Por Bruno Reikdal | Formado em filosofia e teologia, mestre em filosofia. Membro da Igreja Bestesda de São Paulo e militante da UP.

Nos evangelhos de Marcos e Mateus, temos uma orientação de Jesus que é levada a sério e à risca por cristãos em todo o mundo. Trata-se da ordenança de pregar o Evangelho a todas as pessoas e a todas as nações. Conhecido como “ide” (Mc 16.15 e Mt 28.19-20), por vezes esse mandamento de ânimo e libertação se transformou em legitimação de violência, destruição de culturas e justificativa para a necessidade de expansão constante da base de fiéis das comunidades religiosas. Aqui, deixando de lado por um momento essas circunstâncias, o que nos interessa é notar como não temos o mesmo empenho diante da outra orientação de Jesus sobre a pregação das boas-novas, que nos é revelada na cena que abre o arco da traição e da morte de Jesus ao final desses mesmos livros do Novo Testamento: a mulher em Betânia (Mc 14 e Mt 26).

Em ambos os evangelhos temos uma narrativa semelhante: uma mulher entra em um ambiente predominantemente masculino para o qual não foi convidada e unge Jesus com um perfume. Discípulos indignados criticam o desperdício realizado pela personagem feminina e são repreendidos por seu mestre, que afirma: “A verdade eu digo a vocês: onde quer que o evangelho for anunciado pelo mundo, o que esta mulher fez será contado e ela será lembrada” (Mc 14.9) / “Garanto a vocês: onde quer que o evangelho for anunciado, o que esta mulher fez será contado e ela será lembrada” (Mt 26.13). E a pergunta que fica é: por que não se anuncia o que esta mulher fez e majoritariamente não nos lembramos e nem somos lembrados dela?

Em nossas “cartilhas” de evangelização não temos como um dos marcos o feito daquela mulher. Por esse motivo, por exemplo, Elizabeth Schüssler Fiorenza escreve seu Em memória dela1, encontrando uma brecha para nos conduzir a uma reflexão crítica sobre o apagamento das mulheres em nossas teologias, tradições e liturgias. No livro, Fiorenza estabelece o campo para uma teologia feminista. Ela passa pelos quatro evangelhos e discute como em cada um é retratada a personagem que deveria estar presente em nossa memória de fé, assim como os desdobramentos desse esquecimento generalizado. Devemos muito à teóloga. Contudo, em nosso texto daremos atenção especial para os livros de Marcos e Mateus, pelo fato de que neles a história é estruturada praticamente do mesmo modo e apresenta a missão de difusão das boas-novas ao seu final.2

Como abertura da última etapa da narrativa sobre Jesus desenvolvida tanto por Marcos, quanto por Mateus, temos a indicação da proximidade da Festa da Páscoa. Em ambos, é-nos trazida a informação de que os planos para matar Jesus estavam condicionados por essa celebração: os algozes não deveriam levar adiante as tratativas para assassiná-lo naquele momento por receio de deflagrarem sem querer uma forte reação popular. O problema, como sabemos, é que se sucede o contrário: todo o julgamento e a execução de Jesus ocorrem no período pascal. Ao que parece, de algum modo a atuação da mulher em Betânia é a gota d’água que acelera toda a trama e a violência que se seguiria contra o Cristo. Seu advento altera e antecipa o plano cauteloso que se anunciava. Nos dois relatos dos evangelistas vemos que assim que Jesus diz que o feito daquela mulher seria lembrado em todos os lugares em que a boa-nova fosse contada, Judas Iscariotes decide se encontrar com os sacerdotes para combinar o “preço” que lhe seria pago por entregar seu mestre.

Em Marcos vemos no versículo 10: “Então Judas Iscariotes, um dos Doze, foi ao encontro dos principais sacerdotes para planejar entregar-lhes Jesus”. Já em Mateus, os versículos 14 a 16 dizem: “Então Judas Iscariotes, um dos Doze, foi até os principais sacerdotes e perguntou: ‘quanto vocês me pagarão se eu lhes entregar Jesus?’. E eles lhe deram trinta moedas de prata. Daquele momento em diante, Judas passou a procurar uma oportunidade para trair Jesus.” Mas qual o peso da ação daquela mulher em Betânia para funcionar no texto como estopim para o plano de morte de Jesus e para a traição de um dos Doze? Novamente, essa cena é apresentada pelos autores como um evento de grande impacto. Então, observemos:

“Estando Jesus em Betânia, reclinado à mesa na casa de um homem conhecido como Simão, o leproso, aproximou-se dele certa mulher com um frasco de alabastro contendo um perfume muito caro, feito de nardo puro. Ela quebrou o frasco e derramou o perfume sobre a cabeça de Jesus. Alguns dos presentes começaram a dizer uns aos outros, indignados: “Por que este desperdício de perfume? Ele poderia ser vendido por trezentos denários [ou trezentas moedas de prata], e o dinheiro dado aos pobres”. E a repreendiam severamente. “Deixem-na em paz”, disse Jesus. “Por que a estão perturbando? Ela praticou uma boa ação para comigo. Pois os pobres vocês sempre terão consigo, e poderão ajudá-los sempre que o desejarem. Mas a mim vocês nem sempre terão. Ela fez o que pôde. Derramou o perfume em meu corpo antecipadamente, preparando-o para o sepultamento. Eu lhes asseguro que onde quer que o evangelho for anunciado, em todo o mundo, também o que ela fez será contado em sua memória” (Mc 14.3-9).

“Estando Jesus em Betânia, na casa de Simão, o leproso, aproximou-se dele uma mulher com um frasco de alabastro contendo um perfume muito caro. Ela o derramou sobre a cabeça de Jesus, quando ele se encontrava reclinado à mesa. Os discípulos, ao verem isso, ficaram indignados e perguntaram: “Por que este desperdício? Este perfume poderia ser vendido por alto preço, e o dinheiro dado aos pobres”. Percebendo isso, Jesus lhes disse: “Por que vocês estão perturbando essa mulher? Ela praticou uma boa ação para comigo. Pois os pobres vocês sempre terão consigo, mas a mim vocês nem sempre terão. Quando derramou este perfume sobre o meu corpo, ela o fez a fim de me preparar para o sepultamento. Eu lhes asseguro que onde quer que este evangelho for anunciado, em todo o mundo, também o que ela fez será contado, em sua memória” (Mt 26.6-13).

Uma mulher sem nome entra na casa de Simão, conhecido como “leproso”. O fato de Simão ser apelidado como leproso pode nos remeter a alguém que havia tido alguma doença de pele e, passado um tempo, havia se curado. Deve, portanto, ter pago as ofertas requeridas pela purificação e pela verificação da cura, como recomendava a lei (ofertas que eram bastante custosas, o que dificultava que pessoas pobres acometidas de doenças de pele se reintegrassem à sociedade, mesmo já curadas). Do mesmo modo, também poderia ser alguém com alguma doença de pele que se mantinha integrado à cidade, pagando pela manutenção de sua posição social como privilégio. De qualquer forma, tratava-se de alguém capaz de convidar ao menos treze homens para se sentarem à mesa em um banquete, sem que fosse uma festividade propriamente dita e às vésperas de um período de celebrações. Estão desfrutando uma refeição em um ambiente fechado, exclusivo.

Uma mulher sem nome e que não foi convidada entra no recinto. Além da quebra de uma série de protocolos sociais, morais e religiosos, ela ousa uma performance e intervém, para a surpresa de todos (incluindo de nós, leitoras e leitores), quebrando um recipiente que contém um perfume caro, agradável, mas ao barulho de um vaso estilhaçando e vertido sobre a cabeça do líder do grupo de convidados. De supetão, em ambas as histórias os discípulos reagem violentamente, condenando a mulher. Ao declararem o desperdício daquele “luxo”, desqualificavam a autora do feito. Um abuso, um excesso, uma perda de tempo e de dinheiro que deveria ser doado aos pobres e não naquela encenação, naquele exagero (talvez inútil).

Jesus os repreende e retoma a lei: “Pobres sempre terão em vossa terra. Portanto, ordeno que compartilhem seus bens generosamente com os pobres e com outros necessitados de sua terra” (Dt 15.11), citada indiretamente. Ao afirmar que pobres sempre estariam por perto, coloca-se na memória a necessidade de que se compartilhe dos “seus bens” e não dos “bens dos outros”. Assim, Jesus evidencia a hipocrisia dos discípulos que, por trás do discurso de preocupação e caridade, escondiam seu verdadeiro objetivo: condenar aquela mulher que lhe fazia um bem. Não condenaram, aparentemente, a Simão, que banqueteava com eles. Este bem que poderia ter doado o alimento aos pobres ao invés de servir aos Doze e seu mestre em um encontro exclusivo, em sua casa. A repreensão de Jesus gera tamanho incômodo a ponto de Judas decidir traí-lo.

O mestre ter aceitado a ação daquela mulher foi a gota d’água (ou de perfume). Ela o ungiu (ato interpretado por Jesus como preparação para seu sepultamento) e todo esse movimento resulta na ordenança de se recordar o ocorrido em memória dela. Onde quer que chegue o evangelho, ela será lembrada. Observemos: em memória da mulher, não de Jesus, dos discípulos ou de qualquer outra personagem. Onde as boas novas forem contadas, aquela mulher sem nome deve ter seu relato repetido em sua memória, para que se guarde lembrança dela. Quem era essa mulher? Qual seu rosto? Sua família? Sua profissão? Nada, absolutamente nada se sabe dela. Em uma leitura descuidada, coloca-se em sua figura o papel de “pecadora”. Mas não temos qualquer elemento no texto que nos mostre e diga isso.

Claro, alguém que toma os quatro evangelhos como um único bloco e os interpreta como complementares poderia sacar outras cenas de mulheres que surpreendem Jesus e os discípulos e estipular uma correlação. Mas caso o fizesse, também deveria trabalhar as semelhanças entre a estrutura de uma mulher que unge Jesus antes da Páscoa e o lava-pés descrito em João no relato da ceia. Ou ainda a potência de se perceber que o “fazei isso em memória de mim” apresentado em Lucas tem a mesma estrutura que o “em memória dela”, de Marcos e Mateus. E poderíamos aprofundar mais possibilidades, mas Fiorenza já o fez no livro que citamos acima.

O que queremos destacar é que não lembramos daquela mulher em nossas cartilhas de evangelização. Não fazemos jus à memória dela e de que Jesus gostaria que guardássemos dela. A memória de uma personagem feminina que pode ser qualquer mulher e que compreende os tempos e o espírito do Cristo com maior profundidade e cuidado que seus próprios discípulos. Além disso, a memória de uma mulher condenada pelos homens que seguiam Jesus. Mulher defendida pelo mestre que, por sua vez, revela que sua repulsa ao perfume derramado era pela presença daquela mulher em seu meio, e não pelo preço daquele produto. Judas não suporta aquela mulher e nem sua intervenção, sua intromissão, sua performance, sua postura e o amor que o mestre tem por ela. Judas trai ali, quando condena a mulher e nega seu direito de estar ali, presente e protagonista naquele ambiente junto de Jesus.

Nós não lembramos dessa mulher (ou sua memória não nos é lembrada) porque ela é expressão do fato de que o movimento de Jesus era feminino e feminista. Defendia as mulheres e era composto por lideranças femininas, que fortaleciam, conduziam e organizavam a igreja primitiva (ver nas referências os livros de Pablo Richard3 e, em especial, de Elsa Tamez4). Não nos é lembrada porque sua narrativa desperta a noção de que as mesmas estruturas que a condenavam ali, na casa de Simão, “o leproso”, são aquelas que silenciam e condenam mulheres que quebram perfumes, protocolos, padrões e desestabilizam ambientes controlados. O mesmo espírito que negava a vida daquela mulher e sua intervenção no espaço dos Doze é o que guia as constantes traições a Jesus, que tratam de crucificar quem está com os excluídos não apenas por algumas moedas, mas especialmente por não suportar ver seu mestre com ela, com “aquela”.

Notas

1. Utilizamos como para o texto a versão em espanhol do texto, como indicado ao final, nas referências: FIORENZA, Elisabeth S. En memoria de ella: uma reconstrucción teológica feminista de los orígenes del cristianismo. Desclée Brouwer: Bilbao, 1989.

2. Não tomaremos os evangelhos como obras complementares ou em continuidade. Cada livro faz referência a um autor e uma comunidade que mantém viva tradições orais e experiências de fé históricas que dizem respeito às suas trajetórias em diferentes lugares e momentos, ainda que por vezes possuam fontes comuns.

3. RICHARD, Pablo. El movimento de Jesús antes de la Iglesia: una interpretación liberadora de los Hechos de los Apósteles. Sal Terrae: Santander, 1998; Memoria del “movimento histórico de Jesús”: desde sus orígenes (años 30) hasta la crisis del Sacro Imperio  Romano Cristiano (siglos IV y V). DEI: Costa Rica, 2009.

4. TAMEZ, Elsa; PADILLA, Catalina F. La relación hombre-mujer en perspectiva cristiana: el testimonio evangélico hacia el tercer milenio. Kairós: Buenos Aires, 2002; Luchas del poder en los orígenes del cristianismo: un estudio de la primera Carta a Timoteo. Sal Terrae: Santander, 2005.