Entre avanços, contradições e disputas internas, católicos LGBTQIAPN+ desafiam estruturas patriarcais da Igreja e defendem o reconhecimento da diversidade como parte da própria identidade católica


Publicado originalmente na revista Senso.

Tem gente que acha que o Papa Francisco foi um pontificado positivo em relação à inclusão e aceitação das pessoas católicas LGBTQIAPN+ e vê com temor o novo Papa Leão XIV por conta de afirmações que ele fez há mais de dez anos. Porém, numa visão mais atenta, é possível identificar falas do Papa Francisco que foram homofóbicas e contra a “ideologia de gênero”, ao mesmo tempo que algumas pessoas de grupos católicos queer no Peru disseram que, quando o Papa Leão XIV era bispo, acolhia com carinho e respeitava as pessoas LGBTQIAPN+. Lidar com a realidade da Igreja Católica é um pouco sobre isso: uma tensão constante de inconsistências entre prática e fala, entre ação pastoral e doutrina. A estrutura de pensamento binário, essencialista e absolutista da tradição da Igreja Católica faz com que esta não reconheça oficialmente a diversidade e pluralidade de pessoas que somos Povo de Deus, Igreja. 

A falha institucional, pastoral, teológica e espiritual em não acolher pessoas LGBTQIAPN+ é uma questão estrutural complexa, estreitamente vinculada a um modelo de Igreja Católica que se autolegitimou a partir de visões cishetero-patriarcais-brancas-eurocêntricas. Os pilares da Igreja Católica não são só a Bíblia e a Teologia; é também a Tradição com T maiúsculo, que justamente foi determinada por esse próprio modelo patriarcal excludente.

Em 2020, numa live sobre pessoas católicas LGBT+ no perfil do Instagram da Teomulher, Cris Serra comentava sobre a série de violências que temos que enfrentar e a necessidade de falarmos dessas violências, não por vitimização, mas pela denúncia em si, pois, se não denunciamos, as coisas continuam acobertadas. Aprendi com Cris que nós, pessoas LGBTQIAPN+, temos muito a ensinar para a Igreja, porque temos estratégias de permanência. Afinal de contas, como é possível aguentar sobreviver com tanta violência e injustiça estrutural? Por que a gente continua na Igreja? Me fazem muito essa pergunta, tanto por ser bissexual quanto por ser uma mulher com pensamento crítico numa igreja tão patriarcal e machista. Assim como outras pessoas, às vezes falo que continuo na Igreja para subvertê-la a partir de dentro, permanecer e subsistir para mudar as coisas. Mas a razão fundamental mesmo não é essa—é simplesmente porque eu sou católica. Questionar minha religião costuma ser tão violento quanto questionar minha orientação sexual. Faz parte de quem somos porque faz parte de nossa história. 

Naquela live que fizemos em 2020, Cris dizia que a gente ajuda a superar a ilusão de que a Igreja é um bloco monolítico completamente homogêneo nesse momento e no tempo, como se a Igreja sempre fosse assim como está. Em suas palavras:

“Ninguém autoriza a gente a existir porque a gente já existe, não estamos batendo na porta pedindo para entrar porque a gente já está dentro, está cheio de viado e sapatão dentro da Igreja saindo do armário da sacristia—e a gente ajuda a tirar a Igreja do armário. Igreja não é só hierarquia, somos todos nós, é uma multidão de gente, desde católicos LGBT+ até Arautos do Evangelho, desde cristã feminista até Legionários de Cristo. Igreja é jesuítas, franciscanos, e Opus Dei. Igreja é tudo isso! Essa Igreja é muito louca, eu sou fascinada pela Igreja Católica!” 

Enquanto gastamos tempo com as masturbações mentais de discussões teórico-teológicas sobre a tradição católica, na prática, se falhamos em reconhecer a diversidade dessa Igreja, acabamos reproduzindo as mesmas estruturas e modelos cishetero-patriarcais-brancos-eurocêntricos excludentes. A Igreja Católica é uma igreja extremamente plural e diversa, seja ao nível de espiritualidades, movimentos, linhas políticas, seja ao nível sexual e de gênero. Diante de tamanha diversidade, quais são os caminhos para ajudar a tirar a Igreja do armário da sacristia? 

Para além dos homens ordenados ainda dentro do armário, existem cada vez mais homens gays leigos que conquistam espaços de fala e de decisão na Igreja Católica, mas não articulam e muito menos representam a diversidade e pluralidade de pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ católica; eles raramente pensam em renunciar a seus privilégios para indicar uma pessoa em seu lugar que não seja um homem cis branco. São incoerências fruto de uma lógica individualista também típica da espiritualidade católica de modo geral. Ter o privilégio de ter espaço de fala é algo de que muitos nem pensam em abrir mão. Ter o privilégio do poder de decisão, então, nem se fala. Esses privilégios não só acabam criando um sentido de conforto e comodismo para as pessoas, mas também dão uma sensação de prestígio, porque normalmente os privilégios sempre vêm junto de reconhecimento, algo cobiçado ainda mais em tempos de redes sociais. O homem cis gay pode até não ser machista (o que também é raro), mas, ainda assim, costuma reproduzir a lógica patriarcal.

Tirar a Igreja Católica do armário implica romper com sua blindagem patriarcal. Como afirma Ivone Gebara na entrevista “A Igreja irá perder as mulheres que pensam”, de 2018:

“Eu prefiro não usar a palavra machismo, porque essa palavra tem uma conotação de subjetividade e emotividade muito negativa. Nem todos os homens são machistas, nem todos os bispos são machistas, por isso eu prefiro falar de um fundamento patriarcal. Aqui, quem manda é o varão porque é o representante de Jesus, e eu não sou. Então, eu poderia estar mais com a razão do que você, mas a última palavra é sua. O mundo patriarcal não apenas subsiste na Igreja.”

O mundo patriarcal reforça o patriarcalismo da Igreja Católica, que, por sua vez, também legitima o sistema patriarcal da sociedade em que vivemos. É o que causa a lógica de pensamento binário, essencialista e absoluto, que categoriza tudo o que é “diferente” como se fosse inferior pelo simples fato de não cumprir com o que foi determinado como “normal” ou “padrão” pelo próprio sistema patriarcal que criou essas categorias. Uma Igreja Católica, e um cristianismo de modo geral, que não reconhece a diversidade dos seguidores de Jesus desde o início, a boa nova da ressurreição proclamada por uma mulher, a indecência de um Deus que se faz carne e se deixa ser comido por todas as pessoas, é uma igreja que falha na sua compreensão do Evangelho. Nós, lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis, intersexo, assexuais, pansexuais, não bináries, queer e tantas outras, somos Povo de Deus, pessoas criadas e queridas por Deus, Igreja. Saímos do armário e permanecemos na Igreja, porque somos Igreja, mesmo que a Igreja ainda não tenha conseguido sair de seu próprio armário — e seguiremos aqui para ajudar quando ela decidir passar por essa transição.