Por Bruno Reikdal | Formado em filosofia e teologia, mestre em filosofia. Membro da Igreja Bestesda de São Paulo e militante da UP.

Uma das palavras mais utilizadas nos últimos tempos – e provavelmente uma das mais surradas pelo mau uso – é “ideologia”. Desde a infame “ideologia de gênero”, até a desqualificação de um movimento popular por ser “ideológico”, não temos muito bem claro e nem muito bem estabelecido qual o critério que julga o que é e o que não é ideologia. Normalmente, vemos a determinação de um conteúdo como “ideológico” a partir da negação daquilo que “não seria ideológico”. 

Funciona assim: assume-se que existe algo que é neutro ou indiscutível. Isso se torna o critério para determinar o que é ideológico: aquilo que se desvia, discorda ou se opõe a ele é do campo da ideologia. Desse modo, ideologia vira uma questão de discursos e preferências que não estão de acordo com a realidade. Aquele que aceita a neutralidade da realidade é propriamente “não ideológico”, que não é enganado por uma mentira ou uma fantasia. Detém a verdade, pois aceita aquilo que é real que, por ser real, é neutro e inquestionável. Não se discute com um fato.

É dessa maneira, por exemplo, que os problemas econômicos têm sido colocados: se há uma operação no mercado que contabiliza a abundância ou escassez de uma mercadoria, ela não pode ser discutida, pois reflete a realidade da existência de um mercado que regula mercadorias. Passa a ser visto como uma questão técnica. Mas para isso acontecer, o porquê de determinada mercadoria estar em falta ou de não ser bem distribuída, ou ainda o porquê organizamos a produção em torno de mercadorias (produtos desenvolvidos não para o consumo, mas para venda) tem que ser assumido como natural, um dado imutável e não uma realização histórica, que pode ser alterada a qualquer momento. Esse ponto, o fundamento de todo o processo produtivo, não é uma questão técnica: é uma escolha determinada historicamente e mantida por critérios específicos (e por canhões).

No campo dos critérios que justificam a manutenção desse modo de organizar o processo produtivo que garante a existência de uma dinâmica de trocas de mercadorias reguladas em um mercado, entra em jogo a “ideologia”. Diferente do que se propõe, como se fosse uma mentira, fantasia ou uma enganação que se separa da realidade, ideologia é uma consciência da realidade social que falseia ou esconde o fundamento dessa realidade. Ela cumpre a função de explicar o porquê das coisas serem como são e legitimar de alguma maneira sua manutenção, podendo propor inclusive soluções para os problemas enfrentados por nós. No âmbito econômico, trata-se de compreensões da realidade que escondem as etapas de nosso processo produtivo (como organizamos a produção, distribuição e o consumo, assim como seus efeitos) explicando partes de suas dinâmicas, não a totalidade dessas relações.1

Mas em nosso texto não vem ao caso a questão econômica. O que nos interessa é a Bíblia. Você já deve ter lido, ouvido ou mesmo proferido a frase: “isso não é uma questão de ideologia, é a Bíblia.” Isso significa que a Bíblia ocuparia esse lugar de neutralidade, naturalidade, impassível de história e de crítica. O mesmo que nos tempos modernos se faz com a ciência econômica (mas não apenas com ela, senão com a ciência em geral), fazemos com o texto sagrado. Apagamos sua história, seus conflitos, o processo que o trouxe até aqui, os projetos políticos que disputam seu conteúdo, e estabelecemos nela um lugar de pureza e simplicidade. A Palavra de Deus praticamente não precisa ser interpretada e nem há uma história milenar de disputas, aprendizados, mudanças, conversões e corrupções na relação das comunidades de fé com seu conteúdo.

O problema aqui não é dizer se a Bíblia é ou não “ideológica”. Mas, compreendendo “o que é ideologia”, precisamos nos afastar do uso descuidado do termo para rechaçar determinados grupos e proteger outros pretensamente a partir da neutralidade do texto. Negar os conflitos que sempre existiram e que existem entre interpretações, tradições, projetos futuros de grupos humanos diferentes e entre a manutenção ou transformação de uma ordem social vigente, é simplesmente apagar a nossa própria história de fé – inclusive a narrada nos textos bíblicos, em que grupos diferentes entram em conflito a partir de posições diferentes diante do texto sagrado (ou será que Jesus e os fariseus não conflitaram? Ou mesmo Paulo e Pedro? Anselmo e Agostinho? Thomas Müntzer e Martinho Lutero?).

Então, assumindo que não repetiremos a ingenuidade de imaginar lugares “neutros” e sem história, busquemos a concepção de ideologia com um dos grandes críticos da ideologia de nosso tempo: Franz Hinkelammert. Como veremos adiante, a ideia-chave de Hinkelammert é que ideologia não é uma “mentira” ou a negação de uma verdade. Ideologia é uma relação com a realidade que a explica em parte, encobrindo seus fundamentos, ou melhor, sua totalidade: o modo como organizamos todas as nossas relações sociais para garantir que a sociedade se reproduza, mantenha-se, permaneça.

As ideologias, portanto, “apresentam uma consciência falsa, mas não são simplesmente negativas”.2 São modos de nos relacionarmos com a realidade que a falseiam, mas não a negam. Falseiam, pois escondem as relações históricas e sociais que constituem, condicionam e sustentam a realidade. As ideologias contêm valores, mas o conteúdo desses valores só tem sentido por estarem imersos em uma totalidade de relações sociais. A mudança dessas relações muda o conteúdo desses valores. 

Há uma comédia de Aristófanes, As nuvens, em que um pai bate em seu filho e é questionado pelo jovem o porquê de ter apanhado. O pai diz que era por amar o filho. O rapaz retruca dizendo que “pode deixar que quando for mais velho, também te amarei muito”. Essa narrativa ilustra bem como os valores não possuem sentido por si mesmos, mas tem seu conteúdo a partir das relações postas. Amor, para o jovem personagem, tem sentido de violência. Do mesmo modo, os conteúdos e valores de nossas tradições sofrem em seus sentidos a partir das relações sociais e da reprodução social em que estão imersos, assim como o papel que cumprem diante delas: se em sua defesa ou contestação.

Com respeito aos valores, portanto:

as ideologias os contêm dentro de uma cobertura radicalmente distinta: não podem admitir contradições na sociedade e não podem desenvolver valores pela negação dessas contradições. Fazer isso significaria criticar e o objeto das ideologias é defender o sistema social da crítica. Mas tampouco podem esconder esses valores; os transporta, então, para uma esfera alienada da estrutura social.”3

Os valores se tornam ideológicos e problemáticos à medida que escondem as condições que formam sua própria existência e das comunidades. Deslocam a crítica às estruturas de reprodução social para outro âmbito, reduzindo uma crítica à totalidade das relações sociais para uma parcela fragmentada ou alienada dessa totalidade. Quem melhor trabalhou esse âmbito da crítica da ideologia foi Marx, em especial em um livro não publicado em vida intitulado A ideologia alemã, escrito com Engels. Uma das proposições fundamentais que orientam todo o texto é:

“devemos começar por constatar primeiro o pressuposto de toda a existência humana e também, portanto, de toda história, a saber, o pressuposto de que os homens têm de estar em condições de viver para poder ‘fazer história’. Mas, para viver, precisa-se, antes de tudo, de comida, bebida, moradia, vestimenta e algumas coisas mais. O primeiro ato histórico é, pois, a produção dos meios para a satisfação dessas necessidades, a produção da própria vida material, e este é, sem dúvida, um ato histórico, uma condição fundamental de toda a história, que ainda hoje, assim como há milênios, tem de ser cumprida diariamente, a cada hora, simplesmente para manter os homens vivos.4

Nele temos um critério fundamental para não perder de vista a totalidade das relações sociais que o conteúdo ideológico falseia: como garantimos que todas as pessoas em uma sociedade estejam em condições de viver para poder fazer história, desenvolver suas vidas em todos os seus âmbitos – inclusive o espiritual. Para poder ir à igreja, fazer missões, orar, exercer ministério e, inclusive, ler a Bíblia, é preciso que estejamos em condições de poder viver. Essas condições não são reguladas por nossas vontades individuais, mas compõem uma totalidade social de trabalhos combinados, por meio dos quais somos dependentes uns dos outros constantemente. 

A organização de todo esse trabalho é a divisão social do trabalho, um produto histórico que pode ser alterado pelas mãos da mesma humanidade que o criou e o mantém. Não se trata de uma ordem divina. Organizamos o modo de produzir de nossa sociedade de diferentes maneiras na história, entre distintos grupos humanos. Portanto, nesse âmbito, nada temos de valores perenes e incontestáveis. Contudo, eles condicionam os conteúdos dos valores: se contestatórios ou mantenedores da divisão social do trabalho, se reveladores ou encobridores dessas relações.

A impossibilidade da neutralidade de nossas teorias, ciências, valores e mesmo do texto bíblico não está na própria teoria, na ciência, nos valores ou na Bíblia, e sim no papel que cada um desses conteúdos desempenham em relação à manutenção ou não do modo como organizamos a reprodução de nossas vidas – socialmente, de todas as pessoas. Esse papel, por sua vez, entra no último âmbito que desejamos indicar em nosso texto para trabalhar o conceito de ideologia: a projeção futura de uma sociedade ideal – ou de como as coisas deveriam ser.

O que acontece é que nos relacionamos com a realidade em uma perspectiva limitada – e sempre limitada. Isso não significa que não se possa desenvolver uma compreensão científica da realidade que atua sobre ela para alterar determinadas condições e estruturas. Mas essa atuação não é “neutra”: ela se constitui a partir de uma projeção de melhoramento de determinado aspecto da realidade, de como ela deveria ser. Essa projeção não tem como ser neutra. Ela também se defronta com a divisão social do trabalho: se a revela ou a encobre. Seu conteúdo depende de valores e de uma antecipação em nossa cabeça do que falta à nossa realidade. Ou seja: depende de como concebemos a realidade, ou melhor, depende da nossa consciência da realidade

Hinkelammert nos explica da seguinte maneira: 

A mudança no nível da consciência […] é a antecipação consciente das possíveis transformações da estrutura [ou das condições históricas e relações sociais]. Tal como a imagem que o arquiteto tem da casa antes de construí-la não é causa de sua construção, assim também a mudança das consciências não é causa da mudança de estruturas. Mas essa não é realizada de fato se não se desenvolve previamente na consciência da humanidade uma imagem de futuro à luz da qual se julga o presente. A casa tampouco pode ser construída se o arquiteto não tem de antemão uma imagem dela.”5

Isso significa que por uma imagem de como as coisas deveriam ser, julgamos o presente. Se em nossas projeções não tocamos na condição fundamental que afeta a vida de todas as pessoas e é fruto histórico de nossa atividade humana, construímos propriamente uma consciência falsa da realidade. Nessa projeção, a divisão social do trabalho é tomada como boa e sua manutenção garantida, sendo os problemas reduzidos a algum fator fragmentado da vida social ou mesmo reduzido à culpabilização de determinadas práticas ou grupos humanos. Mas essas práticas ou grupos humanos não são os responsáveis pela reprodução social que afeta a todas as pessoas. São julgados no presente por uma imagem futura de uma sociedade que seria como esta, mas sem essas parcelas da vida social.

O âmbito da ideologia, portanto, é passível de crítica. Mas não uma crítica de preferências subjetivas, alguma fantasia ou posicionamento político. Trata-se da crítica dos valores e dos critérios para julgar o presente a partir de um fundamento histórico que é de responsabilidade humana e que organiza a totalidade das relações sociais, não apenas um de seus fatores. Ao vermos se estamos todas e todos em condições de fazer história, aí sim criticamos os conteúdos que revelam ou encobrem a divisão social do trabalho, a qual está diariamente fazendo a nossa história.

Desse modo, quando diante dos problemas de fome, violência, abandono, dissolução de núcleos familiares etc., temos como explicação que isso é “culpa da humanidade”, mas isso não resulta na nossa mobilização enquanto humanos para alterar os produtos de nossa própria história (que nós criamos e estamos mantendo), a ideologia realiza seu trabalho. Ela percebe a realidade e toma consciência dela: por culpa da humanidade vivemos o que vivemos enquanto sociedades humanas. Mas estanca qualquer possibilidade de contestação dessa ordem social e a legitima quando joga a uma “natureza humana” abstrata os problemas, buscando a solução na inação e espera por um futuro projetado em que as coisas serão boas. 

A partir desse futuro, quando se julga o presente, não vem à tona a divisão social do trabalho e o modo como estamos nos reproduzindo, e sim questões fragmentadas que revelam os valores propriamente ideológicos de nossa falsa consciência. A ação é dirigida, portanto, não contra nosso modo de organizar o processo produtivo e nos mantermos fazendo história, mas contra determinadas práticas ou grupos humanos considerados não pertencentes ao futuro projetado. Nesse sentido, a total desmobilização diante da divisão social do trabalho é dirigida ao combate a esses grupos e práticas que não se enquadram nos valores ideológicos. A ordem social vigente não é questionada e o que produz os problemas fundamentais que afetam a vida de todas as pessoas é naturalizado. Aceitar passivamente esses problemas é uma questão de neutralidade ou pureza, ao passo que negar os grupos e práticas rejeitáveis é o papel missionário em nome do futuro bom projetado.

Um exemplo que evidencia esse efeito ideológico de proteção da nossa reprodução social e da divisão social do trabalho é a atual e recorrente afirmação da defesa da família. Todos e todas vivenciamos a fragilização de nossos laços familiares. A partir dessa experiência real e efetiva, a falsa consciência age a partir desse dado da realidade para esconder suas causas e deslocar as potencialidades de luta. Dessa maneira, ao invés de se notar a ausência das figuras maternas e paternas dos lares devido a sobrecarga e às longas jornadas de trabalho, às distâncias e dificuldades de transporte nas cidades, ou ainda à necessidade de buscar diariamente algum emprego ou renda informal para a sobrevivência de todas as pessoas da casa, cria-se o espantalho moral nomeado como “ideologia de gênero” (e seus desdobramentos em mentiras como de “kit gay” e afins). Não se discute a superexploração do trabalho, a dinâmica da produção, distribuição e do consumo em uma sociedade capitalista, e mesmo o valor dado ao capital em detrimento da vida das pessoas e das famílias, que na prática preparam suas crianças para disponibilizarem seus corpos em troca de um preço em forma de salário no chamado “mercado de trabalho”. O modo como nos reproduzimos socialmente e consumimos nossas vidas em atividades sem sentido e distantes de nossas casas, sem tempo para quem amamos e para nossas relações próximas, passa despercebido.

Assim, o uso da Bíblia como referência de neutralidade é o escudo que esconde o projeto de futuro defendido por grande parte das lideranças religiosas e seu posicionamento político, que só não é mais explícito graças ao papel da ideologia. Assumindo o posto de guardiões da pureza e apagando todos os conflitos históricos, as transformações em nossas tradições de fé, as diferentes experiências religiosas em diferentes grupos humanos engajados em distintos projetos políticos, pastores transformam a Bíblia em um instrumento ideológico, que aparentemente está desconectado de toda a dimensão de reprodução social. Desse lugar sublime, acusam qualquer contestação à ordem social como “ideológica” – no caso, entendendo ideologia como mentira, fantasia, distância na neutralidade, da realidade da verdade óbvia e inquestionável que é… O que eles mesmos pregam e defendem.

Notas:

1. A esse respeito, trabalhamos o conteúdo ideológico da economia em um artigo recente intitulado Para a retomada da economia política (2021), publicado pela Revista Brasileira de Estudos Latino-americanos. O conteúdo pode ser acessado em: https://ojs.sites.ufsc.br/index.php/rebela/article/view/4637/3619 

2. HINKELAMMERT, Franz. (1970) Ideologías del desarrollo y dialéctica de la história, p. 70.

3. HINKELAMMERT, Franz. (1970) Ideologías del desarrollo y dialéctica de la história, p. 69.

4. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich (2007) A ideologia alemã, pp. 32-33.

5. HINKELAMMERT, Franz. (1970) El subesarrollo latinoamericano: un caso de desarrollo capitalista, p. 32.