O documento de 61 páginas recomenda a remoção de líderes, investigações adicionais e a realização de uma assembleia especial em 10-12 de junho; membros temem que isso não seja o bastante


Por Stanton Witherspoon | Traduzido e adaptado do original em inglês para a revista Zelota. Republicado em colaboração com SPECTRUM: o periódico e website do Adventist Forum desde 1969. www.spectrummagazine.org

Uma comissão oficial estabelecida pela Divisão Africana Centro-Oriental (ECD) concluiu que os líderes da Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD) no Quênia não responderam adequadamente a um esquema ilegal de investimento em criptomoedas e a disputas que dividiram as congregações prejudicaram a confiança e enfraqueceram a credibilidade da liderança da igreja.

O relatório de 61 páginas, apresentado à comissão executiva da ECD no dia 15 de abril de 2026, investigou duas questões principais: o esquema de criptomoedas Opticoin/Wealth Sharing Group e a crise de liderança em curso na Associação do Vale do Rift Central (CRVC), onde 19 pastores foram demitidos recentemente.

A comissão constatou que “certos pastores e outros funcionários da denominação, liderados pelo pastor Paul Mwangi, promoveram ativamente um esquema ilegal de investimento de alto risco”, usando “sua influência pastoral, plataformas e posições de liderança”, o que resultou em “perdas financeiras significativas” e “uma crise de confiança entre os membros leigos”.

A sede da Divisão da África Centro-Oriental em Ongata Rongai, Nairobi, Quénia. Fonte: ECD

O relatório afirmou ainda que os líderes da União-associação do Quênia Oriental (EKUC) e das associações locais “não conseguiram impedir a associação da IASD com esse esquema ilegal” e não responderam “de maneira oportuna e adequada”. Segundo a comissão, isso “resultou na deterioração da reputação da IASD, levando a uma perda de confiança”.

Essas conclusões seguem a investigação da Spectrum, em fevereiro de 2026, a respeito da crise crescente dentro da IASD no Quênia, com disputas entre líderes, batalhas judiciais, demissões de pastores, alegações financeiras e o colapso da plataforma de negociação Opticoin.

A comissão executiva da ECD instaurou uma comissão em 25 de fevereiro de 2026, após surgirem alegações que ligavam líderes religiosos e pastores à promoção do esquema de criptomoedas. As audiências começaram no dia 2 de março, na sede da ECD em Advent Hill, perto de Nairóbi, e a comissão ouviu depoimentos de pastores, membros da igreja, dirigentes da associação, não membros, especialistas jurídicos e vítimas que alegam perdas financeiras.

O relatório descreve a crise geral da igreja em termos contundentes. Ele afirma que a EKUC vivenciou “crises sem precedentes” que comprometeram “as responsabilidades sagradas da igreja e de sua liderança”. A comissão disse que a igreja chegou a um ponto em que “os líderes não se comunicam mais entre si, exceto por meio de ordens judiciais”, e em que os ministros são “vistos pelo público como fraudadores”.

Tradução de uma captura de tela com algumas das conclusões da comissão.

A comissão também constatou que as falhas na liderança se estendem além do escândalo das criptomoedas. No conflito da CRVC, o relatório concluiu que a liderança da EKUC “falhou em desempenhar eficientemente sua função de supervisão”, e que os procedimentos administrativos da IASD “não foram seguidos de forma consistente”.

O relatório afirma que tanto a crise da Opticoin quanto as disputas na CRVC revelaram “um padrão de liderança que não deu a devida atenção aos requisitos das políticas da IASD e à ética ministerial”. A comissão concluiu que houve “uma evidente quebra no espírito de governança adequada nos níveis da EKUC e da CRVC”.

As conclusões da comissão criticam duramente a negligência da conferência em relação às falhas de política e liderança.

A comissão alertou que o conflito na CRVC havia se tornado cada vez mais perigoso. Afirmou que as disputas afetaram “instituições da IASD dentro da associação, crianças inocentes em idade escolar”, e até mesmo “atraíram a intervenção de agências de segurança pública para evitar mais caos”.

O relatório alertou ainda que, “sem estratégias e ações imediatas, a CRVC deixará de cumprir a missão da igreja e poderá se degenerar a um nível de violência que põe vidas em risco”.

Para evitar uma escalada ainda maior, a comissão recomendou o estabelecimento de esforços de mediação envolvendo mediadores externos “para reconciliar os diversos grupos, abordar questões controversas e restaurar a unidade na CRVC dentro de 60 dias”. O relatório acrescentou que a comissão executiva da ECD já havia “formado uma equipe de mediação e a enviado à CRVC”.

A comissão também recomendou “uma auditoria independente para investigar as alegações de irregularidades financeiras na EKUC e na CRVC”.

Uma das recomendações mais significativas do relatório foi a convocação de uma assembleia especial da EKUC, a ser realizada dentro de 90 dias após a sua publicação. O relatório recomenda que a comissão executiva da ECD “siga o estatuto e os regulamentos da EKUC para convocar uma assembleia especial da EKUC, a fim de analisar as questões e recomendações contidas neste relatório e tomar as medidas necessárias, incluindo, entre outras, a efetivação de mudanças na liderança e na comissão executiva da EKUC”.

Um outro comunicado, analisado pela SPECTRUM, confirma que esta assembleia especial está agendada para 10-12 de junho de 2026. O aviso afirma que a assembleia foi convocada após a adoção do relatório e suas recomendações pelas comissões executivas da ECD e da EKUC.

De acordo com a agenda, os delegados analisarão as conclusões da comissão referentes às “atividades do Opticoin/Wealth Sharing Group” e aos “conflitos e desafios de governança, liderança e administração na Associação do Vale do Rift Central”. A reunião também abordará a responsabilidade da liderança, a transparência da administração, e possíveis vagas de liderança na EKUC.

As recomendações da comissão incluem a remoção de líderes importantes.

A comissão fez diversas recomendações diretas contra líderes importantes da EKUC. Recomendou que “o Pastor Paul Mwangi seja removido do cargo de secretário executivo da EKUC”, observando que ele já havia renunciado ao cargo.

Paul Mwangi, secretário executivo da EKUC, é um dos líderes que a comissão recomendou destituir do cargo. Fonte: @lavingtonsda/YouTube

O relatório também recomendou que “o Pastor Samuel Makori seja removido do cargo de presidente da EKUC”, mas observou que ele havia “aceito um chamado para servir na ECD”.

O presidente da EKUC, Samuel Makori, foi outro líder que a comissão recomendou destituir do cargo. Eles observaram que ele já havia assumido um cargo na divisão. Fonte: @hopechannelkenya/YouTube

Além das mudanças na liderança, a comissão recomendou “uma auditoria independente de fraude e investigações forenses sobre as alegações de irregularidades financeiras”. Também solicitou “o estabelecimento de uma comissão ministerial de ética, em consulta com o Departamento Ministerial da Associação Geral, para analisar o envolvimento de ministros em condutas antiéticas e empreendimentos comerciais pessoais”.

A comissão recomendou ainda que a EKUC e a União-associação do Quênia Ocidental (WKUC) emitam uma declaração pública conjunta, “denunciando as atividades ilegais do Opticoin/Wealth Sharing Group” e “dissociem formalmente a IASD de tais atividades e de quaisquer outros esquemas ou atividades ilegais semelhantes”.

No dia 12 de maio, o presidente da WKUC, Samuel Misiani, divulgou uma declaração pública em vídeo a respeito da crise, distanciando a IASD de atividades de investimento ilegais.

Samuel Misiani procurou distanciar a igreja das consequências dos esquemas de investimento ilegais. Fonte: @WestKenyaUnion/YouTube

A comissão também reconheceu que outros pastores e funcionários da IASD podem ter se envolvido com as atividades da Opticoin e do Wealth Sharing Group, não só os que foram mencionados diretamente no relatório. Afirmou que várias pessoas foram “mencionadas negativamente” durante os depoimentos perante a comissão, mas os investigadores “não tiveram tempo suficiente” para contatar cada uma delas e obter uma resposta às acusações.

Como resultado, o relatório recomendou que os nomes dos mencionados fossem entregues aos “órgãos responsáveis ​​pela implementação deste relatório” para que pudessem “realizar novas investigações e tomar as medidas cabíveis”.

A crise no Quênia também reflete preocupações mais amplas dentro da IASD global sobre o envolvimento de pastores e funcionários da igreja em empreendimentos financeiros questionáveis. Nos últimos anos, a Associação Geral atualizou seus regulamentos eclesiástico-administrativos para abordar especificamente o envolvimento de funcionários da igreja em esquemas de investimento fraudulentos ou de alto risco.

A alteração foi feita na seção L 60 da Working Policy, que descreve razões para disciplina contra ministros e pode resultar em rescisão do contrato de trabalho, ou revogação das credenciais ministeriais. A política adverte contra funcionários que “recrutem, patrocinem, apoiem, incentivem a participação ou promovam esquemas fraudulentos de enriquecimento rápido”, incluindo “esquemas de pirâmide, investimentos de alto risco, esquemas de enriquecimento rápido” e outras atividades consideradas ilegais ou de “legitimidade questionável”.

A política adverte ainda contra o uso da influência ou posição por parte dos funcionários para obter “lucro, ganho financeiro ou vantagem para si próprios, ou para os promotores de tais esquemas”.

A inclusão dessa política surgiu em meio a preocupações crescentes em várias regiões do mundo com a associação de funcionários da IASD a investimentos especulativos e esquemas financeiros que expõem os membros a grandes perdas financeiras e prejudicam a credibilidade da igreja.

Em suas conclusões, a comissão determinou que a Opticoin e o Wealth Sharing Group “apresentavam características consistentes com um esquema Ponzi ou de pirâmide”. O relatório citou sinais de alerta, incluindo “promessas de retornos garantidos”, “forte dependência de recrutamento”, falta de registro adequado e reclamações de investidores que não conseguiram acessar seu dinheiro.

A comissão identificou Mwangi como “o principal responsável pela promoção do empreendimento no Quênia”. De acordo com o relatório, as evidências analisadas pela comissão incluíam vídeos que supostamente o mostravam “promovendo o empreendimento”, “inaugurando escritórios” e incentivando publicamente a participação nas atividades do Wealth Sharing Group.

Como mostra a captura de tela do relatório, a comissão também recomendou a destituição do presidente da Conferência do Quênia Central, Geoffrey Wanyoike.

O relatório observou ainda que muitos membros confiaram no esquema de investimento porque “pastores importantes promoveram publicamente o empreendimento por meio de reuniões da igreja, acampamentos religiosos e influência pastoral”.

Nas últimas semanas, a crise se intensificou ainda mais após a circulação de dois longos apelos dirigidos à liderança da Associação Geral por indivíduos que se identificaram como “membros preocupados da família adventista do sétimo dia no Quênia”.

As cartas, datadas de 10 e 12 de maio de 2026, e analisadas pela SPECTRUM, acusam líderes da igreja de tentarem “neutralizar, diluir, higienizar e contornar discretamente” as recomendações da comissão. Os recursos criticam especificamente a suposta nomeação do presidente da EKUC, Samuel Makori, para um cargo de liderança na divisão, logo após a comissão ter recomendado mudanças na liderança devido à crise.

As cartas também questionam se a assembleia especial, planejada para 10-12 de junho de 2026, poderá manter sua credibilidade caso líderes conectados à controvérsia supervisionem o processo.

A segunda carta amplia a controvérsia para além da EKUC, alegando que a influência do esquema Opticoin e do Wealth Sharing Group pode ter se espalhado para outras instituições e regiões da IASD, incluindo a WKUC e certas entidades associadas à ECD. A carta não chega a fazer acusações diretas contra as instituições como um todo, mas pede investigações mais amplas e independentes.

As cartas enquadram reiteradamente a crise como um “problema sistêmico na administração” em vez de condutas impróprias isoladas. Argumentam também que a responsabilização seletiva poderia prejudicar ainda mais a confiança entre os membros da igreja, caso as reformas sejam percebidas como aplicadas de forma desigual.

Nem a ECD, nem a EKUC divulgaram publicamente o relatório completo da comissão até o momento desta publicação. A SPECTRUM revisou uma cópia do relatório obtida com uma fonte no Quênia, e contatou a liderança da IASD com perguntas sobre as conclusões do relatório, as cartas e a próxima assembleia especial. Não houve resposta até o momento da publicação deste artigo.

A crise ocorre em um período de grande crescimento e impulso evangelístico do adventismo na África. No início deste ano, o presidente da Associação Geral, Erton C. Köhler, descreveu a África como o centro demográfico da IASD global, representando aproximadamente 43% dos membros em todo o mundo.

Nas semanas imediatamente seguintes ao relatório da comissão, duas grandes campanhas evangelísticas em toda a África atraíram dezenas de milhares de batismos. A campanha “África para Cristo: Levanta-te em esperança”, realizada de 26 de abril a 9 de maio de 2026 em Lagos, Nigéria, teve o tesoureiro da Associação Geral, Paul Douglas, como pregador principal, e resultou em mais de 28.000 batismos em todo o continente. Dias depois, a campanha “Impacto Moçambique”, realizada de 10 a 23 de maio de 2026, registrou mais de 25.000 batismos em Moçambique, com Köhler presente nos encontros do fim de semana final.

Contudo, mesmo que as campanhas evangelísticas continuem a gerar um crescimento significativo no número de membros em toda a África, as conclusões da comissão sugerem que a rápida expansão também expôs desafios sérios relacionados à governança, à prestação de contas, à cultura de liderança e à confiança institucional em uma das regiões mais influentes da igreja.