Os atos de violência imperialista dos EUA podem ser lidos em articulação com o que disse o profeta Jeremias, rejeitando teologias que sacralizam o poder e defendendo uma ética da justiça enraizada na solidariedade


Por Yi-Shen Ma | professor, eticista, assistente social e teólogo cristão progressista, cujo trabalho explora pertencimento, espiritualidade, justiça e imaginação moral. Ele escreve em The Liminal Sanctuary (theliminalsanctuary.substack.com). Texto traduzido por Felipe Carmo do original em inglês para a revista Zelota.

Sinto meu estômago se revirar enquanto assisto ao vídeo de 7 de janeiro—o insípido e surreal—de um agente mascarado do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA atirando no para-brisa e extinguindo a vida de Renee Nicole Good, mãe de três filhos de 37 anos e poeta, em Minneapolis, Minnesota, EUA. É onde estamos agora. O mundo ao meu redor gira enquanto arrepios me percorrem a espinha. “Não posso acreditar”, murmuro para mim mesmo. Mas isso não é exatamente verdade. Eu posso e acredito. Eu até esperava que algo assim acontecesse, eventualmente. Ainda assim, uma parte de mim se recusa a aceitar a transição da expectativa para a realidade. Quero gritar. Quero rezar—para o quê? Não sei.

Como se nos sugerisse que não podemos confiar em nossos próprios olhos, a secretária do Departamento de Segurança Interna dos EUA, Kristi Noem, nos instruiu a acreditar que esse assassinato a sangue-frio foi um ato de legítima defesa contra o terrorismo doméstico. Meu corpo está em chamas. Nossa nação está em chamas. Como podemos seguir em frente em momentos como este? Como podemos continuar quando estamos pesados de luto, choque, raiva e fadiga?

Em 3 de janeiro, comecei a ler e refletir sobre o livro de Jeremias para preparar um sermão que farei no fim do mês. Evitei as notícias naquele dia. Hoje, limito meu consumo de notícias para manter uma aparência de saúde mental. Limitar o ruído me deu espaço para respirar, mas não resolveu a questão mais profunda de como posso permanecer presente ao sofrimento sem ser consumido por ele.

Então, depois do culto na igreja, um amigo me informou que meu país havia invadido a Venezuela, sequestrado seu presidente e sua esposa e os confinado na mesma prisão, em Nova York, que outrora abrigou a traficante sexual de crianças Ghislaine Maxwell. A notícia me desorientou, em parte porque o imperialismo americano já não está encoberto pela linguagem da liberdade e da democracia. A história de Jeremias inundou minha mente—a história de como Babilônia e Egito instigaram mudanças de regime porque não gostavam das políticas de Judá.

O tirano Nabucodonosor sequestrou os reis e as elites políticas de Judá e instalou líderes fantoches que ele supunha que fariam sua vontade. Por um momento, não consegui determinar se estava ouvindo notícias de 2026 d.C. ou de 586 a.C. Os paralelos históricos não são tão notáveis assim. O que me impressionou foi que estamos vivendo um momento cultural semelhante ao que Jeremias enfrentou.

Por um lado, você tem a realeza, os aristocratas e os sacerdotes do templo de Jerusalém. Eles e seus teólogos da corte proclamam que seu Deus, YHWH, sempre protegerá Judá e suas instituições. Yahweh, insistem eles, prometeu a Davi que sua linhagem real nunca falharia e escolheu Jerusalém como seu lugar de morada.

Entre dois impérios brutais que claramente superavam Judá, essas elites permaneceram presas a uma fantasia de invencibilidade e excepcionalismo. A filosofia por trás de sua política interna e externa havia perdido contato com a realidade. As elites de Judá habitavam uma ficção de sua própria criação. Qualquer um que contradissesse essa ideologia, como o profeta Jeremias, era brutalmente perseguido.

Em 2026, os EUA estão enredados em seu próprio conjunto de fantasias. Vivemos em uma cultura pós-verdade em que as opiniões de influenciadores têm mais peso do que o conhecimento de médicos e cientistas.

Mudança climática? Não é real.

Vacinas? Não precisamos delas.

O déficit? Bilionários precisam do dinheiro mais do que crianças famintas.

A fé no excepcionalismo americano cresce em proporção à deterioração das instituições públicas e ao agravamento do custo de vida. Muitos de nós acreditamos, com um nível de fanatismo religioso raramente visto em igrejas, que o caminho para a prosperidade humana passa pela autocracia e pelas deportações em massa. Se esse resumo aparecesse na capa de um romance de ficção científica, eu o ignoraria por sua futilidade. No entanto, aqui estamos.

Por outro lado, você tem Jeremias. Ele proclamou que Judá havia falhado com seus pobres e oprimidos e cometido idolatria. YHWH puniria a infidelidade de Judá por meio da dominação imperial da Babilônia. Nabucodonosor, na avaliação de Jeremias, era o servo escolhido de YHWH.

A teologia de Jeremias não é muito melhor do que a dos sacerdotes do templo. Admiro seu zelo pela justiça e seu realismo político, se é que podemos chamá-lo assim. Mas sua visão de mundo está repleta de contradições. As falhas morais de Judá são igualadas apenas à crueldade e destrutividade de YHWH na teologia de Jeremias. Como YHWH inspira justiça ao se aliar a um império brutal e orquestrar a destruição de seu próprio povo?

À semelhança do evangelho da prosperidade de nosso tempo, Jeremias presumiu uma relação direta entre a virtude nacional e o poder nacional. Essa forma de pensar ainda está conosco sempre que líderes afirmam que seu poder é ordenado por Deus e sua violência, santificada. Eu rejeito ambas as teologias.

A realidade nunca é tão organizada. Não habitamos um universo moral no qual o mal leva de forma confiável ao sofrimento e a bondade à prosperidade. Mesmo que tal sistema existisse, ele seria intolerável—produziria uma arrogância insuportável entre os ricos e poderosos. No mundo real, o poder é mais frequentemente detido pelos moralmente comprometidos. Ainda assim, há algo que vale a pena preservar no conselho de Jeremias aos exilados na Babilônia. Em Jeremias 29, ele os exorta a construir casas, plantar jardins, comer, casar-se e buscar o bem-estar do público.

Jeremias não pediu a seu povo que aceitasse a dominação imperial em silêncio ou passividade. Ele os exortou a permanecer engajados na vida pública e a continuar buscando alegria e comunidade, mesmo em uma situação que parecia desesperadora. 

O conselho de Jeremias não fez sentido plenamente pra mim até que eu reli Notes of a Native Son, do romancista, ensaísta, dramaturgo e ativista americano James Baldwin.1 Baldwin oferece algo a mais do que Jeremias: uma visão de engajamento ético que não depende de punição divina ou providência.

Como o povo de Jeremias no exílio, Baldwin viveu no ventre de um império, enfrentando diariamente sua violência. Ele relata sua relação com o pai, que morreu em 1943. No dia de seu funeral, um policial branco atirou e feriu um soldado negro, e o Harlem, em Nova York, entrou em erupção.

Enquanto Baldwin atravessava a cidade de carro, ele ponderava o racismo cotidiano que estrangulou o espírito de seu pai e acendeu a amargura que o consumiu. Seu pai era atraído pela teologia apocalíptica e frequentemente direcionava sua raiva explosiva aos filhos.

Baldwin recorda ter saído de casa para encontrar trabalho em Nova Jersey. Lá, ele aprendeu que ser negro significava estar “à mercê dos reflexos que a cor da pele de alguém provocava em outras pessoas”. Ele teve atendimento negado em restaurantes e pistas de boliche e foi tratado com desprezo em todos os locais em que trabalhava. A raiva começou a crescer dentro dele—a mesma raiva que ele temia em seu pai.

Na sua última noite em Nova Jersey, Baldwin entrou em um restaurante e foi informado de que pessoas negras não eram bem-vindas. Ele saiu, mas algo foi quebrado. Ele marchou para um restaurante mais sofisticado. Sentou-se e esperou. Novamente, a garçonete lhe disse que eles não serviam pessoas negras. Baldwin pegou a caneca sobre sua mesa e a arremessou. Ela quebrou um espelho atrás da garçonete. Ele escapou.

Naquele momento, ele percebeu algo: o ódio em seu próprio coração era a verdadeira ameaça à sua vida, o fogo que havia consumido seu pai começando a consumi-lo. Pela primeira vez, Baldwin olhou para o pai sem amargura. Em Notes of a Native Son, ele escreveu: “Era necessário se apegar às coisas que importavam.” “O ódio […] nunca deixou de destruir o homem que odiava.”2 Ele acrescentou que é preciso manter juntas duas ideias: aceitar a realidade como ela é e recusar-se a aceitar a injustiça como algo comum. “A luta”, argumentou ele, começa “no coração”, que deve ser libertado do ódio e do desespero.3

O que me marcou foi a insistência de Baldwin de que o trabalho da justiça é incompatível com o desespero e o ódio. Quando confrontados com uma situação sem esperança, é crucial cuidar do que realmente importa. A bravura se parece com recusar a amargura e permanecer engajado no trabalho da justiça.

Então, como seguimos em frente? Eu não compartilho do otimismo de Jeremias de que YHWH controla a história. Mas talvez o sagrado não seja encontrado no controle, e sim no trabalho lento de cultivar relações, permanecer enraizado no amor e praticar a solidariedade. Esse é o trabalho do amor. É assim que permanecemos humanos.

Notas:

1. James Baldwin, “Notes of the Native Son” In: Toni Morrison (ed). James Baldwin : Collected Essays (New York: Library of America, 1998).

2. Ibid., p. 84.

3. Idem.