Rudy Torres, com 87 anos, faleceu no dia 18 de julho, e deixa um legado de defesa dos marginalizados e oprimidos; realizou a primeira ordenação de pastoras adventistas e promoveu a aceitação dos LGBTI+ ao longo de sua vida
Por Samuel Girven | Traduzido e adaptado do original em inglês por Natalia Caballero para a revista Zelota. Republicado em colaboração com SPECTRUM: o periódico e website do Adventist Forum desde 1969. www.spectrummagazine.org
Arthur Rudolph Torres, o pastor que presidiu a primeira ordenação de mulheres na história da Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD), tornou-se um defensor da aceitação de membros LGBTI+ na igreja e liderou grandes congregações nas áreas metropolitanas de Los Angeles (Califórnia) e Washington, D.C., faleceu na manhã de 18 de julho de 2026, aos 87 anos, após lutar contra um câncer, informou sua família.
Ao longo de sua carreira de quase 50 anos, Torres talvez tenha se tornado mais conhecido por sua defesa do avanço das mulheres no ministério pastoral. Enquanto era o pastor sênior da Igreja de Sligo, em Maryland, ele ajudou a organizar e conduzir a ordenação de Norma Osborn, Kendra Heloviak Valentine e Penny Shell, em 23 de setembro de 1995 — como tal, a primeira ordenação de pastoras a ser realizada na história adventista. Torres era profunda e emocionalmente ligado à causa. Quando os delegados da Assembleia da Associação Geral (AG) de 1995 em Utrecht, Holanda, votaram por 1.481 a 673 contra a permissão para que mulheres fossem ordenadas, ele disse aos membros de sua igreja em um sermão no dia 8 de julho de 1995 — de acordo com reportagens da revista SPECTRUM na época — que os resultados foram tão dolorosos pessoalmente que, ao saber da votação, teve que voltar para casa para chorar.
Em resposta, quando a Igreja de Sligo votou em uma assembleia administrativa, um mês depois, para ordenar Osborn, Heloviak e Shell, Torres argumentou perante a comissão diretiva da União-associação Columbia que as mulheres deveriam receber credenciais oficiais de ordenação. Embora a comissão tenha hesitado e negado no final, ele assinou pessoalmente os certificados de ordenação das três mulheres, ao lado de Charles Scriven, então presidente do Columbia Union College — hoje conhecido como Washington Adventist University — e Les Pitton, na época vice-presidente da Adventist HealthCare.

A homilia que Torres fez na cerimônia de ordenação foi intitulada “O futuro é agora”. Com base nesse foco voltado para o futuro, ele pediu à igreja que abraçasse uma nova geração que serviria de exemplo para a denominação e manifestaria o futuro da igreja, misturando anedotas sobre sua filha adolescente e histórias de profetas bíblicos que eram “capazes de olhar para a situação, ler as nuances dos tempos e interpretá-las, não em termos de implicações temporais, mas em termos de implicações eternas”.
“Sligo havia se recusado a ceder à pressão de Silver Spring para não realizar o culto”, lembrou Scriven mais tarde, referindo-se à AG e à cidade onde sua sede está localizada. “Tenho certeza de que, para o Rudy, a decisão de seguir em frente foi difícil, embora ele mesmo estivesse totalmente convencido de que era moralmente correto. Ele estava exercendo uma liderança moral admirável!”
Osborn, que serviu na igreja de Sligo como pastora associada ao lado de Torres, lembrou dele em uma entrevista como um líder gentil e tranquilo. “Eu o via como uma pessoa muito intuitiva. Seus sermões eram muito relacionais […] e focados na construção da comunidade.” Relembrando sua ordenação, ela chamou a postura dele sobre o tema de “corajosa”. “Teria sido fácil para ele dizer: ‘Não, não vou fazer isso’, mas é claro que ele defendeu aquilo em que acreditava.”
Torres era conhecido como um orador reflexivo e bem-informado, capaz de se relacionar com questões contemporâneas. Em seus sermões, costumava contar histórias sobre sua infância no Novo México ou sobre sua família. Ele era preciso com suas palavras, preferindo maximizar o impacto delas.
Torres era especialmente reconhecido por seus paroquianos e colegas como um pastor que se importava com suas congregações e desejava conexões mais profundas com comunidades marginalizadas. “Lembro-me da primeira vez em que ele pregou em Sligo”, disse Osborn. “Ele veio à reunião da equipe na semana seguinte e disse que havia muitas pessoas irritadas na congregação. Acho que todos ficamos meio impressionados com a capacidade dele de perceber e entender as pessoas e onde elas estavam em sua jornada emocional.”

Torres defendeu uma maior aceitação e integração de pessoas LGBTI+ dentro do adventismo a partir dos anos 80, quando um de seus novos membros na IASD Glendale, na Califórnia, Carlos Martinez, revelou que estava morrendo de AIDS.
Martinez estava no início dos seus 30 anos quando foi batizado por um dos pastores associados da igreja e, perto do fim de sua vida, começou a frequentar um estudo bíblico semanal que Torres organizava às quartas-feiras. A maioria das frequentadoras era de mulheres com idade para se aposentar, tornando Martinez um dos membros mais jovens a participar regularmente do encontro. “Estávamos estudando o Evangelho de João, e Carlos estava lá porque não conseguia mais trabalhar e fazia um grande esforço apenas para dirigir até a classe bíblica. E, claro, ele era muito amado nessa classe”, lembrou Torres certa vez, contando a história a um grupo reunido para a celebração do 110º aniversário da igreja em 2016.
Em uma dessas quartas-feiras, uma das mulheres do grupo de estudo, cujo filho havia falecido recentemente, falou de seu profundo desespero. Seu filho era alcoólatra e morreu de cirrose hepática. Sentindo-se como se estivesse facilitando a morte dele, ela lamentava nunca conseguir se perdoar. Em resposta, Martinez virou-se para Torres e perguntou se deveria compartilhar suas próprias circunstâncias vergonhosas. “Tudo o que respondi a ele foi: ‘Carlos, deixe o espírito ser o seu guia.’ Abaixei a cabeça, não em oração, mas em apreensão e quase desespero”, compartilhou Torres.
Era 1985, durante o auge da epidemia de AIDS, quando “qualquer pessoa com AIDS era uma pária”, disse Torres. Ainda assim, Martinez virou-se para a mulher e disse: “Estou morrendo de AIDS e peguei AIDS em um estilo de vida promíscuo nos bares gays de Hollywood. Eu me arrependi da minha vida promíscua. Deus me perdoou, e Ele pode perdoar você.”
Torres esperava o pior e aguardava o “golpe fatal”. Em vez disso, todas as 25 mulheres fizeram fila para abraçar Martinez. “Em pouco tempo, a igreja inteira sabia que tínhamos um membro com AIDS. E houve uma efusão de amor — foi absolutamente notável. Eu nunca vi nada parecido”, lembrou Torres.
Quando Martinez foi hospitalizado, pelo menos 50 membros da Igreja Glendale City o visitavam regularmente. Numa das vezes em que Torres foi ao hospital visitar Martinez, a enfermeira supervisora o chamou de lado e se ofereceu para lhe mostrar a ala de AIDS. O pastor e a enfermeira espiaram vários quartos. “Este homem está aqui há seis semanas e ninguém o visitou”, disse a enfermeira sobre um dos muitos homens à beira da morte. A enfermeira apontou para outro que estava lá há um mês sem uma única visita. “Ela disse: ‘Eu poderia te levar por toda a ala. Ninguém visita esses pacientes. Afinal, quem é você?’”
Torres disse que respondeu: “Nós somos membros da Igreja Adventista do Sétimo Dia de Glendale, e ele é um dos nossos.”
Quando Martinez faleceu, 800 pessoas compareceram ao seu funeral, realizado no santuário da igreja. Em seu testamento, ele deixou US$ 7.000 para a igreja, que usou o valor como capital de investimento para um fundo patrimonial que hoje vale pelo menos US$ 25 milhões. Além disso, hoje a IASD Glendale é conhecida como um dos espaços mais inclusivos da denominação para pessoas LGBTQ+.
“Posso dizer que algo aconteceu. Éramos uma igreja amorosa até aquele momento. Mas algo nos transformou em uma igreja amorosa e inclusiva”, disse Torres, refletindo sobre o legado de Martinez. “É realmente a maior experiência do meu ministério, e não consigo parar de falar sobre isso. Eu mudei. Todos nós mudamos.”
A partir de então, Torres e Mitch Henson, outro pastor da IASD Glendale, trabalharam juntos para visitar um número incontável de pacientes com AIDS que viviam em alas hospitalares frequentemente isoladas. Os dois pastores realizaram muitos funerais para pacientes com AIDS, “quando nenhum pastor de qualquer denominação estava disposto a fazer esses funerais”, disse Dave Ferguson, membro de longa data da IASD Glendale e ex-pastor.
“Isso é apenas um mérito do fato de que ele realmente se importava com as pessoas”, acrescentou Ferguson, que observou que Torres foi um dos primeiros funcionários denominacionais a trabalhar com a Kinship Adventista do Sétimo Dia Internacional, a organização adventista de defesa dos direitos LGBTI+ fundada nos anos 80. “Ele viu que havia pessoas sofrendo, e acho que foi isso que o fez olhar com olhos mais abertos. Isso o impulsionou a ser cada vez mais um defensor de uma comunidade vulnerável.”
Torres frequentava regularmente os “Kampmeetings” anuais da Kinship e, em julho de 2008, tornou-se um dos poucos pastores adventistas a ter realizado uma cerimônia de casamento gay, quando casou Leif Lind e Taylor Ruhl numa pequena cerimônia em uma igreja em Redlands, Califórnia.
Lind, que foi pastor associado na IASD Glendale até sua aposentadoria em 2025, destacou o marco em uma entrevista, notando que Torres oficiou a cerimônia enquanto era ameaçado com a revogação de sua ordenação pela associação local. “Ele poderia ter perdido sua ordenação e disse: ‘Não importa, vamos seguir em frente. É a coisa certa a fazer.’”

Torres nasceu em 3 de março de 1939, em Magdalena, Novo México, uma pequena vila rural a cerca de 160 km ao sul de Albuquerque. Ele era o mais velho entre quatro filhos de Max e Shella Torres. Seu pai era dono de uma mercearia em Magdalena, que foi fundada usando as economias da família e um empréstimo de US$ 2.000 de um parente.
Quando Torres era criança, a família entrou para a IASD, e seu pai decidiu começar a fechar a loja aos sábados. “Foi uma decisão dolorosa, porque os fazendeiros representavam metade dos seus negócios e compravam suas mercadorias no sábado bem cedo. Ele temia a falência”, escreveu Torres na edição de março de 2017 da revista Adventist World.
Levou três semanas para a mudança surtir efeito; o avô e os tios de Torres, sabendo que Max não estaria por perto para cuidar da loja, optaram por abrir o estabelecimento eles mesmos nos dois primeiros sábados. “No terceiro sábado, a loja ficou fechada o dia todo. Eu tinha apenas quatro anos na época, mas me lembro claramente daquela noite de sábado. Quando meu pai dirigiu o carro para a área de estacionamento, vi cerca de uma dúzia de fazendeiros sentados em suas caminhonetes esperando a loja abrir. Ouvi meu pai dizer: ‘Deus abençoe os fazendeiros. Não vou perder os negócios deles.’ Então, vi meu pai correr para a loja e destrancar as portas. Pelo menos uma dúzia de fazendeiros o seguiu como gado.” Os fazendeiros garantiram ao pai de Torres que ele não perderia a freguesia. No ano seguinte, as vendas dobraram, e o empréstimo de US$ 2.000 foi quitado.
Torres foi um aluno de destaque no quadro de honra e presidente de sua turma do ensino médio em 1957, na Sandia View Academy, em Corrales, Novo México. Ele ingressou no La Sierra College e se formou em teologia em 1962.

Nos anos seguintes, Torres serviu no Exército dos Estados Unidos. Ele foi alocado em Fort Detrick, Maryland, como parte da Unidade Whitecoat, um programa de estudos de doenças e curas que permitia aos adventistas com cidadania americana servir no exército mantendo o status de não combatentes. Os arquivos da publicação Columbia Union Visitor da época destacam que Torres falava frequentemente em retiros de soldados sobre tópicos como: “O serviço militar é uma perda de tempo?”.
Torres começou sua carreira ministerial no vale rural de Shenandoah, na Virgínia, tornando-se um pastor estagiário na pequena IASD Highland em McDowell, Virgínia, em 1967. Mais tarde, no mesmo ano, fez estágio na IASD Norfolk, na região de Hampton Roads, no mesmo estado.
Depois de obter um mestrado no Seminário Teológico Adventista em Berrien Springs, Michigan, Torres retornou à Associação Potomac, trabalhando como pastor associado na IASD Capital Memorial em Washington, D.C., em 1971. Mais tarde naquele ano, foi transferido para o outro lado da cidade para iniciar sua primeira passagem pela IASD Sligo, localizada no campus suburbano do Columbia Union College.
Ele se tornou um orador proeminente em eventos para jovens e jovens adultos dentro da associação. A edição de 5 de agosto de 1971 da revista Visitor relatou que “um jovem foi ouvido afirmando: ‘Ele é o melhor pregador que já ouvi em toda a minha vida.’” Além de suas funções ministeriais, ele colaborava ocasionalmente com periódicos juvenis, como o Collegiate Quarterly.
Torres foi ordenado em 10 de junho de 1972, na campal da Associação Potomac, de acordo com a Visitor. Foi um momento de ciclo completo para ele; a campal foi realizada na Shenandoah Valley Academy, localizada do outro lado das montanhas Allegheny, onde sua carreira ministerial havia começado. Isso também marcou o início de uma série de mudanças de cidade que caracterizam o ritmo da carreira de um pastor adventista. Primeiro, mudou-se para Staunton, Virgínia, pastoreando a igreja adventista localizada na mesma cidade da sede da Associação Potomac. No final de 1974, foi enviado para a IASD Green Lake, em Seattle. Ele ordenou a primeira anciã da congregação, Mildred Jensen, e mais tarde também ordenou uma segunda, Verla Kwiram.
“Ele era um pastor extraordinário: reflexivo, informado, contemporâneo, acolhedor”, lembrou Alvin L. Kwiram, professor emérito de química na Universidade de Washington e membro da IASD Green Lake. “Seus sermões eram excelentes, entre os melhores de todos os excelentes pastores que tivemos na Igreja Green Lake nos últimos mais de 50 anos. Eram inovadores, cheios de novos insights a partir de histórias conhecidas e inspiradoras. Ele era comprometido com a causa dos esquecidos e marginalizados.”

Após seis anos lá, tornou-se o pastor sênior da IASD Glendale em 1980, de acordo com o Pacific Union Recorder, iniciando uma série de nomeações na região metropolitana de Los Angeles, incluindo um período pastoreando a IASD Rolling Hills Estates.
Torres frequentemente liderava eventos de treinamento evangelístico que eram promovidos por toda a União Pacífico. A edição de 9 de dezembro de 1985 do Recorder exaltava suas habilidades de ganhar almas, afirmando que ele “tinha uma experiência única em alcançar executivos e pensadores respeitados em sua comunidade, que muitas vezes são ignorados e, às vezes, negligenciados”. Uma de suas apresentações era intitulada “Como alcançar a mente secular”.
Em 1993, ele retornou à IASD Sligo, de 3.500 membros, para servir como pastor sênior. Seu tempo lá foi repleto de expansão e progresso, tanto ministerial quanto ideológico, incluindo a histórica ordenação. Quando Torres anunciou sua partida de Sligo cerca de quatro anos depois, os outros pastores e a equipe da igreja foram pegos de surpresa. Osborn lembra que ele queria se mudar para o Arizona e escrever um romance histórico que vinha amadurecendo em sua mente. “Lembro-me da minha reação — apenas comecei a chorar”, disse ela. “Ele olhou para mim e disse: ‘Norma, por que você está chorando?’ Ele talvez não percebesse o quão importante era no ministério ali em Sligo.”
Torres acabou retornando à Califórnia em 1999, tornando-se pastor sênior da IASD Garden Grove, que tinha 1.000 membros na época e administrava a Orangewood Academy, segundo o Recorder.
Não está claro se ele terminou o romance ou não. De qualquer forma, além de suas funções em Garden Grove, ele falava em campais e outros encontros adventistas, e também retornou a Glendale por volta de 2008 para servir como pastor sênior interino por um ano.
Torres recebeu o prêmio Champion of Justice (Campeão da Justiça) da Associação de Mulheres Adventistas em 2006, de acordo com a Adventist Review, por seu “trabalho em promover o respeito e a igualdade no ministério para todas as pessoas”.
Ele foi casado duas vezes — primeiro com Meredith e depois com Linda, com quem compartilhou 37 anos. Ele teve uma filha, Allison, e dois netos.

Não está claro quando ele finalmente se aposentou — a Associação do Sudeste da Califórnia não pôde fornecer uma data exata de aposentadoria —, embora, segundo sua família, ele tenha se aposentado por volta de 2016. Ele continuou a fazer palestras e pregações em vários lugares durante a aposentadoria, inclusive na IASD Glendale.
Em uma das últimas homilias que proferiu, ele resumiu o seu credo — e o da IASD Glendale — como “a ressurreição é mais poderosa do que a crucificação”. Foi um sermão durante a pandemia, proferido de seu escritório em casa e gravado na câmera do computador, montado em homenagem ao aniversário de 115 anos da congregação em fevereiro de 2021. “É na ressurreição que nós vivemos. Isso não é negar que a crucificação ocorra e, em termos de Jesus, a crucificação é muito, muito importante”, compartilhou em sua voz calma e suave. “Acima de tudo, sabemos que a ressurreição é o ponto definitivo, a crucificação é o penúltimo, e que em tudo o que experimentamos, seja bom ou ruim, sabemos que Deus está conosco […] A ressurreição é mais poderosa do que a crucificação. A ressurreição de nosso Senhor é mais poderosa do que a sua morte, embora a sua morte seja real e trágica.”
Em memória do pastor adventista Rudy Torres
Spectrum Magazine
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