Partido Falangista, inspirado no Partido Nazista, assassinou milhares de civis palestinos na Guerra Civil Libanesa; universidade afirma que a parceria visa expandir oportunidades para estudantes através de bolsas


Por André Kanasiro e Stanton Witherspoon | Publicado originalmente em colaboração com a SPECTRUM Magazine.

No dia 23 de abril, a Universidade do Oriente Médio (MEU), uma universidade adventista localizada em Beirute, no Líbano, anunciou “uma nova cooperação com o Partido Kataeb, através da assinatura de um Memorando de Entendimento (MoU) que disponibiliza uma bolsa de estudos para estudantes.” Fotos publicadas pela universidade mostram Carlos Biaggi, presidente da MEU e filho de Guillermo (Billy) Biaggi, ex-vice-presidente da Associação Geral (AG), juntamente com John Issa e Farid Khoury, administradores da MEU, participando da cerimônia de assinatura na sede do Partido Kataeb.

Uma instituição adventista assinar um acordo formal de cooperação com um partido político é incomum, visto que a Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD) costuma tentar permanecer politicamente neutra. O anúncio chamou atenção devido à história controversa do Partido Kataeb durante a guerra civil no Líbano, e levanta questionamentos sobre o trabalho de instituições religiosas com grupos políticos em um país como o Líbano, onde religião e política estão intimamente relacionados.

Em uma entrevista com a SPECTRUM, Biaggi disse que o acordo faz parte de um esforço mais amplo para estabilizar as matrículas e sustentar a missão da universidade em um dos períodos econômicos de políticos mais difíceis para o Líbano nas últimas décadas.

“Ele faz parte dos nossos esforços para alcançar e recrutar alunos,” disse Biaggi. “Nosso índice de matrículas está muito baixo, provavelmente o mais baixo que esteve nos últimos 20 ou 30 anos.”

Segundo o presidente, o número de matrículas na MEU caiu de aproximadamente 200 alunos após a pandemia de COVID-10 para aproximadamente 104 alunos atualmente, devido à crise financeira prolongada do país e à instabilidade na região.

Fundada em 1939 como Faculdade Adventista de Beirute, a MEU se descreve como “a única instituição adventista do sétimo dia de educação superior no Oriente Médio” e “uma das primeiras faculdades protestantes no Líbano”. A universidade serve à missão da denominação através da União do Oriente Médio e África do Norte, que é operada diretamente através da AG. 

Além de treinar pastores, professores, contadores e outros obreiros da IASD na região, Biaggi disse que, para a universidade, sua missão também é expor alunos não adventistas à educação cristã e à fé adventista.

“Se pudermos aumentar o número de alunos que entra, os não adventistas, eles serão expostos não só à nossa educação holística, mas também ao evangelho,” disse ele.

A universidade tem se apoiado cada vez mais em parcerias na esperança de estabilizar a taxa de matrículas e expandir o número de alunos. A MEU oferece várias opções de suporte financeiro e bolsa de estudos em seus nove cursos de graduação e quatro de pós-graduação, tudo como parte de seus esforços de expandir o alcance educacional no Oriente Médio. No dia 8 de abril de 2025, por exemplo, a MEU anunciou a assinatura de 15 MoUs com colégios associados, incluindo 13 escolas no Líbano, juntamente com o Internato da União do Nilo, no Egito, e a Escola Nacional Adventista, na Jordânia.

Segundo Biaggi, o acordo com o Kataeb surgiu depois que um ex-aluno da MEU, conectado a um dos comitês do partido, encorajou a universidade a explorar uma parceria similar a acordos que o partido já havia estabelecido com outras universidades no Líbano.

“Esse partido em particular assina MoUs similares com outras universidades aqui no país,” disse Biaggi.

Ele acrescentou que o acordo se limita a oportunidades de bolsas e ao recrutamento de estudantes.

“O MoU é puramente educacional, e visa disponibilizar oportunidades para que os jovens estudem,” disse ele. “Não há nada além disso.”

O legado histórico do Partido Kataeb

O Partido Kataeb, também conhecido historicamente como Falanges Libanesas, é um dos movimentos políticos mais controversos do Líbano devido ao seu papel na Guerra Civil Libanesa. 

Fundado em 1936 por Pierre Gemayel, o movimento surgiu inicialmente como uma organização paramilitar nacionalista para jovens, influenciada por movimentos fascistas na Europa da época. O jornalista britânico Robert Fisk cita Gemayel descrevendo como admirava a “disciplina e ordem” que presenciou durante as Olimpíadas de Berlim, em 1936, sediadas pela Alemanha nazista.1

Segundo Christian Thuselt, que ocupa a Cátedra de Política e Sociedade do Oriente Médio no Instituto de Ciência Política, da Friedrich-Alexander Universität, e é pesquisador associado no Orient Institut Beirut, os falangistas não eram estritamente fascistas no sentido ocidental, mas se apropriaram de símbolos e ideologias fascistas para adequá-los ao seu próprio contexto objetivos políticos.2 Partindo do integralismo católico promovido pela Falange Espanhol e o integrìsme da França, o partido chegou a adotar o lema integralista “Deus, pátria, família”, mas não buscava estabelecer uma teocracia cristã no país, e não pregava abertamente o extermínio de outras comunidades libanesas.

Mas como representantes de uma população maronita em declínio num país majoritariamente muçulmano — criado artificialmente pela França em 1920 para enfraquecer a Síria3 — os falangistas assumiram uma posição descrita por Thuselt como excepcionalista, até mesmo racista,4 posicionando-se como bastiões da civilização ocidental no Oriente Médio contra os bárbaros árabes, dos quais alegam ser etnicamente distintos. “Contudo, sua verdadeira fé […] era para com seus próprios clãs, suas vilas, seus líderes,” alertou Fisk.5

De fato, o que distanciava o projeto político falangista de uma teocracia cristã era que “o Líbano era conduzido por […] senhores feudais poderosos que um libanês descreveria como ‘famílias honradas’, mas que o ocidental médio identificaria rapidamente como mafiosos.” O Partido Falangista não era diferente; há relatos de líderes falangistas enviando homens para matar rivais políticos e suas famílias, mesmo dentro das forças cristãs.6

Esses incidentes foram especialmente frequentes durante a Guerra Civil Libanesa (1975-1990), que girou em torno da população palestina crescente no país e os vários movimentos guerrilheiros que recrutavam palestinos para tomar de volta as terras ocupadas por Israel. O mais infame foi o massacre de Sabra e Shatila, em setembro de 1982, quando os falangistas invadiram o bairro de Sabra e o campo de refugiados de Shatila, com o apoio das Forças de Defesa Israelenses (IDF) que ocupavam Beirute. Entre 1.300 e 3.500 civis foram assassinados, em sua maioria refugiados palestinos e muçulmanos libaneses; nem mesmo mulheres grávidas e bebês foram poupados.7

O partido hoje

Atualmente o Partido Kataeb funciona primariamente como uma organização política parlamentar, e não como uma milícia — mas seu legado permanece um tópico de debate no Líbano.

Em uma conversa com a SPECTRUM, Thuselt esclareceu a situação do partido hoje. “O Kataeb já está bem distante de seu auge,” explicou, destacando a luta do partido pelo desarmamento do Hezbollah e sua defesa da federalização do país como suas características atuais mais relevantes.

Ele também esclareceu que o Kataeb “não é um partido puramente maronita. Ele sempre representou também o setor protestante minúsculo no Líbano, cuja maioria é etnicamente armênia, e não árabe.”

O sistema político libanês é um parlamentarismo confessional: de modo a evitar conflitos sectários, cargos políticos são organizados de modo a apaziguar diferentes afiliações religiosas. Assim, o presidente tem que ser um maronita, o primeiro-ministro tem que ser um muçulmano sunita, o chefe do parlamento tem que ser um muçulmano xiita, etc. Os 128 assentos do parlamento também são divididos igualmente entre cristãos e muçulmanos — uma fonte permanente de sofrimento para os cristãos, os quais tinham mais assentos que os muçulmanos até o Acordo Taif, em 1990. Nesse contexto, a cooperação interreligiosa consiste em encontrar pautas comuns entre diferentes religiões de modo a permitir uma cooperação pragmática.

Biaggi se recusou a comentar muito sobre a política libanesa, mas disse acreditar que os partidos políticos no país estão tentando ajudar o Líbano a se recuperar após anos de crise.

“O que percebo é que todos os partidos cristãos no Líbano hoje estão tentando ajudar o país a sair da crise,” disse ele.

Ele apontou para discussões a respeito de recuperação econômica, serviços públicos e reforma na educação superior, incluindo projetos de lei para educação online.

Biaggi também disse que preocupações com a história do Partido Kataeb na guerra civil não surgiram como grandes objeções durante as discussões internas da universidade a respeito do acordo.

“A decisão de fazer esse acordo foi tomada pela comissão administrativa,” disse ele, observando que vários administradores libaneses que passaram pela guerra civil apoiaram a parceria.

“Jamais houve qualquer preocupação com possíveis conotações negativas da história do partido, ou das coisas que ele fez no passado,” acrescentou.

Ao mesmo tempo, Biaggi enfatizou que a universidade não pretende permitir movimentações políticas no campus, e rejeitou a ideia de que o acordo representa um alinhamento político com o partido.

“Não vamos permitir que nenhum aluno crie iniciativas políticas dentro da universidade,” disse ele.

“Para nós, não havia risco de qualquer conexão ao partido que fosse além da oferta de bolsas para jovens.”

Mas, no Líbano, a linha entre política, religião e atividade institucional é tênue. Segundo Thuselt, “linhas doutrinárias no interior do cristianismo se desgastaram e deram lugar a uma identidade cristã ‘política’, a qual enfatiza menos a doutrina teológica e mais certos posicionamentos políticos a respeito da identidade do país, caracterizados principalmente por uma certa desconfiança do islamismo”.

Em seu livro, Thuselt descreve em maiores detalhes parte dessa identidade política cristã: “eles falavam constantemente de ‘perigos’ e de estarem ‘preparados’. Seu fascínio com a força, com a luta pela sobrevivência, tudo de militar, sua prontidão constante para defenderem ‘os cristãos’, a impressão de que viviam num estado mental de cerco; era isso que, para mim, pareceu tão típico de suas identidades.”8 Num país em que cristãos temem ser superados demograficamente pelos muçulmanos, essa identidade costuma se manifestar como discursos públicos contra refugiados palestinos, iraquianos ou sírios — grupos que, segundo a Enciclopédia adventista do sétimo dia, têm sido auxiliados pelos adventistas do país.

“Como todos os partidos libaneses, ele enfatiza um Estado forte,” disse Thuselt, descrevendo o programa político falangista. “Mas, como todos os outros, ele não entende que está meramente tomando sua própria versão de ser libanês como o alicerce desse Estado. Isso pode se tornar um ponto de ruptura importante.”

Uma universidade operando em meio à crise

O acordo para bolsas chega num momento em que o Líbano enfrenta várias crises econômicas, políticas e militares que afetam significativamente a educação superior e a vida diária no país.

Biaggi descreveu como o conflito recente entre Israel e o Líbano interrompeu as operações na universidade, forçando o campus a fechar temporariamente, dando aulas online durante períodos de bombardeio e o deslocamento de alunos, e oferecendo serviços de saúde mental emergencial para os alunos e funcionários.

“Tivemos muito estresse, muita ansiedade,” disse Biaggi, observando que alguns alunos e professores tiveram que se realocar devido ao conflito, enquanto alunos estrangeiros saíram temporariamente do país e terminaram suas aulas remotamente.

A despeito dessa instabilidade, Biaggi disse que a MEU teve recentemente seu credenciamento de quatro anos renovado pela Associação de Credenciamento Adventista (AAA), a organização da AG que é responsável por avaliar e credenciar instituições educacionais adventistas. Segundo Biaggi, a AAA conduziu uma visita oficial em novembro de 2025, e depois garantiu o credenciamento até dezembro de 2029, com uma visita de acompanhamento planejada para 2027 e o pedido de relatórios de progresso sejam enviados pela universidade.

Biaggi também apontou para a continuidade das relações entre a universidade e o Ministério de Educação e Educação Superior do Líbano, descrevendo-as como essenciais para manter o credenciamento, licenciamento, e a sustentabilidade da instituição adventista no país a longo prazo.

“Nossa missão aqui está nas mãos de Deus,” disse Biaggi, perto do fim da entrevista. “Queremos continuar sendo uma luz para o Líbano e para o Oriente Médio.”

Notas:

1. Robert Fisk, Pity the Nation: Lebanon at War (Oxford University Press, 2006), p. 115. Ebook.

2. Christian Thuselt, “Lebanese Phalangism and fascism: history of a symbolic Appropriation” in Middle Eastern Studies 59(2), 281–297. https://doi.org/10.1080/00263206.2022.2065263

3. Cf. Fisk, Pity the Nation, p. 112.

4. Cf. Cristian Thuselt, Lebanese Political Parties: Dream of a Republic (Routledge, 2021), pp. 81-82.

5. Fisk, Pity the Nation, p. 103.

6. Ibid., pp. 130-131.

7. Cf. Fisk, Pity the Nation, p. 559.

8. Thuselt, Lebanese Political Parties, p. 121.