Por Ronald Lawson | Sociólogo adventista australiano e colunista da revista Zelota.

A Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD), como muitas denominações fundamentalistas, rejeita oficialmente a homossexualidade e os membros que a praticam. O Manual da Igreja declara que “práticas homossexuais e lésbicas estão entre as perversões do plano original de Deus” (Manual da Igreja, 2015, p. 155). Mas até que ponto a IASD ajuda seus membros homossexuais com as questões éticas que eles enfrentam ao tentar viver uma vida cristã? A Igreja diz a esses membros com firmeza que tal conduta é pecaminosa e que eles devem mudar suas orientações se quiserem ser aceitos por Deus: “Por meio da cruz e do poder do Espírito Santo, todos nós podemos ser livres das garras das práticas pecaminosas à medida que somos restaurados à imagem de nosso Criador” (Manual da Igreja, 2015, p. 156).

A IASD foi a primeira Igreja a financiar um ministério, o Centro de Busca e Aprendizado e Homossexuais Anônimos (em inglês, Quest Learning Centerand and Homosexuals Anonymous), cujo propósito declarado era  converter homossexuais em heterossexuais. No entanto, esse esforço acabou de modo desastroso quando foi revelado que seu conselheiro-chefe havia molestado sexualmente aconselhadores mais jovens.1 Mas a mensagem da Igreja permanece firme: se você não pode mudar sua orientação, deve praticar o celibato. Quando David Larson, um especialista em ética da Universidade de Loma Linda, preparou um artigo sobre homossexualidade a pedido do Instituto de Pesquisa Bíblica (BRI, Biblical Research Institute), que opera fora da sede da Associação Geral, e pediu que a IASD tratasse relacionamentos homossexuais como a melhor opção disponível, seu artigo causou indignação e foi sumariamente rejeitado.

Ao adotar essa postura, a IASD presume que não tem membros homossexuais praticantes: ou eles mudaram sua orientação, ou vivem em celibato. Consequentemente, ela evita abordar as questões éticas que um membro que se esforça para viver como homossexual cristão enfrentaria. Os livros adventistas que tratam de questões sexuais geralmente seguem esse exemplo. 

No entanto, os adventistas homossexuais geralmente acham o conselho da igreja impossível de seguir e vivem suas vidas como homossexuais praticantes. Alguns deles se juntaram para apoiar uns aos outros em uma organização chamada Seventh-day Adventist Kinship International. Eles sentem que a posição da Igreja está muito mais enraizada no preconceito anti-homossexual dominante na sociedade americana2 do que nas Escrituras, pois não havia compreensão de uma orientação homossexual nos tempos bíblicos, ou nos escritos da profetisa adventista Ellen G. White, que ignorou o assunto. (O White Estate, guardião dos escritos de Ellen G. White, parece desejar que ela tivesse abordado o tema, e tentou indexar citações fora do contexto para dizer o que eles gostariam que ela dissesse). Consequentemente, esses membros homossexuais têm concluído que o adventismo (e, muitas vezes, também o cristianismo) é tão tendencioso que não é relevante para eles, ou que a Igreja (e, portanto, também o cristianismo) não fala sobre a ética em relações e comportamentos gays, de modo que eles precisam formular por conta própria uma ética para homossexuais cristãos. 

O objetivo deste artigo é: (1) encorajar homossexuais adventistas a considerar a relevância de sua fé cristã para suas vidas e se comunicarem uns com os outros a respeito; e (2) atrair especialistas em ética e teólogos adventistas para esta discussão de uma maneira que possa ajudar a iluminar os dilemas éticos enfrentados por suas irmãs e irmãos homossexuais e, assim, começar a preencher essa enorme lacuna. Não espero, nem desejo unanimidade aqui, mas sim conscientizar ambos os lados sobre esta questão, de modo que material esteja disponível aos que necessitam dele.

Recentemente, concluí um artigo que analisa a história da resposta das missões cristãs (incluindo adventistas) aos conversos poligâmicos que desejam ser batizados e se filiar à Igreja, examinando particularmente a prática adventista atual na África.3 Esta pesquisa demonstrou claramente como as posições adotadas pela IASD podem se basear na cultura, em vez de na Bíblia, e deixar as pessoas afetadas em grande desvantagem. Neste caso, missionários ocidentais impuseram a monogamia4 a que estavam acostumados, embora a Bíblia em nenhum lugar tome uma posição clara contra ela, insistindo que os esposos conversos se divorciassem de todas as suas esposas exceto uma, embora os casamentos poligâmicos fossem legais nessas sociedades e Jesus assumisse uma posição clara contra o divórcio. O resultado foi que as mulheres muitas vezes eram deixadas na miséria, separadas de seus filhos e amarguradas com o cristianismo porque ele dividiu suas famílias. 

Outro caso em que o exemplo bíblico é atualmente rejeitado devido a mudanças culturais é o de casamentos entre pessoas cujas idades são muito diferentes: os homens nos tempos bíblicos eram frequentemente muito mais velhos que suas esposas, que muitas vezes mal tinham chegado à puberdade na época do casamento. Talvez o exemplo mais notável seja a virgem Maria e José. Documentos tratados com autoridade pela igreja cristã primitiva retratam José como extraordinariamente velho e Maria muito jovem.

Se os homossexuais cristãos não têm uma ética cristã disponível para considerar à medida que constroem seus relacionamentos e práticas sexuais, eles são deixados com as normas da comunidade LGBTQIAP+. Mas aqui há tanta diversidade que não há uma orientação. Seria a mesma coisa que um heterossexual ser deixado para considerar a variedade de práticas heterossexuais na busca por diretrizes éticas. Para ilustrar meu ponto, isolei dez tipos diferentes de relacionamentos homoafetivos, embora na verdade haja muitas permutações e combinações deles, de modo que a cena é ainda mais variada:

  1. Monogamia: um relacionamento comprometido e sexualmente exclusivo, iniciado com uma expectativa ou esperança de “até que a morte nos separe”.
  2. Monogamia em série, tipo 1: devido ao colapso irrecuperável de uma relação monogâmica, ocorre o “divórcio/separação” e, algum tempo depois, inicia-se uma segunda relação monogâmica.
  3. Monogamia em série, tipo 2: casos frequentes, de curta duração, sexualmente exclusivos.
  4. Relacionamento aberto: os parceiros estão emocionalmente comprometidos um com o outro, mas deixam espaço para que cada um tenha encontros sexuais casuais.
  5. Amizade comprometida: os parceiros costumam dividir o mesmo domicílio e se preocupam profundamente um com o outro, mas (quase) todo sexo é transitório, com outros (normalmente, isso evolui depois que um relacionamento monogâmico ou aberto se torna sexualmente enfadonho).
  6. Poligamia de longo prazo: múltiplos parceiros estáveis ​​de longo prazo (geralmente separados).
  7. Amigos sexuais de longa data: relacionamentos normalmente bastante limitados, com probabilidade de ter mais de um de cada vez.
  8. Promiscuidade5 em série: muitos contatos sexuais fugazes, geralmente com estranhos, um de cada vez.
  9. Sexo em grupo (grupo estável): grupos que se reúnem para fazer sexo de maneira bastante regular. Os membros passam de situações 1:1 para grupos interagindo juntos e vice-versa.
  10. Orgia: sexo grupal de curta duração.

As práticas sexuais também variam enormemente. Por exemplo, entre homens gays, eles podem ser limitados a um simples voyeurismo (os parceiros assistem um ao outro se masturbando); podem incluir “contatos amorosos” – alguns ou todos como massagem, beijo, masturbação mútua, sexo oral, penetração; alguns ou todos esses podem ser ritualizados de maneiras sadomasoquistas; entre outras formas.

Como não sou lésbica, não pretendo tentar categorizar os relacionamentos lésbicos ou as práticas sexuais. No entanto, tenho certeza de que as lésbicas chegarão a uma lista bastante semelhante de possibilidades de relacionamento. Os resultados da pesquisa provavelmente mostrariam uma distribuição um pouco diferente entre essas categorias para lésbicas e gays.

A ética cristã, uma vez que se distancia dos preconceitos culturais, tem algo a dizer sobre essas opções? Na comunidade heterossexual cristã, a monogamia tem sido o ideal. No entanto, o fracasso do casamento se tornou tão comum que a igreja foi forçada a contemplar o divórcio e o novo casamento; e a tentar traçar diretrizes sobre como lidar com eles, e como podem impactar a membresia da igreja. Ou seja, aceitou a monogamia serial tipo 1, embora não a considere ideal. Os adventistas do continente africano, no entanto, desprezavam isso entre seus irmãos americanos. Da mesma forma, o sexo antes do casamento (monogamia serial, tipo 2, promiscuidade em série etc.) tem sido cada vez mais negligenciado ou facilmente perdoado, especialmente depois que os membros se casam. Por outro lado, a igreja acha mais difícil tolerar o “adultério” (relacionamentos abertos, amizades comprometidas), a “prostituição” (uma variação talvez dos relacionamentos abertos, embora também possa ser antes do casamento) e “swinging”, especialmente quando é dentro do casamento (promiscuidade serial). 

Devemos aplicar os mesmos padrões de “ideal” e de “segunda opção” aos homossexuais adventistas? Uma consideração do tabu onipresente do incesto sugere que as situações homossexual e heterossexual não são necessariamente paralelas. A Bíblia proíbe o incesto, assim como, dizem os antropólogos, toda sociedade humana. Isso geralmente é explicado funcionalmente — a necessidade de evitar problemas genéticos, embora as regras exatas variem de sociedade para sociedade (de modo que as sociedades patrilineares consideram alguns relacionamentos como incestuosos, enquanto as sociedades matrilineares teriam uma lista bem diferente). Se for esse o motivo, quão importante seria insistir nesse tabu entre os homossexuais, que não podem procriar uns com os outros? Na verdade, há um número surpreendente de histórias de adolescentes que descobrem sua homossexualidade com seus irmãos. 

Da mesma forma, então, se a principal razão para apoiar relacionamentos monogâmicos, de acordo com antropólogos, é garantir que o cuidado e a socialização estejam disponíveis para bebês e crianças, seria este o relacionamento ideal para homossexuais não reprodutores? Alguns psicólogos diriam que sim, devido à necessidade de segurança e estabilidade pessoal. A ética cristã livre da cultura tem algo a dizer aqui?

Alguns na comunidade LGBTQIAP+ argumentariam que tudo é ético, desde que seja consensual; outros que só é essencial tentar evitar ferir alguém (não é a mesma coisa). Nestes tempos, evitar a infecção por HIV estaria incluído nesta última; mas também existem feridas espirituais, emocionais, econômicas etc. Alguma dessas coisas é a personificação da “regra de ouro”? Esta regra é o ponto principal ao definir a aplicação da ética cristã? Em caso afirmativo, como ela é melhor aplicada?

Tentei fazer perguntas sem sugerir respostas. Convido seus comentários6 — comecemos a dialogar sobre a relevância de nossa fé aqui. Mas, primeiro, procure se distanciar o máximo que puder de seus preconceitos culturais.

Notas:

1. LAWSON, R. The Quest Learning Center/ Homosexuals Anonymous: Trouble in an “Ex-gay Ministry”. In: American Sociological Association, Chicago, ago., 1987.

2. Nota do Tradutor: O mesmo sentimento também é evidenciado na América-Latina.

3. LAWSON, R. Injustiça patrocinada pela Igreja: A Igreja Adventista do Sétimo Dia e os Conversos Poligâmicos. In: Sociedade para o Estudo Científico da Religião, Albuquerque, NM, nov., 1994.

4. Nota do Tradutor: Também a oficialização dos matrimônios.

5. Nota do Tradutor: Para a Organização Mundial da Saúde (OMS) mais de três pessoas diferentes por ano se define como “promiscuidade”.

6. Nota do Tradutor: Comentários sobre o texto podem ser enviados ao autor pelas redes sociais da Zelota, ou pelo e-mail de contato dos editores.