Conflito entre lideranças católicas e evangélicas às vésperas das eleições expõe fratura profunda entre as denominações e tira de foco o debate sobre os verdadeiros donos humanos do país
Na entrada triunfal da última semana pré-eleições gerais no Brasil em 2026, a corrida e as campanhas presidenciais entre os dois principais candidatos ao Executivo foram marcadas pela exposição de uma tensão aparentemente secundária e velada entre católicos e evangélicos sob a Constituição de um Estado laico. A via crucis da querela sobre a quem pertence o Brasil, se a Nossa Senhora Aparecida ou ao Senhor Jesus, começou com o comentário da jornalista Maria Cristina Fernandes na Globo News, no dia 24 de setembro de 2026, indicando que estaria ocorrendo uma reação do eleitorado católico a uma parcela de evangélicos que buscavam pautar a retirada do título de “padroeira do Brasil” de Nossa Senhora Aparecida.
O comentário foi utilizado em postagens nas redes sociais por diferentes perfis (de usuários comuns, páginas religiosas e também influenciadores militantes) em tom crítico e, ao mencionarem a fala de Flávio Bolsonaro em agosto de 2026 no lançamento de sua candidatura à presidência, de que sua primeira medida como presidente seria declarar que o Brasil é do “nosso Senhor Jesus”, fez-se um ruído imenso. O chavão é tradicionalmente ligado a mobilizações de pastores evangélicos em pregações, eventos e cruzadas que se declaram contra o título de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil e contra feriados católicos incorporados ao calendário nacional.
A exemplo, em 2007, o professor e pastor da Assembleia de Deus Victório Galli propôs um projeto de lei arquivado que retirava o título de “padroeira do Brasil” de Nossa Senhora Aparecida. Hoje, Galli é aliado de Flávio Bolsonaro e compõe sua equipe de campanha eleitoral. Junto a isso, soma-se o fato de que o Bispo JB Carvalho, líder/pastor evangélico da igreja em que se batizou o filho do ex-presidente e atual presidiário Jair Bolsonaro, escreveu, em seu livro A Bomba: A verdade pode ser explosiva, um capítulo cujo título é “A Rainha dos Céus no Brasil”, no qual defende expressamente a retirada da Santa Padroeira de seu título.
O conflito entre evangélicos e católicos sobre o tema ganhou maior repercussão recentemente quando, imediatamente, no dia 25 de setembro de 2026, a campanha de Flávio Bolsonaro exigiu a retratação da jornalista e solicitou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a retirada de posts que comentassem o tema. O problema é que, com certa celeridade exagerada de mais ou menos 65 minutos, o ministro e pastor (terrivelmente evangélico) André Mendonça, responsável por avaliar o pedido, demandou a retirada do ar de 1.125 postagens (uma média de 15 posts avaliados por minuto para a decisão). Entre os conteúdos dificilmente lidos e avaliados com o devido cuidado, dada a pressa, estavam mensagens religiosas, de fé, de instituições da Igreja Católica e, com certo destaque, uma específica do humorista Antônio Tabet.
Esta, em especial, repercutiu de modo amplo, pois não mencionava em nenhum momento o candidato Bolsonaro. Tabet apenas havia escrito que “A família miliciana odeia tanto mulher preta, que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida!” Com a exigência do pastor e também ministro André Mendonça de retirada do conteúdo do ar, uma questão óbvia pairou sobre a decisão: qual a relação entre “família miliciana” e a campanha de Flávio Bolsonaro? Por que o juiz compreendeu que se tratava dessa candidatura? E por que a carapuça havia servido para o filho de Bolsonaro em sua solicitação ao TSE?
Diante da tensão e confusão instauradas, no dia 27 de setembro, o ministro católico e que fora filiado ao Partido Comunista do Brasil, Flávio Dino, anulou a censura perpetrada pela liminar do pastor Mendonça, justificando, entre outras questões, que a manutenção da remoção dos conteúdos como demandado induziria a “estabelecer como verdade que ‘família miliciana’ refere-se a um determinado candidato à Presidência da República”, imputando, portanto, inclusive, crimes ao candidato em questão.
Ademais, Dino também sustentou a necessidade de preservar o direito à liberdade de expressão, pauta que havia sido utilizada por Mendonça em junho de 2025 nas discussões sobre o Marco Civil da Internet, ocasião na qual sustentou em Plenário que seria “inconstitucional a remoção ou a suspensão de perfis de usuários, exceto quando [a] comprovadamente falsos […] ou [b] cujo objeto do perfil seja a prática de atividade em si criminosa”. A medida de Dino foi derrubada na noite do dia 28 de setembro de 2026 pelo ministro Luiz Fux, atendendo a um pedido dos advogados de Flávio Bolsonaro sob o pretexto de que estaria sendo veiculada uma “notícia comprovadamente falsa”.
De todo modo, nesse cenário com diferentes atores e setores do eleitorado, de políticos e também do judiciário, temos ao fundo o conflito entre católicos e evangélicos — de um lado, setores consolidados após o Concílio Vaticano II, de outro, um movimento majoritariamente pentecostal, mas que conta com uma articulação específica entre diferentes denominações em torno do bolsonarismo, como discutido em “A guerra santa dos irmãos de terno”, publicado pela revista Zelota.
No caso da recente tensão entre correntes cristãs em reta final de período eleitoral, não se trata de uma disputa meramente doutrinária, nem especificamente política, no sentido de comandar ou executar poder. Trata-se de uma tensão enraizada entre a capacidade das instituições religiosas de exercerem influência nos aparatos do Estado e darem vazão às experiências e tradições de fé das comunidades que as sustentam.
Tais instituições e tais comunidades existem a partir de suas histórias específicas, buscam permanecer na sociedade na qual estão inseridas e também manter ou aumentar suas posições de privilégio. Desse modo, se pretendemos entender o conteúdo da tensão aparentemente secundária entre católicos e evangélicos expressa na corrida eleitoral deste ano, é necessário que a compreendamos como ecos de movimentos anteriores de um passado próximo.
Duas trajetórias em um mesmo lugar
Em artigos anteriores, como “É possível uma teologia da libertação evangélica?”, publicado pelo GGN, “No vale de lágrimas entre a política e a religião” e “Do passado, nos resta a luta”, ambos publicados pela revista Zelota, comparei o desenvolvimento histórico da Teologia da Libertação e do pentecostalismo durante o século 20. Ambos são fenômenos sociais que emergiram das contradições do processo de modernização1 na América Latina e, em especial, no Brasil. A primeira, como movimento católico, enfrentava as contradições de uma Igreja que, desde o final do século 19, realizava reformas para se adaptar a uma sociedade que se industrializava no centro de um mercado mundial e promovia suas periferias produtoras de matérias-primas; o segundo, de raiz protestante, se estruturou como organização religiosa nas periferias urbanas, formando comunidades que cresceram relativamente rápido com o aumento do fluxo de ondas migratórias do campo para as cidades.
Nesse processo, a Teologia da Libertação concentrava sua mobilização especialmente no campo e nos interiores, a partir das redes historicamente constituídas desde o processo de colonização, na organização da defesa das famílias de pequenos agricultores e trabalhadores rurais que sofriam com as etapas de industrialização acelerada sob diferentes projetos de desenvolvimento. Já as igrejas pentecostais nasceram adaptadas à vida urbana, desempenhando um papel de suporte e de disciplinarização de comunidades na organização de suas vidas, providenciando meios de vida e redes de apoio necessárias para subsistir em um novo ambiente de transformação constante nas grandes cidades.
No Brasil, as duas trajetórias se cruzam, especialmente, no momento de relativa “estabilização” política e da marcha do desenvolvimento durante a década de 1980, com o fim da ditadura militar e a abertura ao processo de redemocratização. Do lado católico, as alas democráticas e progressistas saem fortalecidas na luta por direitos civis, sociais e humanos que conseguiram relativo apoio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em suas pautas contra o regime autoritário imposto a partir de 1964 (o que não necessariamente ocorreu em outros países). Já do lado pentecostal, o fim da ditadura se tornava um problema para a instituição que havia se organizado com um projeto de expansão e acesso a privilégios e instâncias de execução de poder com o alinhamento institucional “automático” ao regime.
Desse modo, o discurso reproduzido e hegemonizado dentro das igrejas pentecostais desde sua origem sofreu uma grande virada: de uma defesa do isolamento em relação às questões políticas e da participação de fiéis na vida pública, o projeto de expansão e garantia de acesso a instâncias de poder dependia de um engajamento e mobilização da membresia para a obtenção de cargos de representação no Estado. Isso se torna bastante evidente se tomarmos como caso exemplar a virada ocorrida nas Assembleias de Deus expressa nos artigos de seu principal órgão de comunicação oficial: o jornal O Mensageiro da Paz (MP), fundado em 1930.
Do anticomunismo ascético ao anticatolicismo militante
Podemos organizar a postura política das Assembleias de Deus expressa em seu veículo de comunicação oficial em duas fases: pré-redemocratização (1930-1980) e pós-redemocratização (1980 até hoje). Nesse quadro, em suas primeiras décadas de funcionamento, o MP propunha um conteúdo que buscava ser estritamente doutrinário e “espiritual”, substituindo sua predecessora, a revista Boa Semente, para ser “um instrumento para salvação de muitas almas, para despertamento, edificação e instrução do povo de Deus”, como escreveu um de seus primeiros editores, Samuel Nyström, na primeira edição do então novo jornal.
Nessa fase, não era incomum encontrar críticas à Igreja Católica ou polêmicas com escritores católicos em defesa da doutrina pentecostal. Contudo, tais discussões eram de circulação entre fiéis e sem alcance de debate público, diferente do que ocorreria posteriormente, a partir dos anos 1980. O objetivo central era manter ativa a comunidade leitora pentecostal e reforçar posições doutrinárias cada vez mais consolidadas. Nesse sentido, o conteúdo do MP visava municiar fiéis com conteúdos devocionais, transmitir mensagens em tons ufanistas sobre os avanços e expansões da denominação pelo território nacional e em outros países do mundo, assim como relatar eventos e acontecimentos considerados pelos editores como marcos institucionais importantes.
Contudo, em algumas edições, certas análises de conjuntura doutrinariamente inspiradas eram publicadas. Mais do que noticiar, o objetivo era interpretar de modo articulado acontecimentos históricos e fatos políticos de alcance mundial com profecias bíblicas, garantindo um apelo à crença no imediato retorno de Jesus para salvar os seus. São muitas as publicações com esse teor entre o fim da década de 1930 e durante a de 1940, mas a primeira é a exemplar edição de 1937, em que Antônio Torres Galvão, de modo direto, narra o conflito entre “fascistas e comunistas” na Europa, cuja civilização teria “chegado ao fim”, e a guerra civil na China, em seu artigo “Os sinais dos Tempos”.
Nesse contexto e até os anos de 1980, as discussões políticas explícitas que apareciam no jornal não envolviam questões nacionais e, quando aparecia algum ponto que tocava a conjuntura nacional, era bastante localizado e jamais crítico ao Estado brasileiro. Na verdade, a única ideologia que passou a ser abertamente criticada nas publicações do MP foi o “marxismo/comunismo”, como primeiramente exposto no artigo “O cristão e as falsas ideologias”, de Athayde Magalhães, publicado em duas partes nas edições de número 18 e número 19 de setembro de 1964. Entretanto, apesar do combate às “falsas ideologias” (que, na verdade, era apenas uma), não havia uma mobilização na atuação pública ou militante, senão preventiva e de crítica doutrinária aos “perigos” do marxismo/comunismo.
O quadro começa a mudar de figura a partir do processo de redemocratização, com a abertura política sob a tensão da tutela militar e das mobilizações de massas trabalhadoras e lideranças políticas. Dada a abertura para eleições com voto direto e uma potencial alternância de poder entre partidos e representantes, não haveria mais a possibilidade de um alinhamento automático com o poder. O acesso a privilégios e a estabilidade para a manutenção dos projetos de expansão passavam a depender da participação ativa nos processos eleitorais.
É nesse contexto que surge a busca por uma nova estratégia de inserção da igreja na sociedade brasileira e o interesse por intervenções na vida pública. Nesse passo, o anticomunismo propagado dentro das quatro paredes do templo passa a ser projetado para a atuação política sob os ares do fim da Guerra Fria, encontrando na vida popular religiosa traços de sua existência em determinadas correntes da Teologia da Libertação católica, que havia se consolidado na resistência à ditadura e encontrado guarida em certos espaços da hierarquia religiosa.
O jornal das Assembleias de Deus, maior denominação evangélica, expressa essa mudança já na edição de setembro de 1980, que trazia a reprodução de um pequeno texto da Revista Ultimato, fundada no seio presbiteriano, e dois artigos originais observando a conjuntura nacional. Do veículo de circulação reformado, o MP apresentou um excerto intitulado “As duas cidadanias”, considerando que o cristão atua em dois planos: no terrenal e no espiritual. O primeiro, de acordo com as responsabilidades para com o país em que nasce, e o segundo, a partir de sua conversão e dever para com a cidadania “celestial”. Um sinal claro da transição de uma postura ascética e de isolamento do mundo em prol do Reino dos Céus para uma participação na cidadania terrena.
Na mesma edição, o jornal assembleiano traz um artigo intitulado “Pentecostais fora do ecumenismo” que comentava criticamente a visita do Papa João Paulo II ao Brasil (chamado no texto apenas de “D. Woytila”) e a participação de setores protestantes com “facções do catolicismo” nas celebrações ecumênicas organizadas na ocasião. Em tom de exaltação à ausência de pentecostais nas festividades, o artigo citava o texto de Apocalipse para considerar o catolicismo como uma falsa Igreja: “O papa exortou estas agremiações [protestantes] a que trabalhassem em favor da ‘unidade cristã, mediante trabalhos conjuntos’. Os pentecostais, entretanto, têm sempre em mente as palavras de Jesus: ‘Sai dela, povo meu’, Apocalipse 18:4)”.
Para coroar uma virada de militância anticatólica que passava a considerar a atuação na vida pública, o artigo “Liberdade religiosa ameaçada no Brasil” abordava uma crítica severa ao projeto de lei nº 220-A/1979, que havia sido aprovado e tratava do estabelecimento da data de 12 de outubro como feriado nacional “para culto público e oficial a Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil”. De acordo com o autor, o pastor Gustavo Kessler, o estabelecimento de um culto “oficial” atentaria contra o Estado laico e colocaria em risco a liberdade religiosa e de consciência dos demais cidadãos. Ademais, estabeleceria como religião oficial, por meio do calendário nacional, o catolicismo. O artigo, extremamente ácido, ainda recuperava ações violentas perpetradas pela Igreja Católica em séculos anteriores e exortava pessoas de outras religiões e ateus a também se posicionarem contra a lei aprovada.
Contra a influência da CNBB, “irmão vota em irmão”
No mês seguinte, a edição de outubro de 1980 do MP trazia o artigo “Teologia da Libertação: a ponta-de-lança do Anticristo”, do pastor José Cabral. O texto denunciava a Teologia da Libertação como antibíblica e exortava pastores que começavam a pregar “direitos humanos” em vez da Palavra de Deus. De acordo com o autor:
“Não temos dúvida de que a Teologia da Libertação é uma ponta de lança do Anticristo, que se levantará contra tudo o que é de Deus […]. Há atualmente um movimento mundial em prol da ideologia marxista ou socialista, o qual está entrando na Igreja com o nome de Teologia da Libertação.”
Como saída, o conteúdo apelava à fé e consciência de cada cristão e criticava tanto a Igreja Católica quanto partidos políticos, afirmando que “o cristão que tem sabedoria não se deixa enredar nas teias romanas nem toma partido por ninguém a não ser por Jesus Cristo”.
Desse modo, pela primeira vez aparecia o termo da Teologia da Libertação, num contexto de preocupação com a influência da Igreja Católica na nova organização política que emergia com a transição da ditadura para a democracia. Nesse sentido, ao final do ano de 1984, na edição de dezembro deste ano, visando a eleição presidencial indireta então marcada para janeiro de 1985, o pastor Nemuel Kessler, filho do pastor Gustavo Kessler, que havia escrito o texto crítico à lei que oficializava o feriado de 12 de outubro, publicou seu artigo “Os evangélicos e a sucessão presidencial”, no qual considerou a instabilidade e insegurança da democracia e adjetivou de “ciclo revolucionário” o período da ditadura militar. Seu objetivo, por fim, era mobilizar os fiéis para estarem atentos aos processos políticos e mediarem suas futuras decisões pelos princípios religiosos, afinal, “isto não significa que somos alienados da realidade”.
Diante do contexto de eleições para a Constituinte de 1985, a posição de mobilização política e militante se torna cada vez mais explícita. Na edição de maio d’O Mensageiro da Paz, o mesmo pastor Nemuel Kessler anunciava em seu texto, “Os nossos representantes na Constituinte”, que, no Encontro de Líderes das Assembleias de Deus, em Brasília, havia sido “verificada a possibilidade de elegermos nossos próprios representantes”. De acordo com o autor, a discussão necessária sobre a participação política das igrejas nas eleições em busca de representantes se daria pelo perigo da atuação da Igreja Católica por meio da CNBB:
“Enquanto estamos pensando em nossa participação, a Igreja Católica, ao lado de outros grupos religiosos, arregimenta suas forças e se prepara, através da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), para tentar influir na próxima Constituinte. E de que modo ela vai encarar a questão da liberdade religiosa?”
Já na edição de agosto daquele ano, o MP publicou mais um artigo de Nemuel Kessler intitulado “As incoerências do catolicismo”. O argumento central do texto se baseava na hipótese de um plano da Igreja Católica de se posicionar em diferentes frentes para seguir expandindo suas influências na sociedade. Desse modo, diante do contexto do processo de silenciamento de Leonardo Boff, realizado pelo Vaticano sob a orientação de Joseph Ratzinger, o autor sustentou que o clero se dividia entre alas de progressistas e conservadores e questionou: “Seriam essas discrepâncias entre um grupo e outro apenas uma tática provisória até que se definam, na Constituinte, os rumos políticos do país?”.
A partir dessa hipótese, Kessler conclama uma mobilização de fiéis à participação na vida pública diante de um risco à liberdade religiosa e às “artimanhas do catolicismo”:
“Como falar em ampla liberdade religiosa ‘se apenas a Igreja Católica é chamada a influir nos destinos do país’? Por que aceitar a falácia da ‘não existência de uma igreja oficial no Brasil, se quando um loteamento é aprovado, o espaço que a lei reserva para a construção de um templo religioso é cedido, sem qualquer burocracia, ao romanismo’? Como admitir a separação legal entre Igreja e o Estado, se ‘há feriados católicos para serem observados, aulas de catecismo em escolas oficiais’, e, ainda, o famigerado culto a Aparecida, a pedra de toque de toda essa engenhosidade? […] Ainda que a liberdade religiosa esteja inserida em nosso texto constitucional, ela precisa ficar mais explícita na prática, pois os evangélicos, que representam, hoje, vasta parcela da população brasileira, não podem ficar a reboque dos interesses romanistas.”
O conteúdo articula de modo mais explícito a militância evangélica pentecostal na vida pública mobilizada contra a influência da Igreja Católica e, de certo modo, prepara as discussões tratadas na edição de setembro de 1985, que sacramentaram a virada de chave da posição da igreja expressa nos textos do O Mensageiro da Paz.
Por um lado, a edição apresentava um novo texto de Nemuel Kessler intitulado “Democracia e Comunismo”, no qual o autor criticava a legalização de partidos comunistas e exortava os cristãos a realizar “uma escolha de candidatos cuja filosofia partidária não entre em conflito com a nossa fé”. Por outro, trazia um longo artigo do pastor Geremias do Couto, intitulado “Pode o crente ser político?”, no qual apresentava pela primeira vez o conteúdo que sustentaria a ideia de irmão vota em irmão:
“Consequentemente, não podemos admitir que na próxima Assembleia Nacional Constituinte, onde será votada a Lei Maior que regerá os destinos de nossa pátria, só haja representantes dos espíritas, macumbeiros e principalmente católicos, que tudo farão para restringir a liberdade religiosa. É óbvio que Deus luta em favor dos santos, mas ressalte-se que nós somos, também, instrumentos de sua ação neste mundo. Ele busca, outrossim, profetas que, à semelhança dos servos do passado, possam denunciar os abusos daqueles que desejam impor medidas coercitivas aos crentes.”
No ano seguinte, na edição de setembro de 1986, o Mensageiro da Paz publicou um artigo de entrevistas com candidaturas evangélicas para as eleições da Constituinte daquele ano.2 Intitulado “Os rumos da Constituinte”, o texto mesclava trechos das entrevistas e comentários editoriais. Em determinado momento, o editorial questiona: “Onde está a participação do crente? O que tem sido feito no sentido de cobrar das suas autoridades uma atuação mais dinâmica de tantos desajustes?”, ao que curiosamente responde:
“Orar e cruzar os braços não é solução. É preciso ir mais adiante, participando ativamente do processo de mudança social. E uma das condições para isso poderá estar na conscientização política, escolhendo acertadamente os candidatos que serão representantes do povo no Governo.”
Por fim, o texto consagra o título do livro do pastor Josué Sylvestre lançado naquele mesmo ano, Irmão vota em irmão, no qual o autor havia destacado que “ao estabelecer um pacto com Abraão, Jeová adotou uma posição política. Ao fornecer a Moisés os fundamentos da Constituição de Israel (os ‘Dez Mandamentos’), Jeová adotou outra posição política”.
Do Irmão vota em irmão ao A bomba: a verdade pode ser explosiva
Na recente tensão entre católicos e evangélicos durante as campanhas eleitorais de 2026, o quadro vira: é uma mobilização de fiéis e lideranças religiosas católicas que agem denunciando potenciais riscos à liberdade religiosa contra posições de agentes políticos evangélicos. Curiosamente, como exemplo diante da fala proferida em agosto por Flávio Bolsonaro, anunciando que seu primeiro ato se eleito seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus”, em entrevista concedida à Folha de São Paulo em 28 de setembro de 2026, o Bispo da CNBB Dom Roberto Francisco considerou a declaração ambígua e disse que esta seria “uma decisão perigosa porque envolve todas as outras religiões. O que pode significar isso para a liberdade religiosa e para os religiosos não-cristãos? Haverá privilégios para os cristãos? São coisas que ficam no ar.”
É importante ressaltar que, a partir da década de 1980, à medida que os evangélicos pentecostais se organizavam para a atuação pública na política brasileira e expandiam seu número de fiéis no território nacional, a reação católica foi taxar esses movimentos minoritários de “seitas” a serem combatidas e reduzir a compreensão do fenômeno a uma tentativa de interferência e influência dos Estados Unidos no continente. Isso apareceu, por exemplo, no livro de 1981 As Seitas Cristãs: Um Desafio Pastoral, de Dom Boaventura Kloppenburg. Baseado nas revelações dos Relatórios Rockfeller (1969), indicava os investimentos realizados em grandes missões evangélicas na América Latina, o uso do televangelismo e a expansão ideológica do American Way of Life.
Documentos como os produzidos nas Conferências de Santa Fé (1980-2000) também demonstravam o combate estadunidense ao catolicismo progressista no continente latino-americano e a busca por organizações religiosas alternativas como planos estratégicos do país para a política externa de Washington em relação à América Latina durante a Guerra Fria. Se, por um lado, isso explicava um aspecto do fenômeno religioso e suas conexões em redes internacionais, por outro, reduzia o pentecostalismo a este aspecto, sem considerar a história própria e específica das denominações em cada país, assim como seu caráter autóctone e popular.
No Brasil, o preconceito diante dos evangélicos por parte da CNBB e a tensão por parte de católicos diante do fenômeno são expressos por seu documento oficial Seitas: desafio à Igreja, publicado em 1992. Tais posições dificultaram a própria qualidade e sofisticação da análise, assim como retardaram possibilidades de aproximações mais articuladas entre segmentos de ambas as denominações cristãs.
Nesse sentido e sob esse quadro, o conflito entre os movimentos religiosos em questão ganha contornos de maior tensão e, como dissemos, não diz respeito apenas a questões doutrinárias e religiosas. Ao contrário, mediadas pelas disputas por acesso a instâncias de execução de poder, as instituições revelam o esforço de garantia ou expansão de privilégios que garantam maior influência e interferência na sociedade, sob estratégias diferentes.
Como mostrado no artigo já citado, “A guerra santa dos irmãos de terno”, os evangélicos pentecostais (maioria da população protestante no Brasil) conseguiram ocupar cargos de execução de poder que viabilizam a influência de suas instituições sobre o Estado por meio das eleições para cargos legislativos. Ocupando as Câmaras, Assembleias e o Senado, as igrejas passaram a propor diferentes projetos de lei e a atender aos seus interesses institucionais, acumulando mais força política, recursos financeiros e sociais.
É sob essa conjuntura que, em 2007, o professor e pastor da Assembleia de Deus eleito deputado, Victório Galli, hoje aliado e atuante na campanha de Flávio Bolsonaro, pôde propor um projeto de lei que visava retirar o título de “padroeira do Brasil” concedido à Nossa Senhora Aparecida (dando concretude às críticas realizadas no artigo do pastor Gustavo Kessler em 1980, por meio d’O Mensageiro da Paz e que reapareceram nos artigos de seu filho, pastor Nemuel Kessler, como vimos). Também é sob essa mesma linha que no livro A bomba: a verdade pode ser explosiva, publicado em 2001 pelo pastor da igreja de Flávio Bolsonaro e que o batizou, o bispo JB Carvalho, encontramos a seguinte afirmação:
“[…] o feriado de 12 de outubro é ilegal e, já que o Brasil, por lei, já não é mais um país católico, está na hora de destronarmos a Rainha em nossa nação e servir ao Deus verdadeiro. Convoco a todos os brasileiros cristãos, que amam a Deus, que se levantem e verbalizem a vontade de Deus expressa em Sua Palavra. Que Aparecida não seja mais Senhora em nossa nação e que Jesus Cristo seja o nosso único Senhor no Brasil.”
Não é sem contexto que a fala de Flávio, reproduzindo a expressão “o Brasil é do Senhor Jesus”, cria uma reação tão intensa por parte de parcelas da mobilização católica, gerando problemas para sua campanha. Ao contrário, ela emerge como eco de conflitos históricos e aparentemente velados que mesclam questões religiosas, disputas institucionais por influência, posições políticas e ideológicas.
Ainda mais se considerarmos que, diferentemente da preocupação com a perseguição religiosa presente nos artigos que sustentavam a ideia de “irmão vota em irmão”, a justificativa para a retirada do título de “padroeira do Brasil” e do feriado nacional de 12 de outubro no livro de JB Carvalho sustenta que “após Aparecida ser estabelecida como a padroeira do Brasil, nossa nação afundou na recessão, a inflação explodiu, as secas no nordeste dizimaram as plantações, enchentes no sudeste, criminalidade nas ruas, etc.” É importante destacar que, apesar de não ser pastor em uma missão da Assembleia de Deus, o bispo da igreja Comunidade das Nações, JB Carvalho, é oriundo da tradicional denominação pentecostal, com infância e juventude assembleiana.
Afinal, o Brasil é de quem?
Entre Nossa Senhora Aparecida e o Senhor Jesus, temos no dia 4 de outubro de 2026 o primeiro turno de um processo eleitoral conturbado a ser realizado. Com projeções da adesão mais baixa da história do eleitorado ao pleito, absolutamente tudo está em jogo por pequenas porcentagens de apoio popular que podem ser decisivas para a eleição de um candidato católico progressista e um candidato evangélico de extrema direita. Aparentemente, como representantes de diferentes senhorios, os projetos de sociedade e os critérios para a escolha entre um e outro definitivamente passam longe do debate público.
O país, que deveria ser nosso, enquanto pessoas trabalhadoras que garantem as condições de existência e permanência das instituições (sejam religiosas ou não), segue em uma via crucis que tensiona agentes no legislativo, no executivo e no judiciário, perdido em um mar de crises internas e globais. A determinação do pertencimento da nação a qualquer entidade que seja não altera as condições reais de vida, mas aparentemente se torna estopim para que interesses políticos e econômicos convertam corações para seu voto imediato, retirando da pauta as condições reais de existência e, das mãos das pessoas, a responsabilidade sobre essas condições, sobre sua própria atuação no mundo.
A constatação de que o que realmente importa e afeta diretamente a vida de todos é deixado de lado pela afirmação de um candidato de extrema direita que pretenderia, como primeiro ato, se eleito, decretar que “o Brasil é do Senhor Jesus”, velando disputas por influência no Estado com a auréola religiosa, é surreal e espantoso. É impossível não pronunciar involuntariamente um “minha Nossa Senhora” ao perceber que, potencialmente, “o Brasil é de Jesus”.
Notas:
1.↑ Sobre a relação entre modernização e surgimento do pentecostalismo, ler “Fundamentalismo e reprodução social na América Latina”, publicado pela revista Zelota.
2.↑ Os entrevistados foram: Rev. Guilhermino Cunha, Pr. Amaury Souza Jardim, Pr. Paulo Roberto de Oliveira Ramos, Ir. Daniel Silva, Ir. Amizael Gomes da Silva, Irª. Benedta da Slva, Pb. Salatiel Carvalho, Pb. Sotero Cunha, Ev. João Antunes, Pr. Alfredo Reikdal e Pr. Carlos Apolinário.
Minha Nossa Senhora, o Brasil é de Jesus!
Bruno Reikdal
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