Embora tenham surgido como resposta ao racismo enfrentado por adventistas negros nos Estados Unidos, as associações regionais permanecem no centro de um debate sobre segregação, representatividade e o futuro das relações raciais dentro da igreja


Por Andrew Francis | Traduzido e adaptado do original em inglês por André Kanasiro para a revista Zelota. Republicado em colaboração com SPECTRUM: o periódico e website do Adventist Forum desde 1969. www.spectrummagazine.org

A Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD) tem muito pelo que se orgulhar em sua resposta a várias questões de justiça social na América do Norte, como seus fortes laços com o abolicionismo. Mas, infelizmente, nossa igreja tem muitas manchas em seu passado quando o assunto é raça. Embora o adventismo, assim como a sociedade moderna, tenha passado por um processo de amadurecimento para superar a discriminação racial e étnica, as marcas do racismo ainda são proeminentes, especialmente na Divisão Norte-Americana (NAD), com seu sistema de dez associações regionais — conhecidas informalmente como “associações negras”.

No dia 21 de fevereiro, R. Clifford Jones, ex-presidente da Associação Regional Lake e diretor aposentado do Colégio de Teologia da Universidade Oakwood, deu uma palestra chamada “A experiência afroamericana no adventismo”, na IASD de White Plains, em Nova York. Em sua apresentação, ele explicou em detalhes a história do adventismo negro e da criação de associações regionais. Associações regionais são agrupamentos de igrejas em que predominam membros, pastores e administradores negros ou de outras minorias étnicas, algo que só é encontrado na NAD.

As alternativas a associações regionais são as associações estaduais, ou “associações brancas”, que, ao longo do século 20, costumavam ser melhor estabelecidas e ter mais recursos que as associações regionais, embora as associações regionais cobrissem um território maior. As associações regionais foram criadas para “missão”, disse Jones, de modo que adventistas negros tivessem espaço adequado para congregar e evangelizar comunidades de negros e outras minorias sem terem que se preocupar com o preconceito de líderes e membros brancos.

Subsequentemente, as associações regionais ofereceram ainda mais benefícios aos adventistas negros com o desenvolvimento do Plano de Aposentadoria de Associações Regionais, que foi criado para dar mais suporte a obreiros após alegações de que o plano de aposentadoria da NAD era desigual. As associações regionais também têm oferecido apoio administrativo e financeiro significativo à Universidade Oakwood, a única universidade historicamente negra do adventismo.

Segundo o Relatório estatístico anual da Associação Geral (AG) para 2024, entre as 57 associações da NAD, as dez associações regionais contêm quase um quarto dos 1,2 milhão de membros. A Associação Nordeste, a maior associação regional, tem mais de 63.000 membros, e é a quarta maior em toda a NAD. Agora, ela está prestes a ser dividida em duas associações regionais — a Nordeste e a Atlântico Norte — para se adaptar após décadas de crescimento significativo no número de membros. A comissão executiva da União-associação Atlântico aprovou unanimemente a reestruturação, que, agora, só precisa de autorização da NAD.

Embora partam do mesmo princípio (“separados, mas iguais”) que a segregação considerada legal pela Suprema Corte dos EUA no caso Plessy v. Ferguson (1896) — e depois derrubada no caso Brown v. Board of Education (1954) —, as associações regionais foram claramente uma necessidade na história da IASD. Essas associações e seus líderes já estiveram em desvantagem quando comparadas às instituições dos brancos, mas essa dinâmica se inventou, visto que o evangelismo para minorias e o crescimento de membros fizeram das associações regionais uma posição praticamente majoritária. As associações regionais continuam a crescer, em parte devido à entrada de imigrantes caribenhos, africanos e latino-americanos em territórios da NAD. Isso deixa várias perguntas difíceis a serem respondidas pelos adventistas:

  1. Será que o adventismo/a NAD promovem segregação racial ao manter o sistema de associações regionais?
  2. Por que associações regionais, algumas das quais superaram associações estaduais devido ao seu crescimento e eficiência, deveriam querer se unir a associações estaduais?
  3. Visto que a representação igualitária em associações, uniões, divisões e na AG são uma preocupação para muitos, será que fundir essas associações pode piorar a situação? 
  4. Será que a NAD e outras instituições da IASD fazem o suficiente para reconhecer e enfrentar os problemas contemporâneos de justiça social que afetam tantos em sua membresia cada vez mais diversa?

Segregacionistas do sétimo dia

A Bíblia deixa claro que segregação, preconceito e racismo não têm lugar no reino de Cristo; Gálatas 3.28 e Mateus 25.31-46, por exemplo, são evidências diretas disso. Além disso, para quem dá mais valor aos escritos da pioneira adventista Ellen G. White, seu Manuscrito 6 também reforça esse princípio: “Eles [os negros] devem ser membros da igreja junto com os irmãos brancos.”

White, no entanto, voltou atrás nesse sentimento, escrevendo no Manuscrito 24 que “pode ser aconselhável” que os brancos trabalhem e ministrem para os seus enquanto os negros fazem o mesmo, devido a complicações inevitáveis causadas pelo racismo. Ambas as afirmações, feitas em 1891, antecipam a separação eventual de congregações e associações por raça, algo que seria considerado necessário para que o adventismo conquistasse seu sucesso entre diferentes culturas. Fosse ou não possível fazer isso sem associações segregadas, será que ainda existe algum motivo válido para que esta segregação persista atualmente na NAD?

Abraham Jules, ex-presidente da Associação Nordeste, uma associação regional, e presidente da União-associação Atlântico, acredita que manter a separação entre associações estaduais e regionais é necessário devido à persistência do racismo.

“Houve uma época em que o racismo e a segregação eram gritantes,” disse Jules. “Eu não acho que seja tão gritante, mas o coração das pessoas ainda pode ser racista, embora suas ações sejam amáveis. Então eu não posso julgar ninguém, mas acredito que, estatisticamente, num mundo e país tão racista, ainda existem pessoas racistas na igreja.”

Jules acrescentou que, com a presença de atitudes racistas dentro de congregações negras e brancas, a integração geraria conflitos que seriam distrações para o crescimento da missão e da IASD. Embora essa crença prevaleça em meio a muitos adventistas negros, nem todos acham que a integração é impossível. Jones disse que a continuidade da separação e segregação de associações tem sido um constrangimento para o adventismo.

“Eu tive professores [em universidades não adventistas] que me diziam não entender como negros podiam pertencer à IASD,” disse Jones. Eles acreditavam que o adventismo é “estruturalmente racista”, devido a como as associações permanecem separadas por raça. Como os adventistas, independente de sua raça, podem aceitar o fato de que os teólogos de outras denominações consideram nossa igreja inerentemente racista?

A evolução da cultura de igrejas étnicas

Algo em que muitos, incluindo Jules e Jones, provavelmente concordam é que forçar igrejas locais a se fundir com outras não é a receita do sucesso. As diferenças culturais entre estilos de culto em igrejas diferentes, frequentemente ditadas por preferências ou tradições, já representam complicações o suficiente para congregações de composição étnica similar, mesmo sem incluir culturas muito diferentes.

Percepções atuais dentro da IASD moderna suscitam ainda mais perguntas sobre factibilidade da integração. Jones aponta que, devido ao crescimento das comunidades negras e de outras minorias na NAD, as associações regionais estão longe de serem inferiores a suas contrapartes estaduais, com muitas até ultrapassando as associações estaduais em métricas financeiras e evangelísticas. Essas estatísticas suscitam questionamentos sobre a factibilidade e a necessidade de integração.

“Você vai ouvir nossos líderes negros dizerem que essa estrutura contribui para o crescimento e o sucesso,” explicou Jones. “No que lhes diz respeito, a missão está sendo cumprida, e eles acreditam que os brancos só querem fundir as instituições porque estão morrendo. Por isso, estão como loucos, segurando-se em tudo que podem para sobreviver.”

Tal sentimento estava claro em meio ao público da palestra de Jones, dizendo que “eles [os adventistas brancos] precisam de nós” e se beneficiariam mais com a integração que os adventistas negros.

Além disso, Jules mencionou outra preocupação: a de que uma possível fusão entre associações estaduais e regionais poderia custar a identidade dos negros e sua representação equitativa na IASD, já que a NAD, em sua opinião, é dominada por líderes e igrejas dos brancos. Essa mesma dominância pode persistir em associações integradas.

“Se vamos fundir as associações só para ter uma associação unificada, vejamos como fazer isso. Vejamos o quão prático seria fazer isso. Vejamos o quão benéfico isso seria para diferentes comunidades. Para mim, não seria nenhuma dessas coisas,” disse.

Poder pastoral e representação

Além de considerações culturais, qualquer possível integração entre associações estaduais e regionais provavelmente significaria perda de poder para muitos administradores de associações. Além do crescimento estagnado do cristianismo branco, muitas associações estaduais já não são mais dominadas por congregações brancas, com grupos e congregações de imigrantes tornando-se cada vez mais comuns em seus territórios. Simona-Mills Pitcher, capelã associada da Universidade Andrews, diz que algumas comunidades dentro das associações estaduais, assim como das regionais, “são ligadas pelo idioma”, o que torna a integração mais difícil de se conquistar. Tais considerações levaram a apelos para que a liderança da IASD fosse mais representativa da composição étnica de seus membros ao invés de manter a dominação de líderes brancos.

“Nós até poderíamos nos integrar. Mas, quando olho para a AG, eu vejo que não estou representada,” disse Pitcher, falando como uma ministra afrocaribenha.

No entanto, embora Jones reconheça a importância da representação, ele sugere que a igreja precisa “reformular toda a nossa teologia de serviço”, priorizando a missão ao invés do acúmulo de poder. Ele fez referência à história em Marcos 10.35-45, onde dois discípulos de Jesus quiseram ser colocados em posições de poder e foram repreendidos por Cristo.

“O que importa nisso tudo é servir, espalhar o evangelho e apressar a vinda do nosso senhor e salvador Jesus Cristo,” disse Jones. “Não importa essa história de ‘eu sou o primeiro, você é o primeiro’. Não tem nada a ver. O que importa é o serviço.”

Encontrando o “caminho melhor”

Durante a apresentação de Jones na IASD White Plains, ele reforçou as afirmações de Ellen White e de Calvin Rock, pastor negro aposentado e escritor, de que a segregação adventista vai continuar “até que o Senhor nos mostre um caminho melhor”. Tanto ele quanto Pitcher acreditam que, como o reino de Deus será integrado, nossa igreja deve tentar seguir o mesmo modelo.

Muitos, no entanto, ainda resistem à integração e questionam sua necessidade. A história do racismo no adventismo tem raízes profundas — foi o que tornou as associações regionais necessárias em primeiro lugar —, e agora muitos membros e líderes de minorias ficam incertos e desconfiados quanto a qualquer possível colaboração ou integração com organizações dos brancos.

Parte do motivo para a persistência dessa desconfiança é algo em que Jules, Jones e Pitcher concordam: as associações estaduais, a NAD e a AG não dão a devida atenção a questões de justiça social e racial.

“Não estou satisfeito com o que fazemos,” disse Jules. “Sou grato pelo que estamos fazendo, mas acho que podemos fazer muito mais, e muito melhor.”

Jules acredita que a integração de associações estaduais e regionais dentro da mesma união, como é o caso da União Atlântico (presidida por ele), dá espaço o bastante para que o ministério seja feito interculturalmente.

“Ainda somos um. Operamos sob as mesmas políticas, o mesmo tipo de distribuição, as mesmas doutrinas,” disse Jules. “Não há nenhuma diferença, exceto que há uma oportunidade para os negros governarem a si mesmos, cuidarem de suas comunidades e servirem a elas. Mas e essas pessoas que nos querem sendo ‘governadas como um’, por assim dizer? O que elas querem conseguir com isso?”

Embora Jones seja um proponente da integração entre associações regionais e estaduais, ele reforçou a importância de ensinar ministros nas universidades adventistas a considerar as necessidades das comunidades que servem, dependendo de cultura e ambiente, seja este urbano, suburbano ou rural.

Pitcher afirma estar otimista quanto à divisão étnica e cultural dentro do adventismo, que estaria diminuindo com base nas tendências dos líderes mais jovens. “Estou otimista porque essa geração fala mais e mais rápido. Em outras palavras, eles têm tecnologia para expressar seus pensamentos muito mais rápido que na minha época e em gerações anteriores,” disse Pitcher. Ela enfatizou que o ministério moderno terá que encontrar formas de permanecer relevante e sustentável enquanto tenta fortalecer parcerias entre culturas e associações diferentes.

Embora exista algum mérito em esperar que Deus apresente um caminho melhor, ainda pode levar muito tempo até que todos os adventistas norte-americanos achem que a integração é um objetivo necessário e biblicamente sólido a se buscar.