Entre o moralismo evangélico e a pornografia algorítmica, a polêmica de Andressa Urach não emprega o tabu do incesto como ruptura, e sim como repetição lucrativa de um imaginário conservador travestido de transgressão


Recentemente, vimos a criadora de conteúdo adulto Andressa Urach voltar a ser alvo de debate nas redes sociais e na mídia brasileira ao anunciar a gravação de um vídeo de conteúdo adulto com seu filho, Arthur Urach, de 20 anos, em uma plataforma digital de assinatura. A publicação feita por Urach no início de janeiro repercutiu rapidamente, gerando reação do público e colocando a ex-participante de reality shows no centro de uma polêmica envolvendo limites éticos na produção de conteúdo adulto e a exposição familiar on-line.

De acordo com os primeiros relatos, Andressa afirmou que a produção se deu a pedido de seus assinantes e garantiu que o vídeo estava disponível para consumo exclusivo na plataforma em que ela divulga seus materiais. Urach defendeu sua postura publicamente, argumentando que todas as atividades seriam legais e consensuais, e citou referências bíblicas, mencionando que “até a Bíblia mostra relações entre parentes em contextos históricos” na tentativa de relativizar o julgamento público.

Andressa Urach teve uma ligação com o evangelicalismo no passado: ela se converteu à fé evangélica, em particular à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), no início de 2015, depois de uma experiência de quase morte, e chegou a atuar no meio evangélico antes de distanciar-se de instituições formais e revisitar sua relação com fé e espiritualidade depois de 2020.

A polêmica ganhou ainda mais atenção após a divulgação de uma nota oficial da equipe jurídica da influenciadora, na qual foi negada a existência de prática criminosa e foi esclarecido que a acusação de “incesto” não se aplicaria estritamente ao caso conforme a legislação vigente. Urach, que já havia sido criticada no passado por declarações divergentes sobre o tema — incluindo afirmações de que jamais gravaria com o filho, “nem que lhe pagassem milhões” — viu esse trecho de sua trajetória ressurgir como ponto de debate.

No entanto, não há nada de verdadeiramente transgressor no fato de uma produtora de conteúdo adulto encenar o incesto. O choque que isso produz é superficial, quase automático, e por isso mesmo extremamente funcional. O escândalo não está no excesso, mas na repetição. Não se trata de um desejo que explode limites, mas de um desejo que gira sempre em torno dos mesmos signos, dos mesmos papéis, dos mesmos roteiros. O que aparece como radical é, na verdade, profundamente conservador do imaginário.

O incesto, tal como mobilizado aí, não é experiência, nem risco, nem desvio real. É um signo saturado, um operador narrativo de alto rendimento, uma palavra-chave que ativa afetos previsíveis. Pai, filho, família não funcionam como relações vividas, mas como etiquetas semióticas aplicadas a corpos disponíveis. Nada escapa, nada deriva, nada se inventa. O desejo não se move para fora; ele é reconduzido, mais uma vez, à célula familiar como matriz universal de inteligibilidade.

Quando entra em cena o dado de que essa criadora foi evangélica, algo se ilumina com nitidez desconfortável. Não como explicação psicológica, nem como narrativa de “queda” ou “vingança contra o passado”, mas como continuidade estrutural. O campo evangélico — especialmente em suas formas mais moralizantes — é uma máquina extremamente eficaz de organizar o desejo a partir da família, da filiação, da autoridade, da pureza e da culpa. Aprende-se ali, desde cedo, que o corpo é um problema, que o prazer é perigoso e que todo desejo deve ser narrado, examinado, confessado. O desejo não é apenas regulado; ele é encenado.

Nesse universo, o incesto ocupa um lugar central, mesmo quando nunca é nomeado. Ele é o limite absoluto, o ponto de horror silencioso que estrutura todo o resto. Tudo faz sentido porque isso não pode acontecer. O desejo aprende a se organizar em torno desse limite, a reconhecê-lo como fronteira máxima do pensável. A família torna-se o teatro fundamental do bem e do mal, da obediência e da queda.

Quando esse mesmo corpo migra para a pornografia incestuosa, não há ruptura com essa lógica. O que muda não é a estrutura, mas o regime de valor. O pecado perde o nome, mas conserva a função. O interdito não desaparece; ele é convertido em fetiche. O que antes produzia culpa agora produz engajamento. A cena permanece a mesma. Apenas troca-se o sermão pelo algoritmo.

Não se trata, portanto, de libertação do desejo, mas de sua redistribuição. O desejo não é reprimido; ele é conduzido. Ele continua girando em torno da família, da origem, do pai, do filho, do limite. A moral evangélica e o capitalismo pornográfico não são opostos; eles se encaixam com precisão inquietante. Ambos precisam do tabu. Ambos vivem da intensificação do limite. Ambos transformam o desejo em cena, em espetáculo, em dramaturgia reconhecível.

O problema disso tudo não é moral. Não é “ir longe demais”. É não ir a lugar nenhum. O desejo não encontra outros corpos, outras alianças, outros ritmos, outras formas de vida. Ele permanece preso a um circuito fechado, reciclável, previsível. O choque é administrado, o gozo é roteirizado, a transgressão é planejada. Tudo funciona perfeitamente — e é exatamente aí que reside o empobrecimento.

No fim, o incesto pornográfico não revela um desejo desmedido, mas um desejo domesticado. Um desejo que só sabe se excitar quando reconhece papéis antigos, quando repete a mesma cena sob outra luz, quando retorna incessantemente ao mesmo núcleo. Não há fuga, não há fora, não há invenção. Há apenas circulação. Intensa, lucrativa, exaustiva. Um desejo que se move muito, mas não se transforma. Nada mais tedioso que pornografia, e dá pra dizer a mesma coisa sobre uma certa cena de teatro progressista, mas essa é outra história…