José Bates se posicionou veementemente contra a invasão do México pelos Estados Unidos, enxergando a agressão militar de seu país como um sinal profético e apocalíptico
Por Douglas Morgan | Doutor em História do Cristianismo pela Universidade de Chicago, foi parte do corpo docente da Universidade Adventista de Washington e da Universidade Adventista Southern. Ele é um editor assistente na Encyclopedia of Seventh-day Adventists. Suas publicações incluem Change Agents: The Lay Movement that Challenged the System and Turned Adventism Toward Racial Justice (2020), Lewis C. Sheafe: Apostle to Black America (2010), e um capítulo no volume da Oxford University Press, Ellen Harmon White: American Prophet (2014). Traduzido e adaptado do original em inglês para a revista Zelota. Republicado em colaboração com SPECTRUM: o periódico e website do Adventist Forum desde 1969. www.spectrummagazine.org
Os Estados Unidos estavam em guerra com o México quando José Bates escreveu que “o terceiro ai sobreveio a esta nação, esta terra que se vangloria por sua liberdade; este país que ousa desafiar o Céu, destrói almas, mantém escravos e assassina seus vizinhos!”
Essa denúncia surpreendente encontra-se em Second Advent Way Marks and High Heaps (“Marcos do Caminho e Grandes Montes do Segundo Advento”), uma exposição da profecia apocalíptica que Bates escreveu e publicou em 1847.1 Ela parece um golpe direto contra o patriotismo norte-americano, desferido por um dos cofundadores da Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD). Por quê? O que levou Bates a fazer uma declaração tão veemente? Que significado ela pode ter da perspectiva atual? Antes de considerar essas questões, é necessário tratar de outras duas: Quem foi José Bates? E como os Estados Unidos se envolveram em uma guerra contra o México em 1846?
Quem foi José Bates?
José Bates e a república norte-americana cresceram juntos. George Washington ainda estava em seu primeiro mandato como presidente quando José nasceu em Massachusetts, em 8 de julho de 1792. A Constituição e a Declaração de Direitos haviam sido ratificadas apenas três anos antes.2
Bates tornou-se marinheiro e registrou suas aventuras internacionais — como marinheiro, prisioneiro de guerra, capitão de navio e, finalmente, proprietário de uma embarcação — em sua amplamente apreciada Autobiografia (1868). Em 1827, pouco antes de deixar a vida no mar, organizou a Sociedade de Temperança de Fairhaven, unindo-se a um movimento dedicado a eliminar a origem de diversos males sociais, incluindo a pobreza, o crime e os abusos contra mulheres e crianças. Esse foi apenas o início de uma trajetória de reformas radicais que o conduziu ao movimento do Advento.
Essa trajetória revela um norte-americano que valorizava a promessa de liberdade e igualdade feita pela nação, mas ficava horrorizado ao ver como ela era traída na prática. Além disso, parecia que a maioria dos norte-americanos, fascinada pelo progresso da nação, não percebia — ou não se importava com — o que acontecia com as pessoas que eram usadas ou atropeladas nesse processo.
Entre suas várias atividades benevolentes e filantrópicas, Bates aproximou-se da Sociedade Norte-Americana de Colonização (American Colonization Society, ACS) e de seu programa para acabar com a escravidão nos Estados Unidos por meio da emancipação gradual das pessoas escravizadas e de sua deportação para colônias estabelecidas na África.
Sua perspectiva mudou depois que começou a ler The Liberator, o combativo jornal abolicionista lançado em Boston por William Lloyd Garrison, em 1831. Assim como os abolicionistas negros que o haviam precedido, Garrison argumentava que o gradualismo do projeto de colonização servia de fachada para perpetuar a escravidão e que o verdadeiro objetivo da ACS era livrar a república norte-americana de seus cidadãos negros livres.
Assim, Bates passou a sentir repulsa pela ACS e pela Sociedade Norte-Americana de Tratados (American Tract Society), devido à covardia desta última em se recusar a usar sua considerável influência, como importante organização interdenominacional, contra o sistema escravista. Em sua Autobiografia, Bates relata a reação violenta dos defensores do status quo em meados da década de 1830. Segundo ele, “os defensores da causa antiescravista eram maltratados e atacados por multidões em muitos lugares onde tentavam organizar reuniões ou realizá-las”, enquanto os apoiadores da colonização estavam “na linha de frente desse trabalho vergonhoso”.
Tudo isso colocou Bates diante de uma decisão:
Então comecei a sentir a importância de tomar uma posição decisiva ao lado dos oprimidos. Meu trabalho na causa da temperança havia provocado uma separação bastante completa entre mim e meus amigos, e eu sentia que não tinha mais ninguém de quem desejasse me separar; mas meu dever estava claro: eu não poderia ser um cristão coerente se ficasse ao lado do opressor, pois Deus não estava ali. Tampouco poderia reivindicar Suas promessas se permanecesse em terreno neutro. Portanto, minha única alternativa era defender o escravo, e foi isso que decidi fazer.3
Essa decisão confirmou Bates como um reformador radical — alguém que atacava a injustiça pela raiz, em vez de trabalhar por uma melhoria gradual e moderada. Ele foi um dos aproximadamente 40 indivíduos que, em 23 de abril de 1835, fundaram a Sociedade Antiescravista de Fairhaven, como auxiliar da Sociedade Antiescravista de Massachusetts. Eles se comprometeram tanto com a “abolição total e imediata” da escravidão quanto com direitos iguais para as “pessoas de cor”. Bates também apoiou outras causas radicais, incluindo os direitos das mulheres e a não resistência.
Para Bates, aceitar a mensagem do segundo advento proclamada por Guilherme Miller era mais um passo à frente na reforma radical, e não um afastamento dela. De fato, ele considerava a causa do Advento a “fonte de toda reforma”.4 Essa mensagem orientava a vida das pessoas para a vinda iminente de Cristo, que restauraria todas as coisas e reinaria pessoalmente sobre um novo mundo de paz e justiça.
Então, quando Cristo não retornou no tempo indicado por Miller, Bates, em 1846, tornou-se o primeiro dos futuros fundadores do adventismo do sétimo dia a romper radicalmente mais uma vez com as convenções estabelecidas. Ele se convenceu de que uma lealdade incondicional ao governo de Deus deveria ser demonstrada pela observância do sábado do sétimo dia — o sábado — e não pelo domingo, que o império evangélico norte-americano defendia como um baluarte de sua supremacia cultural. Bates usou o que restava de sua modesta fortuna para publicar uma série de pequenos livros, como Second Advent Way Marks and High Heaps — as primeiras publicações a defender o adventismo que guardava o sábado.
Qual foi a causa da Guerra Mexicano-Americana?
Uma análise rápida e simplificada: o democrata James K. Polk venceu a presidência dos Estados Unidos em 1844, concorrendo com uma plataforma agressivamente expansionista. Naquele momento, nenhum estado havia sido organizado a oeste do rio Missouri. Polk queria conduzir a nação ao cumprimento de seu suposto “Destino Manifesto”: a conquista de todo o continente americano.
O principal obstáculo em seu caminho era que aproximadamente metade das terras ocidentais que ele queria desenvolver — a região que se estendia, grosso modo, do Texas à Califórnia — ficava dentro das fronteiras de outra nação soberana: a República do México. Quando o México resistiu à pressão de Polk para vender essas terras, ele transformou um pequeno conflito ao longo da fronteira disputada entre o Texas e o México em uma narrativa de escandalosa agressão mexicana e pediu uma declaração de guerra. O Congresso atendeu ao pedido, e a invasão norte-americana do México começou em maio de 1846.5
O terceiro ai?
Para Bates, porém, a guerra fazia parte de um drama muito mais amplo. Ela parecia ser o cumprimento de uma profecia apocalíptica: “Então vi e ouvi uma águia que, voando pelo meio do céu, dizia com voz forte: ‘Ai! Ai! Ai dos que moram na terra, por causa do som das outras trombetas que os três anjos ainda vão tocar!’” (Apocalipse 8.13).6
Bates concluiu que a guerra era um sinal de que havia chegado o “terceiro ai”, que aparentemente ocorreria imediatamente antes da sétima e última trombeta, a qual anunciaria o reinado eterno de Cristo (Apocalipse 11.14-15). No entanto, isso claramente não era uma questão de cálculo racionalista e distanciado, a ser traçado em um quadro profético com a satisfação de ter decifrado mais uma parte do código. Era um lamento profético. Bates continuou escrevendo, aparentemente tendo em vista a primeira grande vitória norte-americana, ocorrida em Monterrey, em setembro de 1846.
O que significam estas cidades iluminadas, o estrondo dos canhões, o repicar dos sinos e as comemorações por toda a nação? Será porque Cristo está vindo para estabelecer aqui Seu reino eterno? Oh, não. É o Te Deum da nação em homenagem à grande vitória obtida por nossos valentes assassinos — pois seriam considerados assassinos em todos os casos, até que fossem autorizados pelos governantes escolhidos pelo povo.
A respeito da guerra de modo geral, Bates continuou:
O que fizeram? Ora, mataram ou assassinaram milhares a mais de seus vizinhos do que o número dos seus próprios compatriotas que foram mortos. Devastaram o país deles por 1.900 quilômetros, dispersando seus vizinhos por cavernas, florestas e montanhas […] E dizem que toda a nação está em estado de anarquia, confusão, aflição e revolução!
No meio do parágrafo, Bates passa a tratar do que impulsionava aquela agressão assassina:
O que causou essa grande comoção? Ora, dos cerca de 7 milhões de escravos existentes no mundo cristão, nós, neste continente, podemos nos gabar de possuir cerca de 6 milhões. Nossos vizinhos, os mexicanos, alguns anos atrás decidiram obedecer a Deus, quebrando o jugo de seus escravos. Isso foi demais para a nação mais esclarecida debaixo do Sol suportar. Então ocorreu uma revolta e, finalmente, tomamos deles parte de seu território. Daí veio toda essa devastação e esse massacre.7
Abolicionistas como Bates entendiam que a escravidão era a principal força por trás do fervor expansionista e bélico. Mais Estados escravistas seriam criados a partir do território conquistado, consolidando o domínio desse sistema sobre toda a economia e o governo da nação.
A guerra foi uma revelação grotesca da falsidade e da hipocrisia completa da alegação norte-americana de ser uma “terra de liberdade”. Para Bates, porém, esse ainda não era o pior aspecto da situação. Na edição de 25 de dezembro de 1846 do The Liberator, ele leu sobre uma conferência metodista em Nashville, no Tennessee, que homenageara o general Zachary Taylor, comandante do Exército de Ocupação, e outros “bravos oficiais que estão conquistando louros no campo de batalha”.8
Ao expressar sua opinião, Bates — o que, a essa altura, não surpreende — não poupou palavras ao falar dos principais heróis militares da nação:
E uma parte da igreja que se declara cristã, nesta terra que se vangloria por suas Bíblias e convertidos, realizou uma convenção e, em seu zelo por Deus — como diriam — escolheu o principal assassino, juntamente com alguns de seus principais associados, e os tornou membros honorários vitalícios da Sociedade Missionária Metodista. Isso significa ajudá-los a converter o mundo.
Isso aconteceu antes da última grande batalha. Não sabemos que honras os professos seguidores do Príncipe da Paz lhes concederão por esse último e horrível massacre sanguinário de seres humanos. Mas o Diabo, sem dúvida alguma, instruirá seus religiosos eleitores sobre como continuar honrando e apoiando esses seus amados irmãos na causa missionária!9
Discernimento apocalíptico
A linguagem de Bates era sarcástica, severa, extrema e julgadora. Contudo, concentrar-se principalmente nisso ou rejeitar sua mensagem por causa dessas características talvez seja uma forma de evasão.
Também é verdade que Bates era “exagerado”, até mesmo em comparação com alguns de seus companheiros adventistas, quando se tratava de enxergar o cumprimento de profecias bíblicas em tudo o que observava. A Guerra Mexicano-Americana de 1846–1848, por mais historicamente significativa que tenha sido e continue sendo, logo foi eclipsada por convulsões ainda mais catastróficas. A ideia de que ela era o “terceiro ai” previsto em Apocalipse 8 foi efêmera.
Ainda assim, a imersão na profecia apocalíptica parece ter aguçado a capacidade de Bates de discernir tanto as maneiras pelas quais a fé cristã é violada quando usada para abençoar a agressão imperialista quanto a forma como os mais elevados valores norte-americanos são igualmente subvertidos. Embora sua interpretação tenha falhado como previsão, as Escrituras apocalípticas fortaleceram e ampliaram sua voz de protesto e resistência.
Quando a Bíblia é invocada para santificar um autoritarismo militarista de maneira mais explícita do que nunca; quando o Secretário de Defesa/Guerra dos Estados Unidos, ao orar no Pentágono por auxílio divino em uma ação militar contra o Irã, pede uma “violência avassaladora contra aqueles que não merecem misericórdia” e o faz com “ousada confiança no poderoso e grandioso nome de Jesus Cristo”, o legado da crítica apocalíptica de Bates a uma guerra norte-americana escolhida pela própria nação chega até nós com uma relevância renovada e perturbadora.
Notas:
1.↑ Joseph Bates, Second Advent Way Marks and High Heaps, Or, A Connected View, of the Fulfilment of Prophecy, by God’s Peculiar People, From the year 1840-1847 (New Bedford, MD: Benjamin Lindsey, 1847), 89, ênfase acrescentada; texto completo em Ellen G. White Writings, https://text.egwwritings.org/book/b973.
2.↑ Estudos biográficos de Bates incluem: George R. Knight, Joseph Bates: The Real Founder of Seventh-day Adventism (Hagerstown, MD: Review and Herald, 2004; Godfrey T. Anderson, Outrider of the Apocalypse: The Life and Times of Joseph Bates (Mountain View, CA: Pacific Press, 1971); Kevin M. Burton, “Joseph Bates and Adventism’s Radical Roots,” Adventist Review, March 4, 2020, https://adventistreview.org/magazine-article/joseph-bates-and-adventisms-radical-roots/, accessed June 28, 2026; and Douglas Morgan, “Bates, Joseph (1792–1872),” Encyclopedia of Seventh-day Adventists, November 28, 2023, https://encyclopedia.adventist.org/article?id=88Y2, accessed June 24, 2026.
3.↑ Autobiography of Elder Joseph Bates (Battle Creek, MI: Steam Press of the Seventh-day Adventist Publishing Association, 1868), 237.
4.↑ Autobiography, 262.
5.↑ Um recurso valioso e acessível sobre a guerra é “Continent Divided: The U.S. – Mexico War,” UT Arlington, https://sites.libraries.uta.edu/usmexicowar/, accessed June 28, 2026.
6.↑ Bates, Second Advent Way Marks and High Heaps, 88.
7.↑ Bates, Second Advent Way Marks and High Heaps, 89.
8.↑ “What Next?,” Liberator, Dec. 25, 1846, 4.
9.↑ Bates, Second Advent Way Marks and High Heaps, 89-90.





