Distanciamento público entre a liderança adventista e a Associação de Advogados Adventistas reacende o debate sobre o envolvimento da igreja em questões políticas e o direito de seus membros de se manifestarem sobre temas de interesse nacional
Por Stanton Witherspoon | Traduzido e adaptado do original em inglês para a revista Zelota. Republicado em colaboração com SPECTRUM: o periódico e website do Adventist Forum desde 1969. www.spectrummagazine.org
Quando as três uniões adventistas do Zimbábue falam juntas, as pessoas prestam atenção, especialmente quando elas se distanciam de seus próprios membros advogados. Isso aconteceu no dia 4 de março de 2026, quando as Uniões Zimbábue Leste, Central e Oeste emitiram uma declaração conjunta distanciando a igreja de um grupo chamado “Associação de Advogados Adventistas” (ALA). Na carta, analisada pela SPECTRUM, as uniões declararam que a Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD) “não possui uma entidade, filial ou organização oficial conhecida como ‘Associação de Advogados Adventistas’”, e que a posição pública adotada recentemente pelo grupo não representa a denominação.
O documento foi publicado em resposta a uma declaração feita pela ALA no dia 2 de março, abordando preocupações constitucionais e relatos de violência com motivação política envolvendo o proeminente advogado pró-democracia Lovemore Madhuku. A declaração de três páginas começava assim: “Nós, membros da Associação de Advogados Adventistas, observamos com preocupação o recente ataque pernicioso e insidioso contra profissionais e cidadãos em defesa do constitucionalismo, da integridade democrática e da agenda para 2030.” Após uma lista detalhada de suas preocupações, a ALA concluiu com um apelo à liderança do país:
- Sustentem a integridade constitucional sem alterações seletivas para obter vantagens políticas. Nosso amado país, o Zimbábue, pertence ao seu povo, e seu futuro está nas mãos de suas gerações futuras.
- Garantam que qualquer reforma constitucional seja precedida por uma participação pública significativa e, conforme a lei e quando necessário, por aprovação em referendo.
- Protejam o espaço cívico e respeitem os direitos à reunião pacífica, à expressão e à participação política. Dissidência não justifica perseguição política.
Embora a declaração das uniões tenha se concentrado na identidade institucional e na autorização da ALA para representá-la, ela não abordou diretamente as preocupações levantadas na declaração dos advogados.
Uma história que vai além de uma única declaração
Esta situação ocorre dentro do contexto político e religioso mais amplo do Zimbábue, onde questões sobre o envolvimento da IASD na vida pública são debatidas há muito tempo. O clima político recente do Zimbábue tem sido marcado por tensões em torno da reforma constitucional, protestos públicos e preocupações com o espaço cívico. Em fevereiro de 2026, uma coalizão de denominações cristãs clamou publicamente por orações e engajamento não violento com as mudanças constitucionais propostas.
Nesse contexto, a resposta da IASD chamou atenção, principalmente em comparação com outros grupos religiosos que adotaram posições públicas mais claras.
Os adventistas do país têm tido dificuldade com questões públicas e políticas há muitos anos. Em um ambiente altamente polarizado, alguns membros acreditam que a igreja deve se pronunciar claramente sobre assuntos nacionais, enquanto outros acreditam que ela deve permanecer separada de questões políticas e se concentrar em sua missão espiritual.
A pesquisa da dissertação de Obert N. Mudzengi no Seminário Teológico Adventista do Sétimo Dia da Universidade Andrews, intitulado Biblical Principles to Guide Adventists on Political Involvement in Zimbabwe [“Princípios bíblicos para orientar os adventistas sobre envolvimento político no Zimbábue”, em português], aponta que a IASD tem uma falta de compreensão histórica sobre como estar no mundo, mas não ser do mundo. Alguns membros assumem papéis fortes e ativos em espaços cívicos e até mesmo partidários, enquanto outros resistem a qualquer forma de engajamento, apegando-se à postura apolítica padrão da igreja em público.
Essa divisão, por vezes, levou a igreja a enfrentar o que o estudo descreve como uma difícil posição “intermediária”, que pode gerar tensão interna, incerteza na resposta pública e expectativas divergentes entre os membros sobre o papel da IASD em questões nacionais.
Por isso, momentos como o atual ganham ainda mais importância. Eles refletem questões muito mais profundas sobre quem fala em nome da igreja e como ela responde a problemas que afetam a sociedade.
História da ALA, laços com a IASD e disputa em curso
Para melhor compreender as tensões atuais, a SPECTRUM ouviu quatro fontes familiarizadas com o assunto. Paida Saurombe, ex-presidente da Associação de Advogados Adventistas (ALA), falou oficialmente, enquanto outras três pessoas — um adventista zimbabueano que trabalha com ajuda humanitária e desenvolvimento, um ex-líder da igreja zimbabueana que agora vive nos EUA e um membro da igreja local em Harare — deram mais contexto.
Segundo Saurombe, a ALA existe no Zimbábue há mais de 30 anos. Ela foi formada quando a IASD operava como uma única união conhecida como União-associação Zambeze, a qual mais tarde se tornou a União-associação Zimbábue. Ele afirmou que a associação foi criada para reunir profissionais jurídicos adventistas que pudessem apoiar a igreja em questões legais e institucionais.
A ALA opera com seu próprio estatuto, que define seu papel e função. Saurombe explicou que o secretário da união tradicionalmente atuava como patrono da associação, presidindo suas eleições. Quando a União-associação Zimbábue foi posteriormente dividida em três uniões, a ALA foi colocada sob a União-associação Zimbábue Leste (ZEUC), principalmente porque a maioria de seus membros ativos estava naquele território. Desde então, o secretário da ZEUC continua a servir como patrono e a supervisionar as suas eleições.
Embora a ALA mantenha sua independência, Saurombe descreveu uma longa história de cooperação com a liderança da igreja. Ele afirma que a associação apoiou programas da igreja e forneceu assistência jurídica quando necessário, enquanto líderes das uniões participaram das atividades da ALA ao longo dos anos.
Ele citou vários exemplos recentes de colaboração. Em um dos casos, líderes da IASD entraram em contato com a ALA em busca de apoio para desenvolver iniciativas ministeriais para a comunidade chinesa no Zimbábue, incluindo orientação jurídica e logística. A ALA também organizou eventos públicos com a participação da igreja, incluindo um programa em Harare com a presença de líderes da união, que contou com a participação do ex-presidente do Supremo Tribunal e ex-presidente da Suprema Corte do Quênia, David Maraga, que é adventista.
Saurombe também descreveu um projeto em Morewa, uma área rural nos arredores de Harare, onde membros da ALA ajudaram a construir uma igreja local. Ele disse que líderes da união, incluindo o atual presidente, visitaram o local e participaram de atividades evangelísticas.
“Eles têm participado ativamente de nossos programas”, disse ele sobre os administradores denominacionais, destacando uma relação simbiótica com a ALA.
Considerando esse histórico, Saurombe disse que a declaração das uniões no dia 4 de março, distanciando a IASD da ALA, foi uma surpresa. “Foi um choque”, disse ele. “Trabalhamos com a igreja há anos. Os mesmos líderes que assinaram essa declaração já interagiram conosco antes.”
Os líderes da ALA afirmam que sua declaração recente foi emitida de forma independente e não tinha a intenção de representar a igreja. “Nossas declarações não são políticas […] elas partem de uma perspectiva moral”, disse Saurombe, explicando que a associação busca responder a questões de justiça e preocupação profissional.
Preocupações mais amplas e perspectivas locais
As outras fontes também apontaram para preocupações mais amplas que influenciam a forma como a situação está sendo interpretada localmente. Alguns descreveram uma crescente percepção entre os membros de que a igreja tem sido cautelosa ao abordar questões públicas, mesmo quando outras organizações cristãs no país se manifestaram mais diretamente sobre assuntos nacionais.
Outros manifestaram preocupação com a relação entre a liderança da IASD e atores políticos, particularmente num contexto em que líderes empresariais — vide a reportagem da SPECTRUM sobre o bilionário adventista Kudakwashe Tagwirei — e autoridades públicas têm desempenhado papéis visíveis no apoio a iniciativas da igreja. Essas observações refletem perspectivas locais e não foram verificadas de forma independente pela SPECTRUM.
Ao mesmo tempo, a resposta forte e unificada das uniões à ALA levantou questões entre alguns membros sobre coerência, especialmente considerando-se a ênfase da igreja na liberdade religiosa e na separação entre Igreja e Estado.
Liberdade religiosa e participação pública
Tudo isso ocorreu logo após uma série de programas conduzidos pela IASD no Zimbábue, com foco na liberdade religiosa e na relação da igreja com a vida pública. No início de fevereiro, a ZEUC organizou um grande encontro interreligioso no Centro Internacional de Convenções de Harare. O evento reuniu membros da igreja, autoridades governamentais e líderes cívicos, incluindo prefeitos, membros do parlamento, líderes tradicionais e outras figuras públicas.
Líderes da Associação Geral (AG) também estiveram presentes, incluindo o diretor de Assuntos Públicos e Liberdade Religiosa (PARL), Nelu Burcea, acompanhado pelos diretores associados Elie Henry, ex-presidente da Divisão Interamericana, e Andy Im, ex-diretor de comunicação e PARL da Associação Michigan. (Os três foram eleitos para seus cargos globais na PARL na Assembleia da AG de 2025, reformulando as estratégias da organização.) Eles encorajaram a IASD a trabalhar positivamente com o governo, mantendo-se fiel à sua missão espiritual, e também expressaram apreço pelo envolvimento visível da igreja na melhoria da comunidade.
O evento ocorreu após uma semana de “sessões de treinamento direcionadas” sobre como abordar assuntos públicos e liberdade religiosa no âmbito da igreja local para pastores da ZEUC. Os líderes da AG e da Divisão enfatizaram o “engajamento biblicamente fundamentado e apartidário em questões cívicas” e exortaram os pastores a se expressarem com responsabilidade, liderarem com integridade e evitarem ações que possam colocar a igreja em risco.
Isso torna o momento da declaração conjunta das uniões ainda mais notável. Ela surge num momento em que a igreja tem incentivado ativamente um envolvimento público cauteloso.
Uma igreja em crescimento e problemas não resolvidos
O Zimbábue possui mais de 4.000 congregações e aproximadamente 504.854 membros, de acordo com o Relatório estatístico anual de 2025 publicado pelo Gabinete de Arquivos, Estatísticas e Pesquisa da Associação Geral. A membresia se distribui entre a União-associação Central (136.540), a União-associação Leste (231.361) e a União-associação Oeste (136.953). Dentro dessa comunidade, a ALA inclui mais de 200 advogados adventistas.
Segundo Saurombe, a associação permanece ativa e continua a executar seus programas apesar da situação atual. Ele afirmou que, após a declaração das uniões em março, os representantes da ALA buscaram diálogo com a liderança da igreja.
Ele explicou que ocorreram reuniões nas quais líderes religiosos reconheceram a existência da associação, embora nenhum esclarecimento público sobre o relacionamento tenha sido divulgado. “Disseram-nos em reuniões que nos conhecem”, disse ele, “mas não colocaram isso por escrito”.
Saurombe afirmou que a associação está apelando por um diálogo aberto e uma melhor comunicação no futuro. Observou que a falta de resposta tornou a situação mais difícil e deixou preocupações importantes sem resolução. “Queremos operar em um ambiente onde possamos falar livremente, fazer perguntas e receber respostas claras”, disse ele. “Não podemos crescer varrendo os problemas para debaixo do tapete e pensando que eles desaparecerão.”
A SPECTRUM entrou em contato com as três uniões e outros líderes da IASD em diversas ocasiões para obter um posicionamento oficial, mas não houve resposta até o momento da publicação desta matéria.
Uniões de Zimbábue se voltam contra advogados adventistas
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