Por André Castro | Baiano, estuda teologia da Faculdade Latino Americana e é batista. Pesquisa Teologia da Libertação e Marxismo e é editor na revista Zelota.

Existem diversos textos bíblicos do Novo Testamento que falam de uma segunda vinda de Jesus; um momento em que o juízo do Senhor será concretizado, de uma vez por todas. Em Mateus 25.31-46, temos uma forma um pouco diferente deste julgamento. Ali, segundo Jesus, o Filho do Homem virá para reunir e dividir as nações, como um pastor separa suas ovelhas. Há um critério de divisão que vai definir quem irá para o castigo eterno e para a vida eterna, entre a morte e a vida. E para definir quem deve ter a vida eterna, Jesus aponta que a vida desta nação deve ter respeitado alguns critérios. Ele sentencia diversos momentos: 

Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram’” (Mt 25.35-36).

Às nações que o acolheram, que olharam para suas necessidades, ele vai dar a eternidade. Mas para as nações que não fizeram isso, morte eterna. Podemos ler esse texto em diversos sentidos. Um deles seria de uma forma individual, na qual Jesus nos imputa a necessidade de uma caridade pessoal, uma ação “simples” de acolhimento. Aqui, porém, queremos lê-lo de uma outra forma, a partir da história do nosso povo e de suas lutas. 

A tradição de Israel, na qual Jesus está inserido, é uma tradição que tem em sua centralidade a figura do profeta. Esse profeta representa, em diversos momentos, a figura de Deus dentro do reino. Existe uma incrível dialética rei-profeta dentro do texto bíblico, uma relação complicada onde os ditames de Deus são muitas vezes desrespeitados pela idolatria da realeza, a qual era enfrentada pelos profetas do Senhor, que frequentemente acabavam mortos. Jesus, em certo sentido, toma também esse lugar do profeta que anuncia a face de Deus para um povo e um poder estabelecido que é idólatra. 

O primeiro ponto que devemos esclarecer é que idolatria não significa aquilo que costumeiramente pensamos. Idolatria não é meramente a criação de uma imagem, ou a noção abstrata de que estamos colocando algo no lugar de Deus em nosso coração. Idolatria é a formação de uma certa divindade que valida um sistema de dominação. Por isso, os profetas de Israel estão sempre em conflito com os poderosos: estes querem um deus que dê validação celestial ao seu domínio terrestre. Deus, porém, sempre continuou sendo uma alteridade, um mistério inominável, que, para não ser a crença que valida a dominação, é a esperança dos dominados. Nosso Deus é um Deus de libertação, um Deus que escuta o clamor dos seus povos: 

Vocês, israelitas, não são para mim melhores do que os etíopes”, declara o SENHOR. “Eu tirei Israel do Egito, os filisteus de Caftor e os arameus de Quir” (Am 9.7).

A libertação do Senhor acontece quando seu povo clama pelo fim da dominação, mas a idolatria cobre os olhos do seu povo para que não saibam que estão vivendo uma vida-em-face-à-morte. A proclamação do Senhor, a proclamação de um Deus outro, que nega os deuses dos poderosos, é a proclamação do evangelho. Jesus é a imagem do Deus que escolheu os seus, os dominados, os explorados, os mortos.

Por isso, não devemos ter medo de dizer que vivemos uma situação idólatra: tanto em uma religião hegemônica que acredita poder colocar Deus na parede e dissecá-lo, traçando sua anatomia e definindo todos os seus atributos; quanto de outra religião que tira de Deus a materialidade da existência humana, afirmando que a forma como vivemos hoje é a “natural”, é o projeto de Deus, e que em um futuro idílico, na volta de Cristo, nós vamos viver as maravilhas do Reino de Deus. Em ambos os casos, vemos a religião que dá sentido à dominação, que dá validação celestial para a dominação terrena; não é a Deus que adoramos, mas um ídolo. 

Os profetas de Israel aprenderam a responder à injustiça das dominações com a proclamação de um Deus que se apresenta na vida dos dominados, e na negação do relacionamento dos dominadores com Deus, ou seja, proclamando suas idolatrias. Jesus, contudo, faz mais que isso; Ele não só nega a falsa espiritualidade dos idólatras, mas toma o lugar dos dominados, e ressuscita. A ressurreição de Jesus é um fato absoluto na história do mundo. Ela é a negação da morte, a negação dos sistemas de morte, é o não absoluto a todo ídolo, a todo poder que se arroga o direito de decidir a vida ou a morte do povo de Deus. Onde exista exploração, dominação e subalternização, ali existirá a experiência mística da participação do corpo de Cristo, onde o ânimo das vítimas é forjado no ânimo de Deus, para a sua libertação, para a vida em abundância, para o Reino de Deus.

Por isso, participar das dores dos dominados (Mt 25.31-46) é participar da vida de Cristo. Ele se corporifica lá, e se movimenta também. O cristão que não está ligado a estas dores não está ligado a Cristo. 

Fica, então, a tarefa: entender quais são e como acontecem os processos de dominação. O lugar em que a morte tem apresentado sua face mais rotineiramente é onde a ressurreição de Cristo deve estar mais presente. A esperança do mundo dorme na calçada; o cordeiro foi imolado antes da fundação do mundo, o sofrimento dos povos de Deus tem que ser o nosso, suas pautas, as nossas, suas vidas, as nossas.

Hoje o capital é o nosso maior ídolo. Ele define quem vive e quem morre; seus grandes sacerdotes (os bilionários) são queridos, são tratados como vencedores, enquanto na realidade são como os sacerdotes de Moloch, que sacrificam tudo para a acumulação. O patriarcado é sem dúvida um ídolo também, sustenta a atual forma de reprodução da vida, invisibilizando a vida e o trabalho doméstico de bilhões de mulheres e reduzindo as possibilidades delas em diversos setores da sociedade.

Na morte, nas horas desperdiçadas em trabalhos explorados, no tempo gasto para a produção de uma riqueza que será roubada; nas violências físicas e psíquicas, parte fundamental do patriarcado; nas estruturas racializadas e racistas, que muitas vezes permanecem “invisíveis”; a ressurreição se faz presente, não de forma romantizada, mas de forma libertadora. Na organização de todas e todos os trabalhadoras e trabalhadores, nas reivindicações das mulheres e nas denúncias dos movimentos raciais, vemos a energia da ressurreição, o suave aroma da revolução, a esperança de que a vida vai prevalecer, de que a morte morreu, de que “Subindo ao alto (Jesus), levou cativo o cativeiro, e deu dons aos homens” (Ef 4.8), de que os poderes e os sistemas de morte não tem a última palavra. Vemos que a vida é a força que move o mundo, que o amor é o princípio e o fim de tudo.