Edição votada em 2025 define que membros e obreiros só podem ocupar cargos se forem fiéis no pagamento de dízimos e ofertas; divisão sugere a doação de mais 10% da renda como oferta
Por André Kanasiro e Felipe Carmo | editores-chefe da revista Zelota. Publicado originalmente em colaboração com a Spectrum Magazine.
Em maio de 2026, a Divisão Sul-Americana (DSA) começou a promover mudanças ao Manual da igreja que foram aprovadas na Assembleia da Associação Geral (AG) de 2025 a respeito de dízimos e ofertas. O parágrafo do Manual exigindo que líderes da Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD) sejam fiéis na devolução dos dízimos como qualificação para serem eleitos agora também se estende a ofertas. Por causa da mudança, a IASD na América do Sul está encorajando seus líderes a reorganizarem suas finanças e se adaptarem às novas exigências da igreja. Seguir as sugestões da divisão à risca poderia comprometer quase 20% da renda mensal dos membros em contribuições à denominação.
O Manual foi revisado da seguinte forma:
“Exemplo nos Dízimos — Todos os oficiais devem ser exemplo na questão da devolução do dízimo à igreja. Alguém que falhe em ser tal exemplo não deve ser eleito para um cargo na igreja” (Manual da igreja, 2022).
“Exemplo no dízimo e na oferta. Todos os oficiais devem dar o exemplo na devolução fiel do dízimo e na entrega de ofertas à Igreja. Quem não der esse exemplo não deverá ser eleito para cargos na igreja” (Manual da igreja, 2025).
Embora a fidelidade nos dízimos e ofertas não seja tratada como questão de salvação na IASD, a infidelidade pode ter consequências institucionais, incluindo a demissão de um emprego na denominação ou a desqualificação para um cargo na igreja. O mesmo se aplica a pastores, que, na América do Sul, muitas vezes têm seus dízimos descontados diretamente da folha de pagamento, e agora discutem se isso também se aplicará a ofertas.
Roubando a Deus
Essas mudanças no Manual da igreja foram divulgadas a pastores e membros da IASD no início de maio, durante a semana do ministério de mordomia. As igrejas foram encorajadas a organizar semanas de oração focadas na importância de doar sistematicamente. Na União Leste Brasileira (ULB), a programação, intitulada “Crescendo em graça: Tudo por amor a Ele”, teve a presença de Josanan Alves, diretor do Ministério de Mordomia da DSA. Um obreiro que estava presente no evento da ULB e pediu anonimato contou mais à Zelota: “Foram quatro dias falando só disso: de dízimo e oferta.”
O evento teve duas programações separadas: pela manhã, as palestras eram exclusivamente para pastores, enquanto o evento noturno era aberto aos membros da igreja. Os cultos noturnos foram transmitidos no YouTube, com sermões mais espirituais. As palestras da manhã, que só foram transmitidas em plataformas fechadas, foram mais focadas em políticas e procedimentos. “A temática principal era ensinar pastores a ensinar para os membros a importância não só de você ser um dizimista, mas você ser um ofertante regular, e a obrigatoriedade disso pra você assumir cargos na igreja”, disse o obreiro. Nas palestras, Alves também descreveu as orientações como uma política nacional.
As palestras pela manhã discutiram a fundo a lógica por trás da revisão do Manual da igreja, alegando que ela cumpria exigências bíblicas e fazia os líderes de exemplo. As palestras também enfatizaram que a informação financeira dos membros não deve ser revelada ao público, exceto quando exigido por lei ou pela comissão de nomeações.
Alves disse que os membros da igreja definem quanto dão em ofertas regulares, mas o conselho da divisão era que as ofertas deveriam ser mais 10% da renda pessoal. “A pessoa ser obrigada a dar 20% da sua renda mensal pra poder exercer algum cargo na igreja, pessoas que em sua maioria estão em vulnerabilidade social”, disse o obreiro. Ele lembrou de uma história que Alves contou durante as palestras. “Teve irmão que chegou pra ele e falou ‘pastor, esses 10% da oferta regular, eu conto do bruto que eu recebo, ou do líquido que sobra pra mim depois que eu tirar o dízimo?’ O pastor [Alves] falou ‘O que você acha, irmão? Você quer roubar a Deus?’”
Não é incomum a adventistas brasileiros ouvir cálculos detalhados do que devem à IASD, descritos numa linguagem piedosa, e às vezes agressiva. Em meados de 2023, por exemplo, Marcelo A. Carvalho, na época diretor de Mordomia da União Central Brasileira (UCB), publicou uma série de vídeos na conta do Instagram do departamento direcionada aos membros. Nos vídeos, Carvalho apresentava cenários hipotéticos que exigiram o pagamento de dízimos, incluindo ganhar uma Ferrari de presente. “Se não tem condições de devolver o dízimo de uma Ferrari, talvez você não tenha condições de mantê-la”, disse, explicando que o presenteado deveria pagar 10% do valor do carro como dízimo. “A sugestão”, prosseguiu, “é que venda-a e dizime de uma vez, ou que fique com ela e dizime, ainda que parcelado”. O video foi posteriormente retirado do ar.
Em outros vídeos, Carvalho dava uma lista do que exigia o pagamento do dízimo: salário bruto, heranças, ajustes inflacionários ao reembolso do imposto de renda, rendimentos na poupança, bolsas, pagamentos de compensação trabalhista, vale-refeição, mesada — e até mesmo a possibilidade de ganhos em apostas, já que, observou, a igreja não investiga a origem dos recursos. Carvalho também afirmou que, embora a fidelidade nos dízimos e ofertas não seja uma condição para salvação, os membros que não os devolvem podem estar sujeitos à maldição divina.
Barganhar com Deus também foi — talvez involuntariamente — um tema nas apresentações de Alves aos funcionários da divisão. “Um pastor de distrito deu um testemunho” sobre um casal que acompanhava. O casal só tinha dinheiro para o mercado, mas o pastor os aconselhou a devolver o dízimo da mesma forma. “Ele disse que eles foram fiéis no dízimo; meses depois, ele voltou, e a casa desse casal estava ‘toda reformada’”.
Enquanto discutia os procedimentos para implementar as novas regras, Alves também sugeriu que as contribuições fossem descontadas diretamente da folha de pagamento dos obreiros. “Ele brincou, dizendo ‘se a associação quiser assumir mais pecados meus, eu tô disposto’”, disse o obreiro — a ideia seria que associação poderia desviar as críticas da divisão assumindo a responsabilidade por essa medida impopular. O obreiro acrescentou que se sentiu muito desencorajado após as palestras. “Eu não cresci em graça em nenhum momento, eu decresci em minha conta bancária”.
Os pastores reagem
O desconto de dízimos do contracheque de obreiros tem sido uma prática na DSA há muito tempo. Embora algumas instituições apresentem esse arranjo como uma opção para obreiros e funcionários, outras não dão escolha. A Zelota falou com quatro pastores adventistas de diferentes regiões, garantindo-lhes anonimato para protegê-los de eventuais represálias de seus empregadores.
Segundo um pastor de São Paulo, obreiros e funcionários no Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp) não têm o dízimo descontado de seu salário “porque o jurídico é mais esperto”. Em contraste, tais descontos são obrigatórios na Associação Paulistana (AP). “Eles nem perguntam”, disse o pastor.
O mesmo pastor, no entanto, disse à Zelota que descontar ofertas diretamente do contracheque é “doideira”, e que não seria implementado na AP.
A revisão do Manual da igreja também foi discutida dentro da União Norte Brasileira, embora não haja informações oficiais sobre como seria aplicada aos pastores. Segundo um ministro adventista da região, a questão foi mencionada brevemente, e no momento não há pressão para decisões rápidas. Ele concorda que líderes da igreja devem servir de exemplo em dízimos e ofertas por uma questão de consistência teológica e alinhamento com a missão da IASD, mas reconhece que os pastores têm opiniões divergentes sobre o assunto. O ministro disse que, atualmente, não há exigência, em sua união, para que pastores tenham dízimos ou ofertas descontados de seus contracheques.
Um pastor da União Centro-Oeste Brasileira (UCOB), embora concorde com as novas exigências pelos mesmos motivos que o pastor nortista, questionou como isso seria fiscalizado na prática. Embora a UCOB não exija que pastores descontem a oferta diretamente de seus salários, ele diz que não há um sistema estabelecido para determinar se um pastor está devolvendo a oferta com fidelidade. Além do fato de que a oferta costuma ser pago em dinheiro, a quantia pode variar de acordo com a situação financeira de um pastor.
Mas no sul do Brasil, um um ex-pastor adventista da União Sul Brasileira (USB) descreveu um cenário menos otimista. No passado, mesmo que o dízimo já fosse descontado do salário dos pastores, os líderes da IASD ainda insistiam que os pastores devolvessem o dízimo de presentes que recebiam da igreja, tais como airfryers ou ovos de páscoa. O ex-pastor observou que os líderes enviavam mensagens em grupos do WhatsApp de pastores, dizendo que os presentes recebidos deveriam ter seu dízimo devolvido à união.
Segundo essa fonte, tais comentários eram feitos como ameaças veladas, sugerindo que os pastores poderiam ser demitidos por não aderirem aos ensinamentos da IASD sobre o dízimo. Os pastores também supostamente ouviam que suas finanças pessoais eram monitoradas. “Oficialmente, era um tom de ameaça: por enquanto estamos aconselhando e acompanhando”, disse a fonte, “mas estamos vendo todos os casos de perto. Extraoficialmente era: quando eu precisar mandar alguém embora, eu tenho uma carta na manga pra usar.”
Ele também explicou que, em relação a funcionários, a instituição parou de descontar diretamente dos salários devido a preocupações legais. No entanto, a tesouraria supostamente mantinha a prática de dar aos pastores uma lista de funcionários que não devolviam o dízimo. O ex-pastor não soube informar se a união estava implementando algo em relaão a ofertas.
A Zelota falou com vários outros pastores de várias regiões do Brasil. A mudança no Manual da igreja é recente, e ainda não há evidências de que as ofertas passaram a ser obrigatórias para os ministros; conversas a respeito, por enquanto, parecem especulativas. Mas outros pastores acreditam que a liderança está preparando o terreno para fazer tais exigências.
Para obter uma declaração oficial ou explicação das instituições citadas acima, a Zelota entrou em contato com o presidente e o tesoureiro da USB, assim como os diretores de mordomia das associações, uniões e divisões. Nenhum deles respondeu às perguntas até a publicação desta matéria. A Zelota entrou em contato com a equipe de comunicação da AP, mas foi redirecionada ao departamento de comunicação da DSA. Não houve outra resposta.
Quem pode liderar?
A linguagem do Manual da igreja representa a devolução dos dízimos por líderes da igreja não meramente como dever pessoal, mas como princípio fundamental de liderança e pré-requisito para a nomeação a um cargo — uma qualificação administrativa e espiritual mandatória para a liderança.
Desde que as crises econômicas globais na década de 1870 e de 1930 forçaram os administradores da IASD a promover o pagamento do dízimo como mandamento sagrado, a denominação tem encorajado ativamente — e até imposto — contribuições financeiras de membros da igreja.
Desde a primeira edição do Manual da Igreja, publicada em 1932, a denominação tem afirmado que um indivíduo que não dá exemplo na devolução dos dízimos não deve ser eleito para o cargo de ancião ou para qualquer outro cargo na igreja. Isso se aplica não apenas ao momento da eleição, mas também durante todo o período em que a pessoa exercer o cargo. Na Seção VI, “Finanças do Evangelho”, o Manual afirma explicitamente que “ninguém que continue servindo como oficial da igreja ou como obreiro da Associação, e que não esteja de acordo com esse padrão de liderança” (p. 123).
A denominação também promove a ideia de que a influência espiritual depende da mordomia cristã prática. Líderes e obreiros são instruídos a dar um bom exemplo nos dízimos como princípio de liderança na obra de Deus. Embora o Manual faça do dízimo uma exigência para líderes, seu texto também mantém que o dízimo não define quem pode ser um membro da igreja, embora seja um dever bíblico para todo crente.
No entanto, a linguagem do Manual tem se tornado mais abrangente e direta. Edições antigas usavam o termo “pagamento do dízimo”, mas, nos anos 1980, a linguagem mudou para “devolução do dízimo”, refletindo o ditado teológico de que o dinheiro do dízimo já pertence a Deus. E enquanto versões anteriores se concentravam quase exclusivamente no dízimo, a versão de 2025 começou a enfatizar o “exemplo na devolução fiel do dízimo e na entrega de ofertas” (ênfase acrescentada), estabelecendo que a liberalidade voluntária também é esperada dos líderes. A terminologia também foi fortalecida para um padrão administrativo mais explícito nas últimas décadas, garantindo que a comissão de nomeações considere isso um critério para elegibilidade.
Na Assembleia da AG de 2025, durante a moção para aprovar as edições propostas à seção do Manual da igreja que fala sobre dar o exemplo nos dízimos, Enrique Gonzales, delegado da Divisão Interamericana, sugeriu acrescentar “plano sistemático” à edição. Dois outros delegados falaram a favor da emenda de Gonzalez, mas a proposta perdeu a votação.
Subsequentemente, Marcos Bomfim, diretor o Ministério de Mordomia da AG, disse que doações espirituais deveriam ser priorizadas ao invés de doações sistemáticas, explicando que membros desempregados não devem ser impedidos de atuar em cargos da igreja.




