Os adventistas em Cuba possuíam consciência revolucionária a ponto de militarem contra o monopólio administrativo estadunidense da IASD e comemorarem o sucesso da Revolução Cubana


*Série: O adventismo em Cuba (parte 1)

A história relata que a Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD) chegou em Cuba por volta de 1900. No entanto, os missionários não traziam consigo apenas a “Terceira Mensagem Angélica”, mas uma agenda política declarada; um espírito resoluto a favor da imposição imperialista dos EUA sobre Cuba. Conscientes ou não, os “adventistas ianques” dominavam a igreja cubana aos moldes da dominação estadunidense: ofereciam muitos favores em troca do controle total de seus afazeres. Mas o monopólio administrativo da IASD em Cuba começa a sentir as primeiras reações de indignação dos cubanos com o desenvolvimento de uma consciência revolucionária.

Embora não existam muitos relatos históricos sobre a IASD em Cuba no período pré- Revolução Cubana e durante, as poucas evidências sugerem a existência de uma igreja inquieta: eles reclamaram por mais espaço aos nativos nas decisões administrativas da igreja; são capazes de se organizar e se desenvolver sem qualquer auxílio financeiro do exterior; e comemoram a chegada da Revolução Cubana por conta de uma incipiente consciência política em desacordo com a ditadura militar de Fulgêncio Batista e uma insatisfação declarada aos abusos econômicos estadunidenses. 

Este breve texto é o primeiro de uma série de três que pretendem explorar ao máximo a experiência dos adventistas em Cuba, antes, durante e após a Revolução Cubana. Ele foi elaborado em termos introdutórios, e é essencial para a compreensão dos eventos que serão delineados a seguir, nas próximas publicações. A princípio, é mais importante demonstrar que as publicações adventistas oficiais – por motivos injustificáveis – não abordam a história da IASD na ilha com profundidade e senso crítico. Embora seja passível de atualizações e enriquecimento documental, esta série pretende fazer juz à realidade adventista cubana, suas vitórias e desafios. 

Os adventistas chegam em Cuba

Para compreender melhor a situação dos adventistas na ilha, cabe aqui uma breve contextualização histórica. É preciso lembrar que Cuba foi a última colônia a se libertar da Espanha, em 1898. Mas, até essa conquista, ela enfrentou violentas investidas para sua emancipação por um período médio de 30 anos: a primeira tentativa de independência ocorreu em 1868; e a segunda, que conquistou a vitória, começou em 1895. Ainda que Cuba pudesse, finalmente, em 1898, afirmar sua libertação da colonização espanhola, o que parecia o início de um sonho concretizou-se como o pior dos seus pesadelos.

Para que Cuba se emancipasse da Espanha, a interferência estadunidense foi determinante. Nessa época, os EUA experimentavam franca expansão econômica (que já ultrapassava a Inglaterra e a Alemanha). No afã por desenvolvimento, a região do Caribe era assediada pelos olhares gananciosos dos ianques como fonte excepcional de matéria-prima, como o açúcar, o ferro, o manganês, o tabaco, entre outros.1 O aproveitamento dessa riqueza era, no entanto, impedido pelas ações colonizadoras da Europa. Cientes de suas limitações, desde o início do século 19, os EUA já ensaiavam um discurso de “liberdade” aos continentes americanos, contra a presença dos colonizadores europeus. Nesse ritmo é formalizada a “Doutrina Monroe”, que define um padrão de intervenção estadunidense para o benefício da “paz e segurança” da américas. 

Nos embates entre Cuba e Espanha, portanto, os EUA atribuíam a si a responsabilidade de “intermediação”. Alegando um ato de sabotagem espanhola contra os EUA, os ianques interferem na guerra em 1898, dando cabo ao conflito em poucos meses. Com a vitória estadunidense (e, em tese, de Cuba), a Espanha transfere o domínio local aos EUA; mas esse processo de diálogos e negociações não conta com a participação dos cubanos. Troca-se, portanto, seis por meia dúzia: Cuba passa de colônia espanhola para “república independente”, fortemente controlada e administrada pelo ímpeto imperialista dos EUA, assim como pelos seus assédios sociais e econômicos.

A chegada da IASD à ilha ocorreu, coincidentemente, próximo ao fim da guerra Hispano-Americana, em 1898. O enfraquecimento do domínio espanhol diminuiu a influência do catolicismo na região; e a nova investida estadunidense exportou ao país a ambição evangelística de igrejas protestantes. Não por acaso, em 1898, a nova realidade política de Cuba empolgou os ianques adventistas, e foi interpretada pelos missionários da instituição como uma oportunidade para a pregação do evangelho.2 Portanto, nesse contexto, as ações missionárias protestantes em Cuba ocorrem amalgamadas às intenções econômicas estadunidenses; e os missionários adventistas rumam à ilha enroscados nas garras cruéis do imperialismo.

A origem do adventismo em Cuba – até onde se tem notícia –, ocorreu por conta do trabalho missionário do “casal Moore” em 1904; eles eram provenientes do Sanatório de Battle Creek, em Chicago, um influente resort de saúde, à época chefiado por John Harvey Kellog.3 No ano seguinte, outro missionário aportou na região com o objetivo de organizar uma igreja, em Havana, que na época congregou dez membros. O nome dos primeiros batizados foram registrados: Manuel Ávila e Pedro Cruz, que posteriormente tornaram-se colportores evangelistas e auxiliaram na propagação do adventismo. Entre 1905-1906, a IASD consegue, finalmente, estabelecer uma congregação oficial em Cerro, Havana, com 13 membros. A partir de então, o número cresce exponencialmente, chegando a atingir, em 1930, o número de aproximadamente 5.500 devotos.

A primeira escola adventista em Cuba foi fundada em 1922. Embora inicialmente estivesse na província Oriental do país, ela se muda à província Ocidental, em Santa Clara em 1950, e se torna o Colégio da União Antilhana. Em termos organizacionais, é provável que o marco mais importante para a IASD em Cuba tenha ocorrido em 1935, quando a “Associação Cubana” é  organizada. O mesmo ano é coroado com a inauguração de um programa de rádio para a propagação do adventismo naquela região. Em 1940, aquela minúscula organização tomará as rédeas da Divisão Inter-Americana dos Adventistas do Sétimo Dia.

Fonte: Seventh-Day Adventist Yearbook.

Até então, adventistas cubanos e ianques conviviam nas mesmas congregações, ainda que o assédio americano e a subjugação dos nativos fossem evidentes. De acordo com o Seventh-Day Adventist Yearbook (e como é evidente no gráfico), entre os anos de 1930-1960, a IASD começa a crescer de forma sempre ascendente em Cuba; esses anos correspondem aos avanços administrativos da instituição na ilha, assim como sua expansão para as áreas da educação e comunicação. Os números, no entanto, são incapazes de julgar o que, de fato, ocorria nas congregações e na relação entre cubanos e ianques no contexto administrativo. 

Adventistas ianques vs. adventistas cubanos

De forma consciente ou não, a historiografia adventista deixou marcas da devoção ideológica que a IASD nutria pelo sucesso do imperialismo estadunidense. O discurso adventista norte-americano fortalecia as condições estipuladas pela Emenda Platt, que conferia aos EUA o direito de impor, quando julgassem necessário, ações para o sucesso de seus interesses políticos e econômicos. Em 1933, por exemplo, a revista The Watchman afirma: “A guerra civil na ilha [é uma] ameaça. Uma condição que deve demandar intervenção dos EUA de acordo com a Emenda Platt. O capital americano praticamente controla os negócios de Cuba, e vidas americanas estão em perigo; mas o Tio Sam está fazendo o possível para trazer a ordem sem intervenção.”4 A mesma conotação econômica é transmitida no livro A história da nossa igreja: “por sua beleza, importância comercial e sua estratégia geográfica, esse país tem sido denominado de muitas maneiras.”5

De fato, o governo americano havia controlado a economia cubana, articulando-a em prol de seus interesses comerciais. De uma perspectiva econômica, Cuba apresentava uma modernização capitalista equivalente ou superior aos países mais ricos da região: em 1958, a ilha estava no sexto lugar no ranking mundial de carros por habitante; em 1953, tinha o sétimo lugar na importação de tratores; em 1954, estava em primeiro lugar, entre América-Latina e Caribe, no número de aparelhos de televisão; em 1949, em quarta posição em número de emissoras de rádio; entre outros dados.6 

No entanto, o desenvolvimento econômico de Cuba contradizia sua realidade social: entre 1956-19577, a população cubana somava 16,4% de desempregados, e o número de 13,8% sobrevivia de serviços casuais, em situação de subempregos. Grosso modo, os benefícios provenientes do “avanço” econômico eram privilégio de poucos: da aristocracia rural, da burguesia que se dedicava à especulação imobiliária, dos profissionais liberais da classe média, e do turismo. Este último, como é bem sabido, transformou Cuba na “ilha dos prazes”, com cassinos e prostituição, ambos organizados por conexões entre a máfia americana e o governo cubano. Os estrangeiros passeavam em carros luxuosos, possuíam mansões perto do mar, enquanto a população local jazia na pobreza.

“O capital americano praticamente controla os negócios de Cuba, e vidas americanas estão em perigo; mas o Tio Sam está fazendo o possível para trazer a ordem sem intervenção”

A despeito dos abusos imperialistas, na década de 1940, existem evidências de que os periódicos adventistas se referiam a Cuba como “república independente”8, ainda que a ilha estivesse sob evidente assédio estadunidense. Com o tempo, a consciência política dos adventistas cubanos começou a se expressar na relação entre os membros nativos e os ianques. Nesse período, a liderança da IASD era monopolizada pelos norte-americanos, conferindo um espaço quase nulo para os leigos nativos. A falta dessa representação, em 1940, gerou insatisfação nos membros cubanos, causando divergência na igreja: a Associação Cubana divide-se, portanto, em duas, “uma com um presidente cubano e um secretário-tesoureiro norte-americano, e a outra com esses cargos invertidos.”9 Uma delas com sede em Havana, e a outra em Camaguey.

À parte da insurreição adventista cubana contra o monopólio administrativo, poucos esforços foram aplicados para a mudança dessa realidade. Com a vitória da Revolução Cubana, em 1959, e o consequente retorno dos adventistas ianques aos EUA, a igreja foi abandonada “crua”, sem substitutos capacitados para dar continuidade ao avanço da denominação. Mesmo assim, em 1961, com a revolução socialista em voga, a IASD já possuía um corpo administrativo representado pelos nativos. Essa liderança preservou intacta as crenças fundamentais adventistas; e se desenvolveu com naturalidade dentro dos limites que a revolução estabeleceu para as atividades religiosas, quase duplicando o número de seus membros até 1990.

Com o sucesso da Revolução Cubana, a reação dos adventistas ianques escancarou suas preferências políticas. Richard Schwarz e Floyd Greenleaf, no livro Portadores de Luz,10 afirmam que os adventistas estadunidenses foram assediados pela revolução e obrigados a deixar o país. Eles afirmam que os EUA agiram de “forma paternalista”, amparando a economia de Cuba com boas intenções, desde a chegada do adventismo: “Foi sob o amparo dessa relação especial que os obreiros adventistas entraram na ilha, em 1903.” No total, os autores dedicam quase duas páginas para descrever o desfecho do adventismo em Cuba ao passo que criticam o governo socialista de Fidel Castro, insistindo na intervenção americana, em 1990, como uma oportunidade para a redenção da IASD na ilha – ainda que ela estivesse em franco funcionamento.

Devido aos conflitos políticos entre Cuba e EUA, os adventistas da ilha perdem contato com os estadunidenses até 1970, ano a partir do qual as relações retornam de maneira informal. Essa relação é restaurada por volta de 1980-1990, e retomada de forma oficial por meio de projetos evangelísticos, como, por exemplo, o Global Mission Maranatha Volunteers International (2001), e o Care for Cuba (2015). Anos mais tarde, o escritório administrativo de Havana, já utilizado como centro de treinamento para obreiros, associou-se à Universidade de Montemorelos, no México, para oferecer títulos de bacharelado em religião. Em 1995, se iniciou a construção de um seminário em Havana, que foi dedicado por Robert Folkenberg no ano seguinte.

Embora seja evidente que a IASD em Cuba alcança um ímpeto de crescimento imediato com o regresso dos ianques à ilha após a revolução, entre 1980-2000, o ritmo do crescimento numérico da igreja continua o mesmo desde a época do governo socialista. Além disso, é possível que uma análise mais criteriosa dos dados aponte um percentual de crescimento que, a longo prazo, torne indiferente a ação missionária dos EUA para o desenvolvimento da igreja em termos quantitativos. A expansão do adventismo em Cuba antes, durante e depois da Revolução Cubana é evidência suficiente para afirmar as relações saudáveis que o governo socialista possuía com o desenvolvimento do adventismo na ilha. 

De Martí a Marx

De acordo com o sociólogo adventista Caleb Rosado11, a maioria dos adventistas cubanos não concordava com a ditadura do militar Fulgencio Batista – contra quem lutavam os revolucionários, em primeiro lugar por seus crimes institucionais, e em segundo por ocasião da condição socioeconômica do país. O golpe de Estado de Batista ocorreu em 1952, e foi fortemente incentivado pelo governo estadunidense e seus interesses imperialistas. Por isso, quando Fidel Castro deu início à luta pela Revolução Cubana, em 1956, a maioria dos adventistas, principalmente os leigos, era simpatizante dos revolucionários, a ponto de oferecer abrigo e assistência clandestina, como será demonstrado nas próximas publicações. Há quem afirme que, com o avanço dos rebeldes, os adventistas nativos não apresentavam qualquer resistência política ou religiosa aos ideais revolucionários.12 À semelhança de muitos cubanos na época, os adventistas também eram vítimas do alto grau de subdesenvolvimento do país, e, por isso, as promessas da revolução e os esforços contra a ditadura de Fulgêncio Batista eram não apenas necessárias, mas urgentes à igreja e à sociedade.

Sabe-se, por exemplo, do Pr. Gerzom Gomez13, que no período da Revolução Cubana vivia o auge de sua adolescência, 17 anos. Ele relata que, na época, cogitou a possibilidade de se unir aos “rebeldes de Escalona”, mas evitou envolvimento por ser adventista e recusar pegar em armas. Mesmo envolto de sentimentos confusos, Gomez relembra ter comemorado a vitória da revolução com outros adventistas no município de Juan y Martinéz, em Pinar del Río. “Eu peguei duas peças de tecido, uma vermelha e outra preta, e minha mãe costurou na máquina uma bandeira do Movimento 26 de Julho [movimento revolucionário fundado por Castro, em 1954]”, conforme relatou em suas memórias, publicadas pela neta Suny Cárdenas-Gómez. Gerzom Gomez, anos após a revolução, tornou-se pastor adventista.

Adventistas (provavelmente da igreja local de Gerzom) comemoram a vitória da Revolução Cubana em San Juan y Martínez, Pinar del Río, Cuba. Fonte: Foto disponibilizada por Suny Cárdenas-Gómez no memoir do seu avô.
Comunidade Adventista em San Antonio de los Baños, uma das igrejas em que Gerzom foi pastor em Cuba. Fonte: Foto disponibilizada por Suny Cárdenas-Gómez no memoir do seu avô.

De uma perspectiva teórico-teológica, é também possível evidenciar que alguns adventistas cubanos não se contradiziam quando afirmavam alinhamento ideológico com os pressupostos marxistas-leninistas da Revolução Cubana. A Revista Adventista14, em junho de 2016, por exemplo, em matéria dedicada à pejoração da Revolução Cubana a partir da experiência adventista, traz a informação de que a pastora Gilmar Carbonell, ex-acadêmica, mestra em filosofia e educação marxista, se converteu ao adventismo após entrar em contato com os textos de José Martí.

Os escritos do filósofo revolucionário cubano José Martí representaram para Fidel Castro, entre outros rebeldes, a principal inspiração político-ideológica para a realização da revolução socialista em Cuba. Entre os ideais apregoados por Martí, por exemplo, é defendida a separação entre Igreja e Estado, e a necessidade de estabelecer liberdade aos cultos, sem conceder privilégios ao Clero. Martí se considerava um “cristão puro”, não católico; era um espiritualista e revolucionário, contrário ao materialismo reacionário dos positivistas de seu tempo.

Além disso, a figura de Martí é especialmente indispensável à urgência pelos esforços revolucionários de Cuba desde a época em que era colônia espanhola. Ele é o fundador do Partido Revolucionário Cubano (PRC), e atuou como um dos protagonistas responsáveis pela luta por emancipação em 1895 – ocasião da sua morte, no dia 19 de maio, aos 42 anos, na Batalha de Dois Rios. Martí não chegou a ver a independência de Cuba na guerra Hispano-Americana, mas suas convicções políticas e religiosas jamais aprovariam o envolvimento imperialista estadunidense – pois ele já se posicionava contra relações do gênero em vida. 

“todas as lutas libertárias cubanas, inclusive a Revolução de 1959, trazem uma conotação religiosa, cuja expressão máxima foi o espiritualismo anticlerical de José Martí”

De acordo com Frei Betto, em seu livro Paraíso Perdido15, “todas as lutas libertárias cubanas, inclusive a Revolução de 1959, trazem uma conotação religiosa, cuja expressão máxima foi o espiritualismo anticlerical de José Martí.” Em outra obra do mesmo autor, Fidel e a Religião16, Fidel Castro concedeu a seguinte fala a respeito da relação de José Martí com os ideais marxistas: “Martí tinha muito respeito por Marx, de quem disse uma vez: ‘Como se colocou ao lado dos fracos, merece respeito.’ Quando Marx morreu, escreveu belas páginas sobre ele. Há coisas tão estupendas e belas no pensamento martiano que, a partir dele, a gente pode se converter em marxista.” 

O que Fidel não poderia imaginar à época é que, anos depois, o pensamento de José Martí converteria uma marxista ao adventismo. Em outras palavras, em termos políticos e ideológicos, é possível afirmar que não há contradições – ao menos determinantes – entre os ideais revolucionários cubanos e a esperança religiosa adventista. Há evidências de que os adventistas em Cuba compreendiam a urgência e os benefícios da instauração de um governo socialista; e outra, em particular, que aponta a crença adventista como um espaço de diálogo político e religioso entre Martí e Marx. 

Uma história mal contada

Ainda em face a tais evidências, a disposição política dos adventistas em Cuba deve ser interpretada com cautela. As experiências em face à revolução são plurais, e não devem ser generalizadas. Até o momento, talvez seja seguro apenas afirmar que a maioria dos adventistas em Cuba possuía consciência política – independente da influência estadunidense – que justificava a insistência por uma administração cubana à igreja; e, ao mesmo tempo, lhes conferia liberdade de consciência religiosa para auxiliar aos revolucionários quando necessário, e dar cabo do desenvolvimento da instituição sem a interferência estadunidense.

A história da IASD em Cuba está para ser contada com mais detalhes no futuro, visto que não existem muitos relatos oficiais detalhados a esse respeito. A Enciclopédia Adventista, por exemplo, aguarda artigos sobre o adventismo em Cuba; sobre a União Cubana (Unión Cubana, ou Cuban Union Conference); e sobre o Seminário Teológico Adventista no país. A despeito das muitas histórias que podem e – esperançosamente – ainda serão contadas sobre essa realidade, dois relatos não podem ser esquecidos, e serão o foco do próximo texto, pois expressam o que há de mais concreto a respeito da relação entre os adventistas e a revolução socialista, em Cuba.

Até hoje, quando tratam da história da IASD na ilha, é comum à mídia e às publicações adventistas caluniar, na primeira oportunidade, a relevância da Revolução Cubana. Embora não existam tantos documentos sobre a denominação em Cuba, a falta de fidelidade das publicações adventistas às informações históricas disponíveis é vergonhosa. Trata-se de uma maneira unilateral e desonesta de retratar a história do povo cubano; e um flagrante desrespeito aos adventistas que compartilharam das alegrias, dos desafios e dos benefícios da revolução ao país. Nos próximos textos, parte do que se perdeu dessa história será recuperado. 

Notas:

1. Ver COCKROFT, J. América Latina y Estados Unidos. México: Siglo XXI, 2001.

2. MOON, A. Our Present Duty. The Missionary Magazine, v. 10, n. 5, may 1898; SCHWARZ, R. W.; GREENLEAF, F. Portadores de Luz: História da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Engenheiro Coelho: Unaspress, 2016, p. 654-658.

3. OGDEN, A. R. Organization of Cuban Mission into a Conference. The Jamaica Visitor, v. 10, n. 3, p. 2, 1935; IASD. História da Nossa Igreja. Santo André: Casa Publicadora Brasileira, 1962, p. 372-373.

4. THE WATCHMAN. The News. The Watchman Magazine, v. 42, n. 12, p. 2, nov., 1933.

5. IASD. História da Nossa Igreja. Santo André: Casa Publicadora Brasileira, 1962, p. 372.

6. Ver DEL TORO, C. La alta burguesia cubana 1920-1958. La Habana: Editorial de Ciencias Sociales, 2003.

7. Ver MARIFELI, P. The Cuban Revolution. New York: Oxford University Press, 1999.

8.Ver LUNDQUIST, H. B. A Few Excerpts from the Annual Report of the Union President. The Inter-American Division Messenger, v. 26, n. 3, p. 2-3, mar., 1949; BERGHERM, W. A. A fine report from Cuba. The Inter-American Division Messenger, v. 17, n. 17, p. 2, set., 1940.

9. SCHWARZ, R. W.; GREENLEAF, F. Portadores de Luz: História da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Engenheiro Coelho: Unaspress, 2016, p. 655.

10. Ibid, p. 654-658.

11. ROSADO, Caleb. Castro and the Churches. Spectrum, v. 15, n. 3, p. 24-27, [s.d.].

12. MARTÍNEZ-FERNÁNDEZ, L. Revolutionary Cuba: A history. Gainesville: University Press of FLorida, 2014.

13. CARDENAS-GOMEZ, S. Coming of age in the Cuban Revolution: A Dialogic Analysis of Gerzom Gomez’s Memoir. Senior Research Project, Southern Adventist University, 2019.

14. STAUT, L. Abertura na Ilha. Revista Adventista, p. 12-17, jun., 2016.

15. BETTO, F. O paraíso perdido: Viagens ao mundo socialista. Rio de Janeiro: Rocco, 2015, p. 44.

16. BETTO, F. Fidel e a religião: Conversas com Frei Betto. São Paulo: Fontanar, 2016, p. 135.