No auge da Covid-19, em São Paulo, a liderança adventista da União Central Brasileira é contra a abertura das igrejas e reforça os cultos virtuais, mas confronta opiniões negacionistas e é desafiada pela situação miserável de seus membros


Por Elias Batista Jr. | teólogo, jornalista e editor-chefe da revista Zelota.

A discussão sobre a abertura ou fechamento dos templos durante o ápice de contágios da Covid-19 afetou o contexto evangélico e, com ele, a Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD). As consequências dessa discussão são experimentadas em diversas regiões do país, e possuem suas próprias peculiaridades. Na União Central Brasileira (UCB), no estado de São Paulo, ela toma a forma de uma decisão oficial interna que visa o adiamento máximo dos cultos presenciais, mesmo com a flexibilidade do governo. Ainda assim, essa decisão não surte os efeitos desejados à prática por conta da autonomia que as igrejas locais possuem para administração de seus cultos.

É possível averiguar, na região da UCB, discordâncias sobre a questão; principalmente entre os pastores que não aceitam as recomendações, acusando seus líderes de “falta de fé”, ou por estarem alinhados à política negacionista do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) – que minimiza a gravidade da pandemia, defende os cultos presenciais evangélicos como “atividade essencial” e desqualifica os esforços científicos para a produção da vacina. Esse discurso, entre os pastores, costuma estar restrito aos grupos de Whatsapp, mas toma proporções pragmáticas quando decidem utilizar de sua autonomia para abrir as igrejas. 

Em outro contexto, o departamento de comunicação da UCB demonstra efetividade e persistência no auxílio técnico para a transmissão dos cultos virtuais, tanto aos membros quanto aos pastores. E, com isso, reafirma seu compromisso à adoração remota. Contudo, a falta de um posicionamento mais rígido camufla suas intenções oficiais, e sugere aderência ao discurso que lança o funcionamento dos templos à mercê do bom senso dos pastores e da flexibilidade governamental. 

Outra realidade sobre a UCB, que possui relação com a proliferação da Covid-19, é a situação de desamparo de membros em situação de miséria. Ainda que, neste período, a Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (ADRA) estipule linhas de frente de abrangência para o auxílio dos necessitados, é possível vislumbrar iniciativas mais radicais para o enfrentamento integral da pobreza entre alguns adventistas; como, por exemplo, a utilização de recursos financeiros aos desempregados e espaços físicos para confecção de abrigos.  

Mais presencial do que nunca

Em entrevista à Zelota, o Pr. Odailson Fonseca, líder de comunicação da IASD para a cidade de São Paulo, afirmou que, na UCB, a orientação oficial é postergar ao máximo a abertura dos templos para cultos presenciais. Essa diretriz teria sido comunicada aos pastores da União em recentes concílios, a fim de que todos trabalhassem com ênfase na prevenção da doença, evitando que as congregações se tornassem “covidários”, isto é, centros de contaminação. Ao citar uma conversa pessoal com o Pr. Mauricio Lima, líder da IASD para o estado de São Paulo, Fonseca oficializa a prescrição: “independentemente da legislação, nossa orientação permanece para cultos não presenciais.”

O termo ‘aberto e fechado’ é semântico. Tem uma lei que diz pra ‘fechar igreja’, e agora está no tribunal outra lei que pretende ‘abrir igreja’. De coração: as igrejas não fecharam. O que são igrejas abertas? Uma igreja aberta é uma igreja que serve à comunidade. Então se a igreja está aberta porque vai entregar alimentos pra pessoas que necessitam, ela não fechou. […] Onde a gente não quer igrejas fechadas? Nós não queremos igrejas digitalmente fechadas. A igreja está aberta para uma transmissão on-line. Essa é a ideia: a igreja pode ser aberta para cultos digitais. A igreja está aberta, o que não quer dizer que o culto presencial esteja aberto”, explica o diretor de comunicação para o estado de São Paulo.

De acordo com o Pr. Odailson, a orientação para o fechamento dos cultos presenciais a despeito das permissões governamentais, oferecida pelo Pr. Mauricio a todos os outros líderes de campo, foi formalmente comunicado aos pastores da União via Whatsapp – cerca de 650, ministrando aproximadamente 2.100 congregações. Por essa razão, não existiriam discrepâncias de opinião entre os ministros a esse respeito: “Aqui em São Paulo não percebemos nenhuma grande divergência entre os líderes”, defende o diretor de comunicação. Embora acredite que existam discordâncias da liderança em outros contextos do país, Odailson entende que “em nossas oito sedes, conseguimos sentir que há certa uniformidade de compreensão; e você não vai de uma cidade com igrejas abertas para outra com igrejas fechadas”.

A Zelota conversou com o Pr. Edson Nunes Jr., líder da comunidade adventista Nova Semente, no Paraíso, em São Paulo, para confirmar o recebimento das diretrizes a respeito do fechamento dos templos. Em resposta, o pastor afirmou que há, atualmente, uma clara orientação tanto da Associação Paulistana (AP) quanto da UCB para o adiamento máximo dos cultos presenciais. Em abril (3) deste ano, o jornal Folha de S.Paulo publicou uma matéria em que a Nova Semente é citada como uma entre outras alternativas à espiritualidade durante a pandemia, mesmo com as portas fechadas. Em resposta à Folha, Edson afirma: “Entendo o clamor [dos fiéis] pela volta, mas a reabertura das igrejas é um erro político e estratégico”; a fala é usada pelo jornal para incentivar a não abertura dos templos, mesmo com a permissão governamental. Em suas redes sociais (@EdsonNunesJr1), o pastor acrescenta que a Nova Semente permanecerá fechada “até que a vacinação garanta um mínimo de segurança”.

Para que os cultos fossem adaptados à nova realidade, algumas igrejas da UCB se uniram em uma única conexão para realizar suas programações, seja um aglomerado distrital ou uma cidade inteira. Odailson explica que, nesse contexto, “os pastores tiveram que atuar como Youtubers ou Facebookers”, mas não nega a existência de dificuldades técnicas. Em adversidades dessa natureza, o líder de comunicação declara seu compromisso com o auxílio às comunidades, e alega ter realizado mutirões para assistência técnica: “a minha equipe saiu daqui e foi lá na igreja que não sabia lidar com StreamYard ou com o Zoom. Todos deram seus pulos.” De uma perspectiva hierárquica, se uma igreja tem dificuldades, ela procura o distrito; se o distrito permanece de mãos atadas, procura seu departamental de comunicação.

A estratégia da UCB, ainda com a facilidade das transmissões on-line, foi, segundo o departamental de comunicação, “humanizar o virtual”. Para isso, as programações não foram centralizadas em ‘celebridades adventistas’, mas nos seus próprios ministros. Durante a Semana Santa, “tivemos 350 oradores, cada um na sua conexão”, explica Odailson. E detalha: “eu fiquei no meu cantinho, em Mogi das Cruzes; outros estavam na Central de Campinas, outros em Cosmópolis”. O objetivo era que os pastores distritais desenvolvessem familiaridade com as regiões por meio de sua influência digital.

Nesse contexto de Semana Santa (27 março a 3 de abril), a UCB chegou a divulgar um site com uma lista de acessos a transmissões de cada uma de suas Associações. Os endereços linkados ofereciam, a membros e interessados, o ingresso em lives realizadas pelo Facebook, YouTube ou pelo Zoom. Essa movimentação é resultado de uma iniciativa digital mais abrangente para a realização da Semana Santa, conforme divulgado especialmente nas redes sociais do Pr. Mauricio Lima (@prmauricioucb) e do Pr. Odailson Fonseca (@odailson_ucb), com o título “Restaurados em Cristo”. O plano era que os pastores distritais realizassem a programação on-line e, como de costume, articulassem outras atividades em torno do evento, como estudos bíblicos.

No início de abril (3) deste ano, o G1 publica uma matéria registrando operações congregacionais inovadoras para a pandemia no contexto da Semana Santa. Entre os exemplos mencionados, está a IASD Central de Sorocaba, em São Paulo. Segundo informações do jornal, a igreja se adapta a tal realidade por um ano; ela preparou o ambiente como cenário para transmissões on-line, incluindo um sistema de áudio e de câmeras. Nas palavras do Pr. Osmar Borges Lima, “a igreja teve que se reinventar. Nós tentamos transmitir essa esperança em nossos canais.” O site oficial da IASD Central de Sorocaba, assim como seu perfil no Instagram (@centraldesorocaba), oferece um lista com horários para cultos de domingo (19h30), quartas (19h30) e sábados (10h45). O site chega a incluir um link de acesso direto ao Whatsapp do pastor – além de outros para pedidos de oração ou auxílios materiais.

Segundo informações do Departamento de Comunicação da UCB, houveram também auxílios financeiros e profissionais. Na Associação Paulista Leste (APL), por exemplo, os pastores, cerca de 62, foram incentivados com o apoio financeiro de R$ 100,00 para realizar campanhas pagas no Facebook no período da Semana Santa. Além disso, Odailson menciona a realização de diversos treinamentos, “mais de vinte de dezembro pra cá”, com foco na preparação dos ministros para a nova realidade virtual das igrejas. Utilizando um de seus costumeiros trocadilhos, o líder de comunicação afirma ter promovido a ideia de uma igreja “figital” (física e digital), ao mesmo tempo que explicava o funcionamento das lives e outras competências técnicas para a aquisição desses objetivos. Mesmo assim, Odailson admite que os treinamentos não eram obrigatórios e que as adesões nem sempre eram completas.

O canal do YouTube Adventistas SP, em março (3), divulga um vídeo-relatório com informações sobre os treinamentos e outras programações realizadas até então para o auxílio da liderança e da membresia. Entre eles, há palestras sobre Liberdade Religiosa (com 400 conexões), Ministério da Criança e do Adolescente (com mais de mil acessos), Departamento de Tesouraria (com 610 conexões pelo YouTube), entre outras atividades relevantes para o Estado de São Paulo.Em consideração aos treinamentos e aos auxílios prestados, o Pr. Edson Nunes Jr. acrescenta que, além dos diversos encontros virtuais com esse objetivo, “a associação local distribuiu um ring-light e um pedestal para que os pastores pudessem melhorar suas transmissões.” De forma semelhante, o presidente da Associação Paulista do Vale (APV), o Pr. Oliveiros Ferreira Jr., distribuiu um “Kit-Backstage” a todos os seus pastores, contendo um bastão de selfie, um microfone lapela, um tripé right-light, um right-light, adaptador Y e um cabo extensor P2. Odailson não tem certeza se tais iniciativas foram realizadas por todos os campos da UCB, mas supõe que, em São Paulo, a maioria dos pastores tenham sido auxiliados nesse sentido.

Fonte: Foto enviada pelo Pr. Oliveiros Ferreira Jr. ao Pr. Odailson Fonseca,
que disponibilizou à revista Zelota.

A realidade da UCB, segundo o Pr. Odailson, é privilegiada em comparação à de outras regiões, especialmente no que diz respeito ao acesso da internet. “Falar de gente que não tem internet aqui em São Paulo é como falar de aurora boreal”, brinca. Mesmo assim, o departamental está consciente de que algumas dificuldades com a internet sejam enfrentadas em outras localidades do país. Por isso, o material da UCB é elaborado sem a marca da União para ser igualmente útil a todo o Brasil. Vislumbrando uma estratégia na perspectiva da Divisão Sul Americana (DSA), Odailson observa nessa lógica uma movimentação integradora: “o Pr. Rafael Rossi vê um material de São Paulo e ajuda o Amapá; vê algo legal no Nordeste e passa pra mim, em São Paulo.” O Pr. Edson Nunes Jr. também afirma não ter problemas, entre os membros, com o acesso à internet; e envia semanalmente um Boletim Virtual com suas atividades à AP e à UCB.

Mais miseráveis do que nunca

Nem todos os pastores da UCB concordam com o adiamento das reuniões presenciais e com a ênfase na transmissão dos cultos virtuais, como defende o Pr. Odailson Fonseca, orientado pelo Pr. Mauricio Lima. Alguns pastores da UCB sustentam a agenda negacionista do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), e, quando possível, reúnem seus membros de forma presencial. Além disso, as dificuldades enfrentadas pelas congregações da UCB, no auge infeccioso da Covid-19, vão além das necessidades comunicacionais e tecnológicas: elas exigem sensibilidade à pobreza e à miséria de seus membros.

Um pastor distrital de uma região do interior de São Paulo ofereceu à Zelota informações de seu contexto, mas, por segurança, decidiu ser mencionado anonimamente na matéria. Ele reconhece a diretriz da UCB para a postergação dos cultos presenciais, porém, lamenta: “hierarquicamente, nós sempre sofremos muita pressão no campo para abrir as igrejas.” O pastor interiorano esclarece que, em 2020, a IASD em São Paulo respeitava os decretos governamentais; mas, na evidência de qualquer brecha, pressionava os ministros à abertura dos templos. “Alguns pastores distritais até driblavam os decretos e marcavam reuniões em lugares aleatórios; e se vangloriavam disso”, confessa o ministro.

Ainda que afirme uniformidade de pensamento em São Paulo, o Pr. Odailson Fonseca menciona um exemplo que reforça o relato do pastor interiorano: o líder de comunicação, por exemplo, conta ter sido procurado por um membro de igreja com a queixa de que o seu pastor havia marcado uma comissão presencial. Para resolver a situação, Odailson entrou em contato imediatamente com o presidente do campo para “auxiliar” o ministro a não realizar a reunião nesses moldes. Refletindo sobre o acontecimento, o líder de comunicação esclarece que “há uma autonomia” para que esses encontros sejam realizados, mesmo contra a orientação da UCB.

Quando o Estado divulgou o “Plano São Paulo”, e dividiu o nível de gravidade das regiões por cores, os concílios foram paulatinamente tornando-se presenciais, assim como alguns cultos, devido à autonomia dos campos. Dois exemplos podem ser mencionados, ambos da Associação Paulista Sudoeste (APSO). Em meados de fevereiro, ocorreu o evento “Mulheres em Missão”, idealizado pela Área Feminina da Associação Ministerial (AFAM). A princípio, ele foi motivado pela União, mas tomou proporções menores, sendo adaptado a Associações específicas. De acordo com uma das participantes do evento, na APSO, alguns casais saíram infectados pela Covid-19; incluindo o presidente, Pr. Aurelino Ferreira, e sua esposa, Elane Kefler Ferreira, que faleceu no dia 15 de abril. No mesmo período, foi realizado o evento “Convenção MDA”, que reuniu líderes de desbravadores da região. De acordo com informações publicadas pelo Pr. Jeferson Silva no Instagram (@prjeffsilva), o evento comportou 40% do público idealizado e seguiu as normas do “novo normal”: uso de máscaras, álcool gel e medição de temperatura. Segundo relato de um dos participantes da Convenção MDA, neste evento estava presente o Pr. Marcos Tosta, que, contaminado pela Covid-19, faleceu no dia 17 de março.

O pastor interiorano disse não ter conhecimento de eventos presenciais em sua Associação. Contudo, ele menciona outro fator que não corrobora com a visão unificada da UCB sobre o fechamento das igrejas: o alinhamento bolsonarista e negacionista da liderança – como já foi demonstrado pela Zelota a nível de Divisão. “Esses distritais também pressionam a Associação para abrir as igrejas”, confidencia. Após a decisão da UCB sobre a Semana Santa – estipulando o caráter virtual da programação –, o pastor disse ter escutado a oração de um de seus colegas ministros, que rogava a Deus para que a União mantivesse as igrejas abertas a qualquer custo.

“Nos grupos de Whatsapp você vê gente defendendo a antivacinação, louvando cultos evangélicos realizados em ônibus e micro-ônibus, gente interpretando o Apocalipse na história e alegando que ciência é coisa de esquerda. Eu até falo que eles espalham Fake News, aviso que é uma notícia falsa, mas eles alegam que os órgãos de verificação também são de esquerda.”

Para o ministro, o problema do posicionamento negacionista dos pastores em sua região é a influência que possuem entre os mais idosos. Ao citar um caso específico, a visita a um casal de idosos cuidado por uma técnica de enfermagem, o pastor conta ter vivenciado uma situação de descaso a todas as normas de distanciamento e higiene. Esse contexto era regado a discursos negacionistas: “a vacina já estava disponível, mas o casal dizia que não iria tomar, porque a consciência não deixava; por causa da história de amigos; ou porque a enfermeira viu uma reportagem na Jovem Pan e estava desconfiada.”

Sobre o auxílio da UCB no processo de transmissão dos cultos, o pastor interiorano, em contato com a Zelota, não teve queixas: “O departamento de comunicação é muito bom, anda a segunda milha, tem nos ajudado muito”, e acrescenta: “eles fizeram bem, ensinaram até os mais idosos a mexer.” Ele conta ter recebido materiais de apoio, como um ring-light, um microfone, entre outras ferramentas; e entende o gesto como uma assistência necessária, já que o material encareceu com a pandemia. O pastor chega a mencionar o recebimento de R$ 100,00 como ajuda financeira para a internet. Além disso, ele também diz ter recebido diversos treinamentos, assim como os membros de sua liderança.

Ainda assim, o ministro interiorano possui algumas dificuldades – particulares de seu contexto pastoral: as igrejas não possuem estrutura para realizar transmissões; faltam cabos específicos, placa de áudio, placa de vídeo; algumas sequer possuem um computador. Como resolução, o pastor transmite os cultos de sua casa, ainda que muitos irmãos estivessem com dificuldade para acessá-los: “Eles conseguem no máximo usar o YouTube. Então a gente tá transmitindo pelo YouTube”, explica. Ao comentar sua dificuldade de infraestrutura, o ministro julga que o auxílio financeiro não deveria se limitar aos pastores, mas poderia ser utilizado para a implementação tecnológica dos templos com as ferramentas já mencionadas.

Mesmo as congregações que dispõem de algum material, ao mesmo tempo, carecem de treinamentos mais específicos, como de sonoplastia, entre outras atividades técnicas: “O pessoal do som não sabe o que fazer, não sabe o que cada botão na mesa faz. Nem eu sei.” Por isso, não menos alarmante para o pastor é a falta de recursos humanos. Essa carência não diz respeito apenas à logística das transmissões, mas também ao acúmulo de cargos desnecessários para o período de pandemia.

“A necessidade de recursos humanos é tão grande que colocamos gente que acabou de se batizar pra fazer as coisas. Eu não tenho condições de ter na minha igreja um departamento de liberdade religiosa, porque eu não tenho advogado no distrito. O diretor de jovens, que está acumulando várias funções, nem é jovem e não sabe o que fazer. Outra diretora de jovens teve que sair porque chegou à exaustão. Sobre a escola sabatina, a gente tá revezando entre as igrejas. Então, precisamos dar novo significado a todos os nossos departamentos, para que eles sejam criados localmente a partir da necessidade”, desabafa.

Cerceado de tais dificuldades, o ministro interiorano ainda precisa manter-se emocionalmente saudável, lidar com a família e cumprir metas de estudos bíblicos. Como era plano da UCB que a Semana Santa fosse realizada virtualmente, os visitantes que demonstram interesse pelo estudo da Bíblia deveriam ser procurados e assistidos. “Mas no culto on-line, às vezes, vem visita do Piauí, de Goiás, e não tem como dar continuidade num acompanhamento assim”, esclarece. O pastor afirma que seu departamental estipulou uma meta para mais de 100 estudos cadastrados. E informa ter algumas dezenas de cadastros, mas todos inativos por falta de continuidade. “Então isso gera ansiedade, gera preocupação…”, queixa-se.

No fim do dia, o pastor interiorano não está exatamente preocupado com uma transmissão on-line ou com a quantidade de estudos cadastrados: “Eu estou mais preocupado em ‘apagar incêndios’, enterrar pessoas e consolar as famílias.” Ele explica que, no interior, o trabalho que se faz é de base: visitação, confissão, aconselhamento, gerenciamento de conflitos e prestação de auxílios de insegurança alimentar e falta de remuneração. Entre os casos citados, o ministro menciona uma mulher que teve os dentes arrebentados pelo marido, cuja filha é garota de programa e usuária de drogas. Todos convivendo em uma casa com filhos e netos. Em situação igualmente constrangedora, uma senhora, após ser visitada pelo pastor em sua residência, rogou: “não esquece de mim, pastor.” Ela vive com um esposo violento, e a igreja tenta denunciá-lo.

De acordo com o Pr. Odailson Fonseca, a ADRA está ativa com frequência em época de pandemia. Ele informa que a sede estadual de Artur Nogueira, SP, realizou uma campanha com 80-90 funcionários para arrecadar mais de 400 cestas básicas no início da pandemia. De fato, em Manaus, a ADRA chegou a distribuir em média 19 mil horas de oxigênio a mais de 70 famílias que atendiam pacientes da Covid-19 em suas casas. O Pr. Edson Nunes Jr., ao comentar sobre a ação da ADRA, informa que sua igreja, através do “Instituto Sementes”, ONG da Nova Semente, busca com frequência realizar parcerias com a entidade para a realização de projetos sociais.

Da mesma forma, o ministro interiorano entende que, “hoje, a ADRA é ainda mais importante do que já foi, porque tem atuado em toda a cidade para garantir a segurança alimentar dos membros”. Entretanto, ele insiste que o auxílio à membresia precisa ser mais radical. Nesse ambiente caótico – realidade da UCB que não pode ser transmitida on-line –, os adventistas carecem de assistência que transcende a instalação de cabos e o auxílio alimentar. Segundo o pastor, a maioria trabalha com funções manuais e precisa se expor como diarista ou catador de papelão. Ao lamentar a situação de suas ovelhas, ele afirma que o “ficar em casa” precisa ser ressignificado para tais pessoas; e insiste que o governo, assim como a IASD, precisa priorizar um programa de políticas públicas.

A igreja tem alojamentos. Ela poderia abrigar essas pessoas que possuem insegurança habitacional e alimentar. Aqui em São Paulo temos centros de treinamento e recreação, em Itaipava, em Araçoiaba da Serra, em Cotia. As próprias igrejas locais muitas vezes tem um acabamento melhor do que a casa dos membros, que as construíram. Então, elas também poderiam abrigá-los. Convênios com hotéis e pousadas podem ajudar, como foi sugerido pela CUFA [Central Única das Favelas]”, conjura o pastor, ao planejar iniciativas que auxiliariam os membros do seu distrito.

De acordo com dados de 2015 sobre a realidade adventista brasileira – com base em microdados fornecidos pelo Censo IBGE 2010 –, a IASD no Brasil é uma igreja composta por pobres, alguns inclusive inseridos linha da miséria.1 Segundo o levantamento, 34,6% dos adventistas brasileiros (acima dos 10 anos) não possuía renda nenhuma. (Os 65,4% restantes eram de maioria masculina, com níveis elevados de desigualdade salarial – apenas 1,5% dos adventistas recebiam mais de 10 salários mínimos.) Além disso, o nível de desemprego era superior à média brasileira, somando 37,1% de economicamente inativos. No que diz respeito aos contextos rurais, no qual está inserido o pastor interiorano, 37,2% são considerados pobres, e 19,9% miseráveis.

Iniciativas radicais

Os fatos que integram a relação entre a UCB e a questão do fechamento das igrejas, no auge da pandemia, são controversos e contraditórios. Por um lado, existe a declaração oficial – interna entre pastores e liderança – de que os templos devem permanecer prioritariamente fechados, mesmo com a flexibilidade governamental. Contudo, na prática, essa declaração oficial não surte pleno efeito devido à autonomia que os campos possuem para a administração de suas realidades; ela também não é unânime entre os administradores, principalmente entre os ministros que articulam uma agenda bolsonarista.

Embora a UCB defenda oficialmente o adiamento dos cultos presenciais, essa posição não é evidente em seus meios de comunicação. Em março (4) deste ano, o canal do YouTube Adventistas SP publica um vídeo gravado pelo Pr. Maurício Lima com orientações gerais sobre o funcionamento das igrejas. Ele se dirige especialmente àquelas que estão realizando cultos presenciais: “seja criterioso no cumprimento das orientações”; ou seja, o uso de máscaras, a higienização das mãos e o distanciamento social. O único momento em que há referência ao culto remoto ocorre em consideração aos membros que se recusam a participar presencialmente. O discurso não enfatiza a prorrogação presencial dos cultos, como se pretende em seu discurso oficial.

O próprio canal Adventistas SP não segue à risca a diretriz oficial mencionada por Odailson, e se contenta com orientações de higienização aos membros que preferem ir aos cultos presenciais no auge das infecções e mortes pela Covid-19. Em março (4), o site oficial de notícias da IASD publica uma “campanha de oração”, também para incentivar os membros à higienização básica de prevenção à doença nos cultos presenciais. Sem qualquer ênfase na orientação oficial, até então divulgada entre os pastores da UCB, o texto pede: “se possível, assista à programação de sua igreja on-line.”

Partindo da perspectiva da DSA, o líder de comunicação em São Paulo, Pr. Odailson Fonseca, reconhece que não pode existir uma orientação restrita ao fechamento das igrejas devido à realidade singular de cada região: “Alguns têm um lockdown onde nem o cameraman pode entrar na igreja […] e outros lugares estão dizendo que pode funcionar 50%”, flexibiliza Odailson, sugerindo possibilidade para a realização de cultos presenciais com consentimento e orientações governamentais.

A igreja é um ambiente democrático, de família. Ela não é um ambiente militar. Então, a gente tem que conviver com essa diferença entre as pessoas, e todas são bem-vindas. Mas que cada membro da igreja seja responsável”, esclarece Odailson ao admitir as discordâncias.

Essa relação de autonomia entre igreja local e Associação, ou União, de acordo com o Manual da Igreja, é estabelecida de forma participativa e democrática. Nesse contexto, a igreja local possui autonomia, em face às demandas superiores, para acatar ou não as diretrizes sugeridas. Em certas ocasiões, é possível, por exemplo, eleger representantes da Associação ou da União para discutir, em comissão local, o que deve ser realizado pela comunidade. Este é o contexto regimental que concede às lideranças locais o direito de abrir ou não suas congregações no período da pandemia, mesmo em contradição às preferências da UCB.

Mesmo assim, ao reconhecer a disparidade de opiniões na UCB sobre o fechamento das igrejas, o pastor interiorano defende a necessidade de uma posição mais clara e oficial da DSA. Ele diz ter recebido um áudio vazado do Pr. Erton Köller, então líder da igreja para a América-Latina, em que roga para que os templos sejam fechados; e também afirma ter recebido uma nota oficial no concílio, mas sem qualquer marca timbrada. Nenhuma dessas iniciativas é oficial, e portanto, não possuem força de unanimidade a respeito do fechamento dos templos. “Estamos em tempos de guerra e medidas de guerra não estão sendo tomadas”, alerta o ministro do interior.

O debate entre os ministros adventistas permanece ativo a esse respeito. E a DSA não se inclina a uma posição oficial sobre o assunto. Pelo contrário: recentemente, o advogado geral da DSA, Dr. Luigi Braga, publicou um vídeo que explica sua relação com a Associação Nacional de Juízes Evangélicos (ANAJURE) e justifica o processo ajuizado por ela: a abertura dos templos no período mais grave da pandemia. O líder de comunicação da DSA, Pr. Rafael Rossi, chegou a compartilhar o discurso do advogado em suas redes sociais, sugerindo compactuar com esse discurso. Rossi apela ao tema da “liberdade religiosa”, argumento semelhante ao da ANAJURE, que alega estar sofrendo perseguição por serem proibidos de realizar seus cultos. 

Em termos gerais, a UCB está otimista com sua posição oficial, embora não seja publicamente declarada e não surta os efeitos pragmáticos desejados. Ela também aposta na unanimidade de seus líderes, embora discordâncias sejam evidentes. Ao mesmo tempo, a UCB permanece realizando um trabalho massivo de treinamentos e orientações para a realização dos cultos virtuais, tanto aos membros quanto aos pastores. Quando necessário, recorre à ADRA para auxiliar os mais necessitados de forma material. No entanto, em contextos mais humildes, a realidade exige iniciativas ainda mais radicais, como lamenta o pastor interiorano: “Graças a Deus eu consegui manter a maior parte das igrejas no virtual antes dos decretos. Mas nosso tecido social é muito frágil, e qualquer lockdown sem políticas de auxílio, sejam do governo ou da igreja, também é genocídio.” 

Enquanto não há um posicionamento contundente, as congregações na UCB, por direito e autonomia, escolhem ou não abrir os seus templos em face aos regulamentos governamentais; algumas delas administradas por pastores alinhados à agenda negacionista de Jair Bolsonaro. Talvez, mais do que em outras ocasiões, a IASD em São Paulo precise tomar duas decisões radicais: em primeiro lugar, admitir pública e oficialmente a sua preferência pelo fechamento das igrejas; e, em segundo lugar, utilizar seus recursos financeiros para o auxílio integral de seus membros que, em face à pandemia, tornam-se cada vez mais miseráveis.

Notas:
  1. PEREIRA, Lúcio; FOLLIS, Rodrigo; FERREIRA, Bruno; NOVAES, Allan. O desenvolvimento do reino: desafios socioeconômicos para o adventismo brasileiro. In: FOLLIS, Rodrigo; NOVAES, Allan; DIAS, Marcelo (Orgs.). Sociologia e adventismo: Desafios brasileiros para a missão. Engenheiro Coelho: Unaspress, 2015, p. 119-137.