Por Jonathan Monteiro | estudante de engenharia florestal, criador e curador de conteúdo digital, podcaster e membro do conselho editorial da revista Zelota.

O relato foi, originalmente, publicado pela revista Senso.

Olá! Sou Jonathan, o gay e adventista. Nasci num lar, onde a Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD) diz ser um lar de julgo desigual, minha mãe adventista, meu pai sem vínculo a qualquer instituição religiosa e sou adventista desde o meu nascimento.

Hoje, quando rememoro a minha infância me lembro de como já sinalizava minha sexualidade. Aos 6 anos, eu beijava o Júnior (irmão da Sandy) na revista da Avon. Mas o fenômeno mais marcante na minha infância foi a perda da minha mãe, aos meus recém completos 9 anos.

Tendo crescido na IASD, aprendi transversalmente a me reprimir. A denominação tem ensinamentos conservadores: família monogâmica e heterossexual. Aos 13 anos, não fazia ideia o que era ser gay, mas sabia que eu era um “menino que gostava de meninos” e assim começou a saga.

Aos sábados pela manhã, temos na IASD um momento que se chama a Escola Sabatina, e nesse momento eu era da Classe dos Adolescentes. Lembro-me da professora em uma das aulas falar que enquanto nós não abríssemos mão das coisas do “mundo” Deus não atenderia nossos pedidos, nesse momento meu coração gritava: ME CURA, SENHOR! Nesse momento abri mão das divas Beyoncé e Lady Gaga e dei espaço ao que à época foi meu mantra: Cura-me, da Fernanda Brum.

No ano seguinte, passei a crer que o que eu vivia era uma batalha espiritual e nós aprendemos que é no jejum e oração que se vence. Nem consigo definir quantas foram as madrugadas de oração e jejum em busca de “santidade” e “transformação” da minha sexualidade.

A IASD oficialmente não prega salvação pelas obras, mas o inconsciente da membresia acredita que ao abandonar alguma prática ou passar a fazer alguma outra, você está ganhando ponto com Deus: não tome café, não use joias, não vá ao cinema, renuncie sua sexualidade. Pois é, caí na lenda. Fui batizado e nada mudou. Continuo gay, amém!

Aos 15 anos, eu me aventurei e entrei no Badoo e conheci um rapaz de 17 anos (quem carinhosamente vou chamar de Meu Primeiro Amor). Foi nessa época que eu passei a buscar por “meninos que gostavam de meninos” no google e aprendi que, no meu caso, sou gay e foi meu primeiro confronto com a minha orientação sexual e meu senso comum. Ser gay não era o que eu aprendi vendo na TV ou mesmo o que as pessoas falavam que somos, ou seja, “algo” nojento e que deva ser combatido, ou “coisas” de pessoa de mal caráter. Eu não me sentia nojento, mal caráter, muito menos alguém que devesse ser combatido.

Agora que eu tinha o conhecimento do que é ser gay comecei a procurar “gay adventistas” e conheci a Seventh-day Adventist Kinship (SDA Kinship, no Brasil chamamos apenas por Kinship), uma organização de apoio e suporte de adventistas e ex-adventistas que são LGBTQIA+ e que estavam passando ou passaram pelo mesmo que eu. Continuei a pesquisar e conheci um outro site adventista (que eu achava que era oficial) e que demonizava a Kinship, eu cortei quaisquer laços com a irmandade porque nos é ensinado a não manter filiação com ensinos “dissidentes”.

Você deve estar então se perguntando por que iniciei falando do Meu Primeiro Amor se homossexualidade era algo a ser combatido nas comunidades religiosas. Eu acreditava, pasme com minha limitação, que era o único gay e adventista e não tinha com quem falar sobre homossexualidade e o lugar onde eu sabia que tinham outros “meninos que gostavam de meninos” era no Badoo.

Eu tive que tomar a frente dos cultos de quarta-feira da minha igreja, pois os responsáveis simplesmente abandonaram suas atribuições e não havia quem as fizessem e assim comecei a desenvolver meus dons ministeriais. Depois me votaram pra ter alguns ministérios na igreja, aos 15 anos pois reconheciam o meu talento.

Janeiro de 2013, comecei a conversar com Meu Primeiro Amor e perguntar as coisas, tirar dúvidas e claro, me apaixonei por ele. Apesar de ele à época morar bem perto da minha casa, conversamos por 6 meses sem nos vermos.

Nesse período, comprei o livro De Bem com Você, de Sueli Braga Nunes e Marcos de Benedicto, que era lançamento da Casa Publicadora Brasileira, a editora adventista no Brasil.  Provavelmente você já deva ter ouvido falar desse livro para adolescentes por ter sido usado como livro paradidático no Colégio Adventista de Correios, em Belém-PA, como referencial para avaliação de Língua Portuguesa.

O livro chegou e comecei a lê-lo, descobri que havia o capítulo Erros na contramão, sobre “homossexualismo”. Qual o conteúdo? Apresentar a homossexualidade como uma opção, desvio de comportamento, possíveis causas, não-normalidade, busca distorcida por afeto, além de falar de “cura” e dicas para evitar o “homossexualismo”. E longe de ser o único livro da denominação a falar sobre o tema dessa forma.

Novamente voltei, ou melhor, tornei minhas campanhas de oração na madrugada e jejuns muito mais frequentes e intensos em busca da cura, libertação e perdão de Deus. O livro apresentava que “se é pecado, tem perdão” e eu queria o perdão de Deus. Já não aguentava viver mais com aquele sentimento de condenação e de que se eu morresse sem esse perdão não encontraria minha mãe no Céu. Foi quando a crise se tornou muito mais forte, porque o livro apresenta que uma das causas da homossexualidade seria viver cercado por mulheres e com a morte da minha mãe, minha vida ficou cada vez mais cercada por mulheres, sempre fui muito apegado à minha irmã, minhas tias estavam aqui sempre e eu comecei a culpar tudo e todas internamente por ser o motivo da minha perdição.

Finalmente chegou julho, conheci Meu Primeiro Amor pessoalmente. Levei-o pra fazer a matrícula no mesmo local onde eu também fazia curso. Recordo-me que minha mão suava, minhas pernas tremiam e eu morria de medo de alguém me ver com ele e achar que tínhamos algo, mal apertei a mão dele naquele dia. Começamos a estudar no mesmo local e o que eu mais aguardava naquele semestre eram as terças-feiras, que ele sentava ao meu lado no ônibus e me contava tudo que ele estava aprendendo na faculdade.

(Pen)Último evento que fiz na igreja. Planejei por 9 meses, para ficar o mais perfeito possível. Ele seria o último evento que faria, pois a partir dali eu viveria minha sexualidade publicamente e me tornaria um ativista. A Cruz com tecido azul foi motivo entre alguns membros pois azul não representa o sangue de Cristo. Ao fundo, propositalmente, a representação tem a volta de Jesus, que é algo que tentaram tirar mim: o Céu.
O sorriso que escondia a tristeza e ansiedade, no dia seguinte eu iria ver pela primeira vez, pessoalmente o meu Primeiro Amor. Eu me encontrava totalmente confuso, devido a crise de crença e afetividade. Ninguém notava meu conflito.
Oração de dedicação ao Senhor, na Igreja Adventista do Sétimo Dia de Seropédica – RJ. 1997.

Chamei-o para ir a minha igreja, pois como havia lido no livro precisávamos nos arrepender desses “desejos pecaminosos”. Morria de medo do que as pessoas da igreja iriam achar de eu estar com um rapaz na igreja. “Será que vão descobrir que eu gosto dele?” ou “que sou gay?”. Propositalmente cheguei atrasado com ele para ter certeza que ninguém iria vir falar com a gente e saímos mais cedo pelo mesmo motivo. Não contei a ele o motivo e cada dia o amava mais.

Lembro-me do dia que pedi pra irmos mais cedo para o curso pois queria me declarar para ele, mas me tremia tanto, mas tanto que até sentado me tremia e não consegui falar. Foi quando tomei a decisão que para o “nosso bem” era melhor eu desaparecer da vida dele.

Para lidar com esse sentimento, após a decisão fiquei cada vez mais igrejeiro, mais ativo nas atividades da igreja (o que amo até hoje), mais jejuns, mais orações, mais e mais e mais e mais check-in list para ser santo, puro e casto.

Em uma dessas vigílias da madrugada, chorando e implorando a Deus por cura – ao som de Recomeçar da Rafaela Pinho – simplesmente o mundo parou e ouvi Deus falar comigo “Eu te aceito. Eu te fiz assim” e a paz reinou em meu coração, uma leveza, e começou a tocar Quero Adorar da Suelen Maia. Vivi por uns meses em paz até novamente voltar a me questionar sobre ser uma criação da minha cabeça. Resultado: me isolei.

Passados quase 2 anos, em 2015, conheci o meu amigo Pedro, que também é gay, e começamos a conversar até termos segurança um com o outro e falarmos de nossa sexualidade. Ele, até então adventista, começamos a nos descobrir como “gay e adventista”. Agora eu já não me sentia mais o único assim na igreja, éramos eu, ele e mais dois amigos dele.

No segundo semestre de 2016, Pedro me apresentou a página do Facebook Adventista Subversivo, a qual iniciou uma série sobre a Homossexualidade e a Bíblia, com uma teologia afirmativa. Esse período estava sendo minha última tentativa de cura gay, estava sofrendo muito, tinha acabado de viver minha decepção amorosa e voltei às campanhas de oração e jejum, dessa vez eu não estava só, erámos eu, Pedro e o Claudio Jr. que tinha acabado de se tornar meu amigo.

Em 2017, eu já não aguentava mais essa dor que sentia por causa disso tudo. Não aguentava os cochichos de que eu namorava o Pedro, sendo que eu era BV, celibatário e acreditava que nunca teria relação alguma com alguém. Até que eu fiz um compartilhamento sobre um soldado (homoafetivo) que tinha conseguido autorização para se casar fardado – que não tinha o objetivo de sair do armário, mas de uma experiência ruim que vivi no alistamento –  porém os membros da igreja, que nunca haviam nem curtido nada do que eu tinha postado ao longo de todos os anos, naquele momento eles se sentiram corajosos para falar o que sentiam e pensavam, foram ataques terríveis, mensagens no WhatsApp e eu passei acreditar que eu estava errado e que precisava mesmo de cura. Eu acreditei que iria para o inferno (e adventista nem acredita em inferno). Estava na sala de aula na hora e só chorava por conta do que eles diziam a mim nos comentários.

Nos dias que se seguiram, comecei a estudar o que a crença dizia sobre inferno e vi que não iria ser condenado por ser gay, mas talvez pelos sentimentos ruins que estava sentindo por conta das pessoas que comentaram. Eram elas que eu via todos os domingos, quartas e sábados, cantando, pregando e orando. Era difícil lidar com as pessoas que me deram uma condenação e elas estarem falando, orando e cantado de um amor a Deus e ao próximo que não conseguiram me dar e também estavam me tomando.

Ainda estava em busca de respostas e novamente o meu mundo parou em um desses momentos de clamor, e eu nem me lembrava mais do primeiro e Deus não só repetiu como acrescentou “Eu te aceito. Eu te fiz assim. Eu tenho bons pensamentos para ti”, a paz voltou. Criei, em 2017, o Gay e Adventista que ao longo dos anos vim compartilhando tudo que fui descobrindo sobre Teologia Inclusiva, Afirmativa, Queer, diálogos no meio adventista do sétimo dia. Sofri mais perseguição por parte da IASD, pastores e membros, mas hoje estou leve e em paz com Deus.

Hoje sou consciente de que podem coexistir minha orientação sexual e minha fé, que a IASD está longe de ser uma igreja afirmativa da diversidade. Que celibato tem que ser escolha para quem acredita que aquilo tem que ser o certo para ela, mas que eu não acredito que esse é o ideal de Deus para mim. Que Deus me deu um ministério para cuidar dos LGBTQIA+ e assim tenho feito desde 2017. Sou membro de uma Igreja Adventista do Sétimo Dia (OFICIAL, ISSO MESMO, OFICIAL) que afirma a diversidade, onde os pastores me dão suporte, amor e acolhimento, que proporcionam não só a mim, mas a TODES segurança e momentos do que é viver um pedacinho do Céu em uma comunidade aqui na Terra.

Querida igreja, sou Jonathan e quero dizer que nós existimos e que sobrevivi! Gratidão aos que me ajudaram a chegar até aqui. Mas, infelizmente, alguns não sobreviveram. A morte é, não só física, mas também é mental e espiritual. O inferno que não cremos tem sido real aqui na Terra.

Querida igreja, até quando patrocinarás a morte das pessoas iguais a mim? Até quando sacrolegalizarás o preconceito?