do projeto gostava de ter um bom time de beisebol.21
Alguns participantes dizem que o programa era conhecido por seu estilo de vida tranquilo. Se os voluntários não estivessem doentes enquanto participavam dos projetos, assistiam TV, jogavam vôlei, ferraduras e croquet, e se dedicavam a hobbies e artesanato.22 Os cooperadores recebiam promoções rapidamente. Além disso, o Exército pagava aos voluntários pelo sangue “doado” para a pesquisa.23 Alguns militares que não se qualificavam para o programa tentavam desacreditar o projeto por inveja.
Participando dos experimentos
Ao chegarem a Fort Detrick, os voluntários do Whitecoat passavam por exames médicos completos. Se fossem descobertos problemas de saúde, os voluntários eram dispensados como sujeitos de pesquisa.
Todo o pessoal recebeu atribuições regulares como técnicos de laboratório, cuidadores de animais ou assistentes de escritório. Quando um projeto de pesquisa atingia um nível que os diretores consideravam seguro o suficiente para envolver voluntários humanos, o oficial-comandante convocava os membros do programa Whitecoat. Ele descrevia o experimento proposto, incluindo seu propósito e os riscos envolvidos, e permitia que os potenciais participantes fizessem perguntas. Cada membro podia então optar por se voluntariar para aquele projeto específico. Após decidir participar de cada projeto, os voluntários (na presença de duas testemunhas) assinavam uma declaração de liberação. Durante seu período de serviço, a maioria dos membros do Whitecoat participou de um ou dois experimentos. Alguns se voluntariaram para cinco ou seis.24 Após a admissão à ala de pesquisa, os voluntários passavam por outro exame médico detalhado antes do início dos experimentos.
A maioria dos membros do Whitecoat participou de um ou dois experimentos. Alguns poucos se voluntariaram para cinco ou seis. Após a admissão à ala de pesquisa, os voluntários passavam por outro exame médico minucioso antes do início dos experimentos.
Além dos voluntários adventistas, experimentos iniciais também envolveram prisioneiros da Penitenciária Estadual de Ohio. Contudo, esse arranjo não foi tornado público para evitar que os soldados adventistas patriotas fossem associados aos prisioneiros.25
As pesquisas médicas em Fort Detrick se dividiam em três categorias gerais. O primeiro tipo de experimento estudava a natureza básica dos microrganismos causadores de doenças. Os pesquisadores examinavam os efeitos de doenças introduzidas por métodos não naturais, como a disseminação de agentes infecciosos por sprays de aerossol. Em um ataque de guerra biológica, os microrganismos provavelmente seriam liberados em uma nuvem de aerossol de um avião, permitindo que os agentes causadores da doença entrassem no corpo pelos pulmões. Doenças pulmonares geralmente progridem mais rapidamente e são mais difíceis de tratar do que outros tipos.26
O segundo tipo de experimento estudava maneiras de evitar e tratar doenças infecciosas. O foco principal era desenvolver vacinas para combater potenciais agentes de guerra biológica.
A terceira categoria de pesquisa envolvia desenvolver métodos para diagnosticar infecções no menor tempo possível. Obviamente, mais vidas poderiam ser salvas se uma doença fosse identificada e tratada antes do aparecimento dos sintomas clínicos.
Fort Detrick mantinha uma das maiores fazendas de animais do país. Os experimentos lá utilizavam mais de meio milhão de animais por ano.27 Antes de expor qualquer voluntário humano a uma doença, os pesquisadores realizavam experimentos em camundongos e porquinhos-da-índia, depois em macacos-rhesus. No ponto em que os experimentos com animais não podiam mais ser extrapolados para humanos, e os investigadores do Exército acreditavam que o projeto era seguro, voluntários humanos poderiam ser usados para testar medidas defensivas contra a doença.
Militares elogiam os adventistas
A AG proclamou que essa pesquisa era humanitária e valia o risco, ao mesmo tempo que afirmava que a igreja não “apoiava” oficialmente o Projeto Whitecoat — a participação era inteiramente uma decisão individual. A posição oficial da igreja era de que ela simplesmente não se opunha à participação de seus membros. No entanto, desde o início, líderes denominacionais elogiaram muito o programa. Na Statement of Attitude Regarding Volunteering for Medical Research (Declaração de atitude em relação ao voluntariado para pesquisa médica) de 1955, W. R. Beach, secretário da AG, disse:
Ainda existem lacunas notáveis em nosso conhecimento sobre doenças e seu tratamento. A pesquisa nessas áreas exige a mesma devoção altruísta na busca por conhecimento que salva vidas, como foi demonstrado pelos pioneiros da medicina moderna. É a atitude dos adventistas do sétimo dia que qualquer serviço prestado voluntariamente por qualquer pessoa na pesquisa útil e necessária sobre a causa e o tratamento de doenças incapacitantes é uma contribuição legítima e louvável para o sucesso de nossa nação e para a saúde e o conforto de nossos semelhantes.28
No outono de 1966, um representante denominacional, durante a seleção para o Whitecoat, fez a declaração necessária de que a IASD “investigou o Projeto Whitecoat e considera que essa atividade estaria em conformidade com o melhor da tradição cristã.” Ele então assegurou aos voluntários que “sua igreja considera que vocês estão fazendo algo muito louvável”29 e apresentou a lista usual de vantagens de se juntar ao Projeto Whitecoat.
O Exército também parecia ter a impressão de que a AG favorecia o programa. Oficiais militares frequentemente elogiavam tanto os voluntários quanto a IASD por auxiliarem na valiosa pesquisa. Em uma carta de S. B. Hays ao presidente da Comissão de Serviços de Guerra da IASD, o cirurgião-geral do Exército mencionou que “tivemos o apoio ativo de vários membros da AG.”30 E em um discurso gravado dirigido a um congresso de jovens em 1965, o Coronel Dan Crozier mencionou vários líderes da igreja que “têm sido ativos neste projeto e desempenharam um papel significativo em seu sucesso contínuo.” Os nomes incluíam Joseph R. Nelson, diretor da Organização Nacional de Serviços; Clark Smith, diretor associado da Organização Nacional de Serviços; e Thomas Green, capelão civil da área de Washington, D.C.31
Durante vários anos, o Exército pagou as despesas de Clark Smith para viajar com os recrutadores do Whitecoat32 para explicar a posição da igreja e garantir que todas as perguntas fossem respondidas. Em 1973, o Coronel Crozier presenteou Smith com uma medalha do Exército — a Medalha de Serviço Civil Excepcional — por seu trabalho como diretor associado e depois como diretor da NSO, elogiando-o por “se distinguir por um serviço excepcional ao Exército dos EUA.”33
O nível de apoio da AG variou ao longo dos anos. Alguns voluntários em potencial relataram não sentir nenhum incentivo da igreja,34 enquanto outros se sentiram fortemente encorajados a participar do programa de pesquisa.35 Mas, mesmo que a AG nem sempre incentivasse os recrutas adventistas a se unirem especificamente ao Whitecoat nas sessões de recrutamento, certamente chegou perto de fazê-lo em publicações da igreja. Lá, os elogios entusiástico estão registrados de forma clara. Um artigo da Review and Herald de novembro de 1955 afirmou:
É com orgulho pela coragem e devoção altruísta dos homens que participaram deste projeto que indicamos que eles pertencem propriamente às fileiras daqueles que foram “acima e além do dever”. Sustentem esses homens com suas cartas e orações enquanto eles continuam por Deus e pela Pátria.36
Um artigo posterior chamou o programa de “serviço humanitário do mais alto nível”.37
A Organização de Serviço Nacional da AG imprimiu um folheto para os voluntários em potencial do Projeto Whitecoat, também descrevendo o programa de maneira positiva. O folheto, escrito pelo capelão Thomas Green, minimizava muitos aspectos negativos do programa. Em vez disso, Green listava alguns dos benefícios de ser designado para Fort Detrick: conhecimento da localização da missão, variedade de oportunidades de trabalho, convivência com outros adventistas e proximidade da sede da AG e do Columbia Union College.
Em seguida, ele abordou as desvantagens. Para aqueles que reclamavam que perderam a chance de ir para o exterior, Green respondia: “Alguns usaram o tempo de licença, no entanto, para fazer viagens ao exterior em aeronaves militares.” Para aqueles que estavam insatisfeitos com seus empregos ou não se davam bem com seus colegas, ele disse que tais problemas poderiam acontecer em qualquer lugar. A objeção mais séria envolvia o risco à saúde. Green afirmou que, dos mais de 1.000 participantes adventistas, apenas meia dúzia sentiu que sua saúde havia sido prejudicada. Ele concluiu que “a maioria sente que se beneficiou com os exames físicos muito completos que realizaram ao chegar na unidade.”38
Apesar de tais defesas, as críticas à participação da igreja no Projeto Whitecoat aumentaram. Líderes da Organização de Serviço Nacional afirmaram que a IASD não estava envolvida: “Este é um projeto do Exército dos Estados Unidos e cada pessoa envolvida no projeto toma uma decisão pessoal sobre se vai ou não se voluntariar para ele.”39
Mesmo quando um oficial adventista dizia aos homens para tomarem suas próprias decisões, a presença de um oficial da Organização de Serviço Nacional da AG durante o recrutamento certamente levava os recrutas adventistas a concluírem que a igreja apoiava o programa. Um voluntário disse que ingressou no programa em 1955 porque era ingênuo e facilmente influenciável, assegurado pela mera presença de G. W. Chambers de que o Projeto Whitecoat era perfeitamente aceitável.40
Adventistas envolvidos na produção de armas biológicas?
A pesquisa sobre guerra química e biológica passou a ser cada vez mais discutida na imprensa. Tanto a National Broadcasting Company (NBC) quanto a Columbia Broadcasting System (CBS) exibiram programas no início de 1969. As redes ligaram o Projeto Whitecoat ao desenvolvimento de armas biológicas ofensivas.41 Muitos artigos de jornais e revistas também apareceram, alguns sem o estudo de fundo adequado.
Seymour Hersh, jornalista vencedor do Prêmio Pulitzer e autor de um livro bem documentado sobre armas químicas e biológicas,42 publicou um artigo sobre guerra biológica na New York Times Magazine43 que mencionava o envolvimento adventista. Poucos meses depois, Hersh publicou um dossiê na Ramparts. “A liderança adventista”, dizia ele, “elevou o serviço no Projeto Whitecoat quase a um ato de fé.” Hersh acusou a igreja de estar “satisfeita com uma moralidade de forma sem substância, na qual as artes da doença podem ser apresentadas como artes curativas e na qual a guerra bacteriológica pode ser abraçada em obediência piedosa a uma injunção divina contra a morte.”44
Hersh, embora um jornalista respeitável, não contatou Fort Detrick antes de escrever sobre o Projeto Whitecoat. Ele acreditava que o Projeto Whitecoat era confidencial e que, portanto, não receberia nenhuma informação. Para seu crédito, Hersh contatou a Igreja Adventista.45
Tanto na New York Times Magazine quanto na Ramparts, Hersh incluiu a descrição dos sintomas que um participante anônimo do Whitecoat alegou sentir após ser injetado com uma endotoxina: “Dentro de uma hora, parecia que todos os diabinhos do inferno estavam tentando sair de dentro da minha cabeça, batendo na parte interna do meu crânio com martelos.”
Essa citação também apareceu na mesma época no National Examiner — em um relato narrativo em primeira pessoa escrito por Steven Heczke. Heczke afirmou que três de seus amigos no Projeto Whitecoat tiveram “mortes horríveis” por antraz. Ele mesmo eventualmente se recuperou, recebeu US$ 50 e foi liberado. Heczke foi informado que, se “contasse uma palavra sobre o experimento”, seria “preso por violar segredos de defesa.”46
O Coronel Crozier respondeu ao artigo do National Examiner, afirmando que nenhum dos quatro recrutas mencionados havia participado de qualquer experimento do Whitecoat, e que ninguém havia morrido como resultado de experimentos na unidade. Crozier concluiu: “Há tantos erros e falsificações neste artigo que uma refutação mais detalhada não é considerada necessária.”47
No entanto, a quantidade de publicidade negativa que o Projeto Whitecoat recebeu levou muitos adventistas a questionarem o envolvimento de sua igreja no programa. Martin Turner, um dos principais críticos da participação da igreja, escreveu:
Mesmo que nenhuma das alegações feitas pela NBC, CBS e pelo Sr. Hersh sejam, de fato, verdadeiras, o fato é que a igreja, de forma justa ou injusta, recebeu uma quantidade significativa de publicidade desfavorável devido ao seu envolvimento em Fort Detrick. Isso dificilmente parece estar de acordo com a instrução de “evitar até mesmo a aparência do mal”. Mesmo que o Whitecoat seja moralmente puro como a neve, as aparências foram tais que duas grandes redes de televisão e o autor de um livro bem documentado foram enganados.48
Finalmente, em 1969, a AG reconheceu a necessidade de examinar o projeto mais de perto. O presidente da Comissão de Estudo do Whitecoat, composto por nove pessoas, foi Neal Wilson.49 Embora nenhum dos membros da comissão fosse um oponente declarado do Projeto Whitecoat, vários tinham reservas sobre o envolvimento da igreja. Após uma entrevista de duas horas com o Coronel Crozier, chefe de Fort Detrick, cada membro do comitê foi convidado a fazer perguntas adicionais. A ata relata que a comissão “indicou total satisfação com as respostas dadas pelo Coronel Crozier e um acordo unânime com o programa atualmente em andamento.” A comissão recomendou, então, que um artigo fosse publicado na Review and Herald, “da forma mais clara e completa possível, enfatizando os aspectos positivos deste programa humanitário.”50
Os oficiais da AG também explicaram a participação adventista com base no fato de que o Whitecoat estava envolvido apenas em pesquisas defensivas — tratamento de doenças contagiosas. No entanto, tanto os ramos ofensivo quanto defensivo da pesquisa de guerra química e biológica estavam localizados em Fort Detrick. Além disso, o financiamento para as pesquisas ofensivas e defensivas vinha de fontes diferentes, mas as duas instalações eram mantidas juntas para que pudessem compartilhar certos equipamentos.51 Membros do Whitecoat participavam de alguns experimentos na área “quente”, e, por isso, todos precisavam ter uma autorização de segurança.
No final deste ano decisivo, o presidente Richard Nixon anunciou em 25 de novembro de 1969 que submeteria ao Congresso a ratificação de uma proibição de guerra química e biológica. Nixon declarou que os Estados Unidos renunciariam ao uso de armas químicas e biológicas e destruiriam os estoques atuais. No entanto, isso não teve grande efeito em Fort Detrick. Houve certa pressão para desmilitarizar a instituição e transferir o estudo de doenças infecciosas para os Institutos Nacionais de Saúde, ou alguma outra organização similar,52 mas a pesquisa defensiva permaneceu inalterada por quaisquer novas políticas.
Adventistas ligados a armas biológicas ofensivas
O anúncio sobre o fim dos experimentos ofensivos com armas químicas e biológicas não pôs fim à controvérsia sobre o Projeto Whitecoat. Céticos afirmaram que uma mera declaração pública do Exército sobre uma mudança de intenção não necessariamente envolveria revisões reais nos procedimentos. O congressista Richard McCarthy, um líder democrata de Nova Iorque na campanha contra a guerra química e biológica, estudou as políticas governamentais e chegou à conclusão de que o Projeto Whitecoat era “ofensivo, não defensivo, e que os adventistas do sétimo dia estavam sendo enganados”.53
No início, os líderes da igreja pareciam relutantes em admitir que a linha entre pesquisa ofensiva e defensiva é nebulosa: a pesquisa pura, em si, não é nem boa, nem má; os resultados podem sempre ser usados para ajudar ou prejudicar os outros. Uma vez que os resultados são publicados, é difícil evitar o mau uso ou a aplicação incorreta. E quaisquer descobertas feitas em laboratórios de pesquisa defensiva provavelmente serão adaptadas para fins ofensivos.
De fato, alguns críticos acreditavam que os experimentos do Projeto Whitecoat tinham, principalmente, fins ofensivos. O programa foi alvo de suspeitas por várias razões. Primeiro, vacinas devem estar disponíveis para as próprias tropas antes de se considerar seguro usar qualquer agente em guerra bacteriológica. O Exército afirmava que ter uma imunização conhecida para uma doença removeria aquele microrganismo do arsenal mundial de armas biológicas, mas, como Elinor Langer expressou:
No contexto da guerra biológica, até mesmo técnicas que salvam vidas, como a imunização, adquirem um aspecto estranho: a imunidade entre a própria população e tropas é um pré-requisito para a iniciação da doença por nossas próprias forças, bem como uma precaução contra sua iniciação por outros. Algumas doenças são atualmente excluídas da consideração ativa como agentes de BW (biological warfare, guerra biológica) principalmente porque ainda não foram desenvolvidas vacinas contra elas.54

Para uma arma biológica ser considerada uma ameaça séria, um organismo deve ser altamente infeccioso, produzido em grande quantidade, estável, adequado para aerossolização e, claro, aplicável à missão. Embora esses critérios limitem, até certo ponto, o potencial do arsenal de guerra química e biológica, forças inimigas ainda poderiam usar cepas variáveis de microrganismos familiares que seriam mais resistentes ou produziriam sintomas ligeiramente diferentes dos esperados pela população-alvo.55
O objetivo primário das pesquisas realizadas em Fort Detrick era voltado para o uso militar. E, como a maioria das doenças estudadas era tropical, parecia provável que o Exército estivesse planejando garantir a segurança de suas tropas no exterior. O programa começou com ênfase no desenvolvimento de vacinas, mas, no final da década de 1960, os oficiais do Exército perceberam a inviabilidade de realizar imunizações em grande escala (mesmo para os militares) e mudaram o foco para encontrar meios mais eficazes de diagnóstico e tratamento.56
A pesquisa realmente beneficiou tanto o público quanto os militares. O Coronel W. D. Tigertt, oficial comandante do Projeto Whitecoat antes de Crozier, afirmou em 1961 que, apesar dos riscos envolvidos, o programa traria benefícios: “Os resultados obtidos serão aplicáveis ao controle de doenças, independentemente de o uso de armas biológicas vir ou não a se tornar uma realidade.”57 Fort Detrick publicou grande parte de seu trabalho, e várias das vacinas desenvolvidas controlaram epidemias graves de doenças. Por exemplo, um surto de encefalite equina venezuelana (VEE) no Equador, em 1969, chegou ao Texas em 1971. Milhares de cavalos foram imunizados, dos quais 85 a 90% teriam morrido sem a vacina.58
A publicação dos resultados das pesquisas acalmou alguns temores de que os membros do Whitecoat estivessem envolvidos em experimentos ofensivos secretos. No entanto, outros acreditavam que o Exército ainda era capaz de esconder a verdade. Parte da controvérsia surgiu de dúvidas sobre a pesquisa do Projeto Whitecoat ser ou não sigilosa.
Um artigo de 1967 na Science explicou parte da razão pela qual a pesquisa do Whitecoat não recebeu mais publicidade:
O programa de armas químicas e biológicas é um dos mais secretos de todos os esforços militares dos EUA — não porque seja o mais importante de nossas atividades de P&D militar, mas porque o Pentágono acredita que é o mais facilmente mal interpretado e porque provoca o maior sofrimento emocional e turbulência moral.59
Essa percepção de sigilo contribuiu para as teorias da conspiração em circulação.
Um folheto militar sobre o Projeto Whitecoat defendeu o programa da seguinte forma:
Nada no programa de pesquisa desta organização é sigiloso, e todas as informações decorrentes desses estudos são reportadas, se apropriado, na literatura médica. Assim, os resultados do esforço total no programa de pesquisa do Exército em defesas médicas contra armas biológicas são disponibilizados para o mundo científico.60
Clark Smith relatou que o Coronel Crozier afirmou que apenas um projeto havia sido posto sob sigilo durante toda a história do Projeto Whitecoat, e que esse projeto era “estritamente medicinal”, não tendo “nada a ver com guerra ofensiva”.61 Nem todos os experimentos resultaram em artigos publicados porque muitos ainda estavam incompletos ou eram inconclusivos demais para serem de valor para outros. Crozier explicou ainda que todos os funcionários no escritório que mantinham registros e digitavam relatórios de pesquisa eram adventistas, portanto, não havia nada de sigiloso sobre o projeto; o Exército não estava escondendo nada da IASD.
No entanto, Martin Turner e Emanuel Fenz também conversaram com o Coronel Crozier e foram informados de que algumas das primeiras pesquisas do Whitecoat (antes da chegada de Crozier) realmente haviam sido postas sob sigilo. Além disso, Crozier disse que 73 voluntários haviam participado de outra série de experimentos classificados em meados da década de 1960. Turner e Fenz relataram suas descobertas em uma carta ao editor da Review and Herald.62
Nessa carta, Turner e Fenz abordaram várias outras questões, incluindo o fato de que, dos 160 artigos e relatórios publicados pelo USAMRIID, apenas 23 tratavam de voluntários do Projeto Whitecoat, e apenas cinco foram publicados durante os primeiros 12 anos do programa. Embora vários campi universitários tenham tentado negar qualquer ligação com a guerra química e biológica,63 muitas das instituições de pesquisa médica que recebiam vacinas do USAMRIID eram universidades e laboratórios privados que tinham contratos para conduzir pesquisas de guerra biológica para Fort Detrick.
Um membro da comissão de estudo da AG havia declarado que “nenhum trabalho desta organização (Projeto Whitecoat) é usado direta ou indiretamente para melhorar as armas bacteriológicas dos Estados Unidos,” e que os ramos ofensivo e defensivo “não estavam de forma alguma relacionados.”64 Mas, na realidade, a separação das áreas ofensiva e defensiva não era absoluta. Crozier disse a Turner e Fenz que alguns projetos defensivos eram realizados na área de alta segurança, enquanto a pesquisa ofensiva também era feita “fora da cerca”. Pesquisadores em ambos os programas trocavam informações técnicas e coordenavam pesquisas.65
No entanto, a carta de Turner e Fenz não foi publicada na Review porque o editor achou que “muito poucos, se é que algum, leitores da Review tinham informações suficientes para poder discutir a questão de maneira inteligente.” Turner, então, escreveu para Theodore Carcich, vice-presidente da AG, expressando preocupação de que a Organização de Serviço Nacional defendia a posição da igreja com base no fato de que participar do Projeto Whitecoat era uma decisão individual; na verdade, Turner disse, a igreja não permitia que pontos de vista contrários fossem ouvidos.66
Mesmo a pesquisa não sigilosa do Whitecoat não estava isenta de suspeitas. O Dr. Matthew Meselson, microbiologista da Universidade de Harvard e consultor da Agência de Controle de Armas e Desarmamento na área de guerra química e biológica, examinou os documentos publicados e afirmou que cerca de 90% dos artigos representavam pesquisas para fins ofensivos.67
O Dr. Alvin Kwiram, então professor de química em Harvard, também questionou o propósito da pesquisa do Whitecoat. Ele analisou vários artigos publicados, mostrando como a pesquisa relatada poderia ser usada de forma ofensiva e como é difícil separar estudos ofensivos de defensivos. Kwiram concluiu que, na prática, a melhor defesa contra agentes de guerra biológica é uma máscara de gás, como afirmado no relatório das Nações Unidas de julho de 1969 sobre guerra química e biológica. A maioria das doenças que provavelmente seria usada seria viral, sem cura conhecida.68 Independentemente das precauções tomadas, os resultados da guerra química ou biológica seriam imprevisíveis. Nas palavras de Kwiram:
Pode ser um desastre de proporções incomparáveis, que toda pessoa sã deve fazer tudo ao seu alcance para evitar. Novamente, é particularmente importante que a Igreja Adventista, como igreja, não seja encontrada trabalhando em estreita colaboração com os militares.69
Parte do problema era a dúvida se os militares poderiam ser confiáveis para dizer a verdade sobre seus programas. Em março de 1968, por exemplo, 6.400 ovelhas no Skull Valley, em Utah, morreram quando uma nuvem de gás nervoso se deslocou 72 quilômetros a partir do Campo de Provas Dugway do Exército. O Exército inicialmente negou a responsabilidade.70
Em outros casos, o Exército realizou testes secretos de guerra biológica sobre áreas povoadas, assumindo que os simulantes usados eram totalmente seguros. Entre 1949 e 1969, vários tipos de bactérias foram liberados sobre 239 áreas povoadas. Nenhum monitoramento da saúde pública ocorreu durante ou após os experimentos, e os oficiais do Exército negaram que o aumento de problemas de saúde nas áreas tivesse algo a ver com os testes governamentais.71
O histórico questionável do Exército em relação a sua honestidade também levantou a questão dos riscos à saúde envolvidos no Projeto Whitecoat. Alguns participantes sentiram que o Exército dava a impressão enganosa de que o risco era mínimo ou inexistente.72 Outros disseram que, embora os recrutadores fossem diretos, os oficiais intimidavam os recém-alistados, impedindo-os de fazer muitas perguntas sobre o programa.73
Alguns adventistas acreditavam que era nobre arriscar a vida em prol da ciência médica, mas outros achavam que o corpo deveria ser tratado como templo de Deus e que expor-se conscientemente a agentes causadores de doenças não era apenas perigoso, mas errado. Como escreveu um adventista preocupado ao presidente da AG: “Acreditamos que, ao manter boa saúde, estamos ajudando a manter canais claros de comunhão com Deus, e, no entanto, esses jovens são encorajados a se juntar à Operação Whitecoat, que exige que a pessoa se exponha a doenças criadas pelo homem.”74
Clark Smith reconheceu os riscos:
Embora nenhum sujeito humano seja conscientemente exposto a um agente infeccioso, a menos que se saiba que a vacina, o medicamento ou o método de tratamento em estudo é adequado para curá-lo ou que a doença se resolve sozinha, ainda assim é necessário um tipo elevado de coragem para aceitar voluntariamente esses agentes produtores de doenças em seu corpo.75
O Coronel Crozier, que tomou quase todas as vacinas ele mesmo antes de permitir que fossem testadas em seus homens, disse: “Nossos rapazes são soldados, e são soldados muito bons. Eles sabem que a única promessa que faço é que, se vierem para cá, vão ficar todentes.”76 Nas viagens de recrutamento, Crozier se encontrava com voluntários em potencial para responder perguntas, e uma das preocupações mais frequentes era se haveria ou não efeitos colaterais. “Claro, não podemos dar a eles uma resposta definitiva sobre essa questão”, ele dizia, “porque se soubéssemos os resultados do que estamos fazendo, não precisaríamos deles como voluntários.”77
Em última análise, qualquer vacina ou tratamento desenvolvido deve ser testado em humanos. O protocolo de Fort Detrick, se seguido, proporcionava precauções de segurança razoáveis. Mesmo assim, seria incomum se nenhum dos 2.200 participantes adventistas tivesse problemas a longo prazo.
Um dos primeiros membros do Whitecoat disse que, embora tivesse tido alguns problemas de saúde após participar dos experimentos com febre Q, nada poderia ser diretamente vinculado ao seu tempo em Fort Detrick. Ele não pôde receber benefícios da Administração de Veteranos porque seus registros foram lacrados.78 Outro voluntário, que foi exposto à febre Q e observado por várias semanas antes de ser tratado, experimentou dores severas e afirmou que não teria se submetido aos organismos se soubesse quão severos seriam os sintomas. A experiência foi assustadora porque ele não tinha como saber, na época, se os efeitos seriam permanentes.79
Um participante posterior disse que poderiam haver mais problemas de saúde do que os relatados, porque os voluntários do Projeto Whitecoat precisavam assinar um termo de responsabilidade antes de deixar o serviço, declarando que não responsabilizariam o Exército por qualquer complicação médica que pudesse surgir mais tarde.80 Ele explicou que o risco envolvido não era apenas das doenças administradas intencionalmente, mas também de acidentes no laboratório. Aqueles voluntários que trabalhavam com pesquisa animal, por exemplo, tinham mais oportunidades de contato com microrganismos perigosos. Às vezes, pacientes chegavam à Ala 200 vindos da área “quente” ofensiva, e ninguém sabia a que eles tinham sido expostos — frequentemente, era um vírus ou produto químico sem antídoto conhecido.81 Tanto as infecções intencionais quanto as acidentais resultaram em problemas médicos inesperados que nunca foram relatados.
Em 1966, o Escritório de Informação Pública de Fort Detrick relatou que, desde 1950, houve 292 infecções acidentais que resultaram em doença, e três mortes. Um estudo de 1965 pelo escritório de segurança de Fort Detrick, no entanto, registrou 3.330 acidentes de laboratório entre 1954 e 1962, e um sexto das vítimas tiveram infecções sérias o suficiente para deixá-los doentes demais para trabalhar. O estudo relatou 9,06 infecções laboratoriais por milhão de horas-homem durante esses anos, consideravelmente mais alto que os Institutos Nacionais de Saúde, que ficaram em segundo lugar com 3,41. Novos laboratórios e equipamentos aprimorados reduziram substancialmente as taxas de infecção acidental, de 11,31 acidentes por milhão de horas-homem em 1959 para 3,16 em 1962.82
Funcionários do Serviço de Saúde Pública concordaram, com base nas obrigações de segurança nacional, em não anunciar casos de infecção a menos que existisse um “risco epidêmico”. Médicos não relataram algumas doenças, como a peste pneumônica, porque o Exército não queria alarmar ninguém.83
Oficiais militares acreditavam que as excelentes instalações hospitalares de Fort Detrick e os médicos de primeira linha estavam qualificados para lidar com qualquer emergência médica que pudesse surgir. E isso pode ser verdade. Se o Exército seguiu todos os seus regulamentos de segurança publicados, o risco envolvido na pesquisa do Projeto Whitecoat provavelmente era razoavelmente baixo — pelo menos quando comparado aos perigos do serviço no Vietnã. Além disso, os experimentos podem não ter sido tão sinistros quanto os detratores do Projeto Whitecoat fizeram parecer.
Lições a serem aprendidas
À luz das posições da IASD sobre a separação entre igreja e Estado, talvez os líderes da igreja devessem ter sido mais cautelosos em seu patriotismo. O projeto parecia apresentar a denominação como uma igreja “americana”, disposta a cooperar com qualquer coisa, a menos que os mandamentos fossem diretamente violados. Essa postura não levou em conta os possíveis resultados das ações individuais.
Enfatizar o valor do pensamento individual teria desencorajado a aceitação cega das posições da IASD, tanto no Projeto Whitecoat quanto no status de recrutamento. Uma atitude assim, por parte dos líderes da AG, teria conduzido a uma apresentação mais objetiva do Projeto Whitecoat e a uma mudança mais precoce na posição da IASD sobre o status de recrutamento, permitindo pleno apoio a qualquer decisão baseada na convicção honesta.
Embora tanto a igreja quanto o Exército possam ter sido completamente honestos e sinceros durante seu relacionamento, os elogios da AG ao Projeto Whitecoat provavelmente foram um tanto exagerados. Os líderes denominacionais deveriam ter estado mais dispostos a reconhecer a possibilidade de erro: ou de que os oficiais da igreja nos anos 1950 podem ter sido apressados demais ao aprovar inicialmente o projeto, ou de que a natureza desse importante programa militar poderia ter mudado após seu início.
Os líderes denominacionais podem ser elogiados por tentarem encontrar para os recrutas adventistas um meio aceitável de evitar tanto o serviço de combate quanto os conflitos com o sábado. No entanto, se os líderes da igreja tivessem investigado o projeto mais a fundo desde o início, teriam admitido que havia áreas cinzentas morais e filosóficas envolvidas — como os riscos à saúde e os possíveis usos ofensivos dos resultados da pesquisa. Essas questões éticas poderiam, então, ter sido discutidas publicamente.
A Igreja Adventista do Sétimo Dia poderia ter mantido sua reputação intacta ao permitir que todos os potenciais voluntários do Projeto Whitecoat ouvissem ambos os lados do argumento, e ao apoiar esses voluntários nem mais, nem menos do que aqueles que serviram como médicos ou que foram para o combate regular.
Notas:
1.↑ United States Army, USAMRIID, “Project Whitecoat: A History,” 14 de fevereiro de 1974, p. 5.
2.↑ Ibid., ps. 3-4.
3.↑ Whitecoat Survey, conduzida por Dr. Robert Mole, capelão, Jerry L. Pettis Memorial Veterans Hospital, Lorna Linda, California, 1990.
4.↑ General Conference of Seventh-day Adventists, National Service Organization, Clark Smith, “Project Whitecoat: A Statement by the Director of the National Service Organization of the General Conference of Seventh-day Adventists to Be Given to Those Who Are Being Considered for Project Whitecoat,” n.d., p. 1, Whitecoat File, General Conference Archives (GCA).
5.↑ Don A. Roth, “Operation Whitecoat,” The Youth’s Instructor (October 15, 1963), p. 16.
6.↑ Robert Mole para a autora, 10 de janeiro de 1991.
7.↑ Roth, p. 16. Para a história da IASD e sua relação com os militares, cf. Robert Mole, He Called Some to Be Chaplains (Washington, D.C.: General Conference of Seventh-day Adventists, 1982), Vol. 1, Part 1.
8.↑ Booton Herndon, The Unlikeliest Hero (Mountain View, Calif.: Pacific Press Publ. Assn., 1967), p. 194.
9.↑ Theodore R. Flaiz para George E. Armstrong, 19 de outubro de 1954, Whitecoat File, GCA.
10.↑ Clark Smith para Kenji Soneda, 21 de maio de 1971, Whitecoat File, GCA.
11.↑ Henning Guldhammer, entrevista pela autora, 19 de fevereiro de 1991. Guldhammer foi um voluntário do Projeto Whitecoat de 1967 até 1968.
12.↑ V.B., “Operation Whitecoat,” 14 de setembro de 1969. Este poema provavelmente foi escrito por Vinson Bushnell.
13.↑ Clark Smith para Vinson Bushnell, 6 de novembro de 1969, Whitecoat File, GCA.
14.↑ Charles Morrison, entrevista pela autora, 14 de março de 1991. Morrison foi um voluntário do Projeto Whitecoat de 1969 até 1970.
15.↑ General Conference of Seventh-day Adventists, National Service Organization, C. D. Martin, diretor associado, “Autumn Council Action Concerning Military Service,” 6 de maio de 1970.
16.↑ Terrell Gottschall, entrevista pela autora, 22 de maio de 1991.
17.↑ Eles também precisavam ser designados para o Centro de Treinamento Médico do Exército dos EUA e não ter nenhuma designação futura já em andamento [Smith, NSO, p. 11]. Potenciais voluntários do Projeto Whitecoat não deveriam receber imunizações contra tifo, febre amarela, cólera ou peste antes de chegarem ao Fort Sam Houston [United States Army, Staff Communications Division, DA Message 767602 de HQ OPO WASH DC para CGUSCONARC, 7 de junho de 1966]. Como essas vacinas poderiam estar relacionadas a algumas das bactérias, vírus e riquétsias às quais os participantes do Whitecoat seriam expostos, os pesquisadores do Exército desejavam evitar qualquer viés imunológico que pudesse invalidar os experimentos.
18.↑ USAMRIID, “Project Whitecoat: A History,” Appendix 26, “Fact Sheet: Project Whitecoat,” (28 de novembro de 1969), p. 2.
19.↑ United States Army, USAMRIID, “Consent Statement: For Use at Fort Sam Houston, Texas,” n.d., Whitecoat File, GCA.
20.↑ Mole, Whitecoat Survey.
21.↑ James Cornelison, entrevista pela autora, 23 de abril de 1991. Cornelison foi um voluntário do Projeto Whitecoat de 1969 até 1970.
22.↑ William Hoffer, “I Was a Guinea Pig for the Medical Corps,” The Washington Post (November 2, 1969), p. 28.
23.↑ ValGene Devitt para a autora, 3 de maio de 1991. Devitt foi um voluntário do Projeto Whitecoat de 1962 até 1964.
24.↑ United States Army, USAMRIID, “Volunteer Participation in Research Programs 1957-Sep 1969,” Whitecoat File, GCA.
25.↑ W. D. Tigertt, “Memo for Record,” May 7, 1957.
26.↑ Matthew Meselson, “Hearing Before the Committee on Foreign Relations,” Senado dos Estados Unidos, NinetyFirst Congress, Primeira Sessão, 30 de abril de 1969, ps. 8, 9.
27.↑ Mike Wallace, Transcript of “60 Minutes Highlights I,” CBS, Broadcast July 8, 1969, p. 9.
28.↑ General Conference of Seventh-day Adventists, W. R. Beach, Secretary, “Statement of Attitude Regarding Volunteering for Medical Research” (1955), Whitecoat File, GCA.
29.↑ General Conference of Seventh-day Adventists, “Notes for a Speech at Whitecoat Selection,” 5 de outubro de 1966, Whitecoat File, GCA.
30.↑ S. B. Hays para A. V. Olson, 14 de setembro de 1955, Whitecoat File, GCA.
31.↑ Dan Crozier, Discurso ao Congresso Jovem Adventista, 21-24 de abril de 1966, gravado em 14 de abril de 1965, Whitecoat File, GCA.
32.↑ United States Army, Office of the Surgeon General, “Travel Voucher,” Clark Smith, 13 de maio de 1966, Whitecoat File, GCA.
33.↑ “Director Receives Rare Civilian Award,” For God and Country 24 (First Quarter 1973), p. 1.
34.↑ Charles Morrison, entrevista pela autora, 14 de março de 1991.
35.↑ Les Brown, entrevista pela autora, 9 de maio de 1991. Brown foi um voluntário do Projeto Whitecoat de 1967 até 1969.
36.↑ A. V. Olson, “Beyond the Call of Duty!” Review and Herald (3 de novembro de 1955), p. 20.
37.↑ Clark Smith, “Adventist Medics in America Volunteer to Serve Humanity by Assisting in Disease Research in Project Whitecoat,” Review and Herald (20 de março de 1969), p. 20.
38.↑ Thomas Green, Project Whitecoat (Washington, D.C.: General Conference of Seventh-day Adventists, National Service Organization, n.d.).
39.↑ Clark Smith a R. Bullas, 13 de julho de 1970, Whitecoat File, GCA.
40.↑ Richard Miller, entrevista pela autora, 21 de maio de 1991. Miller foi um voluntário do Projeto Whitecoat de 1955 até 1956.
41.↑ A transmissão da NBC foi “First Tuesday,” no dia 4 de fevereiro de 1969; o programa da CBS foi parte do “60 Minutes,” no dia 8 de julho de 1969.
42.↑ Seymour Hersh, Chemical and Biological Warfare: America’s Hidden Arsenal (Garden City, N.Y.: Anchor Books, 1969).
43.↑ Seymour Hersh, “Dare We Develop Biological Weapons?” New York Times Magazine (28 de setembro de 1969).
44.↑ Seymour Hersh, “Germ Warfare: for Alma Mater, God, and Country,” Ramparts 8 (dezembro de 1969), ps. 22, 24.
45.↑ Clark Smith para Vinson Bushnell, 24 de outubro 1969, Whitecoat File, GCA.
46.↑ Steven Heczke, “I Was a Guinea Pig for Army Germ Test,” National Examiner (1º de dezembro de 1969), p. 4.
47.↑ Dan Crozier para Comandante, U.S. Army Research and Development Command, 26 de novembro de 1969, Whitecoat File, GCA.
48.↑ Martin Turner para Clark Smith, 10 de setembro de 1969, Whitecoat File, GCA.
49.↑ O grupo era composto por W. H. Beaven, presidente do Columbia Union College; Stuart Nelson, M.D., um médico de Takoma Park; e vários membros da Associação Geral: T. S. Geraty; D. W. Hunter; L. C. Kozel; C. D. Martin; Philip S. Nelson, M.D.; and Clark Smith.
50.↑ General Conference of Seventh-day Adventists, Project Whitecoat Study Committee Minutes, 2 de outubro de 1969, Whitecoat File, GCA. O artigo resultante foi uma entrevista com Clark Smith, publicado no dia 27 de novembro de 1969, Review and Herald.
51.↑ Clark Smith para Vinson Bushnell, 24 de outubro de 1969, Whitecoat File, GCA.
52.↑ Malcolm Russell, “Civil Control May Supply the Answer,” Sligonian (29 de janeiro de 1970), p. 1.
53.↑ Richard McCarthy, “Response of Congressman Richard McCarthy to a Question About Project Whitecoat,” Typescript, 13 de dezembro de 1969.
54.↑ Elinor Langer, “Chemical and Biological Warfare (1): The Research Program,” Science 155 (13 de janeiro de 1967), p. 175.
55.↑ Dan Crozier, “The Threat of Biological Weapons Attack,” Military Medicine (Fevereiro de 1963), ps. 82-83.
56.↑ Dan Crozier, Transcrição de entrevista por Emanuel Fenz e Martin Turner, 17 de novembro de 1969.
57.↑ W. D. Tigertt, “Defensive Aspects of Biological Weapons Use,” Military Medicine 126 (1961), p. 508.
58.↑ Jane Allen, “Army Vaccine Helps Fight Sleeping Sickness,” Bureau of Public Relations, General Conference of Seventh-day Adventists, n.d., não publicado até 30 de novembro de 1971, Whitecoat File, GCA.
59.↑ Elinor Langer, “Chemical and Biological Warfare (I): The Research Program,” Science 155 (13 de janeiro de 1967), p. 174.
60.↑ United States Army, USAMRIID, “Fact Sheet,” n.d.
61.↑ Clark Smith para Martin Turner, 14 de maio de 1969, Whitecoat File, GCA.
62.↑ Martin Turner e Emanuel Fenz para Editor, Review and Herald (16 de dezembro de 1969), Whitecoat File, GCA.
63.↑ Seymour Hersh, “Gas and Germ Warfare: The Controversy Over Campus Research Contracts,” The New Republic (1º de julho de 1967), ps. 12-14.
64.↑ Winton Beaven para Editores, SDA College Newspapers, 13 de outubro de 1969, Whitecoat File, GCA.
65.↑ Martin Turner e Emanuel Fenz para Editor, Review and Herald (16 de dezembro 1969), Whitecoat File, GCA.
66.↑ Em sua carta, Turner escreveu: “Mas é precisamente aí que está o problema, porque a Igreja apoia abertamente e ativamente o recrutamento para o projeto e não permite que evidências conflitantes sejam ouvidas, negando assim ao indivíduo o acesso às informações que ele deve ter como base para sua decisão… Os fatos serão conhecidos, seja por meio de canais oficiais ou não. Mas, se meios não oficiais precisarem ser usados, o processo levará mais tempo e muitos continuarão sem as informações de que precisam quando chegar o momento de tomar uma decisão. Mas talvez ainda mais importante do que isso, se a juventude desta igreja chegar a sentir que seus líderes não fornecem informações claras, os resultados serão muito mais abrangentes do que o Projeto Whitecoat.” Martin Turner para Theodore Carcich, 29 de janeiro de 1970, Whitecoat File, GCA).
67.↑ Membros leigos adventistas preocupados com o Projeto Whitecoat, “Facts About Project Whitecoat,” De Emanuel G. Fenz, Martin Turner, e John Matthews para os delegados da reunião de junho de 1970 da Associação Geral (Maio de 1970), Whitecoat File, GCA.
68.↑ Alvin L. Kwiram, “Chemical and Biological Warfare,” não publicado, n.d., ps. 8, 10, Whitecoat File, GCA.
69.↑ Ibid., p. 17.
70.↑ Gerald Astor, “A Killing Shame,” Look (16 de dezembro de 1969), p. 67.
71.↑ Leonard Cole, Clouds of Secrecy: The Anny Genn Warfare Tests Over Populated Areas (Totowa, N.J.: Rowman and Littlefield, 1988), ps. 6, 44.
72.↑ Les Brown, entrevista pelo autor, 9 de maio de 1991.
73.↑ ValGene Devitt para a autora, 3 de maio de 1991.
74.↑ A. Mejia para Robert Pierson, 14 de fevereiro de 1969, Whitecoat File, GCA.
75.↑ Clark Smith, “Adventist Medics in America Volunteer to Serve Humanity by Assisting in Disease Research in Project Whitecoat,” Review and Herald (20 de março de 1969), p. 20.
76.↑ Jim Scott, “GI Guinea Pigs Risk Death,” Anny Times, (1º de abril de 1970).
77.↑ Richard Lebherz, “Fort Detrick: A Symbol of Crisis,” The Frederick Post (1º de novembro de 1969), p. A3.
78.↑ Richard Miller, entrevista pela autora, 21 de maio de 1991.
79.↑ Les Brown, entrevista pela autora, 9 de maio de 1991.
80.↑ Les Brown, entrevista pela autora, 9 de maio de 1991.
81.↑ Ibid.
82.↑ Hersh, Chemical and Biological Warfare, ps. 109-110.
83.↑ Ibid., p. 11.




