Às vésperas dos 60 anos, pastor Marcos Apolônio relembra a saída da Igreja Adventista, a reconstrução da fé, o papel da SDA Kinship e das comunidades inclusivas e a jornada para reconciliar espiritualidade, sexualidade e vocação
Às vezes, certas histórias chegam acompanhadas de uma trilha sonora. A de Marcos Apolônio poderia facilmente começar com “I Will Survive”, de Gloria Gaynor. Até porque, atravessar sistemas religiosos que, em grande medida, negam a existência de pessoas LGBTI+ e seguir vivo para contar a própria história é, de algum modo, um exercício de sobrevivência.
Mas essa está longe de ser uma conversa sobre derrota ou ressentimento. É uma conversa sobre permanência. Sobre envelhecer. Sobre chegar aos 60 anos no Mês do Orgulho com a rara oportunidade de olhar para trás e celebrar uma trajetória que, para muitas pessoas LGBTI+ brasileiras de gerações anteriores, sequer parecia possível.
Por isso, vale imaginar uma cena de estrada, como um filme de road trip. Ao fundo, “The Winner Is”, de DeVotchKa e Mychael Danna. O vento entra pela janela, a paisagem corre ao lado, o calor típico do início da tarde acompanha o percurso. Foi em um trajeto parecido, pelas estradas da Califórnia, que esta entrevista aconteceu.
Lá no carro estava Marcos, numa estrada da Califórnia rumo a um compromisso que, décadas atrás, pareceria improvável. Prestes a completar seus 60 anos, no próximo dia 24, ele segue para um evento da Palo Alto University. O momento, para ele, tem um significado que vai além da carreira acadêmica. Filho de uma família pobre, órfão de pai desde os 10 anos, ex-pastor adventista e homem gay criado em um ambiente religioso conservador, Marcos sabe que sua trajetória não corresponde às expectativas reservadas a pessoas como ele. Ao longo da conversa, repete mais de uma vez que se considera privilegiado pelas oportunidades que encontrou e pelas pessoas que o ajudaram no caminho. “Pessoas como eu não tinham futuro”, resume.
Talvez você o reconheça por sua participação no documentário Seventh-Gay Adventist, dirigido por Stephen Eyer e Daneen Akers, que apresentou ao público internacional histórias de pessoas que conciliam fé e diversidade sexual.
E é nessa estrada, entre memórias, reflexões e risadas que Marcos falou sobre a vida que construiu depois de aprender que sobreviver era apenas o começo.
[Jonathan Monteiro] Como você se apresentaria para alguém que nunca ouviu falar de você?
[Marcos Apolônio] Sou um homem brasileiro, gay, pai de dois filhos e avô de um neto que completa sete anos em julho. Sou companheiro do Ivan há quase cinco anos, filho, irmão e alguém para quem os relacionamentos são muito importantes.
Profissionalmente, sou doutor em serviço social, psicoterapeuta licenciado pelo estado da Califórnia, assistente social na área de saúde mental e professor do Programa de Mestrado em Serviço Social da Palo Alto University. Acho que sou professor desde que me entendo por gente. Ensinar sempre foi algo que me deu prazer. A igreja, inclusive, me ofereceu os primeiros espaços para isso. Lembro até hoje da primeira vez que passei a lição da Escola Sabatina.
Também sou pastor da Um Lugar Comunidade, uma igreja inclusiva em São Paulo. A espiritualidade continua sendo uma parte muito importante da minha vida. Sou formado em Teologia e trabalhei durante oito anos como pastor ordenado da Igreja Adventista do Sétimo Dia.
Durante muito tempo achei que, para mim, o ministério pastoral tinha ficado para trás. Houve momentos em que pensei que esta página estava definitivamente encerrada. Mas, de alguma forma, o pastorado sempre voltou a bater à porta. As pessoas começaram a me procurar, especialmente aquelas que vêm de contextos religiosos conservadores e fazem a mesma pergunta: “Como você conseguiu conciliar fé e sexualidade? Como encontrou paz sendo gay e mantendo uma relação com Deus?”.
Talvez a grande tarefa da minha vida tenha sido justamente reconciliar identidades que pareciam incompatíveis. E esse processo acabou moldando quem eu sou. Hoje, não gostaria de ser outra pessoa. Passei anos tentando mudar e descobri que a questão nunca foi mudar, mas compreender quem eu era. Ser quem sou me deu uma visão de mundo marcada por compaixão, humildade e respeito pelas experiências dos outros. Aprendi que cada pessoa carrega dons, histórias e desafios próprios. E acredito que parte da nossa jornada é justamente aprender a viver em paz com aquilo que somos.


O que significa ser pastor para você?
A primeira palavra que me vem à mente é humanidade. Ser pastor, para mim, é ser humano. É ser real, pé no chão, estar ao lado das pessoas. Não tem tanto a ver com o que você diz, mas com a postura que assume diante da vida e do sofrimento do outro. Tive algumas figuras muito importantes na minha trajetória, pastores que me marcaram profundamente. E o que me impressionava neles não era a eloquência ou a posição que ocupavam. Era a humanidade. A transparência. A capacidade de serem pessoas de verdade.
Ao longo da vida também encontrei muita gente no meio eclesiástico que se protegia por camadas de formalidade, aparência e medo. Pessoas que você nunca consegue realmente conhecer porque mostram apenas aquilo que acreditam que a instituição espera delas. Em contraste, encontrei alguns poucos que sentavam no chão ao seu lado, que ouviam sem julgamento, que estavam presentes. Não foram muitos, posso contar nos dedos, mas foram essas pessoas que me ensinaram o que significa ser pastor.
No fundo, é o modelo de Jesus. Não tem relação com expectativas denominacionais ou organizacionais. Tem relação com ser um ser humano acompanhando outros seres humanos em uma vida que já é difícil o bastante. É oferecer presença, apoio e cuidado. Para mim, é isso que o pastorado significa.
No documentário, você fala sobre a importância do pertencimento. O que significa, para você, pertencer a uma comunidade de fé?
É interessante você mencionar o documentário porque ele me faz olhar para quem eu era naquele momento e para quem sou hoje. A gente muda com o tempo. E uma das mudanças é que hoje eu voltei a pertencer a uma comunidade de fé. Houve uma época em que eu achei que isso nunca mais aconteceria.
Pertencer é, antes de tudo, descobrir que você não está sozinho. É ter pessoas com quem compartilhar a vida e perceber que aquilo que você sente, teme ou enfrenta não acontece só com você. A comunidade normaliza experiências, valida sentimentos e traz um senso de apoio. Ela nos lembra da nossa humanidade. Também existe uma dimensão espiritual muito bonita nisso. Na tradição cristã, falamos do corpo de Cristo. Cada pessoa tem dons, talentos e limitações diferentes. Eu preciso do que o outro tem para oferecer, assim como o outro pode precisar de mim. Juntos conseguimos fazer coisas que não conseguiríamos sozinhos.
Acredito que encontramos Deus uns nos outros e que cada pessoa revela aspectos da imagem divina que eu não conseguiria enxergar sozinho. Quando estou em comunidade, minha compreensão de Deus também se amplia. E talvez essa seja uma das maiores lições que aprendi ao longo da vida: a comunidade de fé não existe porque temos todas as respostas. Na verdade, ela existe porque não temos. A espiritualidade não é uma ciência exata. Não há como provar tudo aquilo em que acreditamos. Por isso, hoje penso que a fé não é sobre certezas absolutas ou sobre dogmas perfeitamente resolvidos. É sobre aprender a viver com as perguntas, com as dúvidas e com a esperança de que a vida seja maior do que aquilo que conseguimos compreender.
Você passou períodos afastado de instituições religiosas, mas continuou buscando formas de congregar. Por que a experiência comunitária é tão importante para você?
Porque uma das maiores perdas da minha vida foi justamente deixar a comunidade religiosa em que cresci. Foi um luto muito profundo. E eu percebi, ao longo dos anos, que essa experiência é comum entre pessoas LGBTI+ vindas de contextos religiosos fundamentalistas. Vejo isso desde 2003, primeiro como pastor e conselheiro, depois como terapeuta. Existe uma dor muito grande quando você perde o seu lugar de pertencimento.
Mas também percebi que as pessoas continuam procurando maneiras de reconstruir comunidade. Foi o que aconteceu comigo. Em San Francisco, quando uma comunidade da qual fazíamos parte encerrou as atividades, algumas pessoas me procuraram e perguntaram: “E agora? O que vamos fazer?”. Então criamos uma nova comunidade. Eu disse que cuidaria do conteúdo, da reflexão, da parte pastoral, e o grupo assumiu a organização prática. Ficamos juntos por sete ou oito anos. Essa experiência foi muito importante para mim porque me obrigou a revisitar minha própria espiritualidade. Toda semana eu precisava preparar algo para compartilhar, e isso me ajudou a desconstruir e reconstruir muitas coisas em que acreditava.
Também existe algo muito pessoal nisso. Cresci dentro da igreja. Sou assistente social, mas existe uma dimensão comunitária que corre nas minhas veias desde a infância. Sempre fui atraído por espaços onde as pessoas se encontram, compartilham experiências e aprendem umas com as outras. Acredito profundamente no valor do encontro. Cada pessoa é uma janela para um mundo diferente. Quando você reúne pessoas com histórias, vivências e perspectivas distintas, todo mundo cresce. Existe uma riqueza enorme nisso. E, de certa forma, o chamado para esse tipo de trabalho nunca deixou de aparecer. Em diferentes momentos da vida, pessoas me procuraram dizendo que precisavam de alguém que compreendesse suas experiências, seus conflitos entre fé e identidade. Foi assim nos Estados Unidos e, mais recentemente, aconteceu novamente com a Um Lugar Comunidade, em São Paulo (Brasil).
Se me perguntassem alguns anos atrás, eu jamais imaginaria que voltaria a exercer um serviço pastoral ou que faria parte de uma comunidade de fé inclusiva. Mas a vida tem seus caminhos. E, olhando para trás, percebo que esse chamado para construir comunidade esteve presente o tempo todo.

Você já disse que, ao deixar uma estrutura religiosa rígida, passou a pertencer a uma comunidade “não organizada”. Como essa transição mudou sua forma de viver a fé?
A gente não percebe o quanto uma estrutura religiosa é rígida enquanto está dentro dela. Só percebe quando sai. E aí surge uma pergunta muito simples e, ao mesmo tempo, muito difícil: o que realmente importa? Quando você deixa uma instituição, ninguém mais está filtrando o que você pode ou não pode pensar, dizer ou estudar. De repente, você precisa decidir sozinho o que faz sentido para você, o que quer preservar e o que precisa reconstruir. Esse processo foi fascinante.
Ao mesmo tempo, viver a fé fora de uma estrutura é muito mais difícil, muito mais. Porque deixa de existir toda aquela rotina que sustentava a prática religiosa do dia de culto, os encontros, os hábitos, as expectativas. Para muita gente, isso está presente desde o nascimento. Quando tudo isso desaparece, você precisa descobrir como será sua relação com Deus sem a instituição servindo de apoio.
Para mim, foi como vagar pelo deserto. Um deserto espiritual. Era eu e Deus tentando entender o que ainda fazia sentido, o que era real, o que tinha valor e o que não tinha. Nesse período, vários amigos próximos seguiram outros caminhos. Alguns se tornaram agnósticos, outros, ateus. E eu sempre respeitei muito essas jornadas. Eram pessoas inteligentes, reflexivas, que chegaram a conclusões diferentes das minhas. Isso também me levou a pensar profundamente sobre a minha própria fé. O que me sustentou foi perceber que minha relação com Deus nunca dependeu exclusivamente da igreja. Desde criança, ela sempre foi muito pessoal. Era uma conversa entre mim e Deus. Isso não significa que a igreja não tenha sido importante, mas significa que, quando a instituição deixou de existir para mim, Deus continuou presente.
Em algum momento, percebi que continuar acreditando também era uma escolha. Não uma certeza absoluta, mas uma decisão consciente. Eu decidi continuar crendo. Porque, para mim, a vida seria mais árida, mais solitária e mais difícil sem essa dimensão espiritual. Acho que essa decisão acontece com todo mundo em algum momento. A diferença é que muitas vezes não percebemos. Às vezes seguimos acreditando porque foi o que recebemos. Outras vezes paramos para refletir e escolhemos conscientemente o caminho que queremos seguir. E, para mim, a fé se tornou uma escolha.
Como você chegou à Second Wind e à Church 1.0? O que essas experiências representaram para você?
Saí do Brasil em abril de 2003, e, alguns meses depois, participei do meu primeiro Kampmeeting, em Vermont. Fui morrendo de medo. Eu já mantinha algum contato por e-mail com pessoas da Seventh-day Kinship Internacional desde o fim dos anos 1999 e início dos anos 2000, mas nunca tinha participado de um evento presencial.
Curiosamente, antes disso eu ainda tentava encontrar respostas em ministérios de “cura gay”. Cheguei a pedir ajuda financeira para participar do encontro deles em Miami, mas não consegui, me responderam cerca de três meses depois do meu contato. No mesmo dia da negativa, recebi um convite do Dave Ferguson, através da SDA Kinship, para participar em Vermont. Eles custearam minha passagem e inscrição. Acabei indo sem saber exatamente o que encontraria e aquela experiência foi transformadora. Conheci pessoas que ocupavam posições importantes dentro da Igreja Adventista, como professores, líderes e pastores, que também estavam tentando lidar com questões relacionadas à sexualidade e à fé. Pela primeira vez, percebi que não estava sozinho.
Depois desse encontro, fui contratado para trabalhar na Glendale City Church, na Califórnia, uma congregação historicamente mais aberta e intelectualmente diversa do que a média da denominação. Trabalhei ali por cerca de cinco anos. Exercia funções pastorais, mas minha situação era delicada, porque minha orientação sexual não poderia ser reconhecida oficialmente pela igreja. Naquele período, convivi com outras pessoas que enfrentavam dilemas semelhantes, como o Leif Lind.
Mais tarde me mudei para a região de São Francisco, e foi nesse período que conheci a Second Wind, fundada por Greg Nelson. A proposta era simples, e, ao mesmo tempo, revolucionária, pois criava um espaço onde pessoas pudessem refletir sobre espiritualidade, Bíblia e fé sem o peso das estruturas tradicionais. Havia muito diálogo, estudo coletivo e liberdade para fazer perguntas. E foi ali que conheci Stephen Eyer e Daneen Akers, que mais tarde produziram o documentário Seventh-Gay Adventist. A Second Wind existiu por cerca de cinco anos. Quando o grupo encerrou as atividades, sentimos um vazio muito grande. Tínhamos encontrado uma comunidade e, de repente, ela deixaria de existir. Foi desse sentimento que nasceu a Church 1.0.
A Church 1.0 funcionou entre 2011 e 2018 e representou uma nova etapa da minha trajetória pastoral. Ela surgiu porque um grupo de pessoas da Kinship não queria perder aquele espaço de pertencimento e convivência espiritual. Eu assumi a preparação dos encontros, os estudos, as reflexões e o cuidado pastoral, enquanto outras pessoas cuidavam da organização prática da comunidade. Seguíamos um modelo muito participativo. Escolhíamos livros, todos liam durante a semana e, aos sábados, nos reuníamos para conversar sobre os temas, compartilhar experiências e refletir sobre como aquelas ideias dialogavam com a nossa vida. Era menos sobre respostas prontas e mais sobre construir significado em conjunto.
A Church 1.0 acabou se tornando nossa casa espiritual. Para muitos de nós, especialmente vivendo longe da família e do país de origem, aquele espaço oferecia algo raro, que era a possibilidade de viver a fé em comunidade sem abrir mão da própria identidade. Foi também um período importante para minha própria reconstrução espiritual, porque me obrigou a revisitar crenças, formular novas perguntas e descobrir outras formas de exercer o cuidado pastoral.



Você passou por vários períodos em que acreditou ter encerrado sua trajetória pastoral. Como viveu esses intervalos e os retornos ao ministério?
Em todas essas transições eu achei que tinha acabado. Quando saí da Igreja Adventista, tive a sensação de que havia perdido algo que jamais encontraria de novo. Depois veio a Second, e, quando terminou, veio a Church 1.0. Quando a Church 1.0 terminou, em 2018, pensei novamente: “Agora acabou de vez”. Eu estava bem, trabalhando na área de saúde mental, e acreditava que Deus tinha me conduzido para outro caminho.
Eu cresci muito pobre e amava a igreja. Gostava tanto daquele ambiente que, quando era adolescente, achava que frequentar os cultos apenas aos sábados e domingos era pouco. Eu queria viver aquilo todos os dias. Quando descobri o ministério pastoral, aquilo se tornou um sonho.
Por isso, perder esse lugar foi um luto enorme. Uma morte mesmo. Eu pensava: “Nunca mais vou encontrar algo que me realize dessa maneira”. E existe um motivo para isso. Quando você cresce dentro de uma estrutura religiosa muito forte, aprende que ministério é aquilo. Que qualquer outra forma de serviço tem menos valor. Com o tempo, fui amadurecendo e percebi que não era verdade. Descobri outras formas de cuidar das pessoas, primeiro no trabalho comunitário, depois na saúde mental e no Serviço Social. Hoje vejo que existem muitos ministérios possíveis.
Mas o curioso é que, toda vez que eu dizia “acabou”, alguma coisa acontecia. Foi assim depois da Igreja Adventista. Foi assim depois da Church 1.0. Eu encerrava um ciclo convencido de que aquela etapa tinha terminado, e a vida me conduzia novamente para algum espaço de cuidado espiritual. Então veio a pandemia. E repito que foi curioso porque, durante os encontros online da Kinship Brasil, o Norton insistia em me chamar de pastor. Eu respondia: “Norton, eu não sou mais pastor”. E ele retrucava: “Você não está entendendo. Não é você que precisa ser chamado de pastor. Somos nós que precisamos que você seja pastor”. Aquilo ficou comigo.
Mais tarde, o Felipe Maciel começou a me falar do que estava acontecendo em São Paulo, das conversas que surgiam em torno da Nova Semente e das pessoas que buscavam maneiras de continuar vivendo sua espiritualidade. Eu ouvia tudo com certa distância, porque minhas experiências anteriores com instituições religiosas tinham sido difíceis. Foi então que conheci o Edson Nunes. Quando finalmente nos encontramos para conversar, ele me fez um convite inesperado para integrar a equipe pastoral que estava sendo formada para Um Lugar Comunidade. Eu jamais imaginava que, depois de tudo o que tinha vivido, voltaria a exercer um ministério pastoral ligado ao Brasil.
Quando surgiu a Um Lugar Comunidade, minha reação inicial foi de resistência. Eu já tinha tentado me aproximar de contextos eclesiásticos outras vezes e quase sempre saía machucado. Mas, aos poucos, fui conhecendo as pessoas, ouvindo suas histórias e percebendo que havia ali uma necessidade muito parecida com a que eu tinha encontrado anos antes na Church 1.0.
Como você entendeu que havia sido chamado para o ministério pastoral?
É difícil explicar porque é algo muito pessoal. Não é uma experiência que possa ser provada ou medida. Mas você vai fazendo aquilo e percebe o quanto aquilo o realiza. O ministério exige muito trabalho. Você quer preparar um bom sermão? Vai precisar estudar muito. Quer aconselhar bem alguém? Vai precisar se dedicar muito. Quer construir uma comunidade saudável? Vai trabalhar ainda mais. Mas, no fim do dia, existe uma sensação de plenitude. Você vê sentido no que está fazendo. Além disso, o chamado também vem das pessoas. Ao longo da vida, ouvi muitas vezes comentários como: “Isso me ajudou”, “Você conseguiu explicar algo que eu não conseguia colocar em palavras”, “Eu me identifico com o que você está dizendo”. Essas confirmações foram importantes.
Eu me lembro de pessoas dizendo, ainda muito cedo, que eu deveria estudar Teologia. E essa percepção foi sendo reforçada ao longo dos anos. Na tradição cristã, costumamos dizer que o chamado também é reconhecido pela comunidade. São as pessoas que ajudam a confirmar aquilo que você já sente no coração. Por isso, hoje penso que o título ou o diploma não criam uma vocação. Eles apenas a reconhecem. O coração vem antes.
Dou aula para futuros assistentes sociais e terapeutas, e percebo a mesma coisa. Existem técnicas, métodos e ferramentas que podem ser ensinados. Mas compaixão, respeito, curiosidade genuína pelo outro e desejo de servir não são coisas que um curso consegue produzir. A pessoa já precisa trazer isso consigo.
Talvez seja por isso que, mesmo depois de tantas mudanças, eu nunca tenha conseguido me afastar completamente do ministério. Houve momentos em que eu disse que tinha acabado. Mas a vida, as pessoas e a própria comunidade continuaram dizendo o contrário. O chamado, para mim, é justamente algo que permanece fazendo sentido mesmo quando você tenta seguir por outros caminhos.
Há algum tempo, sua foto e de outras pessoas apareceram em uma apresentação exibida durante um concílio pastoral, em um slide de supostos “inimigos” da igreja. Como você recebeu aquilo?
A primeira reação foi de espanto diante do absurdo. O que mais me chamou a atenção não foi o fato de minha foto estar ali, mas a quantidade de energia dedicada a isso. Vivemos em um mundo marcado por fome, pobreza, solidão, sofrimento e tantas necessidades urgentes. Por isso, minha pergunta foi muito simples: realmente não existe nada mais importante para discutir?
O que me impressiona é que eu não passo meus dias pensando na igreja institucional. Não estou tentando convencer ninguém a sair de lugar nenhum. Vivo minha vida, faço meu trabalho e procuro cuidar das pessoas que me procuram. Quando vejo esse tipo de atitude, fico com a sensação de que existe uma enorme desconexão entre as prioridades de Jesus e as prioridades de parte do cristianismo contemporâneo.
Ao ver aquele slide, porém, também tive outra reação. Vi aquelas pessoas que admiro profundamente e pensei: “Que grupo interessante para fazer parte”. De certa forma, aquilo acabou dizendo mais sobre quem elaborou a lista do que sobre quem estava nela. No fim das contas, o episódio apenas reforçou uma convicção de que a missão da igreja deveria estar muito mais voltada para aliviar o sofrimento humano do que para vigiar e controlar a vida das pessoas.
Como você enxerga o futuro das pessoas LGBTI+ nas comunidades de fé? E que conselho daria para quem sente um chamado espiritual ou ministerial?
Acho que o futuro, antes de tudo, passa pelo fortalecimento das pessoas e das comunidades. Os avanços em direitos são importantes, mas eles nunca acontecem de forma linear. Existem conquistas, retrocessos e disputas permanentes. Por isso, precisamos construir formas sólidas de apoio. Ninguém deveria atravessar essa jornada sozinho. Precisamos de redes de suporte, de amizades, de comunidade, de cuidado espiritual, emocional e psicológico. Quando necessário, também precisamos de terapia, acompanhamento profissional e de tudo aquilo que contribui para uma vida mais saudável. Cuidar de si mesmo não é um luxo; é uma necessidade.
Quanto ao chamado ministerial, acredito que cada pessoa precisa descobrir de que forma ele se manifesta em sua vida. Durante muito tempo eu associei o ministério exclusivamente à igreja institucional. Hoje não penso mais assim. Vejo que meu trabalho como professor, terapeuta e assistente social também é uma forma de ministério. O cuidado com as pessoas pode assumir muitas expressões diferentes. Nem todo chamado encontrará espaço dentro de uma denominação, mas isso não significa que ele deixe de existir.
Por isso, meu conselho é simples: descubra quais são os seus dons, seus talentos e seus pontos fortes. Invista neles. É ali que você encontrará propósito, satisfação e sentido. O chamado não começa em uma instituição. Ele começa naquilo que Deus já colocou dentro de você.
Depois de tudo o que conversamos sobre a Igreja Adventista, a Kinship, a Second Wind, a Church 1.0, os períodos de afastamento, a docência, a assistência social e a Um Lugar Comunidade, quem é Marcos Apolônio hoje?
É tudo isso. Sou alguém profundamente grato a Deus por poder ser tudo isso ao mesmo tempo. Não preciso descartar nenhuma parte da minha história. Não preciso deixar nenhuma identidade do lado de fora. Acho que esse é um dos maiores presentes que recebi na vida. Poder chegar a este momento, prestes a completar 60 anos, e olhar para trás sem precisar escolher entre partes de mim mesmo. Sou filho, pai, avô, companheiro, professor, terapeuta, pastor, brasileiro, gay e uma pessoa de fé. Durante muito tempo, algumas dessas identidades pareciam incompatíveis. Hoje elas coexistem. E sou absurdamente grato a Deus por isso. Ser quem eu sou, por inteiro, talvez seja a maior bênção desta fase da minha vida.
“Ser quem eu sou, por inteiro, talvez seja a maior bênção desta fase da minha vida”, diz Marcos Apolônio
Jonathan Monteiro
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