Em novembro, na igreja da Universidade de Loma Linda, historiadores se reuniram para afirmar uma posição equilibrada sobre Ellen White, evitando os extremos que tendem a considerá-la como santa ou fraude
Por Jonathan Butler | PhD, estudou história da igreja estadunidense na Universidade de Chicago e produziu diversos estudos históricos sobre Ellen White e os adventistas do sétimo dia. Artigo traduzido do original em inglês por Felipe Carmo para a revista Zelota.
Há apenas dois anos, eles se reuniram em Angwin, Califórnia, para discutir sobre Ellen White. Para a Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD), seria difícil ignorar este grupo. Mais velhos e grisalhos do que um adventista típico, todos haviam escrito prolificamente sobre a senhorita White. Um deles — George Knight — havia escrito, editado ou contribuído para 96 livros sobre a história do adventismo, com estudos inovadores sobre a profetisa. E quase metade daquele grupo havia sido presidente de universidades adventistas.
Entretanto, todos eles chegaram à crença de que a profetisa que havia significado tanto para eles ao longo de suas longas e distintas carreiras já não prendia a atenção de muitos adventistas — especialmente da geração mais jovem. As velhas maneiras de explicar Ellen White e seus escritos não davam conta das evidências históricas. Conversando informalmente entre si durante as refeições, lendo rascunhos de artigos em reuniões e sonhando em voz alta com soluções para um problema, o grupo chegou a um livro: Reclaiming the Prophet: An Honest Defense of Ellen White’s Gift — disponível para download e em processo de tradução pela equipe de voluntários da revista Zelota, com a introdução da obra já disponível, e título em português Resgatando a profetisa: razões sinceras para crer no dom de Ellen White.
No início deste mês, na tarde de sábado (8), vários dos autores e o editor do livro, Eric Anderson, realizaram uma mesa-redonda sobre a obra na Igreja da Universidade de Loma Linda (LLUC). O pastor da LLUC, Randy Roberts, juntamente com a Adventist Today e a Spectrum, concordou em patrocinar o evento. Reunido em um dos novos auditórios da igreja, com capacidade para 350 pessoas, o público não apenas lotou o espaço, mas, em três dias, a transmissão ao vivo alcançou 5 mil visualizações. Larry Geraty, arqueólogo, administrador e membro da LLUC, abriu o programa agradecendo à igreja e à equipe por “correrem o risco” com esses autores. Embora nenhum organizador do evento tivesse certeza do que os palestrantes diriam, todos confiaram que o grupo falaria “com clareza e autenticidade” sobre Ellen White, ao mesmo tempo honrando a confiança que a igreja depositou neles.
Apesar de Resgatando a profetisa ter sido recebido com resistência em alguns setores — incluindo a Associação Geral e o White Estate — a Pacific Press se orgulha dessa “defesa honesta do dom de Ellen White”. Contrariando rumores desagradáveis, Anderson garantiu ao público que “o livro não foi proibido”, nem colocado em “um índice de livros proibidos”, mesmo que seus críticos mais severos desejassem. A editora apenas decidiu que seria sensato pausar sua circulação “até a tempestade passar”. Mas há toda a esperança de que a pausa seja temporária, disse Anderson. Como ele destacou, não é fácil restringir um livro hoje em dia. E, no que diz respeito especificamente ao Resgatando a profetisa, há muitos editores — sem falar em sites — que poderiam assumir esse projeto caso a Pacific Press não conseguisse seguir adiante com a circulação.
Diante de uma audiência amplamente simpática, os autores de Resgatando a profetisa ofereceram reflexões ponderadas, apelos apaixonados e momentos de humor irônico. Os “resgatadores” não tinham interesse em ser “repetidores”. Desde a década decisiva de 1970, quando tanto trabalho histórico-crítico foi feito sobre a vida e os escritos de Ellen White, a reputação da profetisa foi prejudicada entre os adventistas. Por sua vez, os autores de Resgatando a profetisa reconhecem que a pesquisa sobre Ellen White tem sido sólida e afastou a igreja de afirmações imprecisas. Embora fosse uma mulher espiritualmente dotada, ela também era um ser humano falho; se seus escritos inspiraram gerações, eles não eram inerrantes. Eles cobriam uma grande quantidade de temas valiosos, mas ela não era uma “especialista” em teologia, exegese bíblica, história ou ciência: ela frequentemente tomava conteúdo emprestado de outros autores que também podiam ser tendenciosos e imprecisos.
Os autores de Resgatando a profetisa não estavam interessados em revisitar essas pesquisas anteriores — muitas das quais eles próprios já haviam feito. Em vez disso, eles publicariam um novo livro.
Donald McAdams, historiador do início da modernidade que contribuiu com o capítulo “Turning Points” no livro, havia, de certa forma, inspirado o Resgatando a profetisa com seu estudo sobre os escritos emprestados de Ellen White para o capítulo sobre John Huss n’O grande conflito. O livro de McAdams, que surgiu quase 50 anos depois, foi Ellen White & the Historians: A Neglected Problem and a Forgotten Answer, de 2022. McAdams havia apresentado um argumento tão convincente sobre a dependência literária de Ellen White que os “resgatadores” sentiram que não era mais necessário repeti-lo. O que os interessava, naquele momento da vida da igreja, era outra pergunta, uma pergunta nova: Reconhecendo que Ellen White não era tudo o que os adventistas haviam afirmado que ela fosse, para onde vamos a partir daqui? Uma Ellen White retratada com precisão ainda pode desempenhar um papel no adventismo?
Ao longo dos anos, os adventistas têm frequentemente se inclinado a uma posição extrema sobre Ellen White: ou ela é canonizada como uma santa impecável e onisciente, ou é depreciada como uma farsante ou vigarista. Parece não haver um meio-termo em que uma pessoa extraordinariamente dotada, mas profundamente falha, possa servir à comunidade adventista. Gilbert Valentine, o mais produtivo dos pupilos de George Knight, comentou que um crítico de Resgatando a profetisa escreveu que é como se o livro levasse Ellen White ao salão de beleza e a deixasse “ajeitadinha”. Jonathan Butler, cujo capítulo trata sobre “o que defensores e detratores não entendem”, respondeu: “foi o White Estate que levou Ellen G. White ao salão; nosso livro insiste em tirar a maquiagem dela”.
Valentine falou sobre como W. W. Prescott, que ajudou a revisar a edição de 1911 d’O grande conflito, escreveu ao filho de Ellen White, William “Willie” C. White, reclamando das “impressões falsas sobre os escritos de sua mãe”. Na visão de Prescott, esses equívocos equivaleriam a “um engano”. Ronald Graybill, que passou 13 anos no White Estate falando e escrevendo sobre Ellen White, fez uma distinção entre a intenção deliberada de enganar e a omissão não tão sincera de informações para proteger a profetisa. Ele amenizou o clima do “engano” citando a sitcom americana Seinfeld, em que o personagem George Costanza diz a Jerry: “Não é mentira se você acredita.” Mas Prescott não teria achado graça. Ele via a IASD “à deriva em direção a uma crise”. Segundo Valentine, Willie White e a IASD em geral não atenderam ao alerta de Prescott. Em vez disso, os adventistas sustentaram uma “herança de mal-entendidos” sobre sua profetisa.
Corrigir mal-entendidos sobre Ellen White parece um passo positivo. Então por que a oposição a Resgatando a profetisa por parte de tradicionalistas e detratores radicais? Valentine disse ao público que Ellen White foi “idealizada, higienizada e depois canonizada”. Ele se referiu a uma “nuvem” — ou “auréola” — que a banha em luz. Os “resgatadores” foram acusados de retirar essa luz ou, de outra maneira, ignorar seu lado sombrio. Em uma comunidade adventista polarizada, quando se trata de sua profetisa, um meio-termo entre os dois extremos — deificação e denúncia — pode ser difícil de encontrar.
Anderson lembrou ao público que, em 1972, Rene Noorbergen, jornalista e autor holandês-americano, publicou Ellen G. White: Prophet of Destiny, que apresentava afirmações exageradas e infundadas sobre ela. Quatro anos depois, em 1976, o historiador e acadêmico Ronald Numbers publicou Prophetess of Health: A Study of Ellen G. White, que expôs a visão de Noorbergen sobre a profetisa como alguém totalmente inverossímil. O White Estate exaltou Noorbergen e detestou Numbers, e, em ambos os casos, eles estavam errados.
Por que nossa percepção deve ser “uma coisa ou outra” — preto no branco, por assim dizer — em relação a Ellen White? Ela precisa ser ou a mulher colocada no pedestal, ou a estátua caída, reduzida às cinzas? Quando Resgatando a profetisa apareceu pela primeira vez, ainda que brevemente, Gordon Bietz conseguiu um exemplar e exclamou, após lê-lo: “Eu amo este livro!” Ele havia passado cinco décadas servindo à IASD, 19 delas como presidente da Universidade Adventista Southern. Ele viu no livro uma Ellen White à qual os jovens adventistas que ele tão bem conhecia se sentiriam atraídos como profetisa.
Terrie Aamodt contribuiu para o livro com um capítulo sobre Ellen White enquanto mulher, oferecendo uma demonstração da promissora biografia da profetisa que Aamodt está atualmente escrevendo. Na visão de Aamodt, a chave para apreciar melhor Ellen White — para adventistas mais velhos e mais jovens — é explorar a vida que ela viveu. Quando Aamodt ministrava aulas universitárias sobre ela, descobriu que mergulhar profundamente na vida dela era benéfico tanto para si mesmo quanto para seus alunos. Na história de Ellen White, vemos uma mulher diante de desafios assustadores e como ela os enfrentou — sendo talvez o mais insuportável deles o chamado profético. Ellen White não era uma pessoa comum. Era excêntrica, mas talentosa, com um toque de mística. Lia sua Bíblia, orava constantemente e, embora pudesse ser difícil de lidar, também podia melhorar a vida das pessoas.
William James, professor de filosofia e psicologia em Harvard, foi contemporâneo de Ellen White. Ele escreveu um livro, The Varieties of Religious Experience, que poderia ter incluído Ellen White entre os visionários que estudou. Butler observou que James avaliava os visionários com base em suas “raízes” e seus “frutos”. Tendemos a nos deslumbrar com as “raízes” da profetisa adventista — os êxtases de Ellen White, suas visões sem fôlego, suas curas, sua clarividência. No entanto, ela não foi a única jovem em Maine chamando atenção por experiências desse tipo. A maioria dos outros visionários, porém, não produziu muito; suas “raízes” nunca cresceram ou floresceram plenamente. Por outro lado, as “raízes” de Ellen White, enquanto visionária, produziram uma abundância de “frutos” enquanto profetisa. Ela não apenas publicou um número impressionante de cartas, artigos, panfletos e livros, mas também apoiou a construção de instituições dedicadas à educação, saúde e medicina. Butler reconheceu que as “raízes” da vida de um visionário tendem a ser vistas como extraordinárias, até miraculosas; mas por que os “frutos” posteriores não deveriam ser vistos como seu próprio tipo de milagre?Anderson encerrou a mesa-redonda com uma referência apropriada a Christopher Wren. O arquiteto da St. Paul Cathedral, Wren, foi sepultado ali sob uma elegante placa que dizia (em latim): “Leitor, se você busca seu monumento, olhe ao redor.” Depois de passar uma tarde discutindo Ellen White, mais de cem anos após sua morte, não passou despercebido ao público que, cercados pelo campus da LLUC, pela igreja e pelo hospital, se estivéssemos buscando um memorial à profetisa, bastaria olhar ao redor.





