PEC do fim da escala 6x1, aprovada ontem no Senado, facilita a guarda do sábado para milhões de brasileiros; se eleito, Flávio Bolsonaro promete revisar a PEC e promover o pagamento por hora trabalhada
Por André Kanasiro e Felipe Carmo | editores-chefe da revista Zelota. Texto publicado originalmente em colaboração com a Spectrum Magazine.
No dia 14 de outubro de 2026, o Senado Federal aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que determina o fim da escala 6×1, com seis dias de trabalho para apenas um dia de folga. A proposta reduz a carga horária semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial — é a primeira redução desde a Constituição de 1988, que reduziu a escala de 48 para 44 horas — e estabelece dois dias de folga para o trabalhador, sendo um deles preferencialmente aos domingos. Ela começará a valer 60 dias após sua promulgação, que ainda não foi marcada, e terá um período de transição de 12 meses no qual a redução será para 42 horas semanais.
O presidente Lula (PT), candidato à reeleição este ano, publicou uma carta aos evangélicos vinculando o fim da escala 6×1 a mais tempo para os trabalhadores ficarem com suas famílias e irem à igreja.
Originada com a deputada Erika Hilton e o vereador Rick Azevedo, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), a PEC foi aprovada simbolicamente, com um único voto contra: o do ex-vice-presidente de Jair Bolsonaro, Hamilton Mourão. A bancada do Partido Liberal (PL) e aliados, que passaram os últimos três anos se mobilizando contra a redução da jornada de trabalho, votaram majoritariamente a favor da medida, sob pressão das eleições e da grande popularidade da medida em meio à população.
Mesmo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à presidência do país, votou a favor da proposta, mas já garante a aliados que, caso eleito, revisará a PEC e defenderá outra proposta de seu partido, a PEC da Flexibilidade ou do 7×0, propondo a remuneração por horas trabalhadas e a prioridade da negociação entre patrão e empregado sobre acordos coletivos. Esta PEC foi proposta pelo senador e coordenador da campanha de Bolsonaro, Rogério Marinho (PL-RN). Marinho, assim como outros nove senadores da direita e da extrema direita que são favoráveis à remuneração por horas trabalhadas, tem antepassados escravagistas.
Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), as principais áreas econômicas em que prevalecia a escala 6×1 eram as do transporte aéreo (53,2%), hospedagem (52,0%), alimentação (47,1%) e comércio (42,2%), de funcionamento contínuo e jornadas mais extensas, e sujeitavam cerca de 14,8 milhões de trabalhadores — pouco mais de um terço da mão de obra formal no país, sem contar a massa de trabalhadores na informalidade.
“É o que a igreja sempre quis”
Para entender melhor o impacto que a escala 6×1 tinha sobre a Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD), a Zelota entrou em contato com pastores e ex-pastores da denominação para entender como a necessidade de trabalhar aos sábados dificultava a conversão de novos membros ou fazia com que membros deixassem a igreja.
A resposta foi unânime: para todos, a prevalência de empregos com jornada de trabalho aos sábados foi um grande obstáculo para a conversão de novos membros ou sua permanência na IASD. Uma pesquisa de campo realizada na IASD em Pinheiro, MA, demonstrou essa dificuldade na prática. Um dos 7 adventistas entrevistados lamentou ter pedido uma oportunidade de emprego por conta do sábado, embora seu currículo estivesse alinhado à vaga. Outra entrevistada relatou ter medo de ser demitida por solicitar folga aos sábados por conta de sua convicção religiosa.
“Essa situação era muito comum”, disse um ex-pastor do sul do país que pediu para não ser identificado. “A pessoa estava frequentando a igreja, gostava dos estudos bíblicos, mas infelizmente não podia se batizar por conta do trabalho.” Ele atuou como pastor em áreas onde a maior parte dos empregos era na indústria de laticínios e cooperativas agrícolas, ramos que trabalhavam com uma folga semanal rotativa. “Era muito comum uma família estar se batizando, mas o pai não tomava a decisão. Acompanhava, participava dos cultos, era dizimista e ofertante… Mas não tinha jeito. Precisava trabalhar, sustentar a família.”
Em sua experiência, a necessidade de trabalhar aos sábados também causava a evasão de muitos jovens que se batizaram na infância e adolescência devido à influência dos aventureiros e desbravadores. “Quando eles chegavam ali nos 16, 17 anos, iam pro último ano do ensino médio e comecinho da faculdade, essa galera saía em peso da igreja, porque não tinha o que fazer, não tinha oportunidade de trabalho que oferecesse uma folga no sábado.”
A experiência parece ser a mesma nas grandes cidades. “Os líderes da associação não entendem que não dá mais pra crescer nessa região”, disse um ex-obreiro, referindo-se à periferia de São Paulo. “Todo mundo aqui precisa trabalhar no sábado se quiser sobreviver.”
Na experiência de um ex-pastor da região, cerca de 30-40% dos que recebiam estudos bíblicos deixavam de se batizar por não poderem deixar de trabalhar aos sábados. Já para um pastor ainda ativo na cidade, o problema é ainda mais profundo e difícil de mensurar, pois é algo que não aparece “nos números” — membros da IASD que deixam de frequentá-la por terem que trabalhar aos sábados nem sempre são excluídos, enquanto interessados podem frequentar a igreja por muito tempo sem serem contabilizados como membros por trabalharem em alguns sábados.
Há ainda relatos de pastores que, nos centros urbanos, promovem soluções alternativas para os novos convertidos mais jovens. Em determinadas congregações, é possível acessar uma rede de empresários adventistas já inseridos no mercado de trabalho que contribuem com a contratação do perfil sabatista. Mesmo quando faltam opções para tais empregadores, eles podem recorrer a uma rede de parceiros que facilitam a contratação de adventistas com tais limitações.
A pesquisa de Milton Aparecido Azevedo é particularmente ilustrativa sobre essa realidade. Ele constatou que, entre 1980 e 2020, na cidade de Assis Chateaubriand, PR, os valores adventistas — interpretados de uma perspectiva weberiana — impulsionaram os adventistas a se adaptarem à economia do mercado por meio de iniciativas de empreendedorismo. Essa preferência ocorreu, segundo o autor, porque a obrigação do repouso sabático contradizia a lógica de produção capitalista, forçando os membros a encontrarem alternativas autônomas na cidade.
Em conversa com a Zelota, Marcelo Rezende, que foi pastor adventista por 24 anos, atuando em igrejas locais e servindo em áreas como departamento de Escola Sabatina e Ministério Pessoal e campanhas evangelísticas, deu um panorama mais detalhado do problema. “Você tem que convencer o cara que ele precisa passar por esse processo de estresse emocional, de insegurança econômica, de medo em relação ao futuro, porque essa é a condição que Deus exige para que ele de alguma maneira adquira um benefício espiritual e o direito à vida eterna”, diz Rezende, que vê a guarda do sábado como um grande obstáculo à evangelização hoje, especialmente com a situação socioeconômica do país.
“Por outro lado, paradoxalmente, a gente vê pessoas mais pobres, em situações de maior vulnerabilidade, que já estão acostumadas a viver o risco da vulnerabilidade o tempo todo, mais dispostas a adotar a guarda do sábado do que pessoas que se vêem numa situação de relativa segurança financeira”, complementou.
Uma vez que a pessoa se batiza na IASD, há dois cenários em que, para Rezende, o sábado tende a ser um problema. Caso a pessoa seja batizada rapidamente, como numa conferência de evangelismo, ela não tem tempo de criar uma rede de apoio e laços comunitários entre adventistas, e se arrisca a perder fontes de renda ou redes de sociabilidade que tinha antes e dependiam dos sábados. “Ele não tem um ambiente social formado onde ele se sente parte; ele perde aquele outro ambiente social de onde ele vinha. Ele fica no limbo, entendeu?”, diz Rezende.
O segundo cenário, e o mais relevante, é o da crise financeira, quando a pessoa, pressionada por uma situação difícil, como dívidas e desemprego, resolve aceitar uma proposta de emprego em que o sábado é requerido. “O cara fala ‘eu vou agora trabalhar então só por esse momento, só nessa fase aqui até remediar essa situação, então depois eu volto a guardar o sábado como Deus quer’”, diz Rezende. Mas frente ao discurso da IASD, para a qual ceder num único momento significa “dobrar o joelho a Baal” ou “se ajoelhar diante da estátua de ouro de Nabucodonosor”, o membro se intimida a voltar. “Não tem negociação, sábado é inegociável em qualquer circunstância de dificuldade que a pessoa passa. Então ele acaba sendo, sim, em certas situações, um motivo de evasão da igreja.”
As limitações encontradas entre os adventistas não se restringem à inserção no mercado de trabalho, mas afetam mesmo os que já se encontram nele. Uma pesquisa qualitativa, realizada em Naviraí, MS, entre setembro e outubro de 2003, constatou que 7 das 8 pessoas entrevistadas sofriam preconceito ou discriminação por guardarem o sábado. Além disso, 6 deles tiveram que recusar promoções, aumentos salariais ou novas oportunidades de trabalho por conflitarem com a guarda do sábado. Mesmo nesse contexto, todos afirmaram preferir a demissão a violar o sábado.
Esses profissionais adventistas costumam ser taxados de “preguiçosos” ou “favoritos” por usufruírem de aparentes privilégios. Alguns, para compensar a ausência aos sábados e evitar percepções de injustiça, relataram desistir das horas de almoço para complementar as horas perdidas, além de se sentirem pressionados a serem exemplos de produtividade nos dias úteis. Além de reduzir o horário de almoço, os adventistas entrevistados no estudo de Pinheiro relataram a necessidade de chegar antecipadamente ao trabalho ao longo da semana ou realizar permutas de escala com colegas para manter o sábado livre.
Para ratificar ainda mais a necessidade de manter fidelidade ao sábado em detrimento das limitações empregatícias, a IASD acrescentou à série de vídeos “Provai e Vede”, apresentada semanalmente nas congregações, testemunhos de pessoas abençoadas por Deus por resistir à tentação de trabalhar aos sábados. As narrativas não se restringem apenas à questão do trabalho, mas encorajam os membros a preferir santificar o sábado em face de qualquer outra responsabilidade mundana como prova de fidelidade a Deus.
Por esses motivos, para Rezende, assim como para os outros pastores e ex-pastores ouvidos pela Zelota, o fim da escala 6×1 representa uma vitória para a IASD, pois possibilita que menos pessoas trabalhem aos sábados e, portanto, possam ser alcançadas por iniciativas evangelísticas. É por isso que, para muitos deles, o silêncio da igreja a respeito é motivo de perplexidade.
“Vai ajudar naquilo que a igreja sempre quis”, disse o ex-pastor do sul do país.
Até o momento, a única manifestação da IASD a esse respeito veio de Heron Santana, no canal oficial de notícias adventistas, em que o jornalista entende que a PEC possibilitará um tempo ocioso que precisa ser preenchido. Para Santana, a ociosidade, por exemplo, pode ser oportunidade para ainda mais trabalho, desta vez dedicado à igreja e ao evangelismo. O tempo também pode ser ocupado com atividades que fortaleçam o vínculo familiar ou incentivem atividades intelectuais.
Como se faz um decreto dominical?
É inevitável perceber a semelhança entre a escala 6×1, que obrigava tantos brasileiros a trabalhar aos sábados, e o decreto dominical temido por adventistas, que só permitiria “comprar e vender” quem violasse a guarda do sábado e guardasse o domingo como dia sagrado.
Historicamente, no entanto, os adventistas se preocuparam menos com proibições à guarda do sábado e mais com proibições a trabalhar no domingo; no século 19, vários adventistas foram presos por se recusarem a descansar no domingo1, algo compreensível numa denominação que, na época, era composta majoritariamente de pequenos proprietários rurais brancos2 que queriam cuidar de suas propriedades e já perdiam um dia de trabalho aos sábados. Conforme urbanização e industrialização avançavam, lideranças adventistas agiram de forma reacionária já no final do século 19, espalhando notícias falsas e teorias da conspiração sobre sindicatos e movimentos trabalhistas.
Por outro lado, os pioneiros adventistas se posicionaram veementemente contra a escravização de pessoas negras nos EUA, chegando a expulsar escravagistas de suas igrejas e ajudar na fuga de escravizados. O fim da escala 6×1, da mesma forma, foi comparado por muitos ao fim da escravidão brasileira — afinal, segundo historiadores, os escravizados brasileiros também trabalhavam seis dias por semana.
A IASD, ainda que não tenha encontrado razões para lutar, tem motivos de sobra para celebrar, vigiar e orar para que os herdeiros desse legado escravagista, representados na figura de Flávio Bolsonaro, não voltem ao poder e dificultem ainda mais a guarda do sábado no país. O segundo turno das eleições de 2026 pode, nesse sentido, reforçar ou não uma legislação trabalhista que facilite o número de conversões ao adventismo no Brasil.
Notas:
1.↑ Cf. Bull, Malcolm; Lockhart, Keith. Seeking a Sanctuary: Seventh-day Adventism and the American Dream (Indiana University Press, 2006), p. 197, n. 92. Kindle Edition.
2.↑ Cf. André Kanasiro, “The Land of Theology Against the Theology of the Land: How the US Adventist Culture Shaped the South American Church”, Spectrum 51.3-4 (2023), 97-105.




