Mergulhar na Surpresa

Mergulhar na Surpresa

Ainda que o capitalismo ensine não existir outro sistema econômico para responder às necessidades humanas, a fé cristã aplica ao presente o que espera de um futuro messiânico de justiça plena

Por André Castro | Baiano, estuda teologia da Faculdade Latino Americana e é batista. Pesquisa Teologia da Libertação e Marxismo e é editor na revista Zelota.

“Porque, falta apenas um pouco, e aquele que deve vir vai chegar e não tardará” (Hebreus 10.37)1

Talvez vivamos a maior crise social que a nossa geração já passou. Hoje temos mais de 100 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar — ou seja, quase metade da nossa população tem medo de não conseguir suprir suas necessidades mínimas para a sobrevivência, tem medo de não ter o que comer. A distribuição desigual das vacinas no mundo faz da morte uma presença constante em diversos países que vivem em inanição de desenvolvimento e vacina, uma coisa frívola para a classe média reacionária dos EUA. 

Para falar mais precisamente da atual situação, estamos vendo a carne se tornar um item de luxo e a gasolina começa a atingir um valor inutilizável. Nunca tivemos tantos direitos perdidos em tão pouco tempo na história da república de 1988. Mesmo com todo o contexto de pandemia, com a escolha explícita de sacrificar a população em nome da permanência da produção, a relação do governo com os interesses dos donos do poder e tudo de ruim que tem acontecido, não conseguimos visualizar nenhuma alternativa real. Boa parte daqueles que fazem oposição ao atual governo deposita suas esperanças nas mágicas eleições de 2022. Afirma-se, então, que a mudança de presidente fará com que o sistema de morte no qual vivemos torne-se diferente. Doce ilusão. 

Tudo na nossa realidade deveria nos apontar para a necessidade da transformação radical das estruturas sociais que dão possibilidades concretas para a perpetuação do atual vale de lágrimas que vivemos, mas não conseguimos superar nada, não conseguimos ver nada além das eleições burguesas, que mesmo elegendo algum vermelho, continuarão obedecendo os interesses dos donos do poder, e não do povo. Mas por que não conseguimos ver além? O que torna o atual sistema algo eterno? O que faz com que uma situação histórica se absolutize? Sartre nos responde:

Pois é preciso inverter aqui a opinião geral e convir que não é a rigidez de uma situação ou os sofrimentos que ela impõe que constituem motivos para que se conceba outro estado de coisas, no qual tudo sairá melhor para todos; pelo contrário, é a partir do dia em que se pode conceber outro estado de coisas que uma luz nova ilumina nossas penúrias e sofrimentos e decidimos que são insuportáveis.2 

Ficamos com uma situação complexa: a resposta à situação miserável não é somente resultado da própria miséria, mas da possibilidade imaginativa de um mundo onde não se vive miseravelmente. “Todas as gerações dos que morreram e que morrem esmagados pela opressão e pela crueldade só serão vingados se levarmos mesmo a sério o éschaton messiânico.”3 Para sairmos deste momento onde o futuro é a mera repetição do passado, onde os donos do poder são os filhos dos beneficiados pelo sistema colonial, precisamos aprender a sentir a iluminação antecipatória. 

Vor-schein ou a iluminação antecipatória, para Ernst Bloch, é o modo do ser, que por sua vez desperta a consciência utópica e lhe indica o ainda-não-ser no sentido de suas possibilidades concretas. A consciência do ainda-não-presente inclusive aprende com seu próprio desenvolvimento; ela descobre os limites dos seus rumos e como pode ser mais efetiva em suas tarefas. Somente sabendo que a realidade não deveria ser assim, ou seja, pensando outra realidade que não é a atual, é que podemos criar o novo. Mas é exatamente isso que não conseguimos fazer; parece que nossa geração não consegue imaginar a partir do hoje, ela se reduz a um tipo de realismo reacionário, que diz que só o que existe pode existir. Mark Fisher chama essa situação de “realismo capitalista”.

O realismo capitalista é uma espécie de mito antimítico:4 “Trata-se mais de uma atmosfera abrangente, que condiciona não apenas a produção da cultura, mas também a regulação do trabalho e a educação — agindo como uma espécie de barreira invisível, bloqueando o pensamento e a ação.”5 É a visão contemporânea de que estamos no fim da história, de que o capitalismo liberal é a última forma social possível, de que “não existe alternativa”. Vive-se como se não existisse mais futuro, afirma-se que tentar trazer o céu à terra transforma a terra no inferno, estamos completamente impossibilitados de pensar, de sonhar, e necessariamente de produzir novos futuros.

Mas nós, seguidores do Christos, temos outra noção de futuro que nunca coloca no hoje a realidade última, mas deixa o hoje aberto na espera do Outro dia, fazendo do hoje o lugar de vivenciar a/na espera do Dia.

A fé é um modo de já possuir aquilo que se espera, é um meio de conhecer realidades que não se veem. Foi por causa da fé que os antigos foram aprovados por Deus. Pela fé, sabemos que a Palavra de Deus formou os mundos; foi assim que aquilo que vemos originou-se de coisas invisíveis“(Hebreus 11.1-3).6

Outra versão diz

de maneira que o visível veio a existir das coisas que não são visíveis” (Hebreus 11.3).7

A fé é então um modo de já possuir aquilo que se espera, a fé no juízo do eschaton é a presença do julgamento libertador agora. A fé nas possibilidades concretas de transformação do real é a presença destas mesmas possibilidades no real. Ao sentir a iluminação antecipatória, é preciso ter fé e mergulhar na surpresa.

Notas:

1. Biblia Pastoral, Paulus.

2. O ser e o nada, Jean-Paul Sartre, Vozes, 2011,  p. 538.

3. O ser e o messias, José Porfírio Miranda, Ed. Paulinas, 1982,  p. 50.

4. Realismo capitalista, Mark Fisher, Autonomia Literária, 2020, p. 20.

5. Ibid p. 33.

6. Biblia Pastoral, Paulus.

7. Nova Almeida Atualizada, SBB.

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