“Nossos líderes vão puxar o saco de qualquer ditador”

“Nossos líderes vão puxar o saco de qualquer ditador”

Entrevista com o Dr. Ronald Lawson, um sociólogo adventista, a respeito das relações entre a Igreja Adventista e política ao redor do mundo

O Dr. Ronald Lawson é um sociólogo adventista do sétimo dia australiano, hoje vivendo nos EUA, que passou duas décadas entrevistando cerca de 5.700 adventistas ao redor do mundo. Seu objetivo era melhor compreender a diversidade do adventismo e seu desenvolvimento como grupo religioso em diferentes sociedades. Essa quantia maciça de dados está parcialmente disponível em seu site, e será publicada em sua totalidade em sua série de 4 volumes em preparação, Apocalypse Postponed [Apocalipse Postergado]. A Zelota o entrevistou para saber mais a respeito das formas pelas quais igreja adventista lidou com política ao redor do mundo. Ele nos esclareceu descrevendo comportamentos padrões que a instituição costuma ter diante de seus governantes.

Dr. Ronald Lawson em 2014 com sua cadela, Sophie, em seus aposentos.
Fonte: Foto disponibilizada pelo entrevistado.

Revista Zelota — Em seus textos você menciona muitos exemplos de relações entre a Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD) e ditaduras de direita ou de esquerda, mas a maior parte das alianças mencionadas é com governos de direita. Você acha que comunidades adventistas são menos dispostas a resistir a abusos políticos da direita? Por que isso acontece?

Dr. Ronald Lawson —  Os Adventistas tiveram relacionamentos íntimos tanto com a esquerda quanto com a direita: os da esquerda incluem a União Soviética perto do fim, particularmente no governo de Gorbachev; e quase todos os regimes do leste europeu ao longo do período pós-guerra. Nós tivemos relações realmente próximas com esses governos, exceto possivelmente a Alemanha Oriental, um governo cujo saco não conseguimos puxar. Eu acho que os adventistas tendem a bajular qualquer governo autoritário que for necessário para proteger a igreja, suas instituições, e sua estrutura, e nos tornamos muito bons nisso. Mas quando surge a escolha entre partidos de direita e de esquerda em democracias de países desenvolvidos, a situação muda: a igreja não se posiciona porque não há perspectiva de ela exercer influência (somos muito pequenos) e ela teme repercussões, pelo menos em seu alcance — mas, pessoalmente, quando votamos em eleições, os adventistas tendem a ter medo do socialismo e favorecer a direita. Essa atitude remonta pelo menos às considerações negativas de Ellen White quanto ao movimento sindical. Mas há exceções a esse padrão — nos EUA, por exemplo, enquanto adventistas brancos tendem a votar no Partido Republicano, os adventistas negros são fortemente Democratas; isso também se aplica ao contraste entre adventistas com formação e adventistas mais pobres. No mundo subdesenvolvido, em alguns países a quantidade de adventistas tornou-os politicamente poderosos de modo inesperado. O primeiro-ministro da Jamaica é adventista, assim como o governador-geral (o chefe-de-Estado titular) e um bom número de parlamentares. Nós também somos politicamente importantes em Papua Nova-Guiné, onde o primeiro-ministro e vários ministros são adventistas, assim como em alguns países africanos. Mas a igreja não fez nenhuma conscientização a respeito de quais políticas os adventistas devem buscar, e quando eu lhes perguntei “como ser um adventista afeta as políticas que você busca?”, eles não sabiam do que eu estava falando! Eles nunca tinham pensado nisso. Não é como se nós devêssemos dizer a eles o que fazer, mas eles não estão sequer pensando em como um cristão deve governar! Na Jamaica ocorrem terríveis massacres anti-gay — gays são espancados e assassinados, e o governo não faz nada. Os líderes políticos são adventistas, mas eles desprezam os gays, porque os adventistas desprezam gays. É uma situação realmente miserável.

Revista Zelota — Você vê qualquer diferença qualitativa na natureza das alianças da igreja com ditaduras de direita ou de esquerda?

Dr. Ronald Lawson — Nossos líderes vão puxar o saco de qualquer ditador, na esperança de que ele nos ajude por isso.

Revista Zelota — Na Encyclopedia of Politics and Religion [Enciclopédia de Política e Religião](2007), você afirma que os adventistas “passaram a ser identificados como fortes proponentes da separação entre igreja e Estado”. No entanto, no mesmo documento, assim como em outras ocasiões, você menciona a existência de bancadas políticas para o benefício da IASD. Você acha que há alguma contradição entre essas afirmações?

Dr. Ronald Lawson — A contradição aparente é porque eu vejo 3 fases aqui: 1) Nós lutávamos por liberdade religiosa (década de 1880-1890) porque pensamos que nós e nossa observância do sábado estavam em perigo — fizemos isso ao invés de permitir que o decreto dominical viesse até nós, o qual pensamos que seria o último sinal certo antes da volta de Jesus! Nós ainda estamos procurando pelo decreto dominical, mesmo que não haja a menor evidência de que algum político tenha esse objetivo (pelo menos nos EUA). 2) Conforme ficamos mais confortáveis com a sociedade, nós nos tornamos uma denominação; construímos e controlamos a Associação Internacional de Liberdade Religiosa (IRLA,  sigla em inglês), e ficamos mais dispostos a tentar ajudar outros grupos religiosos que sofressem perseguições. 3) Recentemente, líderes adventistas passaram a usar o clamor da liberdade religiosa para tentar conquistar decisões políticas que protejam preconceitos doutrinários adventistas contra certas minorias, especialmente a população LGBTQIA+. Houve, por exemplo, a resposta adventista a uma decisão da Suprema Corte dos EUA em 2020. Quando a Suprema Corte dos EUA decidiu que era ilegal discriminar contra minorias sexuais, os adventistas não queriam aquela lei! Ela era boa para todo o resto, mas os religiosos queriam ter seu direito de discriminar. “Nós não devemos ser forçados a ter um professor ou um zelador gay em uma escola adventista, devemos ter a permissão de discriminar com base em nossa liberdade religiosa”. É claro que eu sou completamente contrário a isso, e penso que este é um mau uso da nossa liberdade religiosa. A função da religião não é discriminar.

Revista Zelota — Certa vez você mencionou que Robert Folkenberg, presidente da União Centro-Americana (1975-1979), “ficou preocupado quando membros mais empobrecidos do seu rebanho se juntaram à guerrilha, devido ao seu ódio contra as políticas do presidente” na Guatemala. Você pode nos contar mais a respeito desses guerrilheiros adventistas? Como a igreja lidou com eles?

Dr. Ronald Lawson — Em muitos países latino-americanos, a liderança adventista se identificava com pessoas em posições elevadas e com a direita; como eram líderes da igreja, eles se viam como sendo importantes na sociedade, e como tal se viam como parte da elite. Eles simpatizavam, portanto, com ditadores militares, enquanto a maioria dos adventistas era pobre e simpatizava com a esquerda. Era uma divisão dentro da igreja, mas eles não falavam de política, exceto quando ela resultava em ações. Isso se aplica à Guatemala: Folkenberg construiu o QG da União na parte mais esnobe da Cidade da Guatemala (era um prédio lindo! Eu estive lá), enquanto muitos adventistas viviam em favelas como no Rio de Janeiro, em montes vulcânicos íngremes ao redor da cidade (muitas cinzas), e sofreram muito pelo grande terremoto que ocorreu lá nos anos 70. Alguns se juntaram à guerrilha como soldados e ameaçaram diretamente a União (até enviaram uma carta), já que se encontravam em lados opostos. Então, pouco tempo depois que Folkenberg deixou a União, ela respondeu às ameaças fazendo as malas e se mudando para a Costa Rica! O prédio então foi deixado para a missão local. Isto é, os líderes adventistas frequentemente parecem ver a si mesmos como parte da elites. Isso inclui Folkenberg enquanto presidente da união: ele se gabava comigo de que tinha uma relação tão próxima com o general que governava a Guatemala que podia visitá-lo no Palácio Presidencial sempre que quisesse, e que ele foi o primeiro protestante a receber um jantar de despedida antes de deixar a Guatemala. Folkenberg estava tão orgulhoso, mas aquele general foi um dos presidentes mais sanguinários na história da Guatemala! Então você consegue imaginar o que os membros mais pobres achavam dessa relação. Eles a viam como muito ofensiva.

Revista Zelota — A administração tinha problemas em admitir que a maior parte dos seus membros era pobre?

Dr. Ronald Lawson — Em igrejas adventistas você precisa de batismos. A Associação Geral está te pressionando a ter batismos o tempo todo, você está meio que competindo. Nos anos 80 houve uma competição tremenda entre a Divisão Sul-Americana e a Divisão Inter-Americana: qual delas teria mais batismos? Então você aceita qualquer um que você consiga. E quem você consegue? As elites não se juntam à IASD, os que se juntam são os pobres, que querem receber educação e ir para o Céu, já que suas vidas aqui são miseráveis. O pensamento de que Jesus está voltando se torna importante para eles. Você já ouviu falar em cultos à carga? Em Nova Guiné, por exemplo, houve tribos que formaram suas próprias religiões, porque elas diziam: “Os brancos recebem todas as cargas, nós não recebemos nenhuma!” E elas acreditavam que Deus enviaria carga para elas, e que elas ficariam tão ricas quanto os brancos. Essa é a ideia: a IASD apela a pessoas que querem carga! Os pobres vêm à IASD porque a igreja encoraja a educação, porque as pessoas podem ascender na sociedade, e se isso não acontecer rápido o suficiente Jesus está voltando semana que vem de qualquer forma, e eles vão se mudar para uma mansão no Céu!

Revista Zelota — Na Enciclopédia você também menciona que a Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (ADRA) por vezes atuou como uma ferramenta da política externa norte-americana, como quando ela estabeleceu um programa forte em Honduras na exata época em que o país estava treinando os Contras, financiados por Reagan, para desestabilizar a Nicarágua. Há mais exemplos da ADRA agindo como ferramenta do governo. O que mais você pode nos contar a respeito da relação entre os adventistas e a Revolução Sandinista socialista?

Dr. Ronald Lawson — Até onde eu sei, isso aconteceu devido às políticas do governo Reagan aqui nos EUA. A maior parte da renda da ADRA na época vinha de um programa norte-americano, o US-AID. Eles estavam dando dinheiro a projetos particulares que ajudariam as políticas do governo. Isso significa que ela só podia trabalhar onde o governo dos EUA permitisse. Durante o período sandinista não houve auxílio norte-americano para a Nicarágua, então a ADRA não podia trabalhar lá. Mas os EUA estavam tentando desenvolver Honduras, já que as forças anti-sandinistas eram treinadas lá. Então houve muita ajuda para Honduras, o que significa que a ADRA conseguiu muitos contratos com a US-AID1 lá dentro, o que, por sua vez, tornou a ADRA uma ferramenta da política externa norte-americana. Eu tenho certeza de que muitos adventistas estadunidenses aprovaram isso eles mesmos. Foi devido a atitudes anti-sandinistas dos missionários norte-americanos na Nicarágua que os adventistas perderam seu hospital e foram banidos de operar na Nicarágua por algum tempo. (Os missionários que eram do quadro médico do hospital deixaram a Nicarágua, deixando o hospital incapaz de operar.) Mas quando eu estive lá, poucos meses depois, um pastor local tinha se tornado o presidente da Missão, e ele simpatizava com os sandinistas, estava tentando fazer com que os adventistas cuidassem de projetos comunitários operados pelo governo. Ele achava que o governo sandinista estava fazendo coisas boas nas comunidades, e que a igreja podia se envolver nisso. Ele me disse isso quando eu o entrevistei, e eu expressei o meu apoio. Isso o levou a me pedir que eu pregasse na maior igreja no sábado seguinte, para mostrar à congregação por que eu sentia que trabalhar com suas comunidades dessa forma era congruente com o Evangelho. Ele também compareceu e me apresentou. Na tarde daquele sábado realizamos mais uma reunião, na qual os membros fizeram muitas perguntas e expressaram seu apoio ao que eu tinha defendido. Os membros da igreja estavam claramente confusos, porque eles queriam ajudar os sandinistas, mas os missionários de antes tinham lhes dito que não o fizessem.

Os mórmons também foram banidos, mas eles estavam trabalhando ativamente contra os sandinistas — é uma igreja muito Republicana.

Revista Zelota — Você mencionou uma vez que os adventistas se tornaram conhecidos por todo o Chile como “amigos do Pinochet”, um ditador militar de extrema-direita. Você pode nos dar mais detalhes dessa aliança? Houve alguma resistência na comunidade adventista da época?

Dr. Ronald Lawson — A situação lá foi muito similar à da Guatemala — as elites da União apoiavam o General Pinochet, enquanto a maioria das outras igrejas tinha membros pobres e tinha apoiado o Presidente Allende. Pastores que eu entrevistei me explicaram essas dinâmicas. Os líderes da igreja puxaram o saco do Pinochet e ganharam vantagens como resultado — a tortura e o desaparecimento de tantos entre seus opositores fez com que o Cardeal Católico o condenasse, então ele precisava muito do apoio de outros grupos religiosos para recuperar sua credibilidade, e os adventistas o ajudaram com isso. Por exemplo, quando ele visitou o colégio adventista, acompanhado de uma comitiva completa de repórteres e câmeras de TV, o colégio teve uma cerimônia de boas-vindas ao ar livre, na qual o diretor do colégio, em uma oração que foi transmitida pela TV, agradeceu a Deus por enviar o Pinochet para “salvar a nação”. As recompensas então concedidas aos adventistas incluíram o tão necessário credenciamento do colégio (o colégio tinha que estar ligado a uma das universidades do Chile, de modo que os estudantes adventistas tinham que fazer os exames estabelecidos pela universidade, e o colégio adventista não podia usar seu próprio programa pedagógico), a finalização da estrada para o colégio, e a reputação de amigos especiais do Pinochet. Mas me disseram que a maior parte dos membros se sentiu traída e constrangida com o que os líderes da igreja tinham feito. Eu não sei se isso levou adventistas a deixar a igreja, e eu não ouvi falar de nenhuma resistência contra o posicionamento dos líderes da igreja. Eu me lembro de entrevistar um pastor chileno cuja igreja era composta de ciganos. Os ciganos eram de classes muito baixas no Chile, e o pastor disse que os membros da sua igreja realmente odiavam serem conhecidos como amigos do Pinochet.

Revista Zelota — Você mencionou que na Argentina os líderes da igreja priorizaram observar o sábado ao invés de evitar treinar com armas de fogo — a ponto de concluírem que a Associação Geral não compreendia sua situação. Você pode nos contar mais sobre esse debate? O quão comum era esse posicionamento na América Latina?

Dr. Ronald Lawson — Em muitos países me disseram que foram as Testemunhas de Jeová que se recusaram a combater, e que perderam privilégios como resultado — adventistas queriam ter direito a possuir terras e operar hospitais e colégios, então eles se juntaram confortavelmente aos militares, já que isso lhes dava conexões e vantagens, e eles me asseguraram que os generais não lutavam em guerras, e sim se envolviam com política! Mas pouco tempo depois de eu ouvir essas coisas e deixar o país, a Argentina entrou em guerra com a Inglaterra pelo que ela chama de Ilhas Malvinas (e os britânicos chamam de Ilhas Falkland), e soldados e pilotos adventistas foram mortos em combate. Líderes da igreja orgulhosamente me contaram histórias de seu acesso ao governo militar, e disseram que “nenhum adventista desapareceu” durante os anos de ditadura militar (os adventistas que simpatizavam com as guerrilhas provavelmente não eram considerados adventistas de verdade). Eles reclamaram de sentir falta das vantagens que tinham tido com os generais (eles não tinham o mesmo acesso a governos democráticos por não serem grandes em número), e eles também reclamaram do novo poder dos sindicatos trabalhistas sob o regime democrático recém-restaurado. Então a liderança da igreja, mais uma vez, demonstrou seu conforto com os ditadores e seu desconforto com a democracia.

A história entre adventistas e militares passa por fases. Inicialmente, a primeira guerra foi a Guerra Civil Americana (1861-1863); adventistas eram bem contrários à escravidão, e a Guerra Civil tinha a ver com escravidão, mas os adventistas não participaram da guerra. Ellen White foi muito firme em relação a isso. Sua posição, assim como a posição da Associação Geral recém-nascida, era de que qualquer um que se alistasse na guerra seria excluído da igreja. Era tão importante para os adventistas não combater (não matarás e lembra-te do dia de sábado, mas como você pode guardar o sábado sendo um soldado? Não é possível) que eles se tornaram objetores de consciência na Guerra Civil Americana. No final do Século 19 há histórias de adventistas argentinos que se recusaram a serem recrutados e tiveram problemas, então ainda era uma posição generalizada. No Século 20, na Alemanha pré-Primeira Guerra Mundial, os adventistas se recusaram a fazer parte do exército, e foram penalizados por isso. Mas, assim que a 1ª Guerra estourou, a igreja alemã disse ‘eu vou lutar pela minha pátria’. E seus membros se tornaram soldados normais, e guerrearam — mesmo no sábado. Nos EUA e na Comunidade Britânica (Austrália, Nova Zelândia, Canadá, etc), os adventistas se tornaram não-combatentes. Eles queriam ser patriotas mas não queriam matar, então pensaram que se trabalhassem em coisas médicas eles poderiam trabalhar no sábado. Nós conseguimos que eles fossem treinados para fazer coisas médicas. Então eles conseguiam posições médicas e eram recrutados para o exército, mas tinham a permissão de serem não-combatentes e de não carregar armas. Mas ser um não-combatente tornou-se uma coisa de países anglófonos, já que os adventistas foram soldados regulares em outros países. A mesma coisa aconteceu na Segunda Guerra: novamente treinamos pessoas para serem médicas. Nos EUA, o treinamento era dado por militares em colégios adventistas. Sem dúvida você ouviu falar de Desmond Doss, o famoso não-combatente adventista. Mas na Alemanha nós guerreamos novamente. Lá a igreja disse ‘Podemos trabalhar em fábricas aos sábados, é pela Pátria’. Também houve contradições durante a Guerra da Coreia nos anos 50. Em 1954, uma sessão da Associação Geral passou uma resolução que tornava a não-combatência uma doutrina, aplicando-a portanto ao mundo todo. Mas ficou óbvio que isso não poderia ser feito em alguns países, então eles a retiraram e nunca a implementaram.

Então nós temos a Guerra do Vietnã. A Guerra do Vietnã dividiu muito a população dos EUA. Os adventistas também estavam divididos: alguns eram objetores de consciência e se recusavam a ter algo a ver com a guerra. Alguns outros (provavelmente a maioria) apoiavam a não-combatência, que se tornara o procedimento padrão desde a 1ª Guerra. Mas alguns estavam tão entusiasmados que se alistaram mesmo sem serem recrutados, então você teve todas as três categorias de adventistas na Guerra do Vietnã. Isso se tornou um assunto tão controverso que em 1971 a Associação Geral lavou suas mãos e disse “Nós não temos nenhum posicionamento quanto à guerra”. O recrutamento para a Guerra do Vietnã tinha terminado, mas os militares queriam soldados, e os adventistas podiam conquistar oportunidades educacionais dentro do exército, então eles começaram a se alistar. O problema é que todo presidente dos EUA, exceto talvez Carter, envolveu os EUA em uma nova guerra! Os adventistas achavam que estavam se alistando pelos benefícios educacionais, mas realmente acabaram guerreando. Agora não há posicionamento oficial da igreja quanto à guerra, o que significa que há adventistas guerreando e potencialmente matando uns aos outros.

Revista Zelota — Ao comentar as declarações da IASD sobre adventistas e armas de fogo, você usa principalmente exemplos dos EUA e da Europa. A América Latina, por outro lado, tem uma história de resistência contra injustiças cometidas pelo colonialismo e o imperialismo. Neste caso, a própria natureza da guerra mudaria, já que ela é promovida com o objetivo de libertar sua população — recentemente descobrimos que até Joseph Bates apoiava ativamente a Revolução Haitiana, por exemplo. Você acha que esse contexto exige uma abordagem diferente para o envolvimento entre adventistas e armas de fogo?

Dr. Ronald Lawson — Eu acho essa pergunta difícil. Para mim, a decisão de ser um objetor de consciência quando eu tive que me registrar no serviço militar da Austrália foi uma decisão pessoal importante. Eu apoio as ideias de protestos pacíficos, seguindo Gandhi e Martin Luther King — e, até onde entendo a Bíblia, Jesus. Mas tem ficado cada vez mais claro para mim quanto tempo protestos pacíficos podem levar para mudar situações opressivas, então não quero julgar outras pessoas. Eu estou te contando minha história pessoal, mas eu não acho que todos devem fazer necessariamente a mesma coisa. Devo acrescentar, no entanto, que eu suspeito demais de generais latino-americanos, dado o número de ditaduras e golpes militares que a região teve em todos esses anos. Eu também fico muito desconfortável com adventistas que desejam ser vistos como patriotas — eu não creio em patriotismo, eu sou um internacionalista. Eu acho que muito mal é feito em nome do patriotismo. Vejam, por exemplo, o que eu escrevi a respeito da Operação Whitecoat [Jaleco Branco] (durante a 2ª Guerra e a Guerra da Coreia): nessa época, a Associação Geral, lisonjeada com um pedido do governo norte-americano, encorajou recrutas adventistas a serem cobaias voluntárias em um programa que estava pesquisando armas biológicas. Já que não usamos drogas e coisas do tipo, seríamos amostras mais saudáveis e padronizadas. Então aí estava nossa igreja, que era dedicada a um estilo de vida saudável, encorajando seus membros a se exporem a Antrax e várias outras coisas biológicas que eles estavam considerando usar em armas. E tudo isso foi pelo patriotismo, para se sentir bem com o governo. O governo nos elogiou, e nós amamos ser elogiados pelo governo.

Vejam também o que eu escrevi a respeito da dor sentida pelos adventistas na Coreia do Sul; adventistas norte-americanos que estavam lá em combate encorajaram seus irmãos coreanos a serem não-combatentes como eles. Mas o governo não prometeu que eles poderiam fazer isso. Adventistas que se recusaram a usar armas no exército foram executados na linha de frente, e muitos outros foram presos por vários anos. Mas então a Associação Geral mudou sua posição a respeito do serviço militar em 1971. Na época da Guerra do Vietnã, quando a China entrou na guerra e o ditador militar da Coreia do Sul ficou preocupado com a China, ele disse que as universidades tinham que treinar seus estudantes com armas. A universidade adventista então teve que decidir entre treinar seus estudantes com armas ou deixar de existir, e escolheu treinar seus estudantes com armas. Isso foi, é claro, uma inversão total do que tinha ocorrido antes, e os coreanos que foram presos por se recusar a carregar armas ficaram muito feridos com essa experiência. Eu acho essa história muito triste, mas é o que aconteceu.

Revista Zelota — Houve histórias de objetores de consciência na União Soviética também?

Dr. Ronald Lawson — Sim. Mas o que aconteceu na URSS foi que a igreja se dividiu! Você tinha a igreja oficial e a igreja não-oficial. A igreja não-oficial se recusava a se envolver no treinamento militar, mas os membros oficiais da igreja treinavam. Então os “Adventistas Livres e Verdadeiros” foram para a prisão por muitos anos, já que se recusavam a combater.

Revista Zelota — Poderia nos dar um panorama rápido do posicionamento da IASD em relação ao apartheid da África do Sul, um regime de segregação racial violenta que durou décadas? O que você viu mudar — para o bem e para o mal — nesses últimos 20 anos?

Dr. Ronald Lawson — Eu estive na África do Sul pela última vez em 1999. Da mesma forma que eu estou me preparando para fazer algumas novas entrevistas no Brasil, para ficar a par do que aconteceu com a igreja daí nos últimos anos, eu estou no processo de tentar organizar a mesma coisa na África do Sul. Eu não sou capaz de avaliar os eventos após 1999. Mas o que eu posso te dizer é que a separação de adventistas por raça no país antecedeu o apartheid em muitos anos. Tudo era separado, e eventualmente houve duas uniões adventistas (uma união de brancos e uma de negros) que não se comunicava uma com a outra. Por exemplo, quando chegava a Recolta, a igreja branca coletava dinheiro dos brancos (muito mais ricos), enquanto na igreja negra o dinheiro vinha de pessoas negras mais pobres, então a igreja branca coletava muito mais dinheiro. Quem precisava de mais ajuda? Os negros. No entanto, a Recolta na época só ajudava os brancos, e não os negros, que eram muito mais necessitados. Eu também entrevistei um gay adventista cuja família, que era de fazendeiros, tratava os negros com dignidade, algo muito incomum na época do apartheid. O exército sul-africano da época era uma força completamente branca, cuja tarefa era combater os negros radicais que se rebelavam. Quando a pessoa que eu entrevistei atingiu a idade do recrutamento, ele sentiu que não poderia servir em uma força assim, já que ele simpatizava com os negros. Ele então abordou a igreja procurando seu apoio para ser um objetor de consciência. A igreja na Austrália tinha me dado tal apoio, mas a igreja sul-africana se recusou a honrar a consciência desse membro; em outras palavras, ele teria que entrar no exército e brutalizar os negros. Então ele deixou a IASD, amargamente desapontado com ela por não apoiar sua consciência, e migrou para o Canadá — e foi lá que eu o conheci como membro da Kinship SDA. Notem que as igrejas sul-africanas não eram forçadas a segregar — nem os católicos e nem os anglicanos segregavam. Mas nós já segregávamos antes do apartheid. A Associação Geral adventista eventualmente percebeu que a África do Sul estava recebendo tanta atenção internacional que manter a segregação poderia sujar o nome do adventismo, então ela entrou na história para forçar a integração no nível organizacional — eles não estavam forçando as igrejas a se integrar, elas poderiam permanecer segregadas, mas eles queriam fundir a estrutura e juntar as duas uniões. Isso inevitavelmente significava ter um presidente negro, pois havia muito mais adventistas negros que brancos. Então nós acabamos tendo uma igreja negra na África do Sul. Isso levou a alguns problemas organizacionais: pastores negros locais tinham muitas igrejas para cuidar, enquanto pastores brancos tinham às vezes uma única igreja. Mas eles recebiam a mesma quantia de dinheiro, já que as igrejas negras pagavam menos dízimos e portanto tinham menos para pagar por seus pastores. Quando a Associação do Cabo decidiu dar a cada pastor o mesmo número de igrejas, surgiram novos problemas: pastores brancos estariam encarregados de igrejas negras, onde os negros sequer falavam inglês! Eles falavam as línguas das suas etnias, então tudo tinha que ser traduzido.

Outra grande fonte de constrangimento foi que a Associação Geral estava dizendo “Vocês têm que se juntar organizacionalmente, vocês não podem ficar separados por raça”. Mas nos EUA as associações são separadas por raça! Nós temos associações negras aqui.

Durante minhas duas visitas à África do Sul, num intervalo de 13 anos, eu vi a dor de dessegregar o Helderberg College e as igrejas urbanas após o fim do apartheid — assim como as reclamações recebidas. Na primeira vez em que eu estive no colégio só havia três ou quatro estudantes negros — e eles eram proibidos de viver nos dormitórios. 13 anos depois o colégio tinha se integrado, e os brancos tinham saído dos dormitórios porque os negros estavam vivendo lá. Os brancos reclamavam que os negros eram barulhentos e não mantinham os banheiros limpos, então eles saíram para viver em apartamentos. Atualmente, Helderberg é basicamente um colégio negro. A maior parte dos pastores brancos deixou a África do Sul; eles foram para a Austrália e para a Grã-Bretanha.

Os adventistas só dessegregaram quando foram forçados a isso. Nós não o fizemos por abraçar a igualdade racial. Nós o fizemos porque fomos obrigados pela lei. A triste história da segregação e do atraso em sua resolução também causou grandes danos à obra adventista entre os brancos, que frequentemente não gostavam da dessegregação. Havia uma grande igreja adventista central que era famosa, porque nos anos 50 uma revista negra enviou uma equipe de reportagem até lá numa manhã de sábado — um fotógrafo branco e um repórter negro. O negro foi proibido de entrar na igreja. Eles o escoltaram para fora e basicamente o expulsaram da igreja, e o fotógrafo tirou fotos do evento que foram publicadas. Quando, muitos anos depois, a população negra recebeu permissão para viver em Joanesburgo, eles foram em grandes grupos para essa igreja, e os brancos não gostaram, porque a igreja ficava lotada, e eles tinham que sentar perto uns dos outros, e as mães simplesmente amamentavam seus bebês no meio da igreja, algo que os brancos não faziam. Então os brancos começaram a reclamar ao invés de lidar com a diversidade cultural. 

Esta é uma história triste, mas que precisa ser contada. Eu não reúno essas histórias para causar danos, mas porque elas precisam ser conhecidas. “A verdade vos libertará”.

Revista Zelota — Você relatou muitos exemplos de resistência organizada na comunidade adventista contra alianças institucionais com ditaduras de esquerda, que até levaram a divisões dentro da igreja, mas nenhum nas de direita. Há casos, especialmente na América Latina, que você não mencionou ou que não encontramos?

Dr. Ronald Lawson — Quando houve oposição ao posicionamento oficial da igreja, o que, até onde eu sei, só ocorreu na União Soviética e na Hungria, ela sempre veio de grupos conservadores que romperam com a igreja oficial por não gostarem dos acordos que foram feitos. Por exemplo, na Hungria o acordo envolvia não ter um colégio adventista, mas ter ministros adventistas trabalhando em um colégio ecumênico. Os adventistas conservadores não gostaram disso, já que eram “o remanescente” e tudo mais, então eles romperam com a igreja oficial. A mesma coisa aconteceu na URSS com os Adventistas Livres e Verdadeiros: eles eram “livres” e “verdadeiros” por não seguirem as instruções do governo, mas a igreja oficial tinha vantagens, podia existir, enquanto os Adventistas Livres e Verdadeiros foram postos na prisão. Então você precisa ser realmente fervoroso em suas crenças para enfrentar a igreja nesses casos.

Eu não tenho evidências de movimentos organizados ou objeções contra alianças da igreja com ditaduras de direita. O que recentemente chegou até mim é que houve adventistas envolvidos com as guerrilhas contra a ditadura militar de El Salvador, mas esse caso (e o da Guatemala) são o mais próximo que eu conheço de movimentos organizados de resistência.

Revista Zelota — Aqui no Brasil nós vemos muitos líderes da igreja engajados em uma demonização de visões políticas de esquerda ou marxistas, a ponto de ecoarem o macarthismo, que perseguiu muitos por suas posições políticas nos EUA durante a Guerra Fria. Como os adventistas lidaram com isso na época? A IASD endossou a perseguição injusta e violenta do macarthismo ou se posicionou contra ela?

Dr. Ronald Lawson — Não havia problema em ser um político de esquerda ou mesmo socialista nos EUA durante os anos 30 (Roosevelt até teve um vice-presidente socialista). Isso, é claro, mudou dramaticamente com a Guerra Fria contra a União Soviética e com a ascensão do macarthismo. Os adventistas ficaram em silêncio — eu não encontrei qualquer evidência de que eles tenham se pronunciado contra a perseguição conduzida pelo Senador Joseph McCarthy, no final da década de 1940 e nos anos 1950. Isso é estranho, e certamente triste. McCarthy estava fazendo com a esquerda política o que os adventistas acreditavam que logo aconteceria com eles, mas nós não o denunciamos. Esse é outro caso da dinâmica apontada por Otto Neimoller, em que cristãos permaneciam em silêncio enquanto os nazistas removiam outros grupos — até que os nazistas vieram buscá-los. Quando eu perguntei a pessoas que estavam na igreja na época, sua melhor explicação para isso foi que os adventistas estavam distraídos com as Conferências evangélicas — conferências entre adventistas e evangélicos que ocorreram nos anos 1950 — e com os efeitos colaterais do livro Questões sobre Doutrina (respostas dadas por adventistas aos evangélicos, onde doutrinas adventistas foram alteradas para serem melhor aceitas pelos evangélicos). Eu acrescentaria seu desconforto com a ideologia e os programas da esquerda, assim como seu foco interno e sua desconsideração oficial por política. Outros fatores foram os avisos de Ellen White contra o sindicalismo organizado, que estavam baseados em uma incompreensão das dinâmicas do conflito entre o capital e os trabalhadores nos EUA do fim do século 19, e o fato de que adventistas não vinham das fábricas, já que proletários de fábricas não tinham alternativa a não ser trabalhar no sábado, sendo inicialmente fazendeiros e, posteriormente, profissionais de saúde.

Revista Zelota — Em “A Evolução e os Problemas Atuais da IASD” você afirma que as razões para Ellen White desconfiar de sindicatos eram seu temor de que se comprometer com uma solidariedade do grupo pudesse comprometer a liberdade de consciência dos adventistas, o que é muito interessante, já que essas passagens de Ellen White são usadas frequentemente para classificar sindicatos como inerentemente malignos. Você poderia nos contar mais a respeito da sua visão? Qual é a relevância dessa posição para os adventistas de hoje?

Dr. Ronald Lawson — Enquanto eu era professor, eu sempre fui um membro do sindicato de professores. Eu dei aulas sobre o movimento sindical em minha disciplina a respeito de movimentos de protesto, e também escrevi sobre isso na Austrália, em meu livro Brisbane in the 1890s [Brisbane na década de 1890]. Eu penso que Ellen White estava errada a respeito dos sindicatos. Ela foi uma pessoa de cidades pequenas durante toda a sua vida — ela escreveu coisas ruins a respeito de cidades, encorajava que instituições adventistas fossem construídas longe das cidades, mas hoje nos EUA o adventismo é primariamente uma igreja urbana e suburbana. Ela foi claramente muito influenciada pelas histórias da violência causada pelos sindicatos, quando na verdade os trabalhadores estavam em sua maioria respondendo às estratégias violentas empregadas pelos proprietários das fábricas, ferrovias e minas — como contratar capangas para espancar os trabalhadores. Então a violência na verdade vinha de cima, e os trabalhadores estavam tentando se defender. Meu ponto foi que ela acreditava que, ao se juntar a um sindicato, se a maioria votasse a favor de uma greve, os adventistas não seriam capazes de seguir suas consciências individuais. Eu simpatizo sim com esse pensamento — fico feliz por nunca termos votado a favor de uma greve em meus 38 anos como professor, pois eu teria odiado deixar meus estudantes sem suas aulas. Mas a única forma de responder ao poder do patrão ou do proprietário de terras é agir coletivamente — disso eu não tenho dúvidas. Eu escrevi muito sobre inquilinos se juntando para enfrentar proprietários, e também falei muito sobre sindicatos, mas escrevi pouco a respeito. Eu sinto que, por trás do discurso de Ellen White sobre desistir da liberdade individual de consciência, também estava seu respeito pelos “direitos” de propriedade; ela era de uma cidade pequena, uma comunidade rural, onde há preocupações muito maiores com direitos de propriedade. Por trás do seu discurso também estava seu medo da violência pela qual os jornais culpavam as greves sindicais, além do fato de que os adventistas não eram trabalhadores nas fábricas, já que estes tinham que trabalhar no sábado. Como disse, eu penso que ela estava errada. Eu acho importante agir coletivamente, e acho que essa é a única forma de não ser explorado como trabalhador ou inquilino.

Revista Zelota — Em algumas ocasiões você lamenta o fato de que adventistas desconsideram os ensinos de Cristo ao votar em alguns políticos. De uma perspectiva geral, qual deveriam ser os princípios básicos seguidos por adventistas na escolha de um candidato?

Dr. Ronald Lawson — Seguindo os ensinamentos de Jesus, eu creio em olhar tanto para o caráter quanto para as políticas de um candidato. Por caráter eu quero dizer coisas como transparência, confiabilidade, a forma como ele ou ela trata as pessoas, etc. As políticas devem refletir cuidados especiais com os pobres (ou seja, não um foco em como elas nos impactam) e os necessitados, refugiados e outros “estrangeiros”, assim como os que enfrentam discriminação e maus-tratos, tais como a população LGBTQIA+; não ter dívidas com doadores ricos da campanha, não despejar verba no exército; uma preocupação com a mordomia do meio ambiente; reduzir desigualdades na sociedade, incluir a criação de oportunidades para a educação, o emprego e a moradia dos menos privilegiados; a liberdade religiosa é importante, mas não a liberdade dos religiosos de discriminar.

Revista Zelota — O papel do cristianismo na política está sendo discutido mais do que nunca atualmente. Alguns dizem que religião e política não devem se misturar de jeito nenhum. Você acha que é simples assim? É possível seguir os ensinamentos de Cristo e não se envolver com política? Se não, o que você pensa serem formas saudáveis ou nocivas de nos engajarmos com política?

Dr. Ronald Lawson — Quando eu estive na América Latina eu tive a oportunidade de falar para grupos de universitários adventistas em vários países, e todos ficaram muito interessados quando eu os encorajei a se envolverem com a sociedade, com política, etc. Ficou óbvio para mim que eles tinham sido ensinados a se separar, se isolar, e só se envolver com a igreja. Isso é tudo parte da posição adventista tradicional: dar foco somente ao alcance da igreja, e evitar se aproximar daqueles que não são do nosso grupo particular. Eu discordo totalmente dessa abordagem.

Os cristãos se dividem ao discutir se Jesus encorajava o envolvimento com questões políticas. Mas Ele vivia na Roma Imperial — uma ditadura brutal. Não havia oportunidades de se envolver, exceto através da violência. No entanto, quando somos parte de uma democracia nós somos convidados a participar. Eu creio que nós devemos fazer isso. Eu sou a favor de abandonarmos a introversão e a separação adventista, de pararmos de esperar por decretos dominicais que não virão, e ao invés disso aplicarmos nossa fé em seguir a Jesus — em fazer o bem. A caridade é casual e insuficiente — eu vivo no alto de uma colina onde todos são de classe média. Quando eu olho para baixo há um vale onde a população mais pobre vive. Eu não conheço essas pessoas pobres. Se eu acabar conhecendo algumas eu posso ajudá-las de modo caridoso, mas eu não posso ajudar todas elas, e meus vizinhos não precisam de ajuda. Caridade não cria justiça ou equidade. Então trabalhemos para mostrar o que significa ter o reino de Cristo entre nós, impactando o mundo. Asseguremo-nos de que estamos trabalhando para o reino e não confundindo líderes políticos com Cristo —necessidades políticas não devem nos amordaçar. Isso pode causar problemas se estivermos trabalhando para um governo como servidores civis e suas políticas se tornarem anticristãs, mas esses problemas potenciais não são uma desculpa para não lidarmos com contradições políticas. Nós somos chamados para fazer os sistemas sociais funcionarem. Nos EUA, muitos adventistas com uma melhor formação perceberam que as teorias da conspiração adventistas dificilmente vão se concretizar. Nós mal fomos perseguidos em nossa história!

Diferente das Testemunhas de Jeová, que foram perseguidas em todo o mundo. Os mórmons foram perseguidos no Século 19, mas nós evitamos a perseguição. Ao invés disso, nós precisamos nos envolver, e se o fizermos há mais chances de sermos perseguidos, já que agimos de acordo com nossas consciências. Nós também temos que ajudar a melhorar as consciências de nossos irmãos cristãos: muitos dos apoiadores do Presidente Trump nos EUA são evangélicos de direita.

Notas:

1. Zelota: US-AID é um órgão do governo estadunidense que distribui ajuda humanitária internacional. Apesar do caráter civil da agencia, representa um soft power nas relações internacionais.

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