A articulação entre protestantes históricos e pentecostais na militância evangélica revela uma divisão espiritual da militância evangélica e a importância das igrejas na mediação de relações entre Estado e Mercado na sociedade brasileira


“Fala, Vorcarinho…”

O pastor da Igreja Presbiteriana de Pinheiros e atual ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, foi mencionado em áudio do advogado Ciro Rocha Soares para um de seus clientes, Daniel Vorcaro, peça central no escândalo do Banco Master. O caso, trazido à tona pelo jornalista Paulo Motoryn e divulgado junto ao ICL Notícias, revela a crise institucional generalizada na política brasileira e abre oportunidade para uma discussão específica: a articulação entre evangélicos na execução do poder no país.

Em 2021, o pastor André Mendonça foi indicado pelo então presidente (e atualmente presidiário) Jair Messias Bolsonaro para ocupar uma das cadeiras do STF e ficou conhecido por preencher o requisito de ser “terrivelmente evangélico”, critério escolhido pelo ex-presidente para a seleção de um juiz para o Supremo. Em um primeiro momento, é difícil imaginar como a religiosidade de uma pessoa poderia ser considerada uma qualificação determinante para a atuação como magistrado. Contudo, ao menos na etiqueta da vestimenta, há algo comum entre pastores e juízes: a necessidade de desempenharem suas funções trajados de terno.

Tal conexão pôde ser imaginada, nesse momento, dado o contexto dos áudios do advogado Ciro Rocha Soares ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro enviados em fevereiro de 2025, nos quais disse a seu cliente:

“Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno.”

Em seguida, Ciro compartilha com Vorcaro uma foto ao lado do ministro André Mendonça na alfaiataria de luxo em São Paulo, “Vasco e Vasconcelos”, e acrescenta:

“O André Mendonça disse que quer te receber junto comigo. Ele sabe… soube da situação do Banco Central toda. Eu contei. Ele já sabia que o Cezinha já tinha falado com ele.”

O advogado, então, buscou organizar uma reunião entre Daniel Vorcaro e André Mendonça, que ocorreu posteriormente, em março de 2025, graças à mediação de Cezinha, também citado no áudio. Cezinha de Madureira, assim como Mendonça, utiliza terno na execução de suas funções como deputado federal eleito na Bahia pelo Partido Liberal (PL) e como pastor da Assembleia de Deus Ministério Madureira. Ocupando cargos públicos e sendo evangélicos, André Mendonça e Cezinha da Madureira estão articulados não apenas para viabilizar o encontro com o irmão Daniel Vorcaro, que é membro da Igreja Batista da Lagoinha e cunhado de Fabiano Zettel (também advogado, também pastor e também usuário de terno para a execução de suas atividades profissionais), como também para a atuação evangélica militante na política brasileira.

A organização de evangélicos no Estado brasileiro não pode ser compreendida ingenuamente como um grande plano bem estruturado ou um “projeto de poder”, no qual, de modo caricato, grandes lideranças se reuniriam em uma sala no fundo de uma igreja e decidiriam seus próximos passos para dominar o país. É, na verdade, uma conexão entre sujeitos viabilizada pelas estruturas institucionais e pelas redes interdenominacionais que garantem condições para que a atuação de agentes pertencentes a um mesmo grupo religioso seja realizada na história — e, no caso, na execução do poder por meio dos aparatos do Estado.

De todo modo, é importante considerar o processo histórico da constituição e formação da igreja evangélica no Brasil, assim como as estratégias adotadas por diferentes denominações para consolidação e expansão de suas instituições religiosas. A depender da composição da membresia, da organização das lideranças e dos meios que cada denominação possui para manter sua existência e funcionamento, o modo de buscar posições privilegiadas nos espaços de poder da sociedade brasileira é distinto. No caso em que conecta os pastores André Mendonça e Cezinha da Madureira ao fiel evangélico Daniel Vorcaro, temos três denominações representadas, as quais podem ser utilizadas como “tipo” para compreender as estratégias adotadas pela militância evangélica em sua atuação.

Históricos, pentecostais e pentecostalizados

As duas maiores denominações evangélicas no Brasil consideradas “históricas” ou “reformadas” são a Igreja Presbiteriana e a Igreja Batista. Ambas foram fundadas em território nacional durante o final do século 19, em 1862 e 1871, respectivamente. No caso da Igreja Batista, em duas fases: a primeira, como igreja de colonos estadunidenses vindos do sul escravista sem caráter evangelizador (1871) para o interior do estado de São Paulo. A segunda fase é marcada pelo caráter missionário, em 1882, a partir de uma igreja fundada em Salvador, BA.

As denominações presbiteriana e batista iniciaram suas atividades compostas por membresias de maioria branca, de classes médias, com conexões a igrejas estrangeiras e aportes financeiros para seu funcionamento, para a criação de seminários e também instituições de ensino fundamental e superior. Trajetória distinta da fundação e organização de igrejas pentecostais, como as Assembleias de Deus e a Congregação Cristã do Brasil (maiores denominações desse segmento marcado pelo carisma e êxtases espirituais em seus cultos). Apesar de também fundadas por missionários estrangeiros, estes vêm para o Brasil na condição de operários e trabalhadores incentivados pela facilitação da imigração europeia pelo Estado brasileiro nos projetos eugenistas e racistas de “branqueamento” que orientaram as primeiras ações de modernização do país sob a Primeira República, no início do século 20.

As Assembleias de Deus, por exemplo, em especial, foram fundadas pelos suecos Daniel Berg, Gunnar Vingren e Frida Vingren, em 1911, em Belém, PA. Chegaram ao Brasil em 1910 e, para conseguirem uma rede de apoio e exercerem sua religiosidade, aproximaram-se da Igreja Batista do Brasil na capital paraense, liderada pelo missionário batista Erik Nelson. Com capacitação para atuar como ferreiro, Berg trabalhou como caldeireiro e fundidor em uma companhia no porto de Belém, enquanto Vingren, que possuía formação teológica, realizava bicos como professor de idiomas para compor suas rendas e garantir a subsistência de suas famílias.

Conflitos doutrinários afastaram os suecos da igreja batista local, dada a experiência pentecostal que procuraram expressar e que entrava em conflito com a teologia reformada batista vigente. A partir desta tensão, Berg e os Vingren foram expulsos da denominação e fundaram sua própria missão: a Assembleia de Deus Ministério Belém (até hoje, a maior igreja pentecostal brasileira). As igrejas que surgiram a partir dessa ruptura e rápida expansão missionária passaram a ser instaladas nas periferias das cidades, nas casas das pessoas, e atraíram, como adeptos da nova fé, trabalhadores e trabalhadoras das periferias, compondo uma membresia majoritariamente negra, feminina e empobrecida. Sem apoio financeiro externo e sem viabilidade de estruturação de instituições formais de ensino básico ou superior, a igreja se expandiu de forma orgânica e sob relações mediadas fortemente pelo carisma das lideranças envolvidas, tendo a formalização de suas Convenções apenas durante as décadas de 1930 e de 1950.

As diferenças na formação e composição destas duas vertentes (históricos e pentecostais) expressam uma diferenciação de classe entre seus agentes e de condições para a atuação política e social. No decorrer do século 20, temos, por um lado, uma denominação burocratizada, com estrutura consolidada para a educação superior formal de seus membros e da liderança, e, por outro, uma denominação marcadamente popular e carismática, que confere prestígio pela capacidade de impactar e/ou mobilizar comunidades. Especialmente pós-redemocratização, a primeira foi capaz de atuar politicamente por meio de quadros técnicos com potencial de ocupar posições administrativas, executivas e mesmo no poder judiciário (seja mediante concurso público ou indicação). A segunda, por sua vez, não formou quadros técnicos, mas constituiu maior capilaridade popular e capacidade de mobilizar massas (que compõem a maior parte dos evangélicos do país), competindo nos pleitos por cargos legislativos.

Desse modo, na divisão espiritual do trabalho militante de evangélicos no Brasil, os agentes envolvidos na execução de poder via Executivo e Judiciário estão posicionados majoritariamente em igrejas históricas, ao passo que os representantes de pentecostais estão concentrados, em sua maioria, no poder Legislativo, com viabilidade eleitoral. Entre estes dois “pólos”, há um terceiro: os históricos pentecostalizados. Tratam-se especialmente de igrejas oriundas de tradições batistas que, a partir do boom evangélico do final dos anos 1980 e início dos anos 2000, aderiram a ritos e doutrinas da tradição pentecostal, especialmente o êxtase promovido durante os cultos. São igrejas majoritariamente de classes médias que mobilizaram diferentes gerações de juventudes e impactaram a produção cultural, planejando uma adequação estética contemporânea e definidora de tendências. Hoje, muitas são reconhecidas no senso comum como “igrejas de parede preta”.

Daniel Vorcaro, por exemplo, é membro de uma denominação deste tipo: a Igreja Batista da Lagoinha. Seu cunhado, Fabiano Zettel, é pastor desta organização religiosa e pivô no escândalo do Banco Master. Assim como Vorcaro, seus líderes são de classe média, brancos, mas pertencem a uma denominação pentecostalizada que é capaz de transitar entre o uso do carisma como recurso de impacto entre fiéis e a capacitação formal e estruturada de seus quadros — dada a posição social de sua membresia e da liderança. As redes estabelecidas entre os agentes e seus objetivos pessoais e institucionais passam pelas condições que as organizações nas quais estão envolvidos propiciam — entre elas, as igrejas evangélicas.

A igreja e o Estado como pontos de contato

Esses três tipos de denominação permitem uma visualização mais clara da divisão espiritual na militância evangélica. Dos 96 deputados autodeclarados evangélicos eleitos no último pleito, 65% são de denominações pentecostais (considerando as Assembleias de Deus e a Igreja Universal do Reino de Deus como as organizações com maior número de representantes). Entre o restante, 15 deputados são de igrejas batistas que poderiam compor o grupo de pentecostalizados. A minoria, portanto, é oriunda de tradições históricas e reformadas. Já no poder executivo e judiciário, considerando o caráter técnico e de carreira dependente de concursos públicos, torna-se mais difícil uma precisão nos dados. Contudo, se adotarmos como critério a presença em cargos comissionados e por indicação do Poder Executivo no cenário federal, a figura se torna mais consistente.

No governo de Jair Messias Bolsonaro, como exemplos, o pastor presbiteriano André Mendonça ocupou a Advocacia-Geral da União (AGU) e foi indicado para ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), ao passo que o Ministério da Educação (MEC) foi ocupado pelo também pastor presbiteriano Milton Ribeiro. Ainda no âmbito da educação, o presbiteriano Benedito Guimarães Aguiar Neto ocupou a cadeira de presidente da CAPES. De outra vertente histórica, o luterano Onyx Lorenzoni foi indicado como ministro para a Casa Civil, ao passo que os batistas históricos Luis Eduardo Ramos e Sérgio Carazza foram nomeados como Ministro-Chefe da Secretaria de Governo e Secretário-Geral do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, respectivamente.

Por sua vez, ainda há o tipo pentecostalizado, como a oriunda da Igreja do Evangelho Quadrangular e hoje pastora ligada à Igreja Batista da Lagoinha, Damares Alves, que ocupou o cargo de Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos durante o governo de Jair Messias Bolsonaro e que, hoje, é senadora da República. Ou mesmo evangélicos de denominações difusas, como Claudio Panoeiro, Sérgio Sant’ana, ou mesmo Jorge Seif. A minoria, por sua vez, seria como Bruno Bianco, que exerceu o cargo de Advogado-Geral da União entre 2021 e 2022 para substituir o pastor André Mendonça e é membro da Igreja Sara Nossa Terra.

Curioso imaginar que o membro da Igreja Sara Nossa Terra e ex-Advogado-Geral da União tenha sido citado pelo advogado Ciro Rocha Soares na intermediação do encontro entre o irmão Daniel Vorcaro e o pastor-ministro André Mendonça. Bianco, pentecostal, prestou serviço de consultoria e assessoria jurídica ao Banco Master e foi indicado para realizar uma apresentação ao presbiteriano André Mendonça, que, de acordo com Ciro, gostaria de receber Vorcaro para uma reunião em fevereiro de 2025:

— “O André quer te receber. Acho que eu dei uma balançada nele naquele assunto.”

— “Ô, Dani, deixa eu te falar aqui, pede ao Bruno Bianco chegar aqui quatro e meia, pode ser? Que aí a gente faz uma apresentação aqui. Ou quatro e vinte.”

No entanto, como exposto por Paulo Motoryn e pelo ICL Notícias, o encontro apenas ocorreria em março, mediado pelo pastor deputado assembleiano Cezinha da Madureira. As redes estabelecidas entre interesses pessoais e financeiros de indivíduos e de determinados grupos políticos têm como uma de suas condições o uso das estruturas (e dos corredores) do Estado e da igreja como pontos de encontro entre os agentes. 

Isso fica ainda mais claro nos áudios trazidos a público pela jornalista Juliana Dal Piva, também junto ao ICL Notícias, que revelam trocas de mensagens entre dois membros da Igreja Batista da Lagoinha: o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o deputado federal Nikolas Ferreira.

“Troquei ideia lá com o Pastor Valadão naquela época, lá naquela postagem, eu falei: ‘Pastor, eu não fazia ideia que era este o Banco do Dani etc. e tudo, se não, obviamente eu não teria postado, já teria conversado anteriormente’, mas enfim, acabou que a palavra dita não tem como voltar, né? Mas espero que tenha sido esclarecido, enfim, depois vamos marcar da gente se encontrar também, tá bem? Um abraço, lindão.”

No contexto do áudio, Nikolas buscava um favor e um apoio do banqueiro para seu assessor e também advogado, Thiago Rodrigues de Faria. Aliviando tensões, comenta com Vorcaro um contato com o Pastor André Valadão, da Igreja Batista da Lagoinha, no qual o líder religioso teria exortado o deputado após uma postagem em rede social que afetava o Banco Master. Em sua exortação, de acordo com o áudio, o pastor Valadão teria alertado Nikolas de que se tratava do “Banco do Dani” e que, caso o deputado soubesse previamente que se tratava da instituição de seu irmão em Cristo, teria evitado dizer o que disse.

Como personagem aparentemente “paralelo” aos poderes políticos e financeiros do país, o pastor da Igreja Batista da Lagoinha se torna um interventor nas ações de um deputado em defesa dos interesses de um membro de sua comunidade. O fato de pertencerem à mesma denominação viabiliza as condições para ajustes, acordos e alinhamentos entre os agentes. Ao mesmo tempo, a instituição religiosa se torna um ponto de contato entre o poder político de uma legislatura em mandato no Estado e uma instituição financeira com seus interesses de mercado.

O pastor mediador

Como já indicado, não há um “grande plano” coeso ou “projeto de poder” unificado entre lideranças religiosas para a tomada do poder. Há, sim, ações, relações e realizações viabilizadas pelas instituições nas quais os agentes estão envolvidos com seus interesses. Desse modo, há conflitos entre sujeitos e instituições, assim como alianças imediatas ou duradouras. Nesse processo histórico, as igrejas e suas lideranças passam a ser potenciais pontos de contato que tornam possível a mediação entre indivíduos e grupos.

O caso do contato entre os membros da Igreja Batista da Lagoinha, Nikolas Ferreira e Daniel Vorcaro, requer a mediação do pastor da denominação. Contudo, dadas as posições sociais ocupadas por ambos, torna-se uma mediação entre Estado e Mercado, na qual, em favor dos interesses financeiros do banqueiro, o líder religioso intervém, como demonstrado no vazamento de áudios de abril de 2024 entre André Valadão e Daniel Vorcaro:

— “De novo pedir sua ajuda com Nikolas. Estão usando a fala dele pra me atacar, por conta de patrocínio num evento em Londres. Acontece que, talvez ele não saiba, participaram vários membros da direita, como Ciro Nogueira, um dos líderes oposição.”

— “Oi Dani. Claro amanhã falo com ele.”

De acordo com a reportagem, tratava-se de uma postagem de Nikolas Ferreira sobre o 1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias, realizado em Londres e que reuniu em seu painel personalidades políticas e da área jurídica, incluindo integrantes do governo Lula e ministros do Supremo Tribunal Federal, Superior Tribunal de Justiça e do Tribunal Superior Eleitoral. Apesar de também terem sido convidadas lideranças de direita e da oposição ao governo, o jovem deputado do PL teria criticado o evento e questionado quem teria sido o patrocinador a custear os valores das viagens e da estadia dos participantes.

O problema é que um dos investidores responsáveis era o próprio Vorcaro, o qual, posteriormente, acionaria o pastor para que ele o “ajudasse” com Nikolas. A preocupação de Vorcaro é que seu irmão em Cristo estaria em vias de solicitar esclarecimentos ao Conselho Nacional de Justiça. Desse modo, ao interpelar André Valadão, Vorcaro obteve como resultado a resposta do pastor indicando que havia contatado Nikolas:

“Eu falei com ele né, de todo apreço, de todo apoio que a gente tem e tudo, e que as coisas às vezes chegam pra ele de um jeito que não é a verdade. Ele vai me chamar aqui.”

O intuito do irmão e banqueiro Daniel era, como explicitado em mensagem enviada ao seu pastor, saber de Nikolas Ferreira “se estamos do mesmo lado ou agora estamos um contra o outro”. Algumas horas depois, o pastor retorna uma mensagem para Vorcaro: “Resumindo. Ele nem sabia sobre o banco e vc ‘palavras dele né’ e daí pediu perdão demais e vai contornar tudo”, e que o deputado teria confirmado ser grato ao banqueiro: “disse da gratidão com vc [Vorcaro] e por aí vai…”.

A atuação do parlamentar, portanto, sofreu interferência do mediador religioso André Valadão — o que fica claro no áudio posteriormente enviado por Nikolas para Daniel Vorcaro em buca de auxílio para seu assessor, ao dizer que “troquei ideia lá com o Pastor Valadão naquela época, lá naquela postagem, eu falei: ‘Pastor, eu não fazia ideia que era este o Banco do Dani etc. e tudo, se não, obviamente eu não teria postado, já teria conversado anteriormente’”.

Em resposta ao pedido do deputado em março de 2025, o banqueiro enviou em texto a seguinte mensagem: “Amém, irmão. Estamos na guerra juntos”. Aparentemente, se havia alguma dúvida a respeito de qual lado Nikolas estaria, ao menos nesse momento, estariam “na guerra juntos”.

A guerra: militância em nome de quem?

Afinal, qual guerra une Vorcaro a Nikolas? Uma guerra espiritual? Religiosa? Ou lutas pelo poder temporal e concreto da política nacional? Entre religião, mercado e representação de interesses de grupos sociais em uma democracia liberal, aparentemente o traje de batalha requerido como indumentária adequada aos combatentes é o terno. As posições de pastor, fiel, advogado, magistrado, empresário e servidor do Estado (muitas vezes ocupadas pela mesma pessoa) se aliam ou chocam-se entre si, mediadas pelas instituições disponíveis e que dão condições para a movimentação dos sujeitos. Claramente, há projetos compartilhados concorrentes entre diferentes grupos e interesses pessoais conflitantes, que dão à luz a história em seu processo de realização em uma sociedade moderna, capitalista, desigual e com complexa divisão social do trabalho.

Os resultados desses embates nos bastidores do cotidiano afetam as vidas de milhões de pessoas. Diante desse quadro, um religioso poderia sustentar que a política corrompe sua fé, e uma pessoa sem crença, que a religião corrompe a política e o espaço público. Em ambas as posições, há um idealismo que imagina a guerra existente, no fundo, como uma batalha pela religião popular (e mesmo por seu fim).

Por um lado, há uma emulação do conservadorismo humanista britânico do início do século 20, do tipo de Hilaire Belloc ou G. K. Chesterton, carregados de seu cinismo, descrença na política e boas intenções. Por outro lado, praticamente uma imitação ingênua de posições análogas às críticas filosóficas à religião na Alemanha do século 19, especialmente entre os chamados “hegelianos de esquerda”, como  Ludwig Feuerbach, Bruno Bauer ou Max Stirner, nas quais a crítica da religião resultaria em uma implicação política modernizante e libertadora.

Superando ambas as posições e colocando as coisas em seu lugar, a crítica materialista de Marx desloca essa guerra contra a “expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real”, como define a religião, para o ponto que realmente lhe interessa: a luta de classes existente em uma sociedade e resultante de sua própria reprodução social. Quanto mais modernas, com maior divisão social do trabalho e suas estratificações, maiores as tensões resultantes da disputa pelos bens sociais monopolizados pelos responsáveis pela coordenação da divisão social do trabalho. Em última instância, há uma divergência clara entre os interesses daqueles que decidem os rumos da divisão social do trabalho e a distribuição do produto social e aqueles que realizam a produção e sofrem com os efeitos das decisões tomadas pelas elites.

Contudo, com o aumento da complexificação dessa ordem social, especialmente em uma sociedade que torna mais escassos e monopolizados seus bens sociais, as disputas de interesses também se sofisticam, de modo que cada pessoa passa a utilizar os meios disponíveis para “melhorar de vida”, ou seja, garantir maiores privilégios na sociedade na qual está inserida. Esses meios são viabilizados pela organização das instituições existentes e pelo acesso a elas, que em suas funções garantem, por sua vez, determinados bens sociais — mais ou menos úteis, de maior ou menor valor. Cada instituição, portanto, se organiza e atua para manter sua função social ativa e permanecer de pé em meio a conflitos, no esforço para a manutenção da própria sociedade como um todo, determinada pelas decisões tomadas por quem coordena a divisão social do trabalho (no capitalismo, os donos dos meios de produção).

Sob essa grande roda de conflitos, tensões e relaxamentos, alianças e disputas, a história se desenvolve, o Estado tendencialmente se converte em uma banca de negócios para investidores e capitalistas, um meio de vida para usuários de terno e um mecanismo potencial de intervenções nas demais instituições. A igreja, por sua vez, na democracia liberal, se converte em uma banca de negócios para postulantes a cargos eletivos da estrutura estatal, um meio de vida para usuários de terno e um mecanismo potencial de constituição para comunidades engajadas e mobilizadas.

A guerra não é política, nem religiosa. É apenas a expressão da história em movimento, a “luta de classes”. A compreensão dessa dinâmica pode potencializar, em certo sentido, nossa observação da situação atual e, quem sabe, articular de modo mais consciente e organizado nossas intervenções na realidade social — dado que também somos agentes, apesar de não necessariamente sermos pastores, juristas ou usuários de terno. Fica em aberto, contudo, em última instância, não o problema de “qual guerra está sendo travada”, mas “em nome de quem”. Possa a consciência de por quem fazemos o que fazemos — e por quem eles fazem o que fazem — orientar nossas tomadas de decisão para além da existente divisão espiritual do trabalho militante.