Mudança no documento “Os adventistas e a política”, aprovada pela Divisão Sul-Americana, elimina restrições a manifestações públicas de pastores e membros, reacende debates sobre neutralidade e pode ampliar o engajamento da igreja às vésperas das eleições de 2026


Publicado originalmente em colaboração com a SPECTRUM Magazine.

No início de maio, em meio a preparações para as eleições presidenciais do Brasil em 2026, a comissão executiva da Divisão Sul-Americana (DSA) da Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD) votou uma atualização do documento “Os adventistas e a política”. Com a participação de delegados de oito países sul-americanos, a comissão decidiu remover a seção que proibia pastores de participarem de manifestações públicas e aconselhava membros a não fazê-lo. Possíveis discussões e orientações sobre o assunto foram deixadas para documentos futuros.

A breve reportagem sobre a votação — que não chegou imediatamente a líderes adventistas — explica que a decisão se baseava numa pesquisa conduzida pelo Pew Research Center, em 2026. O fato de que populações protestantes e evangélicas valorizam um presidente que “defenda pessoas com suas crenças religiosas” foi citado como razão para que a denominação encoraje a participação da IASD na vida pública, criando espaço para que líderes e membros participem de manifestações públicas como uma expressão de suas crenças religiosas.

No entanto, alguns pastores que falaram com a Zelota viram o voto como ineficiente e ambíguo. Ele também parece entrar em conflito com o posicionamento de acadêmicos da denominação.

Embora seja amplamente desconsiderada desde a primeira eleição do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, a assim chamada “Lei Ezequiel”, como é conhecida popularmente — apelidada assim devido a um pastor que foi demitido por seus posicionamentos políticos públicos — servia como uma restrição para que representantes da IASD não se envolvessem em política partidária e outras atividades que intensificam a polarização dentro das comunidades. Sua remoção abre as portas para que líderes da igreja expressem suas preferências políticas e ideológicas.

Pastores reagem ao novo documento

O novo documento representa uma vitória para uma facção da comissão, e foi motivo de celebração. Geralmente alinhados a candidatos de direita e extrema-direita, como Bolsonaro, esses líderes agora terão mais liberdade para se pronunciar publicamente. Um pastor de São Paulo que tem familiaridade com esses processos e pediu anonimato sugeriu à Zelota que a decisão foi influenciada por uma “cúpula” específica.

A mudança no documento foi significativa, mas não alcançou os pastores na base da denominação, embora afete diretamente a prática ministerial. Seis pastores entrevistados pela Zelota não estavam cientes do voto e de suas motivações. Michelson Borges, editor da CAsa Publicadora Brasileira (CPB) — conhecido por seu envolvimento com discussões políticas e interpretações conspiratórias — chegou a publicar orientações para as eleições de 2026 em seu blog pessoal, ainda enfatizando a seção sobre manifestações públicas que a DSA havia removido. Seu texto foi publicado quatro dias após a decisão, demonstrando a falta de informação do editor a respeito do processo no Brasil.

Um pastor na região norte do país, antes de saber quais eram as mudanças exatas no documento, sugeriu que as ações dos pastores tendem a permanecer restritas em relação a manifestações públicas. “Como a mudança é recente e ainda não tivemos concílio, a questão ainda não foi abordada internamente”, disse ele. Restringir a participação de líderes em manifestações é algo necessário, em sua opinião, devido à influência da figura pastoral sobre as decisões dos membros, especialmente em congregações mais vulneráveis: “Existem igrejas [mais humildes] onde o que eu digo é lei”, explicou o pastor, lembrando de uma membra que perguntou se podia votar num político de esquerda por ele apoiar os pobres.

De qualquer forma, “essas coisas nunca são decididas do nada”, alertou o pastor. É, de fato, possível que alguns membros, sentindo-se ameaçados pelo “ateísmo militante” de certos setores da esquerda, exijam mais espaço para manifestações públicas. Para ele, restringir essa atividade limitaria a vida pública dos membros a algo mais apolítico, e não somente apartidário. Essa preocupação seria ainda mais sensível no norte, especialmente em cidades menores, onde os políticos estão envolvidos diretamente na vida diária das pessoas, e os cidadãos defendem ferozmente suas preferências. “Não para os pastores”, reforçou, “eu sou a favor de restrições para pastores na participação em manifestações públicas.”

Não tendo participado ativamente de nenhum concílio periódico nas uniões da DSA, um pastor de São Paulo disse que não tinha ouvido qualquer repercussão a respeito do documento. Mesmo assim, se houver qualquer mudança significativa, em sua opinião, não vai fazer muita diferença: “Todo mundo, sem exceção, já se manifesta como quer. Seja no púlpito ou no WhatsApp. Por meio de piadas, etc.” Outro pastor de uma região próxima disse que, apesar das mudanças, as eleições de 2026 podem ser mais moderadas, e que a orientação no seu campo ainda é que os pastores não devem se expor no debate público.

Também em São Paulo, um pastor explicou que, com ou sem mudanças no documento sobre manifestações públicas, “no meu campo, isso não vai rolar, mesmo que uma regulamentação diga em qualquer instância”. Ele disse que as orientações da sua associação são rígidas nesse assunto, e que o vácuo deixado pelo documento não mudaria o posicionamento de seus superiores. Como os pastores acima, ele acredita que, se surgir alguma orientação específica desse documento, ela será discutida em alguma reunião ou concílio. Ainda assim, embora a conversa gire em torno de permitir manifestações para o benefício da igreja, ele não acha que ela será implementada no seu campo, “porque esse é o discurso aqui, e eu duvido que mude.”

Além disso, o pastor observou que ministros adventistas têm um medo indireto de se expressar publicamente, mesmo com um possível relaxamento das restrições. O voto da DSA, nesse caso, seria irrealizável na vida ministerial se fosse levado ao pé da letra: “Se eu for a uma manifestação contra a escala 6×1, serei demitido?” , perguntou. Em sua opinião, a obscuridade e ambiguidade do voto só servem aos que estão no poder, já que, “em uma situação de ambiguidade, a vontade deles prevalece, não a nossa.”

Por fim, um pastor trabalhando no interior de São Paulo disse que não vê muita efetividade no documento, seja antes ou depois da revisão: “Nunca vi esse documento ter um impacto no cotidiano”, observou. Na prática, ele listou situações nas quais candidatos participaram livremente de programas da igreja; por exemplo, numa ocasião em que trabalhava num colégio adventista, alguns funcionários concorreram como candidatos enquanto mantinham seus vínculos empregatícios. Em sua opinião, isso aconteceu porque as comunidades locais ainda não conhecem o documento, e o comportamento aprendido pelos pastores os impede de tomar uma posição.

“Agora, sempre tem uns sem noção”, disse ele, “que acabam esticando a corda.” Da sua perspectiva, essas expressões se limitam a pastores que insistem em questões moralistas de comportamento ou de patriotismo. Tais ministros “sentem mais liberdade para falar e apelar à política”. Por esse motivo, além de sempre ser desconsiderada, a decisão da DSA pode fazer pouca diferença, a menos que venha de departamentos que podem controlar o comportamento de pastores, como o departamento ministerial. “Se for só um documento votado pelo departamento de comunicação, a questão fica ambígua, e o documento é usado por conveniência, ou seja, quando eles precisam punir alguém que saiu da linha. Daí eles puxam o documento.”Especulações eram inevitáveis, visto que a única comunicação oficial sobre o assunto foi uma reportagem breve e vaga de 450 palavras. Com o objetivo de ter uma perspectiva oficial, a Zelota entrou em contato com Jorge Rampogna, diretor de Assuntos Públicos da DSA, e Felipe Lemos, o diretor de comunicação da DSA, com questões sobre a votação e suas motivações, mas não houve resposta. Outras questões foram enviadas para pelo menos 10 presidentes de uniões da DSA sobre a revisão do documento, mas também não houve resposta.

Possíveis discordâncias acadêmicas

Dada a importância do documento — especialmente com a proximidade das eleições de 2026 no Brasil — a Zelota também entrou em contato com dois pastores e acadêmicos cujas perspectivas sobre política e adventismo são reconhecidas pela denominação. O primeiro, Marcos de Benedicto, pastor aposentado, ex-editor-chefe da CPB e autor do livro Política: o que você precisa saber? (2022), disse cordialmente que preferia não entrar no debate para não se envolver em polêmicas.

Benedicto também evitou comentar a revisão do documento, afirmando que não foi parte dos processos que o produziram — embora fale ativamente sobre o assunto em associações, igrejas e universidades adventistas, e uma entrevista com ele esteja anexada ao documento.

Em seu livro, o capítulo “A visão adventista” não discute manifestações públicas especificamente. Benedicto, no entanto, distingue “ativismo social” e “militância política”: o primeiro seria uma atividade saudável e necessária, como no caso dos adventistas que, em 1850, se opuseram à perseguição de escravizados fugitivos, e no caso do que deveriam fazer hoje em defesa de imigrantes ilegais. Essa posição seria parte de um “legado” deixado pelos pioneiros adventistas, em sua defesa da liberdade e dos direitos humanos. O “ativismo” discutido por Benedicto parece orientado a uma postura abertamente crítica do governo, e não envolve participação em manifestações.

Por outro lado, Benedicto enfatiza os conselhos de Ellen G. White proibindo o envolvimento de pastores e obreiros denominacionais em “assuntos políticos”, embora reconheça que algumas situações exigem uma resposta da denominação. Para Benedicto, portanto, seria possível discordar da participação de pastores em manifestações públicas como um “assunto político” — já que ele, aparentemente, entende o termo num sentido amplo — principalmente em situações nas quais a IASD sofre com a polarização.

Outro pastor contatado, Felippe Amorim, autor do livro Política para Cristãos (2026), teve seu livro promovido e recomendado pelo veículo de notícias da IASD. Amorim é um apresentador na TV Novo Tempo e professor de teologia no Centro Universitário Adventista de São Paulo (UNASP). Em resposta à Zelota, o pastor também escolheu não comentar sobre o assunto e pediu que as perguntas fossem direcionadas ao escritório de comunicação da DSA.

No entanto, enquanto respondia à Zelota, Amorim publicou um texto no canal oficial de notícias da denominação intitulado “Como o cristão deve se comportar em relação ao voto?”. Ele não usou o termo “manifestação pública”, mas criticou abertamente a “propaganda pública” de um posicionamento político, discutindo o mesmo assunto com uma terminologia diferente da usada pelo documento. Na prática, Amorim critica o que considera um equívoco comum em meio a cristãos que querem “exibir sua posição política”. Por outro lado, a decisão em Brasília foi tomada precisamente para facilitar a expressão pública dos adventistas, segundo Rampogna, já que esta seria uma tendência na América Latina.

Com essa posição, Amorim insiste numa orientação que não existe mais nos documentos oficiais da denominação, mas permanece consistente com seu livro: baseado em 1 Timóteo 2.1-4, ele explica que Paulo desejava para Éfeso “não uma manifestação pública, mas uma ação secreta e silenciosa”. Ao longo do livro, ele entende “manifestação pública” como qualquer ato de “militância” ou “ativismo” que prioriza uma perspectiva política ao invés do que chama de “mordomia cristã”; isto é, uma vida política sem rótulos que busca o benefício da sociedade através do testemunho. Ele defende uma espécie de “vida pública bíblica” que inclui o que há de verdadeiro em todos os partidos, dispensando a participação em manifestações que carregam bandeiras ideológicas ou partidárias.

Embora se oponha a manifestações públicas, Amorim sente-se livre para, no mínimo, expressar sentimentos políticos, ou seu “testemunho”, nas redes sociais — uma prática que ainda é proibida pelo documento. Ele defende toda a lista de “valores cristãos” alinhados a agendas instrumentalizadas pela bancada evangélica, tais como a criminalização do aborto, a oposição ao feminismo, uma crítica à “vitimização dos bandidos”, uma demonização da teoria marxista, críticas à teologia da libertação e ao “ativismo social”, críticas ao “ativismo gay”, e um repúdio contra “cristianismos progressistas”.

Aqui, também há consistência dentro das posições de Amorim. Ele lembra seus leitores várias vezes de que não há posição política, e que “a política é inevitável”. Ele entende a internet como um “ambiente que revela o estado real do coração,” isto é, um lugar que “revela quem nós somos” Em outubro de 2018, quando Bolsonaro foi eleito presidente, Amorim confessou que “ver uma Bíblia em primeiro plano no primeiro discurso do novo presidente do Brasil me faz bem”.

No púlpito de uma igreja, Amorim alegou ter sido processado em 2024 “por causa de um sermão”—o vídeo foi retirado do ar após a publicação desta matéria. No dia 17 de junho daquele ano, em um dos escritórios da Novo Tempo, ele supostamente recebeu uma intimação da procuradoria, indicando um possível processo por “racismo contra homossexuais”, devido a uma afirmação feita no programa Bíblia Fácil. O caso, no entanto, já havia sido encerrado. O pastor usa o episódio para alertar o público de que “chegará o dia em que ser fiel a Deus será ilegal”.

Como Amorim não respondeu às perguntas da Zelota, não é possível saber se ele foi parte dos processos que removeram o voto sobre manifestações públicas do documento. Embora o livro de Benedicto seja, em termos técnicos, mais crítico e complexo, e o de Amorim adote uma abordagem mais pastoral, foi este último que recebeu mais proeminência na mídia adventista, mesmo sendo publicado por uma editora não denominacional.

Um vácuo normativo

A revisão do documento “Os adventistas e a política” introduziu mudanças estruturais significativas ao eliminar a seção “Os adventistas e manifestações públicas”. Na versão anterior, essa seção combinava uma reflexão teológica sobre protestos com uma orientação prática para membros e líderes. A diretiva era explícita: a participação de membros em demonstrações político-partidárias “não era recomendada”, e líderes institucionais “não eram autorizados” a participar. Na nova edição, essa seção desapareceu sem um substituto equivalente — o documento passa diretamente das orientações sobre redes sociais para a conclusão — criando um vácuo normativo a respeito do assunto.

Para além dessa remoção, a introdução foi reformulada para reforçar o caráter institucional do documento, juntamente com simplificações menores e a eliminação de redundâncias. O texto não se apresenta mais como um “guia conciso e unificado”, e agora se define como “referência oficial” para o posicionamento político da IASD. A linguagem também é tecnicamente mais ampla, substituindo termos como “governos” por “instâncias de poder”.

Na seção sobre política partidária, as mudanças são sutis, mas notáveis. A terminologia suaviza a proibição anterior, dizendo que a igreja “não incentiva a participação institucional em qualquer atividade político-partidária”, ao invés de proibi-la categoricamente. Na versão anterior, o texto dizia que a igreja “não participa de qualquer atividade político-partidária”. Ao mesmo tempo, outras restrições são expandidas, tais como a proibição contra o uso de espaços institucionais para “promoção ou apoio de candidatos” — incluindo “apoio”, algo que, antes, não era dito explicitamente. Essas mudanças sugerem um equilíbrio calibrado entre linguagem suavizada e escopo mais amplo.

A seção sobre eleições, por sua vez, foi simplificada, ficando mais “neutra”. Na versão anterior, os membros eram aconselhados a considerar critérios específicos quando votavam, como valores relacionados à família, à saúde e princípios morais. Na versão atualizada, essa orientação é condensada na recomendação de que a votação seja guiada pela “consciência individual”, removendo referências diretas a pautas específicas — frequentemente associadas à extrema direita. Ao mesmo tempo, o texto expande os detalhes institucionais ao listar explicitamente os espaços e recursos que não podem ser usados para propósitos eleitorais, incluindo escolas, universidades, e programas sociais. Anteriormente, o texto se referia aos templos, sedes administrativas, unidades educacionais, de saúde, e outras instituições.

Na seção a respeito de candidatos adventistas, as mudanças indicam um escopo mais amplo, com controle administrativo mais rígido. A proibição contra o uso do “púlpito” é reformulada para incluir “cultos” e “programas” da denominação, expandindo o alcance da restrição. Além disso, enquanto a versão anterior aconselhava a liderança a agir com “prudência” ao informar membros sobre candidatos adventistas, a nova versão afirma que os líderes devem se limitar “a informar”, e não devem usar a estrutura organizacional “para pedir ou induzir membros ao voto”. Essa reformulação sinaliza um controle mais estrito sobre a influência indireta da liderança em processos eleitorais.

Na seção sobre redes sociais, as mudanças são mais formais, e menos substanciais. O documento atual substitui o termo “mídias sociais” por “redes sociais”, e adota uma linguagem mais jurídica, afirmando que certas expressões — presumivelmente fake news — podem constituir “crimes”, e não meramente “ofensas à honra”. A diretiva central, no entanto, permanece a mesma: indivíduos com laços institucionais são “aconselhados” a não se expressarem politicamente nesses espaços, enquanto membros gerais só recebem recomendações de prudência. Ao manter sua condição de “orientação”, o regulamento sugere que tais formas de expressão não são estritamente proibidas para líderes, estando mais sujeitas à cautela pessoal.

No geral, o documento passou por um processo de padronização, tornando-se mais conciso. Repetições foram reduzidas, construções teológicas foram simplificadas, e seções foram reorganizadas para maior clareza e objetividade. A conclusão mantém o mesmo conteúdo, com pequenos ajustes na linguagem que reforçam seu tom institucional, como a identificação explícita da IASD como uma “denominação cristã”. Na versão anterior, a conclusão começava de modo mais direto e genérico: “como cristãos”.

O fim da “Lei Ezequiel”

Neste ano, o documento anterior sobre “Os adventistas e a política” estaria chegando perto de uma década de existência. Ele foi publicado em 2017 e revisado em 2020, contendo uma média de 28 orientações sobre questões políticas para a liderança e membresia da IASD, incluindo uma que regulamentava a participação em manifestações públicas. Desde sua criação, o documento serviu como a posição oficial da denominação, especialmente em momentos de tensão política na América Latina.

A versão de 2017 — com o acréscimo de uma seção sobre manifestações públicas — foi feita após os “Dias de Junho” em 2013, uma série de protestos populares, heterogêneos e difusos que marcaram um ponto de virada importante no cenário político brasileiro. Protestando inicialmente contra aumentos na passagem de transporte público, as manifestações aumentaram em adesão pública e abrangência, espalhando-se pelo país. A despeito de sua natureza espontânea, os protestos de junho ajudaram a criar um sentimento público no Brasil que não era familiar: o sentimento de que o “gigante” tinha acordado, e de que o protesto público era um meio viável de avançar demandas populares. Na época, não havia sinais claros de polarização política, embora as motivações iniciais dos protestos fossem, em sua grande maioria, progressistas.

O contexto encorajou a denominação a desenvolver um discurso que visava persuadir seus membros a não participar das manifestações, enfatizando seu caráter violento. A missão da igreja na América Latina foi definida como “espiritual”, e os adventistas foram encorajados a promover mudança através do serviço e da oração. Independentemente de sua natureza ideológica, essa “cultura de protestos” costumava ser associada a “revoluções sociais” e à “luta de classes”. A rejeição institucional a essa forma de ação cívica era, portanto, motivada por percepções ideológicas que tratavam “revoluções” como ações políticas marxistas que seriam incompatíveis com a fé cristã. A denominação citava frequentemente textos bíblicos, tais como Jeremias 29.7 e 1 Timóteo 2.2, para enfatizar a necessidade do “testemunho” em vez do “protesto”.

Mas dois anos depois, em 2015, a população ocupando as ruas já era de um perfil mais conservador e de classe média. Conforme surgiam novas manifestações pelo impeachment da ex-presidenta brasileira Dilma Rousseff (PT), a denominação reiterou seu apelo pastoral sobre o assunto, a despeito da ausência de orientações específicas, num esforço de desencorajar a participação de adventistas.

No entanto, o jornal Zero Hora — o veículo de maior circulação no estado do Rio Grande do Sul — publicou, no dia 17 de abril, uma foto de uma manifestação em que aparecia Ezequiel Gomes, um pastor adventista. Embora fosse capelão da Rádio Novo Tempo em Novo Hamburgo, Gomes comentava frequentemente sobre assuntos políticos e controversos. Após a manifestação, a comissão diretiva local decidiu demiti-lo, com base, principalmente, numa reflexão de Rafael Rossi, na época o diretor de comunicação, assuntos públicos e liberdade religiosa da DSA. A reflexão foi posteriormente retirada do ar.

O artigo de Rossi argumentava que, embora manifestações sociais tivessem preocupações legítimas e incluíssem participantes pacíficos, os cristãos — especialmente dentro da perspectiva adventista — deveriam ter cautela ao se envolver com elas, devido ao risco de violência, manipulação e desvio de sua missão espiritual. Partindo de Ellen White, ele afirmava que Jesus não buscou reformas políticas, mas se concentrou em transformar corações individuais, sugerindo que a verdadeira mudança vem através da renovação espiritual, e não da ação civil.

O mesmo não ocorreu, entretanto, com outros pastores que também tinham participado de manifestações similares, tais como Fábio Mendes, do Instituto Adventista do Paraná (IAP), e Ronaldo Alberto de Oliveira, que era diretor ministerial da Associação Paulistana. Devido a inconsistências na demissão de Gomes, o ex-pastor processou a denominação, argumentando que sua demissão era ilegítima e partia de uma regra não existente.

Por fim, entre 3 e 7 de novembro de 2017, durante o concílio anual, foi aprovada uma atualização ao documento “Os adventistas e a política”, acrescentando uma seção sobre manifestações públicas. O pastor Hélio Carnassale, que na época dirigia o departamento de assuntos públicos e liberdade religiosa, justificou a inclusão com base no “aumento do número de protestos no país”. A denominação sustentava que a natureza violenta e insurrecional das manifestações era incompatível com a moralidade cristã. Dada a natureza reativa do voto, a nova orientação passou a ser chamada informalmente de “Lei Ezequiel” por alguns pastores.

A despeito da Lei Ezequiel, o posicionamento político da liderança adventista ficou cada vez mais explícito. De 2018 em diante, campanhas pelo ex-presidente Bolsonaro foram feitas do púlpito, e seus representantes foram convidados para discursar em instituições adventistas. Pastores e administradores expressavam abertamente seu apoio ao novo representante da extrema direita brasileira. Neste contexto de hegemonia ideológica, a Lei Ezequiel jamais foi colocada em prática, a despeito das claras violações de suas diretrizes.

O mesmo, porém, não ocorreu entre pastores com uma perspectiva mais progressista. Eles viviam com medo da vigilância e punição de seus superiores caso fossem vistos como alguém que se alinhava a ideologias de esquerda.1 Em 2022, dos 35 pastores que falaram com a Zelota, 22 afirmaram que, a nível organizacional, a IASD tem preferência por uma posição política que não é declarada oficialmente: “os únicos que não podem falar sobre política são os que não compactuam com o governo atual [de Jair Bolsonaro]”, lamentou um dos pastores entrevistados.

O clímax desse processo foi o dia 8 de janeiro de 2023, quando uma manifestação pública organizada por apoiadores de Bolsonaro escalou para uma tentativa histórica de golpe de Estado, resultando na invasão e destruição de patrimônio público. Além de relatos de adventistas que participaram, a mídia nacional destacou o caso de Débora Rodrigues dos Santos, uma membra leiga da IASD que vandalizou a Estátua da Justiça e foi sentenciada à prisão. Na época, a denominação não fez declarações públicas além de uma breve nota condenando o vandalismo, mas sugerindo que o 8 de janeiro poderia ser considerado um caso de “liberdade de expressão”.

Com Bolsonaro declarado inelegível nas eleições de 2026 por seus crimes contra o Estado, a extrema direita brasileira tem apoiado a pré-candidatura de seu filho, Flávio Bolsonaro. No calendário eleitoral, o mês de maio marca o período de “campanhas de arrecadação de fundos”, nas quais pré-candidatos começam a arrecadar dinheiro de indivíduos. Num contexto em que alguns líderes religiosos já estão mobilizando membros em apoio ao legado bolsonarista, a DSA revogou oficialmente a Lei Ezequiel, permitindo que líderes e membros expressem publicamente suas preferências políticas.

Portas abertas para manifestações públicas dos adventistas na América Latina

Lemos explicou a revisão do documento citando estudos sobre reputação e comunicação organizacional. A mudança, ele argumentou, reforçaria a autenticidade e consistência da denominação para aumentar sua credibilidade com o público — evitando um erro comum de “marcas”, que é promover uma retórica divergente da prática institucional.

Para Lemos, esse posicionamento é importante devido à crescente convergência entre as esferas políticas e religiosas; as revisões visam encorajar os membros e líderes a se envolverem com essa convergência, já que a “igreja tem sempre um compromisso de motivar as pessoas a agirem como cidadãos responsáveis e comprometidos com o ambiente em que vivem”.

Segundo Rampogna, a revisão torna as diretrizes mais “clear and aligned with what is currently expected of a responsible religious organization across South America.” Ele partiu das pesquisas conduzidas pelo Pew Research Center desde 2024, as quais indicam que muitos latino-americanos — especialmente os protestantes — apoiam um papel mais ativo da religião na vida pública, liderança política, e até legislação. Neste contexto, a revisão encoraja a mistura entre fé e política na esfera pública.

Ao remover proibições explícitas, a IASD evita a necessidade de disciplinas massivas ou confrontos diretos com seus próprios membros e líderes. Ao suavizar restrições, o documento reduz sua responsabilidade normativa direta em áreas sensíveis — tais como manifestações públicas — enquanto mantém o controle em áreas de maior risco institucional, tais como o uso de prédios, recursos e veículos oficiais da IASD. Desta forma, a igreja protege sua reputação de “neutralidade” enquanto permite ações individuais fora de espaços institucionais, independente de seu alinhamento partidário.

Embora a liberdade individual aumente, há um efeito colateral previsível: maior ambiguidade e um reforço de tendências políticas já existentes. Sem diretrizes claras, há mais espaço para engajamento político por parte de membros e líderes, tanto em contextos formais quanto informais. Isso pode gerar inconsistências em igrejas locais, dificultando a manutenção de uma identidade pública uniforme. Se, no entanto, a instituição estiver ciente de uma orientação política predominante entre membros e líderes, a nova diretriz reforça tendências ideológicas pré-existentes, e cria ainda mais espaço para sua radicalização.

Num país em que a demografia evangélica e adventista tende a se alinhar com ideologias de extrema direita, a flexibilização do documento remove formalmente as restrições que limitavam a expressão pública desse grupo. Embora seja descrita em termos de “neutralidade”, essa mudança, na prática, alimenta uma tendência ideológica já existente entre membros, líderes, e influenciadores adventistas. Embora a IASD se proteja como entidade legal — afirmando seu desinteresse em assuntos partidários — ela se torna mais engajada politicamente através da ação livre de seus participantes.

Notas:

1. Já reportamos muitos casos nos quais líderes e pastores de extrema direita no Brasil perseguiram membros leigos e pastores mais progressistas (como o caso do CAJU, o caso de Gilson Grüdtner, de Apolo Streicher, da censura ao grupo Vocal Livre, e o caso emblemático da Nova Semente [1] [2] [3]), ou promoveram ativamente iniciativas que seriam inaceitáveis fora da bolha da extrema direita (tal como o apoio oficial a um movimento de cura gay).