Ignorando a luta de classes, intelectuais progressistas e reacionários fazem coro na criação de conflitos imaginários para explicar o papel dos evangélicos na política brasileira


Juliano Spyer, Gutierres Siqueira e Guilherme de Carvalho (Edição: Jayder Roger)

Os evangélicos, especialmente a partir das eleições de 2010, ganharam maior espaço na mídia tradicional brasileira, e passaram a chamar cada vez mais a atenção de partidos, acadêmicos e empresários. O “mundo gospel” (a adoção do nome em inglês é algo curiosíssimo) realmente parecia ser um fenômeno à parte, não pertencente à realidade social brasileira até então. Mas do ponto de vista de quem? Do sujeito que observa as relações sociais “de cima”, analisando a sociedade como um todo relativamente organizado. Aos olhos dos estrategistas e planejadores que ocupam cargos decisórios nas instituições, a ascensão meteórica da candidata à presidência Marina Silva, então no Partido Verde, ligou sinais de alerta por todos os lados – em especial para o grupo da classe média tradicional, branca, com trabalho qualificado, educação formal especializada e bem posicionada na divisão social do trabalho, ocupando cargos de gerência de grandes empresas, da mídia tradicional, em bancos e universidades. 

No início dos anos 2010, o grupo mais “à direita” de nossa casta evangélica, o qual concentra determinados privilégios, viu sua opção política comum quase ganhar a vaga para o segundo turno contra o Partido dos Trabalhadores, com a então candidata Dilma Rousseff. A questão que circulou nos jornais e entre os analistas de campanha foi a busca pelo principal fator de mobilização potente a ponto de alavancar uma candidatura pequena, de um partido sem grande capilaridade. Eis uma grande descoberta do ponto de vista do sujeito que observa “de fora” os fenômenos: a participação evangélica na vida política do país.

Começou, então, uma intensificação da busca pelo apoio desse grupo da população – ainda minoritário, mas em expansão e com um poder fundamentalmente importante nas disputas pelos rumos das políticas públicas nacionais. Tal busca, é claro, foi feita especialmente pelo grupo imediatamente “ameaçado” em sua corrida eleitoral: a direita tradicional das classes médias também tradicionais. Por outro lado, desde os anos 1950, após uma sequência de processos de institucionalização e recrudescimento conservador nas igrejas evangélicas brasileiras (especialmente pentecostais), os dirigentes das grandes denominações também passaram a observar a sociedade daquela posição de sujeito “externo”, compreendendo as fragilidades e potencialidades de suas instituições religiosas e traçando planos de expansão – de fiéis e de domínio sobre novos territórios, com a criação massiva de igrejas nas periferias, mais afastadas, relativamente dependentes de igrejas sede.

A estratégia do grupo religioso foi exitosa, e encontrou conjunturas favoráveis para seu crescimento com o projeto de modernização capitalista que orientou as transformações da sociedade brasileira e da realidade nacional. Nesse processo, já para a eleição da Assembleia Constituinte da transição da Ditadura para a Democracia Representativa sob os marcos do neoliberalismo, a organização evangélica elegeu sua primeira “bancada”. Isso foi trabalhado por Flávio Pierucci já na década de 1980, ao indicar a organização e mobilização de um grupo ainda absolutamente desinteressante para a classe média tradicional e seus principais aparatos de difusão de seus interesses (mídia tradicional e universidades).1 À época, o autor já comentava que essa poderia ser a base de uma nova direita brasileira, mas tampouco interessou aos grupos de esquerda da classe média um fenômeno tão distante de seu pequeno mundo dos bairros centrais de grandes cidades cosmopolitas, como São Paulo e Rio de Janeiro.

Os próprios evangélicos também tinham consciência de seu baixo impacto nos espaços decisórios e tapetes vermelhos do país. Por isso, desde os anos 1950, procuraram alianças com militares de carreira, profissionais liberais, médicos e médios empresários, assim como políticos do “baixo clero” parlamentar. Em geral dirigidas por lideranças vindas de grupos que poderiam ser enquadrados como “os batalhadores” na categorização desenvolvida por Jessé Souza para interpretar o Brasil, as igrejas propiciaram a determinados grupos tempo e recursos necessários para ocuparem, a partir da estrutura religiosa, posições de classe média na divisão social do trabalho, assim como adquirirem habilidades e competências próprias dessa camada social. Filhos e filhas de lideranças passam a ser propriamente parte das classes médias (e por vezes foram apresentados como tais, dentro dos marcos da “nova classe média”).

A estratificação social nas comunidades religiosas, portanto, se complexificou. E sob a tensão de buscar o espaço em uma sociedade que não as reconhece, ao mesmo tempo que surge um constante processo de ressentimento com a não aceitação desse grupo minoritário (mas em expansão) por parte das mídias tradicionais e das instituições detentoras de prestígio sob as dinâmicas do capitalismo brasileiro moderno, atores e agentes ligados ao movimento evangélico conquistam posições decisórias e passam a impactar progressivamente a vida pública em diferentes instituições. Nesse sentido, mesmo sendo lideradas por grupos que já possuíam os privilégios de classe média e que ocupavam cargos decisórios, as igrejas eram (e são) em sua maioria frequentadas por uma massa de fiéis pobres, majoritariamente pretos e pardos, mulheres e jovens ou crianças de periferia. Em uma sociedade estruturalmente racista e filha de 300 anos de escravismo, o papel da distinção social é um fator determinante para a luta em torno dos privilégios – o que implicava a rejeição da “nova” classe média religiosa evangélica por parte da tradicional.

São várias as contradições sob esse quadro, dentre as quais destacaremos duas. A primeira, interna: a massa de fiéis é pobre, preta e periférica. Mas os quadros de liderança, não. Sob a estrutura e dinâmica da divisão social do trabalho brasileira e de nossa reprodução social (que requer, obviamente, a manutenção da ordem vigente), para ocupar os cargos de planejamento, gerenciamento, administração, burocracia e mesmo de docência no âmbito religioso, o corte de classe se torna fundamental, e as bases da reprodução de privilégios e de classes sociais entra pela porta das igrejas sem pedir licença. Sim, entre nós há divisão e luta de classes, independentemente de nossas vontades.

A contradição externa que queremos destacar, por outro lado, diz respeito à disputa pelo prestígio e pela hegemonia dentro das classes médias, que muitas vezes aparece como luta entre conservadores e liberais, entre religiosos e ateus ou descrentes, e, em casos descuidados, mas comuns, entre “evangélicos” e a “esquerda”. A aliança da “nova” classe média se constitui como parceria com os setores à direita da camada social “tradicional” dessa classe. Esta, mais antiga, reconhece a classe média mais recente em seu caráter e função “conservadora”, mesmo que não seja evangélica e com ela não se identifique. Ao mesmo tempo, empurra para a classe média “progressista” ou de “esquerda” a responsabilidade de também reconhecer esses novos agentes – não enquanto parte da classe, mas com respeito a seus valores. Nesses arranjos, os “recém-chegados” ao setor, tradicionalmente monopolizado por uma classe média católica ou descrente, branca, que despendia tempo e recursos enviando filhos para estudar no exterior, aparecem como representantes da “classe” de fiéis religiosos para os observadores da realidade social – agora, seus “vizinhos”, colegas de classe ou de profissão.

Em um artigo publicado em 2019, Gedeon Freire Alencar (o maior especialista em pentecostalismo de nosso país) expressou em uma nota a tensão e o estranhamento que é a chegada de atores desse novo grupo de classe média às instituições monopolizadas pela casta tradicional e seus privilégios: “Como na elite brasileira, é um grupo pequeno de pentecostais nesse estrato. Como já aconteceu comigo mais de uma vez em conversas com pessoas na academia: ‘Mas você é pentecostal e está fazendo doutorado?’ E eu respondia: ‘Mas você está doutorado e faz essa pergunta?’”2 A reação de Gedeon ao preconceito de classe embutido na postura de seus colegas também está presente no modo como apresenta criticamente o próprio fenômeno das Assembleias de Deus, em sua brilhante tese de doutorado:

A Assembleia de Deus é brasileira? Brasileiríssima. Ela pode não ser “a cara” do Brasil, mas é um retrato fiel. E um dos principais. É uma das sínteses mais próximas da realidade brasileira. Como o Brasil, é moderna, mas conservadora; presente, mas invisível; imensa, mas insignificante; única, mas diversificada; plural, mas sectária; rica, mas injusta; passiva, mas festiva; feminina, mas machista; urbana, mas periférica; mística, mas secular; carismática, mas racionalizada; fenomenológica, mas burocrática; comunitária, mas hierarquizada; barulhenta, mas calada; omissa, mas vibrante; sofredora, mas feliz. É brasileira.3

É claro que Gedeon está absolutamente certo. A descrição é perfeita, e as Assembleias, nascidas e crescidas nas periferias dos centros urbanos, são o retrato fiel do Brasil moderno. Brasileira até demais, inclusive em sua capacidade de esconder ou esquecer a divisão e a luta de classes em suas dependências e sua organização. Em certa medida, esse esquecimento passa até para o próprio trabalho do sociólogo crítico e pentecostal, que, a partir de sua base weberiana, não avança para a discussão da composição de classe nas próprias igrejas. Se há em sua pesquisa indicações sobre a concentração de poder, ela não se converte em uma ponte entre essa relação interna com a divisão social do trabalho e a reprodução social externa – fundamentalmente determinantes para a vida de fiéis e para a formação das lideranças.

Nesse sentido, Gedeon refaz um processo relativamente comum à sociologia tradicional da “velha” classe média ilustrada no Brasil: se empolga com o debate e a crítica cultural, mas por vezes deixa passar a base, que é o modo de produção sobre o qual essa cultura e a sociedade de classes são erguidas e mantidas. O problema disso é, em especial, quando se destaca a “cara” média do fiel evangélico para apresentar esse fenômeno ao “mundo” não gospel dos pares acadêmicos: o fenômeno se torna pobre, preto e periférico, sem mais. Não há poder nas igrejas, nem classes. Se agora determinados grupos de fiéis não cumprem tais requisitos, não se pergunta quais foram as dinâmicas e conjunturas sociais e econômicas que possibilitaram esse trânsito. Não se questiona a estrutura institucional e de poder que possibilitou uma nova leva de integrantes a adentrar as classes médias. Não se distingue muita coisa, e o resultado é que os evangélicos parecem ter representantes pobres, pretos e periféricos em espaços privilegiados. Desta forma, se seus valores convergem com os de grupos de classe média conservadores e à direita, isso não diz respeito à luta de classes, às ideologias e aos projetos de poder em disputa. São questões que, do ponto de vista de uma crítica apenas cultural, podem ser facilmente enredadas em uma essencialização, que se reflete em doutrinas e valores necessários e “imutáveis”.

Claro, isso não aparece e nem é desenvolvido dessa maneira pueril no trabalho de Gedeon. Mas o tipo de abordagem que deixa passar um boi, abre caminho para a boiada, e, de gado em gado, a classe média enche o pasto. Sem o devido cuidado com respeito às estruturas de poder, dominação e reprodução de privilégios internas e externas, o movimento evangélico aparece como um bloco dos marginalizados e sabotados socialmente que resiste e “vence” por conta própria, por causa de seus valores e estruturas, garantindo expansão, relativa prosperidade e, inclusive, realizando funções institucionais “fundamentais” nas bordas das cidades em defesa de seus fiéis – pobres, pretos e periféricos. 

Nessa perspectiva, a crítica e a defesa da instituição religiosa fazem exatamente o mesmo movimento: protegem (ou usam os fiéis) e denunciam as lideranças (quando se corrompem ou são consideradas corrompidas por natureza, pois utilizariam seu poder para manipular seu rebanho). Ninguém quer se indispor com a massa pobre, e, na luta política, todos querem seu apoio para a mobilização em torno de eleições e pautas que incidam sobre a vida pública. Desta forma, sob a dinâmica de acesso aos privilégios de classe média por certos grupos e indivíduos evangélicos, o ressentimento e a disputa pela hegemonia intra-classe, e as relações de dominação dentro das próprias igrejas (também determinada por posições e ideologias de classe), a classe média evangélica usa a massa de fiéis composta pela classe trabalhadora e camadas sabotadas de nossa sociedade como cartada em defesa de valores e ideologias conservadoras e/ou reacionárias.

Sobre essa dinâmica, já temos publicado pela Revista Zelota dois artigos que detalham a questão do conservadorismo, do evangelicalismo e de sua importância para o conservadorismo (guiado pela ideologia do setor tradicional da classe média) nas eleições: Fascismo como religião nas eleições de 2022 e No vale de lágrimas entre a religião e a política. Nesse momento, o que nos interessa é ver como a figura da pessoa “evangélica média” é usada para proteger e propagar o conservadorismo de modo essencialista, desconsiderando em absoluto as lutas de classe. Na verdade, a própria luta de classes aparece disfarçada como uma questão cultural, na qual o problema não é a dominação e o controle econômico e social de um grupo sobre outro, mas o “preconceito” – claro, contra evangélicos que, aparentemente, não são preconceituosos com o resto do mundo, apenas “defendem” seus princípios (seja lá quais forem ou mesmo o que isso signifique).

Para isso, comentaremos brevemente a argumentação de três autores que apresentam em seu trabalho os evangélicos para “o mundo”: Juliano Spyer, Gutierres F. Siqueira e Guilherme de Carvalho. Basicamente, os três utilizam uma estrutura básica em suas argumentações – muitas vezes também compartilhada entre e por representantes do que consideraríamos o “outro polo” entre conservadores e progressistas. A posição inicial é indicar limitações ou mesmo erros que consideram ser da esquerda em relação aos evangélicos, especialmente no que consideram ser o núcleo de crenças elementares, essenciais e, claro, naturais desse grupo religioso. Para tal, a estratégia utilizada é partir da figura “média” da pessoa evangélica brasileira (mulher, preta, pobre e de periferia urbana) que seria o público alvo da dita esquerda. Contudo, essa esquerda ganha uma qualidade particular, que é a de “elite cultural”. A crítica então generaliza ao progressismo um movimento próprio de grupos academicamente privilegiados e distantes da realidade periférica.

Se um polo é apresentado dessa maneira, o outro ocuparia a posição inversa, de representante da ralé inculta, despossuída e desprivilegiada. Por compreender os evangélicos ou mesmo por ser religioso, este polo sensato e aparentemente próprio da periferia critica a elite cultural, que do alto de sua torre de marfim estaria apenas julgando os pobres coitados, massacrados pelo mundo e incompreendidos por esse grande espectro de elite chamado esquerda. Claro, elite, aqui, diz respeito à classe média progressista, que historicamente se reproduz a partir da manutenção de privilégios – especialmente na educação formal e em cargos de gerência de empresas, partidos e instituições públicas. Contudo, esse ainda é o grupo ideologicamente minoritário da classe média, que é composta em sua maioria por famílias e organizações conservadoras e/ou de direita. Na tão mal falada e incompreendida luta de classes, são grupos que também participam do monopólio sobre privilégios (especialmente na educação formal), e disputam os mesmos cargos e espaços que seus vizinhos progressistas. Mas estes não “errariam”, pois estariam ideologicamente próximos daqueles valores essenciais pretensamente próprios dos pobres evangélicos esquecidos pelo mundo e salvos pela igreja…

O debate dentro da classe média

Recentemente, a Revista Zelota publicou um artigo crítico que colocava em questão o papel desempenhado pela produção teórica de Juliano Spyer em naturalizar o conservadorismo evangélico, erigindo um muro entre as disputas internas das instituições religiosas e as próprias dinâmicas das classes sociais e suas lutas em nossa reprodução social. Não retomaremos, portanto, a argumentação desenvolvida anteriormente – e recomendamos a leitura. A importância do trabalho de Spyer para nossos fins é sua posição de não religioso, acadêmico e de classe média que aparentemente busca um diálogo com o progressismo e a esquerda.

Sua proposta é apresentar para seus pares (acadêmicos) de classe média quem são os evangélicos. A novidade que é esse mundo à parte com o qual ele nunca teve relação, pois se constituiu historicamente nas periferias das cidades, longe dos bairros valorizados e privilegiados, apresentou para o antropólogo uma experiência então inédita e aparentemente inconcebível em suas estruturas tradicionais de compreensão de mundo: pessoas se organizando para sobreviver a partir da participação ativa em comunidades e instituições que não seriam nem o Estado e nem o Mercado (este último, claro, não é comumente lembrado nas discussões sobre o abandono dos sabotados pela sociedade capitalista). Em nosso caso brasileiro, a “bendita” religião evangélica pentecostal.

Nas cidades, claro, a partir dos anos de 1980. Essas igrejas aparentemente caem do céu, e não têm história nem estrutura política própria para garantir sua permanência, com alianças políticas, ideológicas e entre classes. Por meio de qual instituição sobreviviam os sabotados do Brasil majoritariamente rural em marcha de modernização capitalista? Uma população quase completamente católica, camponesa e com alguns operários e aliados de classe média (em geral, também católicos), descobriu no catolicismo progressista e na Teologia da Libertação meios de sobrevivência, organização, luta e resistência (até onde foi possível). A transição religiosa deste catolicismo para o evangelicalismo tem características materiais e sociais descartadas por completo nas análises do tipo de Spyer, que apresentam uma “fotografia” atual do evangélico médio, mas não a história e as dinâmicas sociais que tornam a própria fotografia possível de ser registrada e descrita.

Tamanha falta de análise crítica, acompanhada de uma reprodução sem filtros do que é apresentado por atores entrevistados ou utilizados representantes do grupo evangélico, leva a artigos como Um pastor busca pontes entre esquerda e evangélicos conservadores, recentemente publicado na coluna do antropólogo na Folha de São Paulo. Nele, Spyer cita que um pastor por ele entrevistado teria dito que: “a maior dificuldade da esquerda será abrir mão de um olhar eleitoreiro e criar canais de aproximação intencional com evangélicos fora dos períodos eleitorais […] aparecer na véspera da eleição é um gesto oportunista e pessoas percebem isso”.

Além da manutenção acrítica de uma oposição sem sentido entre um grupo religioso diverso e um guarda-chuva ideológico imenso e vazio como “esquerda”, a reprodução da fala do líder religioso sem ressalvas apenas esconde as dinâmicas políticas das igrejas, assim como as alianças ideológicas e entre classes desenvolvidas historicamente entre lideranças de igrejas e atores políticos, partidos e mesmo militares (entre outros grupos que ocupam o espaço privilegiado da classe média). Sem tais dinâmicas, os candidatos escolhidos pelas denominações não seriam seus próprios líderes ou apoiadores externos das instituições religiosas, com direito a disputas por privilégios e influência sobre as decisões do país, reconhecimento público, verbas e mesmo prestígio. A mobilização de representantes da bancada da Bíblia não seria eleitoreira? Não seria dirigida por representantes das classes médias que hoje ocupam os cargos de liderança das igrejas? 

Claro, nada disso tem nada a ver com a classe média tradicional, com a qual Spyer conversa e da qual é participante. E sob tais disputas e diálogos intra-classe, não percebidos pelo pesquisador, o antropólogo aparece como um crítico de seus pares progressistas não religiosos e converte em inteligentes os interlocutores conservadores e de direita dessa mesma classe, que não estariam alinhados e interessados na manutenção de tais valores entre os “pobres evangélicos” para mobilizar e influenciar massas populares de acordo com seus projetos. De maneira alguma. É apenas coincidência que os valores essenciais dos evangélicos estejam adequados a valores de manutenção da ordem e reacionários.

Conforme comentado no artigo que escrevemos anteriormente sobre o trabalho de Juliano Spyer, o elogio às igrejas diz respeito à capacidade que esta instituição teria em oferecer à sua membresia laços comunitários e de melhora de vida. Por realizarem tal trabalho em territórios abandonados por nosso capitalismo, elas precisariam ser vistas de outro modo, sem preconceitos. O porquê de esses territórios serem assim, como as igrejas se instalaram lá e o que fizeram para permanecer, como escolhem suas lideranças e, especialmente entre pentecostais, suas “dinastias” (termo que tomamos emprestado de Marina Correa4), não é colocado em questão, e a função desempenhada pelas discussões ideológicas na reprodução social é substituída por uma questão de preconceito de privilegiados contra os despossuídos, como se o debate racional fosse entre priorizar uma pauta de costumes ou políticas públicas reparativas, inclusivas e distributivas.

Sob essa dinâmica, por exemplo, em um artigo intitulado Por que o debate sobre azul ou rosa importa para evangélicos?, Spyer não analisa quais as disputas em jogo ou mesmo as relações de dominação existentes, mas apenas expressa uma opinião de que criticar o foco sobre a questão da sexualidade dado pelos canais de informação religiosos, lideranças e parte considerável da membresia das igrejas seria arrogância de uma esquerda intelectualizada. O antropólogo chega a citar Latour para defender “uma ciência mais humana e real, feita de disputas, interesses e até mesquinharias. Quem ignora isso e acha que a ciência está acima da política transforma-a em uma religião e delega seu poder a papas, cardeais e bispos”.

Aparentemente, a ciência se tornaria religiosa ao não ser política, e deixaria de ser política exatamente ao não considerar que seria compreensível e plausível a priorização da pauta de costumes sobre outras. Na argumentação de Spyer, em conflito estaria a racionalidade “ocidental” e a racionalidade mágica dos evangélicos, assim como o preconceito da primeira sobre a segunda. A luta de classes some, a discussão sobre as relações econômicas, políticas, sociais e de dominação é deixada de lado, para se sustentar que a pretensa ciência dos acadêmicos, que não aceitam de bom grado o movimento político, conservador e/ou reacionário contra discussões sobre sexualidade e costumes seria uma… religião. A crítica e a análise da realidade social são dissolvidas em uma aparente implicância preconceituosa de uma classe média ilustrada contra os pobres evangélicos – claro, sempre apresentados como sua figura “média”, sem qualquer distinção de poder e privilégios institucionais, sociais e de aparatos de dominação.

O que desaparece, na verdade, é a luta de classes, substituída por um problema de preconceito ideológico e não aceitação de determinados valores. A tal da “esquerda” não estaria conectada com a base essencialmente evangélica e conservadora dos pobres do Brasil, sendo que, ao mesmo tempo, é exatamente a massa pobre, periférica, preta e feminina que garante a base sólida e de maior apoio às candidaturas de esquerda (especialmente nas eleições para cargos executivos). Aliás, o tal apoio mágico das igrejas nas periferias é supervalorizado, enquanto as políticas sociais que garantiram a melhoria de vida das massas (com todas as suas contradições) são completamente ignoradas; como se programas de Estado e de governo – como Bolsa Família, cotas, Minha Casa Minha Vida, etc – não fossem os garantidores da melhoria de vida dos “batalhadores” que enfileiram as igrejas e as sustentam.

Mas Spyer fala como acadêmico, não como religioso. Cumpre o papel de naturalização e essencialização dos valores evangélicos para sua classe média, dialogando especialmente com o que considera os progressistas ilustrados da academia, identificados com a esquerda enquanto tal. Já Gutierres Siqueira faz praticamente o mesmo, mas falando como evangélico pentecostal.

A elite cultural ataca novamente

Autor de Quem tem medo dos evangélicos?, Gutierres Siqueira segue a mesma linha de Spyer, só que “desde dentro”. Como evangélico, o escritor indicou em seu artigo Os evangélicos para além da política, publicado pela Folha de São Paulo, que, dado o crescimento de evangélicos no país e sua atuação na política, a “elite cultural” começou a se interessar pelo tema e pelo grupo. De acordo com sua avaliação, nunca se falou tanto sobre esse segmento religioso. Quanto a isso, Siqueira está correto. Exceto pelo fato de que não é o tamanho da parcela da população evangélica que fez com que esse grupo ganhasse tanto destaque. Os interesses políticos e a atuação política de evangélicos no Brasil passam a ser amplamente debatidos a partir de 2010, como comentamos no início de nosso texto, dadas as disputas entre os grupos políticos, os interesses de classe envolvidos e seus projetos concorrentes.

Exatamente por não ter claras essas disputas, o autor lamenta que o foco em torno dos evangélicos na imprensa venha exatamente dos cadernos de política (e por vezes os policiais). Sua proposta, então, é apresentar quem são os evangélicos ao público leigo que lê os jornais. Recorre, então, à mesma estratégia de Spyer: aponta que as igrejas cumprem papéis sociais importantes e, portanto, precisam ser valorizadas em seus aspectos de impacto para a sociedade civil. Por isso não se deveria reduzir as igrejas a seus líderes, aos políticos religiosos, às bancadas e às corrupções. Há um povo majoritariamente pobre, preto e periférico que compõe essa população. Se essa afirmação é correta por um lado, por outro, novamente dissolve as relações de dominação, as alianças ideológicas e entre classes, os interesses em jogo.

E a quem interessa não trazermos à tona relações de classe e de dominação? A quem se beneficia delas. No artigo, Gutierres aponta que nas igrejas se incentiva a música clássica e erudita, o hábito de leitura, etc. Mas quem produz os conteúdos que municiam os pastores e a membresia? A qual classe pertencem? Quem ocupa os cargos decisórios e editoriais? São os mesmos pobres, pretos e periféricos agraciados com a bondade institucional das denominações? Quando essas questões não entram em campo, tudo é jogado para o alto como uma questão de valores, preferências pessoais e preconceitos.

Nesse sentido, em outro artigo de Siqueira, intitulado Um Brasil evangélico será cada vez mais secular, novamente a entidade “elite cultural” entra em cena e esconde as classes em jogo. O autor começa sua argumentação afirmando: “Não é incomum manifestações da elite cultural (artistas, jornalistas, intelectuais, acadêmicos etc.) ressaltando que o Brasil caminha para uma teocracia […]. Todavia, realmente estamos sob uma ameaça teocrática? Ou essa preocupação é mais fruto de uma histeria preconceituosa?”

A argumentação de Gutierres não apresenta qualquer dado, padrão ou elemento mais consistente além de procurar sustentar que os evangélicos estariam se “secularizando”. No caso, secularizar seria passar a atuar de modo mais diferenciado, diverso, aderindo a elementos não tradicionais (estéticos, talvez?). Nesse sentido, as igrejas estariam funcionando como concorrentes em um mercado livre e aberto, ofertando de forma criativa cada vez mais novidades de acordo com o interesse do freguês. O evangelicalismo estaria, portanto, em marcha de modernização, mas se mantendo religioso. Para o autor, modernização e secularização são sinônimos no artigo. Desse modo, é incapaz de perceber que foi exatamente a adequação do evangelicalismo à modernização capitalista brasileira que tornou possível sua manutenção, permanência e expansão (como temos discutido na Zelota há muito tempo).

Por isso, para Siqueira, não seria necessário temer pela democracia por causa dos evangélicos, pois tratar-se-ia de uma religião concorrencial, livre e aberta. O que falta para esse encantamento ter alguma sustentação é um pouco de realidade, na qual as denominações, ao passo que se fragmentam, mantém grandes conglomerados tradicionais com plasticidade suficiente para adequar tradições a elementos do capitalismo moderno. As maiores denominações pentecostais seguem crescendo e concentrando seu poder,5 ao passo que igrejas mais plásticas como as neopentecostais (mesmo as gigantes, como a IURD6) perdem membresia e fiéis. No momento, o mais importante não é discutir como se dá esse fenômeno, mas indicar que o abandono da análise da realidade social se converte em proposições culturalistas e vazias de conteúdo, que reduzem os problemas a questões de preconceitos a serem superados através da aceitação acrítica das posições e valores assumidos pelo movimento religioso em questão.

As críticas, preocupações e lutas no espaço público seriam fruto da ignorância da tal da “elite cultural” – a classe média tradicional com seus privilégios, mas aqui chamada de “elite” –, que não estaria compreendendo esse fenômeno popular. Como nessa disputa toda a questão se converte em saber quem realmente entende o que é que está acontecendo, a elite econômica (elite de verdade) segue intocada. Exceto, claro, pelo último autor exemplar de nossa discussão, Guilherme de Carvalho, que defende o “proletariado cultural” contra os ricos globalistas.

O “proletariado cultural” e a aparente “nova guerra de classes”

Para não falar das classes sociais e suas lutas, Guilherme de Carvalho inventa conceitos para criar um tipo de luta de classes cultural – algo que faz sentido se, e apenas se, apagamos de toda a discussão a dinâmica da produção e reprodução de riqueza material da sociedade capitalista, assim como seus conflitos. Se tirarmos do jogo o modo de produção (que exige uma orientação básica para a legitimação da divisão social do trabalho), os interesses de cada classe (que sob essa divisão produtiva buscam a manutenção ou obtenção de privilégios), e a legitimação dessas relações a partir dos objetivos básicos do sistema capitalista (maximização dos lucros e garantia de aumento da taxa de lucro mediado por mercados competitivos), podemos recortar qualquer disputa social ou ideológica como o conflito central e determinante de nossa sociedade. Se ignoramos o fato de que somos nós que nos movemos, podemos abrir uma contenda contra a quina da inanimada mesa da sala como se ela fosse a culpada da dor que sentimos depois de termos trombado nela com nosso quadril.

Desse modo, Guilherme tenta criar certa sofisticação em sua análise da realidade criando o termo “proletariado cultural”: isto é, a percepção de que haveria um conservadorismo ideológico maior entre pessoas pobres e um mais liberal entre os ricos. Obviamente, a questão da renda ou da escolaridade não entra para discutir a desigualdade própria de um modo de produção, mas para trazer algum dado que sustente a ideia de domínio de uma “elite cultural” sobre o pobre proletariado intelectual (que magicamente deixa de ser definido apenas por renda e escolaridade e salta para uma questão de valores, claro, conservadores). Isso fica bem claro em seu artigo publicado pela Gazeta do Povo, Evangélicos: a ascensão do proletariado cultural. A argumentação é relativamente simples, desenvolvida a partir de uma pesquisa feita exclusivamente on-line em agosto de 2021 pela Atlas, com duas frentes: o “Impacto da orientação sexual dos candidatos sobre a intenção de voto” e o “Posicionamento político do eleitorado LGBT”.

Na pesquisa, em geral, ao serem questionadas se votariam em um candidato gay à presidência, 60% das pessoas brasileiras responderam que “sim”, e 17% “não sei”. Ou seja: a maioria, no marco geral, não consideraria esse ponto fundamental para sua tomada de decisão. No recorte religioso, o grupo evangélico (que compõe um terço da população) foi o com a maior taxa de rejeição, sendo que 42% dos entrevistados responderam que não votariam e 20% apontaram para a incerteza. Ainda que seja o grupo mais conservador em relação aos demais (cuja maior rejeição declarada se manifestou entre católicos, com apenas 17% de negativa), esse elemento não é determinante para uma maioria consistente.

Contudo, Guilherme foca na questão da escolaridade e da renda, indicando que, entre os mais pobres e menos escolarizados, a resposta afirmativa é menor do que a de grupos mais ricos e mais escolarizados. O autor obviamente não considera outras variáveis bem importantes, como a distribuição dessas classes, as funções desempenhadas por cada uma na reprodução social, e menos ainda as proporções demográficas de cada segmento. Ainda assim, em nenhum grupo (seja dos menos escolarizados ou mais pobres) a resposta diante da possibilidade de uma pessoa presidente gay foi afirmativa para menos de 51% ou negativa para mais de 27%. Contudo, para o autor, estaria evidente que o interesse por um candidato gay seria próprio de uma “elite cultural”, minoritária.

Seu palpite é que quanto menos escolarizado, mais pobre, evangélico e distante dos “centros cosmopolitas” (grandes centros urbanos do Sudeste, como fica subentendido em sua análise), mais conservadora seria a pessoa. Desse modo, claro, ser conservador é coisa de pobre e de evangélico, que teria se mantido de alguma maneira distante da “elite cultural” nacional, esta “cosmopolita”, liberal e distante dos valores aparentemente populares. Claro, temos valores essencializados e retirados de qualquer contexto produtivo e social, de divisão social do trabalho, mas que, de um parágrafo para outro, encarnam em duas classes opostas, na qual a primeira (a elite cultural) domina a segunda (o proletariado cultural), este resistindo bravamente nos rincões e nas periferias do Brasil.

Guilherme de Carvalho, então, para forjar seu conceito de proletariado cultural a partir da realidade brasileira, lança mão da ideia do jornalista estadunidense David Brooks. Brooks postula a existência de duas burguesias estadunidenses, que disputariam o espaço de gestão do sistema produtivo e social capitalista: a “burguesia boba” e a “burguesia tosca”. A transposição de Carvalho, contudo, aponta para uma elite cultural e seu oposto “proletariado”. Este, claro, marcadamente evangélico (e talvez católico praticante, como imagina em seus palpites e impressões). Em sua estrutura binária e que ignora por completo o modo de produção capitalista como problema, tornando tudo uma questão de ideologia pura e simples, aí estariam os caminhos para compreendermos as aproximações entre as novas direitas mundo afora e as semelhanças entre as disputas ideológicas pelo mundo.

Nesse momento, a burguesia boba e seu cosmopolitismo liberal não seriam hegemônicas. Mas estariam na luta, cuja reação viria de seus antagonistas conservadores. No Brasil, a “esquerda” estaria importando as novas ideologias estadunidenses e forçando em nossa cultura os esquemas do cosmopolitismo. Claro, as referências de Carvalho, tomadas de conservadores do Hemisfério Norte e, quase sempre em seus textos, do conservadorismo estadunidense, não estariam fazendo o mesmo. Mais do que isso, para o autor, o tal conservadorismo essencializado em segmentos da população brasileira não teria sido criado pelas décadas (séculos?!) de dominação político-econômica estrangeira e a consequente aplicação indiscriminada de suas ideologias em território nacional; nossos pobres caíram do céu, e caíram já conservadores, por óbvio!

Para Guilherme de Carvalho, a “nova luta de classes” em nosso país estaria configurada entre a “elite cultural cosmopolita” e o “proletariado cultural evangélico” – como apresenta em seu artigo Entre dois supremacismos: Brasil vive conflito de crenças entre proletariado cultural evangélico e elite cultural cosmopolita, publicada em julho de 2023. Por um momento, vamos ignorar a total imprecisão e mesmo o desequilíbrio entre os termos utilizados como conceitos para manter de pé nossa discussão. De acordo com Carvalho, o ponto central de divergência entre evangélicos e o atual governo seria a pauta de costumes, especificamente com os direitos de pessoas LGBTQIAPN+. No caso, os evangélicos estariam ameaçados pela orientação laicista do governo e seu alinhamento liberal com o cosmopolitismo, próprio também da elite cultural. Os evangélicos, no caso, seriam (novamente) o proletariado cultural brasileiro (aparentemente, independentemente de sua classe, pois o que determina esse conceito nada tem a ver com a posição na divisão social do trabalho, mas apenas valores, no caso, essencializados). 

Contudo, se anteriormente essa oposição tinha como referência a diferença entre burguesia boba e burguesia tosca, agora ela aparece como uma apropriação e aplicação analógica do autor dos conceitos de somewhere (algum lugar) e anywhere (lugar algum), emprestados do jornalista britânico David Goodhart (sua nova referência para apresentar nesse texto o que deixa de ser luta de classes e se torna para Guilherme uma guerra de classes, expressão também tomada de um autor estadunidense, o que comentaremos abaixo). O primeiro grupo, no Brasil, evangélico, é formado por pessoas comunitárias, enraizadas e tradicionais. O segundo, por sua vez, seria “a elite individualista e cosmopolita”. 

Essa elite cultural, tão liberal e cosmopolita, já não é apresentada como “em luta pela hegemonia”, mas como hegemônica. No Brasil, está associada ao governo petista, aparentemente dominado e apoiado por essa elite cultural cosmopolita, sem mais. O “analista”, tão afeito a dados como os da pesquisa Atlas, não parece lembrar dos dados de intenção de voto nas últimas eleições, de 2022, com respeito às bases eleitorais de Lula e Bolsonaro: estes revelam exatamente o oposto do sustentado por Carvalho, com sua pretensa nova guerra de classes que opõe evangélicos à elite cultural. Se considerasse o tal do critério de escolaridade e renda, veria que os evangélicos apresentam um desvio do padrão geral entre as classes baixas, e não a regra. O tal do “proletariado cultural” fica completamente fragilizado nessa perspectiva.

De todo modo, por fim, Carvalho tem elementos para apresentar uma aparente consistência em sua ideia. Isso porque realmente, há uma luta entre burguesias em todo o mundo pela gestão do capital em nossa situação atual de crise generalizada. O problema é que ele transpõe para nosso território conceitos conservadores de ideólogos estadunidenses, que analisam as disputas entre grupos de elite econômica localista e grupos de elite econômica globalista, ligados a diferentes capitais – como bem trabalhado, por exemplo, por Wim Dierckxsens e Walter Formento em Por una nueva civilización (2021). Estes autores, contudo, aprofundam a questão como é devido, pois não olham apenas para o umbigo dos Estados Unidos, no qual a oligarquia nacional de capital financeiro e produtivo (recentemente representado pela administração de Trump e que compõe o Partido Republicano) enfrenta a fração globalista de capital transnacional (da grande rede de bancos e fundos de investimentos internacionais); tal conflito é mediado pela fração continentalista multinacional, que dissolveria interesses entre os dois polos (pois se trata de capital ligado à rede de bancos relacionados com a NAFTA). 

Dessa maneira, Carvalho perde de vista tanto a realidade nacional quanto a própria análise da luta de classes sob as crises dos capitais internacionais – e do próprio capitalismo. Tudo é convertido em um aparente enfrentamento dos “daqui” contra os “de lugar nenhum”. Isso fica evidente em todas as contradições e omissões de seu outro artigo, de 9 de outubro de 2023 pela Gazeta do Povo: A Fundação Ford quer nos libertar da injustiça social; o preço é só a nossa alma. O grande inimigo da vez é a Fundação Ford – com certeza inimiga, não dos “daqui”, mas da classe trabalhadora. O problema estaria na ideologia liberal dessa fundação e de seu presidente, Darren Walker, um homem negro vindo de classes baixas. Para Guilherme, ele seria um representante do proletariado, mas subiu na escada social e econômica e traiu sua classe. Afinal, agora, ao invés de defender os valores conservadores que, sabe-se lá por quê, seriam próprios dos pobres, Walker gere a Fundação Ford para impor ao Brasil a agenda globalista, ou melhor, cosmopolita.

O problema, para o autor, não é o capitalismo e todas as suas redes de dominação, exploração e controle em disputa, independentemente de valores (sejam conservadores ou liberais). A ameaça é que a “justiça social” prometida dentro dos marcos capitalistas seria realizada sem levar em consideração a “realidade comunitária e simbólica do proletariado cultural” (leia-se, dos evangélicos). Não entremos no mérito de que exatamente a mesma estrutura argumentativa poderia ser utilizada para criticar todo o proselitismo religioso nas periferias das cidades, nos interiores e mesmo para outros grupos étnicos. Sigamos com a questão, presumindo que há algum esforço de compreensão da realidade e não um apelo reativo contra o que poderia ameaçar a doutrina garantidora dos privilégios de teólogos e pastores.

Novamente, Carvalho traz a ideia de guerra de classes, agora compreendida não apenas no Brasil, mas em todo o mundo, no qual, de repente, o controle total está nas mãos de uma elite gerencial ou administrativa, e, “aqui e ali, uma pequena elite conservadora” – citando agora outro autor estadunidense, Michael Lind. A elite cosmopolita brasileira seria financiada pela elite gerencial cosmopolita, e, vindo do “aqui e ali”, quem sabe, o proletariado cultural teria algum apoio de capitalistas não alinhados a esse perigo ameaçador do liberalismo ideológico. Esses seres com bom senso, sim, estariam preocupados com as relações comunitárias e simbólicas do proletariado cultural, provavelmente.

De todo modo, a cruzada do autor converte a luta de classes em uma resistência do “proletariado cultural” (seja lá o que isso signifique além de “evangélicos” pobres, de classe média ou ricos) contra ideias que viriam de fora (mas os autores utilizados como referência e seus conceitos sobre a realidade estadunidense vêm de onde, afinal?). Mas o que importa para Carvalho não são as ideias ou um conjunto de ideias, e sim especificamente a questão dos direitos LGBTQIAPN+. Ele afirma:

O problema é que as pessoas privilegiadas, por aqui, são as mais “embranquecidas” e as mais secularizadas. E o nosso proletariado cultural, cristão, também é um proletariado econômico. Nós somos o lado de baixo na nova guerra de classes e, Walker, negro liberal-progressista, assim como os gestores de fundos do Gife, é o lado de cima. Nós, do lado de baixo, concordamos sobre inclusão social, sobre combater o racismo, sobre igualdade, mas jamais concordaremos com a pauta de costumes da elite cosmopolita e da Fundação Ford.

Novamente, aqui vamos nós: toda a problemática e invenção da ideia de “proletariado cultural” nasce da pesquisa eleitoral sobre a possibilidade de um presidente gay. Em todos os dados sobre as pessoas com baixa renda e escolaridade, a questão de gênero não seria determinante. Exceto entre evangélicos (e ainda assim, sem maioria substancial). Se analisamos os dados eleitorais, temos o mesmo: o apoio ao candidato de esquerda veio majoritariamente de pobres, menos escolarizados, mulheres e pretos e pardos – exceto quando analisamos especificamente o grupo evangélico, que desvia do padrão geral dos mesmos segmentos. Mas para o autor, é importante destacar o elemento econômico para dar consistência à sua “guerra”. Esse elemento, contudo, sem qualquer adjetivação, o empurraria a conclamar os trabalhadores a lutarem por justiça efetiva contra o sistema produtivo que os domina. Então, a brilhante saída é adjetivar o proletariado: ele é “cultural”. Assim, ainda garante alguma relevância para a ideia de “elite cultural” brasileira, e desloca a luta de classes para um conflito puramente ideológico-imaginário.

Nesse emaranhado de termos apresentados como conceitos, Guilherme de Carvalho acrescenta algo que faltava nos argumentos de Spyer e de Siqueira: alguma coisa do elemento econômico. Mas o autor jamais poderia levar isso a sério. Ele precisa criar seus fantasmas – que não são propriamente o comunismo, sempre rondando o imaginário conservador, mas a “elite cultural”, que, se levada a sério como conceito para compreensão da nossa realidade nacional, teria o nome correto de classe média (no caso, em sua fração progressista, que, ainda assim, é minoritária em relação ao conservadorismo dessa classe, como mostram tão bem os trabalhos de Jessé Souza em suas pesquisas sobre a realidade brasileira7). Os pobres e seus valores supostamente intrínsecos devem resistir e lutar contra as ideias das elites, mas nunca encontram nas armas da crítica produzidas por seus intelectuais supostamente aliados possibilidades de destruição das correntes que os prendem. Apenas defendem a permanência das flores, ao contrário da proposta revolucionária efetiva:

A crítica arrancou as flores imaginárias das correntes, não para que o ser humano suporte correntes desprovidos de fantasias ou consolo, mas para que se desvencilhe delas e a flor viva desabroche.8

Notas:

1. Ver Flávio Pierucci, “Representantes de Deus em Brasília: a bancada evangélica na Constituinte”, in Anpocs, Ciências Sociais Hoje, 1989, São Paulo, Vértice/Editora Revista dos Tribunais/Anpocs, pp. 104-132.

2. Gedeon Freire Alencar, “Um país laico com um governo terrivelmente cristão?”, p. 16, n. 5. In: Interações 14.25 (Belo Horizonte: PUC Minas, 2019) pp. 13-28. Disponível em: <https://periodicos.pucminas.br/index.php/interacoes/article/view/20348/15786>

3. Ver Gedeon Freire Alencar, “Assembléias de Deus no Brasil: teorização, história e tipologia 1911-2011.” Tese de Doutorado. São Paulo: PUC-SP, 2012.

4. Ver Marina Correa, Dinastias assembleianas: sucessões familiares nas Igrejas Assembleias de Deus no Brasil. São Paulo: Editora Recriar, 2020.

5. A esse respeito, além do trabalho já mencionado de Gedeon Freire Alencar, analisar a Nota Técnica “Surgimento, trajetória e expansão das Igrejas Evangélicas no território brasileiro ao longo do último século (1920-2019)”, do Centro de Estudos da Metrópole, da Universidade de São Paulo, conduzida por Victor Araújo. Para uma abordagem geral com a indicação dos links para acesso à pesquisa completa, ler o artigo Igrejas Evangélicas abriram 17 novos templos em média por dia no Brasil 2019.

6. As mudanças da configuração religiosa da população brasileira entre os anos 2000 e 2010 apresentaram uma queda do número de membros da Igreja Universal do Reino de Deus, e as projeções realizadas indicariam, em um primeiro momento, a continuidade desse movimento – ainda não foram publicados os dados do censo mais recente para verificação de manutenção ou não da tendência. De todo modo, para uma abordagem geral, ler o artigo Censo 2010 aponta para a migração de fiéis da Universal do Reino de Deus para outras igrejas.

7. A total ausência de análise das classes sociais e relações entre essas classes no Brasil faz com que o próprio debate proposto por Guilherme de Carvalho, que circula entre classes médias, pareça ser uma luta dos pobres contra os ricos – e a própria classe média, que é agente, autora, leitora, interlocutora e protagonista nestes embates ideológicos, desaparece. Nesse sentido, é importante levarmos em conta os debates trazidos por Jessé Souza em trabalhos como A tolice da inteligência brasileira (Leya: Rio de Janeiro, 2015), Subcidadania brasileira (Leya: Rio de Janeiro, 2018) e A classe média no espelho (Estação Brasil: Rio de Janeiro, 2018).

8. Ver Karl Marx, Crítica da filosofia do Direito de Hegel (Boitempo: São Paulo, 2010), p. 146. No texto, imediatamente encontramos Marx criticando fortemente a religião como sol ilusório no qual o ser humano estaria girando, e que este, portanto, deveria girar em torno do sol correto: o próprio ser humano em suas relações sociais. É óbvio que nossos preocupados teólogos temerosos do ateísmo, que ameaçaria suas funções privilegiadas na reprodução social, ficariam de cabelo em pé, e acusariam o texto de negar Deus. Na verdade, estão sendo criticadas e negadas exatamente essas ideias e valores sem conteúdo produzidas pela religião, as quais desviam a análise da realidade material para discussões que não revelam as estruturas de dominação da sociedade – exatamente como feito por nossos excelentíssimos representantes de análises culturalistas do evangelicalismo brasileiro.