Série: A Bíblia e meus amigos LGBTQIAP+ (Parte 1)

Por Caio Peres | Missionário, mestre em Estudos Bíblicos, interessando em Deus, Bíblia e sociedade.

Texto originalmente publicado na Bodega de Bíblia.

O celibato tem sido a opção sugerida pelo cristianismo a todos os que se percebem inconformados com a heteronormatividade. A base bíblica dada para tal sugestão é a fala de Jesus sobre os eunucos “por causa do reino do céu”, em Mateus 19. Existem graves erros aqui. Um deles é a inversão completa do texto, que foi direcionado como recomendação a homens divorciados; ou seja, em vez de usar o texto para falar sobre questões das práticas heterossexuais, o texto é usado para falar sobre “soluções” para quem se identifica como homossexual. Fica claro que o texto, portanto, é abusado por uma ideologia identitária, fazendo com que se veja algo que não está lá e cegando o leitor para aquilo que está. Outro problema, derivado do primeiro, é que o celibato somente é sugerido para quem tem desejos homoeróticos, mas não para quem tem desejos heteroeróticos e pratica atos sexuais degradantes para si mesmo e para o parceiro sexual, inclusive cônjuges.1 Assim, as expressões heterossexuais degradantes, opressivas e até violentas, dentro de um casamento heterossexual, nunca são “resolvidas” pelo celibato, que é exatamente uma aplicação bem lógica de Mateus 19. Como veremos no próximo texto, quando analisaremos o texto bíblico em si, o texto é sobre toda a realidade da sexualidade humana e sua relação com a vida no reino de Deus proposta por Jesus. O fato de usarem esse texto de forma seletiva, limitando-o à homossexualidade, revela uma forte ideologia de gênero no cristianismo que pouco tem a ver com a proposta de Jesus em Mateus 19.

Enquanto em Levítico 18 e 20 a grande dificuldade era gramatical, em Mateus 19 temos uma complicação histórica grande no uso do termo “eunuco” (εὐνοῦχος). A definição do termo depende de informações históricas sobre eunucos na Antiguidade, seu uso no Antigo Testamento e na literatura judaica, e a relação de tudo isso com o contexto de Jesus e sua fala. A complicação aqui está no fato de não termos como derivar o significado da fala de Jesus simplesmente a partir da definição do termo, já que veremos sua multivalência, que reflete a diversidade da experiência dos eunucos na Antiguidade. Ainda assim, essa análise histórica é relevante para chegarmos a uma interpretação adequada da fala de Jesus no contexto do Evangelho de Mateus. Assim, quero dedicar um texto inteiro para a análise histórica. Assim, quando adentrarmos o mundo do texto de Mateus 19, teremos um olhar mais apurado para entendê-lo.

Eunucos: biologia, fisionomia e papéis sociais

Em Mateus 19:12, Jesus apresenta uma classificação curiosa. Ele fala que “há eunucos que nasceram assim desde o ventre da sua mãe, há eunucos que foram castrados pelos homens, e há eunucos que castraram a si mesmos por causa do reino do céu” (minha tradução). Essa classificação é curiosa, pois evidencia uma identidade plural dos eunucos na Antiguidade, e ainda parece apontar para diferenças baseadas em questões biológicas, fisionômicas e sociais.

Dado o que eu disse na introdução, é importante começar com um aspecto de negação. Caso Jesus quisesse comunicar uma mensagem sobre celibato como idealização da ética sexual de seus discípulos, o uso da figura do eunuco seria bastante inapropriada.2 Eunucos não eram celibatários, de forma alguma. Diferente do que se imagina, eunucos eram conhecidos por serem sexualmente ativos. O livro de Eclesiástico, por exemplo, diz o seguinte: “como suspira um eunuco, abraçando uma virgem” (Eclesiástico 30.21). A descrição tem características sexuais, que poderiam até incluir penetração, já que Jesus ben Sira, autor de Eclesiástico, também diz: “Paixão de eunuco para deflorar uma adolescente” (Eclesiástico 20.4). Mais ainda, eunucos eram caracterizados por terem uma vida sexual bastante ativa, tanto com homens quanto com mulheres.3 De certa forma, eunucos eram sexualmente desejáveis. Escritores greco-romanos afirmam que mulheres da elite tinham preferência por eunucos, até mesmo como esposos, pois podiam ter prazer sexual sem a possibilidade de engravidar.4 Quanto à atratividade dos eunucos por homens, a questão é mais complicada. No caso de castração antes da puberdade, o eunuco matinha uma fisionomia jovial e efeminada, como rosto sem barba, corpo esguio e voz mais aguda.5 Como o ideal de beleza, moral e valor, na antiguidade de forma geral, mas especialmente na cultura greco-romana, estava atrelada ao corpo masculino, os eunucos se tornavam sexualmente atrativos para homens.6 Isso se reflete, por exemplo, no valor de escravos castrados. Muitos dos escravos castrados eram prisioneiros de guerra e eram usados como escravos sexuais.7 Por isso, o preço de um escravo castrado era muito maior do que o de um escravo comum no Império Romano.8

O motivo de nos surpreendermos com essa identidade sexuada dos eunucos está na visão androcêntrica e até falocêntrica da sexualidade humana, ou seja, somente a penetração peniana é considerada como ato sexual que expressa a sexualidade humana.9 Seja em práticas heterossexuais ou homossexuais, a penetração peniana é uma das diversas formas de expressão da sexualidade humana, por isso um eunuco é visto como incapaz de se engajar em práticas sexuais.10 No entanto, quando essa visão é superada, podemos conceber a realidade de que mesmo o eunuco castrado tinha a possibilidade de se envolver sexualmente com outras pessoas, e não somente no papel “passivo”, já que muitos se envolviam sexualmente com mulheres.11 Tendo esclarecido isso, podemos considerar as possibilidades de caracterização biológica de um eunuco na Antiguidade.

A biologia e fisionomia dos eunucos

Utilizando as categorias da fala de Jesus, vamos considerar os eunucos que “nasceram assim desde o ventre da sua mãe”. Essa categoria pode ser enganosa, já que facilmente é utilizada para os casos mais óbvios, em que existe má formação nos órgãos sexuais, e ignorar outras possibilidades, inclusive algumas que serão determinantes na identidade dos eunucos. Como estamos lidando com uma questão biológica, que pode ou não incluir diferentes fisionomias, é bom detalhar o que seria a biologia masculina e feminina normativa. Normalidade biológica masculina seria: (1) cromossomos XY, (2) testículos dentro do saco escrotal, (3) produção e emissão de esperma, (4) tamanho mínimo do pênis de 2,5 cm, (5) uretra interna ao pênis, (6) reações [hormonais] masculinas na puberdade. A normalidade biológica feminina seria: (1) cromossomos XX, (2) ovários funcionais, (3) órgãos reprodutores internos e externos típicos, (4) clitóris, ao nascimento, medindo entre 0,2–0,85 cm.12 É claro que essas são definições científicas que não eram, necessariamente, usadas na Antiguidade. Contudo, essas definições se mostrarão úteis mesmo quando usarmos os critérios da Antiguidade.

O critério mais fácil de ser detectado, como já foi dito, tem a ver com a formação fisionômica dos órgãos sexuais. Um eunuco “de nascimento” era aquele que apresentava má formação do órgão sexual a ponto de haver ambiguidade quanto ao seu sexo. O termo usado na literatura rabínica para o “eunuco de nascimento” era “eunuco do sol” (sáris khama), um indício de que a determinação da classificação se dava quando a luz do sol evidenciava a má formação do órgão sexual.13 A outra categoria de eunucos mencionada por Jesus é definida na tradição rabínica como “eunuco do homem” (sáris ‘adam), ou seja, aqueles feitos eunucos por intervenção humana. Nessas duas categorias, apesar de estarmos lidando principalmente com modificações biológicas e fisionômicas, ainda cabem indivíduos com características não tão óbvias assim, que também não se encaixam nos critérios do padrão masculino e feminino acima citados.

Dentre as características associadas ao eunuco na Antiguidade, três merecem ser citadas como exemplos daquilo que não é tão óbvio. A primeira tem a ver com a uretra e como a urina é expelida. Ainda na literatura rabínica, um eunuco é incapaz de urinar com a pressão necessária para se formar um “arco”. A segunda é que não há o desenvolvimento de pelos faciais e púbicos até a idade de 20 anos. A terceira é a característica mais líquida do sêmem. Essas três características não são importantes em si, mas sim como possíveis explicações ou projeções de que o indivíduo seria infértil.14 É claro que essas características têm origens biológicas ligadas a questões genéticas e hormonais.15 Mas elas são importantes indícios de que a classificação de uma pessoa como eunuco já aponta para muito mais do que a ausência ou má formação do órgão sexual, impedindo a atividade sexual. Na verdade, em muitos casos, a própria penetração peniana era possível a um eunuco, assim considerado por ser infértil.

Antes de falarmos sobre o papel social dos eunucos, o que complicará bastante essa classificação, é necessário falar sobre as mulheres e andróginos. Ao leitor mais atento, já deveria estar claro que o termo eunuco é limitado ao sexo masculino. Isso já é indício de que estamos diante de uma questão muito mais social do que biológica e fisionômica. De qualquer forma, vale mencionar aqui que a tradição rabínica inclui uma categoria de mulheres que corresponde ao eunuco masculino. Essas mulheres são chamadas de aylonith. Elas podem apresentar características fisionômicas, como genitália incompleta ou subdesenvolvida, mas também características mais relacionadas aos níveis hormonais, como voz mais grave e falta de pelos púbicos. Assim como no caso dos homens, porém, a característica fundamental é que elas não apresentam uma genitália e órgãos sexuais completamente funcionais, podendo ter dificuldades e dores quando penetradas e ser inférteis.16 Como a sexualidade na Antiguidade está atrelada à procriação e a papéis sociais, a tradição rabínica não recomenda que um homem se case com uma aylonith, a não ser que ele já tenha uma esposa e filhos, e caso se case sem conhecimento de sua condição e venha a descobrir logo depois do casamento, este é invalidado.17

Tanto o eunuco quanto a aylonith ainda se encaixavam em categorias binárias, ou seja, ainda era possível diferenciá-los entre a sexualidade masculina e feminina. Mas a tradição rabínica, refletindo uma parte da realidade da Antiguidade, também fala de um grupo que não se encaixa nas categorias binárias, ou seja, são andróginos. Outro termo usado para esse grupo de pessoas é tumtum.18 Alguns textos chegam a descrever a possibilidade de que esses indivíduos podiam tanto menstruar quanto ejacular.19

Como todas essas informações são provenientes do contexto judaico dos primeiros séculos da era comum, ou seja, refletem o contexto mais próximo de Jesus, é importante mencionar como a tradição rabínica lidou com esses indivíduos. É muito relevante que a tradição rabínica proíba a execução desses indivíduos logo após o nascimento e a constatação de ambiguidade fisionômica.20 Por outro lado, dada a necessidade dessa proibição, é uma constatação cruel de que recém-nascidos com ambiguidade sexual eram executados, especificamente por afogamento. Como o esquema binário é claro em Gênesis, assim como a realidade de pessoas não-binárias, a tradição rabínica, especificamente tanaíta, refinou suas prescrições legais que reconheciam indivíduos não-binários biologicamente, misturando os direitos e obrigações masculinas e femininas para esse grupo.21 O que pode evidenciar que a incidência de indivíduos não-binários não era tão rara.

Antes de deixarmos esse tópico, vale sermos explícitos quanto a algumas coisas. Fica claro que as práticas sexuais ou a ausência delas não são determinantes na identidade de um eunuco. Ainda que questões de aparência, como ausência de pelos faciais e púbicos, características corporais como altura e musculatura, assim como o tom da voz, sejam relevantes na identidade de um eunuco ou de uma aylonith, elas não são fundamentais. As questões determinantes para a identidade dos eunucos na Antiguidade, mais especificamente no contexto judaico, era alguma característica dos órgãos reprodutores, interna ou externamente, que impedia a procriação. Quanto à característica biológica e fisionômica, esse é o aspecto mais relevante para entendermos o que está acontecendo em Mateus 19.22

O papel social dos eunucos

Aqui a discussão é realmente limitada aos homens. Vamos ver que a identidade dos eunucos não tem a ver com a ausência de práticas sexuais ou com certas características biológicas e fisionômicas independentes da questão da fertilidade e da procriação. Ao final, veremos que, novamente, todo o peso recairá na questão da definição da masculinidade tendo a procriação como seu fundamento, já que a procriação estabelece a formação da família, a principal organização social humana.

Diante de tudo o que foi dito sobre a tradição judaica rabínica, é necessário dizer que apesar do aspecto positivo citado acima, os eunucos eram muito mal vistos no judaísmo por dois motivos: a incapacidade de gerar filhos, considerada uma ordem divina, e a relação de eunucos com culturas e religiões pagãs,23 enquanto a religião judaica, baseada em textos como Levítico 21:16-20 e Deuteronômio 23.1, excluía os eunucos de seu culto.24 Mas é precisamente nesse contexto cúltico que podemos começar a entender a terceira categoria de eunucos que Jesus cita em Mateus 19, ou seja, eunucos que se fizeram assim por um propósito nobre.

O grupo de eunucos mais conhecido na Antiguidade por sua relação próxima a um culto religioso é os galli. O termo se refere, principalmente, a devotos da deusa Cibele, no contexto greco-romano, mas também há casos de galli devotos da deusa Síria, também no contexto romano.25 Deusas na Antiguidade, geralmente, estão relacionadas à fertilidade. Num ritual de devoção especial, novos devotos de Cibele praticavam a auto-castração para oferecer sua fertilidade à deusa da fertilidade.26 Diferente do que se imagina, os galli não eram sacerdotes, ou seja, não eram funcionários dos templos.27 Como devotos, os galli tinham função especial nas procissões, já que após seu ritual de devoção completa, eles perambulavam entre os diversos templos de Cibele espalhados pelo Império Romano.28 Dada essa característica, é provável que judeus, mesmo na Palestina do primeiro século, tivessem algum contato com os galli, ou pelo menos tivessem algum conhecimento sobre eles.29

Alguns relatos, tanto de judeus quanto de romanos, podem nos ajudar a entender outras características dos galli. Como viajantes e separados do núcleo familiar, os galli viviam de doações, especialmente de mulheres, já que eram devotos de deusas. Por essa associação, os galli costumavam usar roupas de mulheres e se comportavam de forma “exótica”. Apuleius, escritor romano do primeiro século de nossa era, diz que um bando de galli viajava pelos vilarejos, intimidando as pessoas a dar-lhes doações, e praticavam rituais de flagelo e automutilação (Metamorphoses 7.24–31).30 As descrições mais comuns, porém, dizem respeito a comparações com o comportamento feminino. A caracterização dos galli com termos como “afeminados” (molles e semiviri), ocorrem com muita frequência. Agostinho de Hipona oferece a seguinte descrição: “Esses afeminados [molles], ainda ontem, perambulavam pelas ruas e locais de Cartago com cabelos untados, rostos brancos de maquilagem, corpos relaxados, andar feminino, tirando das pessoas os meios de manter seu estilo de vida depravado” (Cidade de Deus 7.26).31 Por fim, como no caso de outras descrições de eunucos, os galli são retratados como sexualmente ativos, seduzindo jovenzinhos.32

É claro que existe um forte preconceito nessas descrições, ainda que elas sejam úteis para certas caracterizações dos eunucos de forma geral. Quando, porém, esses indivíduos são chamados de “afeminados”, temos que explicar algo importante do contexto cultural da Antiguidade, especialmente greco-romano. A virtude e a excelência moral eram características associadas ao sexo masculino. Essa associação é feita a partir das características do corpo masculino, como já falamos sobre o ideal estético e moral acima. Como a percepção de virtude e moral dependiam de um autocontrole rígido, tanto físico quanto emocional, a rigidez do corpo masculino se tornou reflexo de capacidades para a virtude e a moral.33 A genitália masculina entra nessa discussão, já que parte da honra masculina, portanto da virtude e da moral, estava em suas proezas sexuais, em sua capacidade de gerar filhos e na proteção de suas mulheres contra outros homens.34 Nesse sentido, todo homem que não se encaixava nesses padrões – e os eunucos, de forma geral, e os galli, mais especificamente, definitivamente não se encaixavam – eram considerados imorais.

O deslocamento dos galli dos espaços e comportamentos masculinos, assim como seu caráter viajante e dependente das doações, especialmente de mulheres, são características importantes quando viermos a tratar do possível motivo de Jesus usar o termo eunuco em Mateus 19. Também será importante o fato de que alguns, talvez muitos, cristãos praticaram a castração como ritual religioso de devoção especial.35 Isso demonstrará claramente que a castração não pode ser vista como uma depravação pagã, ou que uma leitura mais literal de Mateus 19 não pode ser completamente descartada. Isso, porém, ficará para o próximo texto.

Aqui, o que quero destacar é a posição social e religiosa dos galli, que vai nos ajudar a entender o uso do termo “eunuco” no Antigo Testamento. As características físicas e comportamentais dos galli rompiam os limites e as barreiras do binarismo, seja este definido física, sexual, social, cultural e até politicamente.36 Com essa capacidade de navegar entre dois “mundos”, os galli ganham uma característica religiosa importante, que é a capacidade de navegar entre o profano e o sagrado.37 Essa característica religiosa, por sua vez, está relacionada com o papel sociopolítico dos eunucos como oficiais da realeza de forma geral, ou seja, aqueles que navegam ainda entre outros dois “mundos”, entre o palácio e o reino. Sua característica intermediária entre os gêneros deu aos eunucos esse status de intermediários, entre a corte e o público, entre a família real e a aristocracia, entre a esfera pública masculina e a esfera privada feminina, entre as instituições políticas e as instituições religiosas aliadas etc.38

Eunucos na Bíblia e seu papel social

Especialmente relevante ao considerar a aparição de eunucos no material bíblico é a sua função sociopolítica; isso porque os termos usados não descrevem características biológicas ou fisionômicas, mas sim uma função da alta corte. No Antigo Testamento, temos o termo סָרִיס (sārîs) e no grego temos εὐνοῦχος (eunouchos). Vamos começar com o termo grego. Literalmente, seu significado é “guarda da cama”, fazendo referência à sua função como guardião do harém do palácio.39 Contudo, esse significado mais restrito não corresponde ao uso do termo na literatura. Josefo, o famoso historiador judeu do primeiro século, fala sobre eunucos como assistentes pessoais de Herodes (Antiguidades 16.230 e Guerra dos Judeus 1.488). Como a castração era proibida na Judeia de Herodes (37 a.C.– 4 d. C.), o uso do termo “eunuco”, aqui, pode ser simplesmente uma referência a uma função oficial,40 ainda que a característica biológica não seja excludente da função oficial; pelo contrário, a infertilidade ou incapacidade de procriar é fundamental quando um funcionário real é chamado de eunuco.

De forma geral, a literatura greco-romana iguala eunucos a funcionários oficiais da realeza, inclusive funcionários do alto escalão.41 Para o termo grego, o único personagem do Novo Testamento chamado de eunuco está em Atos 8. Ali, além da caracterização do indivíduo como eunuco, sabemos que ele é um funcionário do alto escalão da realeza, já que sua função é a superintendência de todos os tesouros de Candace, rainha dos etíopes (At 8.27). Dada sua proximidade com a rainha, é muito provável que o termo eunuco também seja uma referência à sua característica física como castrado. Contudo, o termo em si não é o suficiente para tal afirmação.42

Algo semelhante acontece com o termo hebraico סָרִיס (sārîs), mas o contexto é um pouco mais complexo. O termo tem sua origem no acadiano assírio ša rēši, que também pode estar por trás do grego εὐνοῦχος, via Pérsia.43 No contexto assírio, ša rēši tem o mesmo significado ambíguo, já que se refere a funcionários do rei e a indivíduos que não procriam, mas também a indivíduos castrados.44 Já entrando no material bíblico, essa mesma ambiguidade aparece em 2 Reis 20.18 (paralelo em Is 39.7). Aqui, a afirmação de que os filhos do rei Ezequias se tornariam סָרִיסִים (sārîsîm) na Babilônia é uma ameaça. Mas seria uma ameaça pelo fato de seus filhos serem castrados ou simplesmente por serem levados para servir no palácio do rei da Babilônia como escravos?45

No Antigo Testamento, temos 45 ocorrências do termo סָרִיס (sārîs). Seu uso aparece em contextos esperados, como o cuidado do harém do rei persa e funcionários da rainha no livro de Ester (1.10, 12, 15; 2.3, 14–15, 21; 4.4–5; 6.2, 14; 7.9).46 Outros contextos estrangeiros, como funcionários assírios (2Rs 18:17) e babilônios (2Rs 20.18), também são esperados. Mas existem ocorrências surpreendentes por motivos distintos. Por exemplo, numa lista de lideranças relacionadas à monarquia davídica, aparece um grupo de סָרִיסִים (sārîsîm, 1Cr 28.1). Os סָרִיסִים (sārîsîm) também aparecem em alguns textos de Jeremias como parte da corte da realeza judaíta (p. ex. 29.2; 34.19; 41.16). Uma ocorrência em Jeremias explica porque essas referências a סָרִיסִים (sārîsîm) na corte da realeza judaíta é surpreendente. Em Jeremias 38.7 um סָרִיס (sārîs) específico é mencionado. Seu nome e sua etnia são citados. Seu nome é Ebede-Meleque, que, na verdade, pode ser somente um termo técnico, pois seu significado é “servo do rei”, e ele é chamado de etíope. Como em diversas outras cortes do antigo Oriente Próximo e de Roma, em Judá os eunucos parecem ser caracteristicamente estrangeiros.47 Dessa forma, pode ser que, como no caso do contexto assírio, ainda que nem todos os eunucos sejam fisicamente castrados, certamente alguns eram, já que, possivelmente, eram escravos de guerra.48 Daniel e outros jovens judeus, muito provavelmente se encaixam nesse perfil. Exilados judeus levados para a Babilônia, Daniel e seus amigos têm seus nomes mudados, como o etíope “Ebede-Meleque” de Jeremias 38.7, e ficam sob os cuidados do “chefe dos seus [do rei] eunucos” (רַב סָרִיסָיו, rab sārîsāyw, Daniel 1.3) para serem treinados no serviço que prestariam no palácio real. Nesse caso, é possível que todos os eunucos, funcionários da realeza como escravos exilados, fossem castrados para evitar que formassem famílias de etnia diferente com algum poder dentro da corte real. Logo a seguir veremos um pouco mais sobre esse aspecto.

Assim como Daniel, José também é um exilado, ainda que não seja no contexto de guerra, comprado como escravo por Potifar, que é chamado de סָרִיס (sārîs) do faraó (Gn 37.36; 39.1). José nunca foi chamado por esse termo e isso faz sentido, já que, apesar de ter sido um estrangeiro com grande poder na corte de faraó, José tem filhos. Por outro lado, Potifar, apesar de casado, não parece ter filhos. Como vimos, um eunuco podia se casar e ter relações sexuais.49 É possível, porém, que o assédio sexual a José por parte da mulher de Potifar seja um indício de que ela estivesse em busca de algum tipo de satisfação sexual que Potifar, como eunuco, não podia lhe oferecer, ou com desejo de engravidar. Ainda que a caracterização de Potifar como eunuco seja interessante, o que é importante na história de José é que ele alcança grande poder dentro da corte real sendo estrangeiro e fértil, gerando uma família. Obviamente, sua esposa é egípcia, o que ameniza o risco da formação de uma família de etnia diferente com poder na corte real. Mas, quando a família de José chega ao Egito, fica claro que eles são deslocados do centro de poder e são ritualmente separados dos egípcios dentro da corte. Isso comprova que a infertilidade do eunuco, quase sempre um estrangeiro, tinha o propósito de estabelecer funcionários oficiais da corte, muito próximos do poder central, incapazes de formar famílias que pudessem disputar o poder com a família real.

Isso não significa que todos os funcionários reais, chamados de סָרִיס (sārîs) sejam castrados. Como temos visto, basta a característica biológica da infertilidade para caracterizar um indivíduo como eunuco.50 Contudo, é quase certo que os funcionários da corte ligados à rainha ou ao harém eram castrados, assim como aqueles funcionários mais próximos do rei. Parece-me razoável dizer que quanto mais próximos do poder real, mais provável é que o funcionário seja um eunuco castrado.51 Mas, o eunuco, quase sempre é um indivíduo estrangeiro, ou seja, sem uma rede familiar de apoio de status social e herança na terra em que se encontra, infértil e, portanto, incapaz de formar sua própria família.

Uma última característica dos eunucos, como funcionários reais, é seu papel como “guardiões”. Nas narrativas de José, Daniel e Ester, percebe-se que o acesso ao rei é muito limitado e bastante perigoso. O que vemos especificamente no caso das narrativas de Daniel e Ester é que eunucos são guardiões que controlam o acesso à presença do rei. Essa função serve para proteger a privacidade do rei e seu poder, assim como manter a segurança das pessoas que pretendem ou precisam se apresentar diante do rei. Em Daniel, é o chefe dos eunucos (שַּׂר הַסָּרִיסִים, śar hassārîsîm) que media a relação entre os jovens judeus e o rei (Dn 1.3, 8). Mas é em Ester que temos uma descrição mais precisa desse caráter protetor e mediador do eunuco. Em Ester 2.21 e 6.2 aparece a expressão “os eunucos do rei que guardam a soleira da porta” (סָרִיסֵי הַמֶּלֶךְ מִשֹּׁמְרֵי הַסַּף, sārîsê hammelek miššōmǝrê hassap). Dessa forma, parte da função, portanto da identidade, do eunuco na corte real, era a guarda e proteção da presença do rei, servindo como mediador de sua presença, portanto, de seu poder.52

Considerações finais

Eu sei que a discussão foi longa, mas ela foi muito necessária para podermos entrar no texto de Mateus 19 com um olhar historicamente apurado para entendê-lo adequadamente. A necessidade dessa discussão é óbvia quando sabemos que para a maioria dos cristãos, Mateus 19 é um texto-prova para justificar a recomendação de celibato para cristãos que sentem atração sexual por pessoas do mesmo sexo.53 Não há justificativa para tal interpretação. Ela é historicamente ignorante e, como veremos no próximo post, textualmente insensível.

No próximo post, então, apresentarei uma exegese cuidadosa de Mateus 19, considerando todo esse contexto histórico, assim como o contexto literário e teológico da passagem, e oferecerei uma conclusão teológica que possa dialogar com a realidade de pessoas LGBTQIAP+ que seguem a Jesus e levam o texto bíblico a sério.

Para terminar, quero destacar as questões mais importantes da discussão oferecida acima. Biologicamente, a característica fundamental de identificação dos eunucos na Antiguidade, inclusive no contexto judaico do primeiro século, é a esterilidade. Socialmente, temos algumas características determinantes que, de certa forma, são consequência dessa infertilidade, seja ela natural ou resultado da intervenção humana. Podemos resumir essas características sociais da seguinte maneira: deslocamento do lugar e da função masculina típica, deslocamento da parentela e do status social que esta lhe garantia, deslocamento da sua terra natal e da herança familiar, estabelecimento no palácio, ou, no caso dos galli, a participação no culto de deusas da fertilidade. No caso específico dos galli, também é importante falar de sua dependência da doação de mulheres para o seu sustento. Essas características dos eunucos na Antiguidade os colocavam numa função muito importante em posições limiares de poder. Sua característica biológica e seus papéis sociais tornavam-nos intermediários entre várias esferas, seja entre os gêneros masculino e feminino, ou entre o rei e os comuns, ou entre os seres humanos e a divindade. Nesse papel intermediário, os eunucos eram controladores do poder real, ao controlarem o acesso à presença do rei, e eram guardiões da segurança daqueles que desejam se aproximar do rei. Isso também vale para o âmbito religioso, e o acesso à divindade e ao seu poder. Especialmente interessante aqui é o fato de os galli não serem sacerdotes oficiais, mas indivíduos com devoção extraordinária.

Concluo, então, com a seguinte citação de Meghan DeFranza: “Removidos de suas famílias de origem, educados para ver a família de seu senhor como sua própria família, e impedidos de terem seus próprios filhos, eunucos deviam toda a sua identidade, sua lealdade completa, aos seus senhores. Sua inabilidade de procriar os impedia de reivindicar qualquer poder para seus próprios nomes, e também de produzir herdeiros que pudessem desafiar a autoridade dinástica do rei ou do imperador. Sua ambiguidade de gênero também os capacitou a mediar entre homens e mulheres, elites e pessoas comuns, o sagrado e o secular. Assim, Kathryn Ringrose denominou corretamente os eunucos como ‘servos perfeitos’”.54

Notas:

1. Ver J. David Hester, “Eunuchs and the Postgender Jesus: Matthew 19.12 and Transgressive Sexualities”. Journal for the Study of the New Testament 28.1 (2005): 13–4; cf. Halvor Moxnes, Putting Jesus in His Place: A Radical Vision of Household and Kingdom (Louisville: Westminster John Knox Press, 2003), 74. O uso de Mateus 19 na tradição católica para fundamentar o celibato não segue essa sugestão. O celibato é uma forma de superar qualquer desejo sexual e não necessariamente desejos sexuais impróprios. Ver Ulrich Luz, Matthew 8–20. Hermeneia. Traduzido por James E. Crouch (Minneapolis: Fortress, 2001), 496.

2. Stephen R. Llewelyn, Gareth J. Wearne e Bianca L. Sanderson, “Guarding Entry to the Kingdom: The Place of Eunuchs in Mt. 19.12”. Journal for the Study of the Historical Jesus 10.3 (2012): 231.

3. Hester, “Eunuchs and the Postgender Jesus”, 17–8.

4. Ver Megan K. DeFranza, Sex Difference in Christian Theology: Male, Female, and Intersex in the Image of God (Grand Rapids: Eerdmans, 2015), 75. Hester, que faz a mesma afirmação, cita dois poetas romanos do primeiro século (Marcial e Juvenal) e Teofrasto, um autor citado por Jerônimo. Além disso, autores cristãos, como Jerônimo e Tertuliano, reconheciam que a castração não interferia nos ímpetos sexuais dos eunucos. Ver Hester, “Eunuchs and the Postgender Jesus”, 23–4.

5. Ver Hester, “Eunuchs and the Postgender Jesus”, 21; John Hare, “Hermaphrodites, Eunuchs, and Intersex People: The Witness of Medical Science in Biblical Times and Today”. In: Intersex, Theology, and the Bible: Troubling Bodies in Church, Text, and Society, editado por Susannah Cornwall (New York: Palgrave Macmillan, 2015), 84. Sakkie Cornelius cita eunucos assírios, representados em iconografia, sem barba. Ver Sakkie Cornelius, “Eunuchs? The Ancient Background of Eunouchos in the Septuagint”. In: Septuagint and Reception, editado por Johann Cook (Leiden: Brill, 2009), 327–8.

6. Ver DeFranza, Sex Difference in Christian Theology, 75. Na cultura judaica também existe a tradição de um tipo de ideal andrógino. O rabino Judá ben Eleazar, baseado no texto de Gênesis 1.27 e 5.2, afirma que Adão era andrógino. Ver Hare, “Hermaphrodites, Eunuchs, and Intersex People”, 87; Luz, Matthew 8–20, 489.

7. Moxnes, Putting Jesus in His Place, 78.

8. DeFranza, Sex Difference in Christian Theology, 74.

9. Cf. Hester, “Eunuchs and the Postgender Jesus”, 17–8.

10. Mesmo Moxnes, que é tão perspicaz em apontar imposições de certos aspectos da masculinidade na interpretação de Mateus 19, ainda comete esse erro. Ver Moxnes, Putting Jesus in His Place, 76.

11. Cf. Hester, “Eunuchs and the Postgender Jesus”, 23.

12. Hare, “Hermaphrodites, Eunuchs, and Intersex People”, 88.

13. DeFranza, Sex Difference in Christian Theology, 71; Hare, “Hermaphrodites, Eunuchs, and Intersex People”, 83. Julius Preuss, em sua obra Biblical and Talmudic Medicine, sugere uma relação entre essa expressão rabínica e a expressão egípcia “castrado por Ra”. Ra, é claro, era a divindade egípcia do sol. Essa relação pode ser fortalecida, de acordo com Preuss, pelo fato de outra referência rabínica usar a expressão “castrado por Deus”, em vez de “eunuco do sol”. Essas expressões não se referem a eunucos por motivação religiosa, já que no Egito a castração não era comum (ver Cornelius, “Eunuchs?”, 324). Ver Hare, “Hermaphrodites, Eunuchs, and Intersex People”, 84.

14. Ver Hare, “Hermaphrodites, Eunuchs, and Intersex People”, 84; R. T. France, The Gospel of Matthew. The New International Commentary on the New Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 2007), 724.

15. Para uma explicação científica dessas características, ver Hare, “Hermaphrodites, Eunuchs, and Intersex People”, 84–5.

16. Ver Hare, “Hermaphrodites, Eunuchs, and Intersex People”, 85.

17. Ver Hare, “Hermaphrodites, Eunuchs, and Intersex People”, 85–6. Para as explicações científicas dessas características, ver p. 86.

18. Hare, “Hermaphrodites, Eunuchs, and Intersex People”, 87.

19. Hare, “Hermaphrodites, Eunuchs, and Intersex People”, 86.

20. Hare, “Hermaphrodites, Eunuchs, and Intersex People”, 86.

21. Hare, “Hermaphrodites, Eunuchs, and Intersex People”, 87–8.

22. Cf. Luz, Matthew 8–20, 500.

23. Ver Luz, Matthew 8–20, 501.

24. Ainda que o ritual da circuncisão seja um tipo de castração “limitada”. A circuncisão era uma forma ritualística de remover do homem sua capacidade de fertilidade, como era a condição de Abraão, e atribuí-la somente a Deus e sua promessa de numerosa descendência. O apóstolo Paulo indica essa associação ao dizer que os que têm tanto apreço pela circuncisão deveriam castrar-se de vez (Gl 5.11–12). Para uma investigação histórica dessa relação, ver Cengiz Mordeniz e Ayhan Verit, “Is Circumcision a Modified Ritual of Castration?”, Urologia Internationalis 82.4 (2009): 399–403. Para uma análise teológica dessa relação no Pentateuco, ver Ralph Allan Smith, “Law and History: How to Read the Law of Moses”, Theopolis (2013), disponível em https://theopolisinstitute.com/law-and-history-how-to-read-the-law-of-moses-4/.

25. Ver Moxnes, Putting Jesus in His Place, 79; Luz, Matthew 8–20, 501.

26. Cf. Hester, “Eunuchs and the Postgender Jesus”, 32. É claro que um ato tão radical assim não tem explicações somente religiosas, mas também sociais, econômicas e psicológicas Para uma apresentação de todos esses fatores, ver J. Peter Södergard, “The Ritualized Bodies of Cybele’s Galli and the Methodological Problem of the Plurality of Explanations”. Scripta Instituti Donneriani Aboensis 15 (1993): 169 –193.

27. DeFranza chama os galli de “sacerdotes castrados” (Sex Difference in Christian Theology, 77).

28. Ver Moxnes, Putting Jesus in His Place, 86. Fílon, um importante intelectual judeu no contexto Greco-romano, diz o seguinte: “Certamente você pode ver esses híbridos de homem e mulher continuamente andando arrogantemente entre a multidão do mercado, encabeçando as procissões dos festivais, apontados para servir como ministros profanos de coisas sagradas…” (Leis Especiais 3.37–42). Fílon está falando especificamente de rituais religiosos da deusa Deméter, que veio a ser associada a Cibele.

29. Ver Moxnes, Putting Jesus in His Place, 86. Fílon parece ter tido contato com os galli, como demonstrado na nota acima. Mas o principal contexto de Fílon era Alexandria, no Egito. Algo semelhante pode ser dito de Paulo. Romanos 1.26–32 pode apontar para um conhecimento sobre os galli. Apesar de judeu, porém, Paulo fala num contexto mais amplo do Império Romano, especialmente na carta aos Romanos. Cf. Hester, “Eunuchs and the Postgender Jesus”, 29.

30. Citado em Moxnes, Putting Jesus in His Place, 80.

31. Citado em Hester, “Eunuchs and the Postgender Jesus”, 36. A versão em português traz a seguinte tradução: “os efeminados consagrados à grande mãe, injuriosos para o pudor de um e outro sexo. Ainda hoje em dia, de cabelos perfumados, rosto pintado de branco, membros lânguidos e passo efeminado, andam pedindo ao povo pelas ruas e praças de Cartago e, assim, passam a vida torpemente” (Tradução de Oscar Paes Leme [São Paulo: Vozes, 1989]).

32. Moxnes, Putting Jesus in His Place, 80.

33. Ver Hester, “Eunuchs and the Postgender Jesus”, 19; Moxnes, Putting Jesus in His Place, 77.

34. Ver Sarah J. Melcher, “A Tale of Two Eunuchs: Isaiah 56: 1–8 and Acts 8: 26–40”. In: Disability Studies and Biblical Literature, editado por Candida R. Moss e Jeremy Schipper (Palgrave Macmillan, New York, 2011), 123.

35. Isso mostra o quanto a interpretação de Mateus 19.12 como mera metáfora não corresponde com a forma como o texto foi entendido no cristianismo primitivo.

36. Cf. Hester, “Eunuchs and the Postgender Jesus”, 14–5.

37. Moxnes, Putting Jesus in His Place, 80.

38. Hester, “Eunuchs and the Postgender Jesus”, 18.

39.Ver Cornelius, “Eunuchs?”, 323.

40. Sobre a proibição da castração na Judeia de Herodes, ver DeFranza, Sex Difference in Christian Theology, 74.

41. Ver Llewelyn (et al.), “Guarding Entry to the Kingdom”, 236, 245; Cornelius, “Eunuchs?”, 324–5.

42. Cf. Melcher, “A Tale of Two Eunuchs”, 122.

43. Cornelius, “Eunuchs?”, 325.

44. Em um texto assírio, temos “como o šūt rēši [forma plural] que não procria, que seu sêmem resseque”. Ver Cornelius, “Eunuchs?”, 326.

45. Cf. Cornelius, “Eunuchs?”, 330.

46. Cf. Cornelius, “Eunuchs?”, 322.

47. Cf. Cornelius, “Eunuchs?”, 331.

48. É possível que esse perfil de estrangeiro, exilado de guerra e escravo, esteja por trás da proibição de eunucos do sacerdócio em Levítico 21.20 e Deuteronômio 23.1. Ver Hester, “Eunuchs and the Postgender Jesus”, 28.

49. Cornelius, “Eunuchs?”, 329.

50. Se assim fosse, “seria necessário”, diz o assiriologista Paul Garelli, “castrar metade dos funcionários administrativos da Assíria e praticamente todos os funcionários da corte”. Citado em Cornelius, “Eunuchs?”, 327.

51. Cf. France, The Gospel of Matthew, 724.

52. Cf. Llewelyn (et al.), “Guarding Entry to the Kingdom”, 234–5. Especificamente sobre os eunucos responsáveis pelo harém, Meghan DeFranza diz o seguinte: “Eunucos eram guardiões do harém — ‘um local sagrado, um santuário, ou palácio real, um local no qual geralmente era proibida a entrada” (Sex Difference in Christian Theology, 73).

53. A maioria dos comentaristas entende o uso do termo “eunuco” como metáfora para o celibato. Ver France, The Gospel of Matthew, 724–725; Luz, Matthew 8–20, 500; Craig A. Evans, Matthew. New Cambridge Bible Commentary (Cambridge: Cambridge University Press, 2012), 342; Craig S. Keener, The Gospel of Matthew: A Socio-Rhetorical Commentary (Grand Rapids: Eerdmans, 2009), 471; David L. Turner, Matthew. Baker Exegetical Commentary on the New Testament (Grand Rapids: Baker, 2008), 462–3;

54. DeFranza, Sex Difference in Christian Theology, 74. Ela se refere a Kathryn Ringrose, The Perfect Servant: Eunuchs and the Social Construction of Gender in Byzantium (Chicago: The University of Chicago Press, 2003).