Pesquisas de intenção de voto em 2026 demonstram fragmentação do apoio evangélico a Flávio Bolsonaro, mas uma manutenção da hegemonia conservadora nas denominações


A proposta deste artigo é dar continuidade a uma discussão iniciada em 2018, com o lançamento da candidatura de Jair Messias Bolsonaro. A hipótese inicial deste debate foi trabalhada primeiramente no artigo “Fascismo como religião e eleições em 2018”, então publicado pela Revista Analectica. Quatro anos mais tarde, foi publicado pela Revista Zelota o artigo “Fascismo como religião e eleições em 2022”, no qual a hipótese de pesquisa levantada anteriormente foi ampliada e aperfeiçoada na análise do fenômeno do chamado “voto evangélico”, antes do pleito. No mesmo ano, após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, os prognósticos feitos foram avaliados criticamente em “No vale de lágrimas entre a política e a religião”, também publicado pela Zelota.

Nesse sentido, a argumentação não parte de uma opinião fortuita, uma análise de conjuntura imediatista ou fragmentada, senão que expressa um movimento contínuo de observação de um fenômeno a médio prazo, com um fio condutor coerente e que busca manter certo rigor teórico e metodológico. Desse modo, para apresentar um prognóstico inicial dos evangélicos nas eleições de 2026 ou do chamado “voto evangélico” e sua relação com o movimento que cotidianamente foi denominado “bolsonarismo”, é necessário, primeiro, fazer um apanhado do conteúdo discutido nos artigos anteriores de modo sintético e articulado, assim como uma apresentação da metodologia que utilizamos em nossa análise. Em seguida, apresentarei cenários possíveis do eleitorado evangélico decorrentes dos apontamentos. Por fim, farei uma reflexão crítica sobre a desarticulação entre a hegemonia conservadora vigente nas igrejas evangélicas e sua representação política.

O “fascismo como religião”

Em 2021, foi publicado o livro Fascismo como religião, pela editora Pajeú. Nele, a expressão “fascismo como religião” fazia alusão à expressão de Walter Benjamin sobre o capitalismo como religião, delimitando como fascismo a função ideológica de “legitimação e justificação de sacrifícios de vidas humanas para a manutenção da reprodução social” em um movimento político de massas reacionário. O bolsonarismo, nesse sentido, era fascista, e, por sua vez, encontrava nas instituições religiosas uma mediação para a coordenação de grupos mobilizados e formação de consenso e legitimação ideológica dos sacrifícios exigidos pela manutenção de estruturas da reprodução social como um todo.

Tomar as instituições religiosas como mediações necessárias para a organização e manutenção da vida de comunidades no interior de uma determinada sociedade implica em compreender que elas precisam desempenhar certas funções para estarem adequadas ao todo social, assim como para garantir as condições de sua própria permanência e/ou expansão. O modo de organização interna das igrejas, portanto, precisa se adaptar e aprender a influenciar o meio social no qual estão inseridas. Do contrário, tendem a enfraquecer, ter pouca efetividade, ou mesmo serem combatidas nas pressões da reprodução social cotidiana de uma determinada sociedade e seu modo de produção.

A igreja e as classes sociais

Sob esse cenário, o papel das lideranças e da gestão das instituições se torna crucial (como discutido em “Fundamentalismo e reprodução social na América Latina” e “No vale de lágrimas entre a política e a religião”, ambos publicados pela Zelota). A administração das igrejas, sejam elas burocráticas e mais estruturadas ou carismáticas e mais dependentes da personalidade de suas lideranças, para realizarem suas funções adequadamente, precisam ter acesso a determinados recursos que são (ou majoritariamente foram) escassos na história de desenvolvimento capitalista brasileira: alfabetização adequada, educação formal, disciplina e organização do trabalho administrativo e intelectual, capacidade de planejamento e gestão financeira, de pessoas, etc. Tradicionalmente, até o final do século 20, a garantia de acesso a esses bens dentro da classe trabalhadora foi monopólio das classes médias brancas (o que se convertia em um privilégio de classe).

Contudo, em ritmo lento durante o século 20, e mais aceleradamente ao término deste período e início do século 21, emergiram as denominadas “novas classes médias”, impulsionadas primeiramente entre os anos 1920 e os anos 1980 pela industrialização deflagrada no Brasil — com urbanização intensiva e não planejada, somada a migrações em massa — e a partir dos anos 90 — pelo acesso à facilitação de crédito, pelo aumento real no salário mínimo, a universalização de serviços públicos e pela implementação de programas sociais de renda básica e de reparações históricas. Estas populações não se formaram pela garantia de empregos qualificados, acesso herdado ao ensino formal de nível superior e moradia em regiões nobres das grandes cidades. A marca desses grupos, ao contrário, é a instabilidade e dependência de redes de apoio e organizações coletivas locais para a realização de projetos pessoais.

Desse modo, estes processos históricos viabilizam condições para a emergência de um tipo de religiosidade específica e sua institucionalização — no caso que nos interessa, os evangélicos no Brasil. A partir deles, por exemplo, é possível observar a organização interna das igrejas entre lideranças das chamadas “novas classes médias” (na verdade, classes médias que apenas aparecem como “novas” do ponto de vista da “antiga” ou “tradicional”) e as possibilidades que o cargo de liderança abre para a reorganização familiar dos líderes no que diz respeito à estabilidade e garantia de que seus filhos e filhas acessem aos bens escassos antes monopolizados pelas classes médias tradicionais.

Estes são movimentos tratados por autores como Gedeon Freire Alencar e Marina Correa em suas respectivas pesquisas, que observam as transformações de uma geração para outra no interior do pentecostalismo brasileiro que conforma a grande massa da religião evangélica no país. As igrejas passam a funcionar para as lideranças como meios de realização de suas condições de vida e herança de acesso aos privilégios de classe que propiciarão novas condições para a família, e, por sua vez, estabelecerão as dinâmicas presentes em igrejas carismáticas — as chamadas “dinastias” de pastores que garantem familiares como herdeiros de seus empreendimentos religiosos. Desse modo, as lideranças das igrejas e os cargos decisórios são ocupados por “novas” classes médias, e operam na reprodução social como meio de vida para os sujeitos por elas responsáveis.

Por outro lado, as massas de fiéis não acompanham esta transformação — ao menos não no mesmo ritmo. Ao contrário das lideranças, elas não garantem estabilidade para seu planejamento pessoal e familiar, e nem têm acesso a bens sociais escassos monopolizados pelas classes médias. Dependem de redes comunitárias de solidariedade para garantir as condições e meios de reprodução de suas vidas, e batalham diariamente para obter renda para a reprodução cotidiana e imediata da vida.

A igreja evangélica e a modernização capitalista brasileira

A constatação da estratificação de classes sociais no interior das igrejas é muito importante para compreender sua organização interna e certa “divisão do trabalho espiritual”. Contudo, a instituição religiosa como mediação no interior da reprodução social precisa ser compreendida em seu desenvolvimento histórico próprio. Assim como indicado com respeito à análise das classes sociais, as igrejas pentecostais servem de referência para a compreensão do movimento evangélico, pois são o grupo majoritário que deu (e dá) a tendência para o todo.

O já citado “Fundamentalismo e reprodução social na América Latina” indica a origem do movimento pentecostal nos EUA sob os efeitos do processo de modernização e industrialização estadunidense, assim como sua chegada ao Brasil no início do século 20 e a criação de raízes nas periferias das cidades. Em um movimento missionário orgânico de expansão inicial pelo território nacional, as igrejas pentecostais ainda não eram institucionalizadas e não possuíam uma estrutura burocrática mínima que viabilizasse um plano ordenado e planejado de crescimento. Isso passa a ocorrer a partir da metade do século, com a emergência de uma segunda geração de lideranças que profissionaliza o cargo religioso e passa a estruturar uma gestão financeira e política organizada.

São criadas as grandes convenções, planejadas as sedes centrais das igrejas (não mais nas periferias e/ou nas casas das pessoas) e distribuídas as missões que formam as congregações (ou sucursais) espalhadas pelas periferias das grandes cidades e nos interiores urbanos do território nacional. Nesse processo, para o fortalecimento político e financeiro das instituições, há aproximações com grupos das classes médias tradicionais (juristas, médicos, engenheiros e militares, por exemplo), e, a partir do golpe militar de 1964, o alinhamento com a ditadura para a facilitação de favorecimentos e a refração de conflitos ou perseguições.

Essa dinâmica recrudesceu institucionalmente o movimento religioso dentro de posições conservadoras e até mesmo reacionárias, reproduzidas e fortalecidas a partir das lideranças e seus interesses (pessoais e de cargo). A reboque, o discurso antiesquerda, anticomunista e militarizado é instaurado. Essa articulação, contudo, acompanha o papel da igreja na organização comunitária, criando laços e espaços de solidariedade, fortalecendo relações interpessoais e viabilizando meios de vida para os fiéis. Uma máxima exemplarmente conhecida, por exemplo, é a “irmão compra de irmão”, aludindo a uma organização de trocas comerciais internas e à organização de uma economia orientada não pela mera obtenção de lucro, mas pelo fortalecimento da comunidade ou do coletivo, com o intuito de enriquecer aos inseridos no grupo.

Com a redemocratização no início dos anos 1990, entretanto, o mero alinhamento conservador deixa de ser funcional, e a necessidade de representação política formal passa a ser urgente. Se antes a máxima era expressa como “irmão compra de irmão”, agora, sob as novas condições da conjuntura nacional, “irmão vota em irmão”. Já na Constituinte de 1988 há a formação da primeira bancada evangélica, com 4 representações ligadas às igrejas. Ainda sendo um grupo socialmente minoritário, trata-se de um feito muito relevante.

Por outro lado, também deve ser considerada a influência estadunidense na Guerra Fria, orientada a partir dos anos 1980 com o uso da religião evangélica como soft power, especialmente no manejo e no financiamento de televangelistas que utilizarão os meios de comunicação em massa como mecanismos de divulgação de uma mensagem adequada aos interesses geopolíticos — mensagem esta inflamada pelas promessas de bênçãos e enriquecimento como fruto da conversão e da disciplinarização da vida (o que será chamado difusamente de “teologia da prosperidade”). Este fato tem seu peso e precisa ser considerado, mas não é fundamental para a compreensão do movimento evangélico. É, sem dúvida, um catalisador da disseminação de um modo de apresentar a mensagem de fé em um contexto de acelerado desenvolvimento dos meios de comunicação.

Nesse sentido, esse movimento dita uma nova tendência e abre campo para o que alguns denominaram como “neopentecostalismo”. Esta expressão, no entanto, é pouco explicativa, e desconsidera a rápida transformação das próprias igrejas mais tradicionais ou antigas que também se adaptam às novas organizações de redes de comunicação e acompanham em diferentes níveis a adequação do discurso religioso à obtenção de bênçãos ou melhorias de vida sob o capitalismo.

O chamado “voto evangélico”

É muito comum encontrar a expressão “voto evangélico” ou “voto de cajado”. A ideia, em geral, diz respeito a um voto automático decidido pela indicação do pastor ou pela determinação de lideranças religiosas sobre o voto dos fiéis, compreendidos como meros receptáculos ou agentes inertes que reproduzem o que lhes é determinado. Esse tipo de interpretação, além de reducionista, desconsidera os elementos fundamentais das relações sociais, da organização interna das igrejas, sua história de desenvolvimento e, em especial, da agência dos sujeitos, das pessoas religiosas que tomam suas decisões e têm sentido, razão, disposições e motivações para tomar uma ou outra posição diante de um determinado problema (no caso, diante das eleições).

Por outro lado, é muito comum ver, do ponto de vista crítico de quem percebe estas limitações, a indicação de que não é bem assim, e de que o “movimento evangélico é mais complexo do que isso” (o que está correto, mas ainda é insuficiente). No caso, a constatação de que há resistências, divergências e conflitos no interior das igrejas percebe esses aspectos supervalorizando questões comunitárias, interpessoais e subjetivas, desconsiderando, por sua vez, os aspectos históricos, a composição de classes nas igrejas e o papel institucional de mediação desempenhado por estas no interior da reprodução social. Desse modo, essa crítica nega corretamente a existência de um “voto evangélico” essencial ou mesmo o “voto de cajado” como manipulação dos fiéis, mas não explica por que a tendência conservadora se mantém e é reproduzida no interior das igrejas e expressa nas eleições, com o apoio, em média, de 70% desse eleitorado à extrema direita desde 2018.

Por isso, tanto em “Fascismo como religião e eleições em 2022”, quanto em “No vale de lágrimas entre a política e a religião”, foram analisados os dados das intenções de voto das pesquisas do DataFolha considerando os aspectos trabalhados anteriormente no presente texto (a saber, a história de desenvolvimento das igrejas no interior da reprodução social brasileira e seu desenvolvimento capitalista, sua composição de classes e seu papel como mediação para a reprodução da vida das pessoas no interior da ordem social). Com isso, fica clara a formação de uma hegemonia conservadora na organização e coordenação das estruturas institucionais das igrejas que funcionam como mediações para que as pessoas envolvidas na comunidade acessem recursos necessários para acompanharem e suportarem o processo de reprodução social como um todo. 

Esse conservadorismo atende aos interesses de classe das lideranças e dos grupos dirigentes das igrejas e é sustentado pela organização comunitária e interpessoal das massas de fiéis, que, ao serem institucionalizados por meio da igreja, reproduzem seus valores e orientam sua organização de vida em adequação a esta instituição. Em última instância, portanto, o voto evangélico atual tende a ser conservador, dada a estrutura eclesiástica instituída a partir de lideranças de classes médias que legitimam a manutenção da ordem atual para manter seu acesso a bens sociais escassos.

Como organização comunitária, por outro lado, a instituição religiosa media as condições para a reprodução da vida comunitária dos fiéis, que encontram meios de vida e de sentido nesse espaço, sob as dinâmicas dos laços sociais ali constituídos. Toda essa dinâmica carrega, ainda, os processos históricos de sua consolidação durante o século 20 e início do século 21.

No caso das eleições presidenciais, a tendência desse grupo é buscar uma representação que condense o consenso conservador hegemonizado. Por isso, se não é possível falar de um “voto evangélico” como determinação ou manipulação de lideranças, nem como uma totalidade homogênea que age de modo igual, pois há “nuances” ou “complexidades”, é possível falar de um consenso conservador que forma uma hegemonia com atuação social e interesses comuns, conformando uma maioria evangélica consolidada e consistente. O padrão tem se reproduzido desde as eleições em 2018, com 70% do eleitorado evangélico comprometido com as candidaturas de extrema direita e, no caso de voto para o cargo majoritário de presidente, com Jair Messias Bolsonaro.

O desvio do interesse de classe

Do ponto de vista da reprodução social e da composição de classes em uma sociedade capitalista competitiva e de mercado, as classes sociais tendem a buscar a aquisição ou manutenção de bens sociais (quando escassos, considerados privilégios). Desse modo, “interesse de classe” não diz respeito a interesses subjetivos e pessoais, senão aos objetivos tendenciais de uma classe em sua disputa pelo acesso ao necessário para a reprodução de suas vidas. Para quem coordena a divisão social do trabalho, no caso, um capitalista, seu interesse é a defesa da legitimidade de seu direito sobre os meios de produção e de sua função de coordenador da divisão social do trabalho.

Por outro lado, para uma classe trabalhadora despossuída desses meios e que oferta sua força de trabalho, seu interesse pode ser uma posição mais privilegiada que garanta acesso a bens mais qualificados para a reprodução de sua vida, e pode chegar à própria deslegitimação da propriedade privada dos meios de produção, superando a relação de classe estabelecida.

As chamadas “classes médias”, por sua vez, não aparecem a partir da dicotomia capitalista/trabalhador ou coordenador da divisão social do trabalho/coordenado socialmente. A delimitação de sua função é determinada pelo acesso e monopólio sobre bens sociais escassos que garantem seus privilégios sociais em relação a uma massa de trabalhadores sem acesso a seus meios de realização (educação formal, lazer, cultura, moradia adequada, etc.).

Em sociedades racializadas como a nossa, a concentração de populações de certo fenótipo ou origem em certas classes sociais é ainda mais grave. No caso brasileiro, as massas de trabalhadores da base da sociedade são majoritariamente negras, e as classes médias, assim como as elites, são embranquecidas (salvo, como indicado anteriormente, o caso das chamadas “novas classes médias”). Ademais, dada a estrutura patriarcal também herdada em nosso processo histórico, também nos é constitutiva a divisão sexual do trabalho e a escassez de direitos e garantias de bens sociais para mulheres e pessoas LGBTQIAPN+.

Estas considerações são fundamentais, pois, como observado nos artigos anteriormente citados, a maioria dos votos destinados para a esquerda, na figura da representação de Luiz Inácio Lula da Silva, vieram de pessoas empobrecidas, negras, mulheres, e de menor escolaridade, ao passo que o voto em Jair Messias Bolsonaro era caracterizado por uma maioria branca, de renda mais alta, masculina e com maior escolarização. Contudo, o grupo de “desvio” do interesse de classe foi exatamente o grupo evangélico, que, apesar de ser majoritariamente composto por mulheres, pobres, negras e de menor escolaridade, votou massivamente em Bolsonaro, ao contrário do que ocorre nos números da população em geral.

A tese aqui, portanto, é que este desvio de interesse de classe deve ser interpretado a partir das considerações sobre as classes sociais no interior das igrejas e do papel desempenhado pela instituição na reprodução social. O conteúdo ideológico que historicamente se constituiu como um consenso conservador hegemonizado atende aos interesses dos grupos dirigentes das igrejas, que institucionalmente desempenham um papel de elite eclesiástica, ao passo que, do ponto de vista da sociedade como um todo, são da (nova) classe média. Por outro lado, sua estrutura institucional e ideológica é legitimada ao ser capaz de garantir às comunidades de fé meios para a reprodução de suas vidas. O interesse tendencial da classe, portanto, é desviado, e reproduz os sentidos viabilizados pela igreja como mediação para a reprodução da vida no interior da ordem social como um todo.

Eleições em 2026

As pesquisas de intenção de voto para 2026 realizadas neste ano ainda são escassas, mas a partir delas já é possível visualizar o cenário geral em torno das candidaturas. De acordo com a publicação do Instituto DataFolha em junho de 2026, as intenções de voto garantem certa vantagem ao pré-candidato e atual presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 41% das intenções de voto, dez pontos à frente de Flávio Bolsonaro (PL), que obteve 31% de declarações de apoio. Demais candidaturas pontuaram de modo disperso e com baixas intenções, com maior prevalência para candidaturas de direita. O mesmo cenário, considerando o eleitorado como um todo, se repetiu nas demais pesquisas, com vantagem considerável para Lula no primeiro turno (seja na pesquisa Genial/Quest de julho de 2026, da Atlas Inten/Bloomberg, ou da Nexus/BTG Pactual do mesmo período).

Se filtrada pelo critério religioso de eleitores autodeclarados evangélicos, o cenário se inverte. O maior apoio passa a ser para candidatos de direita, em especial Flávio Bolsonaro. Contudo, apesar de a disputa ainda girar entre as figuras de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o pré-candidato herdeiro do bolsonarismo, Flávio Bolsonaro (PL), as intenções de voto no segmento evangélico não apresentam o marco de apoio massivo de 70% desse eleitorado ao candidato que se apresenta como representante “puro” do movimento bolsonarista. Há uma maior fragmentação, mas que não pende para um aumento de apoio à esquerda.

Isso reflete, portanto, que o consenso conservador hegemonizado se mantém, mas a sustentação da representação política e eleitoral desse fenômeno está fragilizada, ou mesmo em dispersão. A pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha sobre as intenções de voto mostra que 52% do grupo evangélico apoia ou se declara como sendo de “direita/centro direita”, assim como 18% se apresenta como sendo de “centro”. Apenas 30% dos entrevistados se apresentam como de “esquerda/centro-esquerda”. Contudo, com respeito a representação política no cargo presidencial, essas posições se refletem nos dois principais candidatos ao cargo de presidente da seguinte maneira: Flávio Bolsonaro com 50% das intenções de voto em Março/2026 e 49% das intenções em abril, ao passo que Lula apareceu com 23% de intenções na primeira pesquisa e 25% na segunda (sem grandes variações, portanto).

Os demais candidatos pontuaram pouco e o voto permanece disperso, sendo o “terceiro colocado” nas intenções de voto o conjunto de votos brancos, nulos ou indecisos. O mesmo ocorreu em pesquisas como a da Nexus/BTG Pactual de julho de 2026, na qual Flávio Bolsonaro aparece com 48% de intenções de voto, e Lula, com 25%. As demais candidaturas que obtiveram algum dado expressivo foram as de Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD), ambos com 4%. Intenções do conjunto de votos brancos, nulos ou indecisos compuseram 16% do eleitorado. 

A série histórica que apresentou maior variação entre as pesquisas foi a da Atlas Intel/Bloomberg, que chegou a indicar, em abril de 2026, 63% de apoio ao candidato Flávio Bolsonaro, com 42,9% das intenções de voto em julho. Lula, que teve pouco menos de 20%, obteve 39% de apoio (uma variação considerável e que destoa das demais pesquisas), e o restante esteve disperso entre Renan Santos (Missão), com 6%, e Romeu Zema e Ronaldo Caiado, com pouco menos de 3% cada.

Refletindo a dispersão dos votos evangélicos entre candidaturas de direita e que expressam o consenso conservador, temos a pesquisa Genial/Quaest de julho de 2026, que mostra a preferência por Flávio Bolsonaro, ainda com 39% dos votos, seguido de Lula, com 26%, e candidaturas de direita que pontuam significativamente, como Ronaldo Caiado (4%), Renan Santos (3%) e Romeu Zema (2%). O que se vê, portanto, não é uma migração do eleitorado evangélico entre pólos, mas uma fragmentação no âmbito da representação política do consenso conservador hegemonizado e sustentado nos elementos e nas relações apresentadas em artigos anteriores.

Tendência conservadora e possíveis cenários

A instabilidade no apoio de um grande bloco a uma única candidatura se deve às crises políticas e morais relacionadas à figura de Jair Bolsonaro, de pessoas em seu entorno e do próprio pré-candidato escolhido como herdeiro da liderança carismática, Flávio Bolsonaro. Ademais, também deve ser considerado o conflito interno às lideranças do bolsonarismo, seja no Partido Liberal, que é a legenda oficial do candidato selecionado como figura central para a disputa do cargo de presidente, seja no interior da própria família Bolsonaro, em especial na relação conflituosa entre Flávio (filho de Jair) e Michele (esposa do ex-presidente atualmente preso por tentativa de golpe).

Contudo, como já indicado, isso não abala a manutenção do conservadorismo hegemonizado e sua busca por representação política, mediada pela instituição religiosa e pela atuação das lideranças na gestão profissionalizada das igrejas. Nesse sentido, o apoio explícito ou concentrado em uma única liderança parece ser improvável. A busca por representações mais próximas, locais ou regionais, alinhadas aos interesses das instituições religiosas, será fortalecida, focando não no apoio direto a uma candidatura ou outra para o cargo executivo, mas em candidaturas para o legislativo, que, por sua vez, podem ganhar peso político para fortalecer seus nomes em futuras eleições majoritárias. Nesse sentido, se, por um lado, não há uma representação presidenciável forte e com tanta legitimidade no nicho evangélico, há um potencial de apelo aos “pequenos poderes” de pretendentes a cadeiras legislativas e lideranças locais.

A dispersão e fragmentação não fortalece a esquerda, portanto. Senão que potencializa a emergência de novas candidaturas alinhadas ao consenso conservador hegemônico reproduzido no interior das igrejas. Desse modo, apesar da fragmentação na representação política, a hegemonia conservadora no interior do campo evangélico tende a permanecer estável. As estruturas institucionais responsáveis pela produção de sociabilidades, as formas de autoridade, os meios para a vida comunitária e para a própria reprodução de vida das pessoas da comunidade — nada disso sofreu quaisquer alterações capazes de produzir uma ruptura significativa. Há, portanto, uma crise de representação, não da hegemonia estabelecida.

A principal disputa eleitoral, então, tende a ocorrer no interior do próprio campo conservador. Diferentemente de 2022, quando Bolsonaro funcionou como elemento unificador, o cenário atual é caracterizado pela competição entre diferentes candidaturas que buscam representar um movimento que encontra entre os evangélicos sua base mais fiel. A fragmentação observada nas pesquisas, portanto, deve ser interpretada sob o marco da disputa pela legitimidade de sua representação.

Sob esse quadro de instabilidade na representação eleitoral, por outro lado, fatores econômicos podem recuperar maior peso na disputa eleitoral sem eliminar a relevância da identidade religiosa. Ao menos é isto que o desvio de padrão notado pela pesquisa Atlas Intel/Bloomberg indica, assim como indicadores de rejeição ao governo Lula, que, recentemente, tiveram uma queda significativa entre o segmento evangélico (o que não se converte em apoio à candidatura do atual presidente), tal como apresentado na pesquisa da Genial/Quaest, que marcou uma queda da desaprovação do governo Lula de 65% em abril para 58% em julho, e uma melhora na aprovação de 28% para 37% nos mesmos períodos.

Balanço de análise

A novidade do processo político em curso não consiste na reconfiguração do alinhamento ideológico do eleitorado evangélico, e nem na emergência de uma nova figura representativa com legitimidade e apoio massivo. O fenômeno relevante e que deve ser considerado é a crescente dissociação entre uma hegemonia social relativamente consolidada em uma parcela da população e as formas políticas encarregadas de representá-la.

Entre 2018 e 2022, Jair Messias Bolsonaro foi alçado como figura representativa dessa hegemonia. A partir do apoio institucional, e sob os marcos históricos que constituíram o movimento evangélico, foi possível transformar disposições sociais produzidas historicamente pelas instituições religiosas em uma representação eleitoral relativamente unificada. Sua perda de centralidade não elimina essas disposições, mas desfaz temporariamente sua principal forma de condensação.

Nesse sentido, a questão central das eleições de 2026 não é identificar quem herdará eleitoralmente Bolsonaro, mas compreender como uma hegemonia social conservadora relativamente estável pode reorganizar suas formas de representação política após o enfraquecimento de sua principal liderança carismática. Desse modo, as igrejas não são percebidas como simples apoiadoras de candidatos específicos, mas como instituições que funcionam como mediações no interior da reprodução social e que precisam ser capazes de preservar a continuidade de representações políticas que viabilizem seus projetos, atuações e impactos na reprodução da vida das pessoas e em relação a outras instituições, especialmente no âmbito do Estado.

A principal chave interpretativa para compreender o comportamento do eleitorado evangélico nas eleições presidenciais de 2026, portanto, reside na análise da tensão entre a estabilidade da hegemonia e a instabilidade da representação política.