Por Matthew J. Korpman | Texto original traduzido e adaptado por André Kanasiro para a revista Zelota.

Nota da Zelota: A Divisão Sul-Americana, em virtude da pandemia da pandemia do COVID-19, reafirmou a importância da imunização e disponibilizou a declaração oficial da igreja sobre o assunto que destaca a importância da base científica. Posteriormente, o Notícias Adventistas declarou que como adventistas deveríamos apoiar a vacinação e acrescenta que “nosso direito à autonomia deve ser pautado no segundo grande mandamento (Mateus 22.39): Vacinar-se é um ato de amor ao próximo!”

Um grupo de adventistas que tem feito agitação em resposta às ordens de vacinação contra a COVID-19 lançou outra iniciativa provocadora esta semana. No dia 4 de outubro, a Aliança por Saúde e Liberdade (Liberty and Health Alliance, no inglês) lançou um “apelo” à Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD) e todas as suas instituições, solicitando, no decorrer de cinco páginas, que, em suma: a igreja conceda isenções religiosas às ordens de vacinação contra a COVID-19 e, além disso, que a igreja defenda a liberdade dos cristãos em todos os lugares para rejeitar a vacinação devido às nossas crenças “escatológicas”.

Inúmeros ministros e professores adventistas, inclusive eu, ficaram extremamente entusiasmados e gratos quando a Divisão Norte-Americana (NAD, sigla em inglês) anunciou, em março de 2021, que a IASD na América do Norte não estava oferecendo ou defendendo a ideia de uma isenção religiosa para as vacinas contra a COVID-19. É raro ver a igreja assumir uma posição pública contra os que espalham desinformação em seu meio. No entanto, agora está claro, temos a reação à coragem: um apelo bem formulado e de aparência profissional, endossado por quatro profissionais médicos que representam as periferias da opinião, tanto no mundo médico mais amplo quanto nos profissionais de saúde adventistas. A adição recente de Ben Carson à lista de aparentes apoiadores deste grupo só jogou lenha à fogueira quando ele apareceu por cinco minutos no painel de discussão mais recente.

O “Documento da Liberdade de Consciência” foi lançado no dia 4 de outubro Fonte: Captura de tela: libertyandhealth.org

Em primeiro lugar, as alegações sensacionalistas de que as ordens de vacinação são “a maior ameaça imediata” e “uma crise social iminente” provocam ceticismo logo nas duas primeiras frases. Apesar de alegarem que seu apelo não argumenta a favor ou contra as vacinações, suas palavras soam tão vazias quanto as admoestações semelhantes de Walter Veith enquanto ruminam conspirações envolvendo as vacinas (na verdade, o documento soa assustadoramente semelhante às mensagens de Veith no YouTube). Alegações infundadas, sem notas de rodapé e sensacionalistas, são feitas várias vezes ao longo das “preocupações” que “dezenas de milhares” de profissionais têm em relação à “segurança e eficácia” da vacina. Eles reconhecem que seus argumentos e reivindicações “podem ser contestados por alguns”, como se “alguns” fosse uma palavra apropriada para descrever a esmagadora maioria de todos os profissionais médicos e profissionais de saúde adventistas.

Eles listam uma série de razões pelas quais pensam que a vacina não é útil, todas em contradição ao consenso médico. Contra o melhor da ciência atual, eles argumentam que se você ainda pode pegar COVID, qual é o sentido da vacina? Aparentemente, eles optam por ignorar a diferença estatística entre vacinados e não vacinados no que diz respeito à hospitalização/óbito. Eles pedem que a igreja remova todas as suas exigências de que seus próprios funcionários sejam vacinados, sugerindo que a saúde pública deve se tornar um buffet gratuito para todos de opiniões divergentes.

A lista feita pelo grupo com quatro passos sugestivos à IASD se resume a: não tome uma decisão sobre esse assunto que possa ofender ou polarizar; ou seja, não faça absolutamente nada substancial. No entanto, eles seguem isso contradizendo sua própria lógica, solicitando que a igreja subestime a eficácia das vacinas e, em vez disso, incentive os membros da IASD a se concentrarem principalmente em uma vida saudável (algo que implicam ser mais eficaz no combate à COVID). Eles também pedem que a IASD defenda vigorosamente os que resistem às vacinas. Ambas as posições seriam o oposto de agir sem polarização: isso simplesmente polariza as pessoas no lado oposto do espectro deste grupo.

O aspecto mais ilógico do apelo é seu pedido para que a igreja ofereça isenções religiosas. Embora o apelo sugira que isso se deve a preocupações de alguns adventistas com a segurança da vacina (preocupações não compartilhadas pela esmagadora maioria dos médicos e pesquisadores adventistas), parece que a isenção religiosa está mais ligada às preocupações escatológicas conspiratórias dos adventistas fundamentalistas. Ao longo do apelo, há referências a esta vacina como uma porta de entrada para “técnicas de controle social” e uma forma de, eventualmente, impor danos às vidas “dos que têm pontos de vista divergentes quanto à adoração” (isto é, decretos dominicais).

Para reiterar o que deveria ser desnecessário dizer: a IASD nunca deveria oferecer isenções com base em teorias de conspiração. A Aliança por Saúde e Liberdade não está agindo a partir de uma revisão cuidadosa da literatura científica, mas de uma plataforma de medo e pavor escatológico onde se vê Satanás (e o Papa?) espiando por trás de cada seringa de vacina. Eles até presumem dizer aos médicos adventistas que eles “devem manter seu julgamento independente dos sábios deste mundo”, uma vez que “devemos ter cuidado para que ninguém nos engane”, porque “a sabedoria deste mundo é loucura para Deus” (citando Paulo aí no fim). Em vez de argumentar com dados reais e uma teologia cuidadosamente elaborada, eles se baseiam em conspirações e falácias da bola de neve.

O apelo do grupo exige que as “convicções”, mesmo de alguns dissidentes da IASD, “devem ser respeitadas pela Igreja e levadas em consideração no desenvolvimento de qualquer postura, política ou postura pública relacionada à vacinação contra COVID”. Eles parecem argumentar que qualquer grupo periférico na igreja pode exigir que, com base na liberdade religiosa, a igreja honre seus desejos e os reflita em suas políticas.

O que torna todo o apelo ainda mais ridículo é a falsa implicação de que o governo ou a Igreja Adventista estão forçando as pessoas a tomarem uma vacina, e de que a igreja honrar os protocolos governamentais de saúde representa a união de Igreja e Estado, advertida em profecia. Na Universidade La Sierra, os alunos foram avisados ​​de que, se não fossem vacinados na primeira semana de aula, sua matrícula seria cancelada. A escolha foi feita com base no fato de quererem ou não estudar naquela instituição. As universidades sempre exigiram vacinas para seus alunos permanecerem no campus, porque a saúde pública é importante.

A necessidade de garantir a saúde pública importa mais do que o protesto de algum indivíduo em defesa de sua autonomia. Vivemos em comunidade, não simplesmente como ilhas isoladas. Se você quer agir como se vivesse em uma ilha, não deveria ser surpresa ter que enfrentar as consequências de estar isolado nela. Nunca fez parte dos ensinos da IASD sugerir que existe uma base religiosa em nossa identidade adventista para resistir às vacinas. Como um escritor da Adventist Review escreveu em 1937, argumentando que os adventistas devem tomar vacinas: “Ele não deve esperar que Deus opere um milagre para cuidar dele enquanto negligencia os meios que Deus lhe deu para sua proteção”.1 Se houvesse qualquer resistência a uma vacina, ela precisaria ser baseada na ciência e nas opiniões consensuais de profissionais médicos, adventistas e em geral. E, claro, a opinião deles ainda não mudou: a vacina é segura.

Notas:

1.WH Anderson, “Qualifications of a Missionary,” The Advent Review & Sabbath Herald 114.33 (1937). Agradeço a Nicholas Miller por chamar minha atenção para esta citação.