Andar por Havana, e conhecer adventistas em Cuba, foi como observar mundos que se sobrepõem e disputam espaço, asfixiados por décadas de bloqueio
Uma frase veio à lembrança quando recebi a oportunidade de viajar para Cuba, em novembro de 2024: “que coisa estranha é o açúcar, senhor Colombo; ele contém tantas lágrimas, e ainda é doce.” Quem a proferiu foi a própria ilha, narradora e protagonista do filme Soy Cuba (1964), de Mikhail Kalatozov, e me soou como pergunta retórica levemente irônica. O açúcar cubano — principal commodity da ilha por séculos — era de fato doce para o mundo, mas certamente amargo para quem o produziu, sob as condições em que era fabricado, para o benefício da espoliação estrangeira.
Boa parte do filme carrega o mesmo sentimento — que erroneamente também carregava comigo: assim como magnatas exploraram uma jovem prostituta nos becos de Havana, ou como empresas estrangeiras assaltaram um camponês de sua terra, tenho a impressão de que quem vai a Cuba almeja despojá-la de alguma forma, seja material ou ideologicamente. A ilha, envolta por um véu de mistério, figura como ambiente político exótico, cujos segredos só podem ser desvendados por quem vive lá, ou viaja a passeio. Quem vem de Cuba estaria esclarecido, com espólios suficientes para dar e vender a seus pares ideológicos.
Este texto é o meu espólio, mas espero que seja agridoce, senão amargo. Trata-se de uma tentativa de expressar, de forma mais ou menos coerente, as memórias, anotações, fotos e sentimentos que colhi dos adventistas cubanos que conheci enquanto estive na ilha. Até porque doce jamais foi a melhor definição para a realidade cubana, principalmente se disso depender a aprovação estrangeira. A autenticidade é preferível às definições refinadas e importadas. Ou, como diria José Martí, líder revolucionário cubano atemporal, “El vino, de plátano; y si sale agrio, ¡es nuestro vino!”1
Traição e desconfiança
Quando viajei a Cuba, fui a convite da organização da Minga Ecumênica, que ocorreu entre os dias 25-29 daquele mês e ano, organizado pelo Centro Memorial Martin Luther King Jr. (CMLK), sediado em Havana. Me senti minúsculo entre mais de 120 representantes de movimentos e organizações ecumênicas, e ainda menor ao presenciar o comprometimento do grupo com a luta por direitos à vida e à subsistência dos povos na América Latina e Caribe. Estava representando os editores da revista Zelota em companhia do camarada Bruno Reikdal, também editor.
Quando cheguei, não havia água no estabelecimento, e a energia, me informaram, ia e vinha com alguma periodicidade. Não por acaso. Antes de mim, a ilha foi visitada por dois furacões: o furacão Oscar, em 20-21 de outubro no leste do país, e o furacão Rafael, no dia 6 de novembro no oeste; tudo isso após o colapso da principal usina da ilha — a central elétrica Antonio Guiteras —, no dia 18 de outubro, devido à deterioração de sua infraestrutura e à burocracia para exportação de petróleo, dificultada pelas crescentes sanções estadunidenses.
Mas eu estava em Cuba, conhecida pela cultura de resoluções criativas às dificuldades impostas. Tomei um banho de balde, usei o celular como espelho para me barbear, comprei um cartão da operadora estatal ETECSA — a 0,08 centavos de dólar, que me disponibilizaria uma hora de internet —, e fui imediatamente ao Google Maps com as palavras-chave: Iglesia Adventista del Séptimo Día (“Igreja Adventista do Sétimo Dia”). Para minha surpresa, havia uma congregação a 20 minutos de onde me encontrava. Por não ter acesso ao pacote de dados móveis na ilha — como qualquer cidadão antes de 2018 — rabisquei um mapa e decorei o caminho até a congregação. Estava prestes a conhecer os adventistas cubanos.
Andar por Havana é experimentar exatamente o que foi descrito pelo romancista e jornalista cubano Leonardo Padura Fuentes; é visitar simultaneamente “muitas cidades no tempo e no espaço”.2 Dois momentos em especial saltam aos olhos em meio à movimentação urbana: Cuba vibrante e, então, decadente. Os edifícios, os automóveis, as praças, tudo ao redor agrega duas utopias que se acreditaram possíveis e disputam espaço. A primeira, Havana exótica, o bordel dos EUA, a “Nice da América”. A segunda, Havana proletarizada, o lar do Homem Novo do socialismo, racional, otimista, indiferente às festas e amigo do progresso.
Depois de caminhar por uma rua mais ou menos lamacenta, avistei o que seria a Igreja Adventista de Marianao, que parecia reunir esse sentimento dúbio de realidades que se sobrepõem: uma construção que tentava flertar com o neogótico do século 20, datada e carente de ajustes estruturais. Mesmo o automóvel em frente ao templo, provavelmente um Lada 2106 — produzido na União Soviética na década de 1970 —, possuía peças que não correspondiam à sua época.
Ansioso, cheguei mais cedo do que deveria naquele vórtice espaço-temporal, junto com o primeiro ancião: vulgo Miguelito — como ele insistia ser chamado e lembrado. O timing não poderia ter sido melhor. Miguelito serve àquela comunidade por décadas e ainda carrega vívidas as memórias mais traumáticas da congregação, que remetem aos anos imediatos à Revolução Cubana, algo entre as décadas de 1960-1970. Entre risos, o ancião afirmou ser “o fundador da igreja”; não sei se em tons exagerados, ou se de fato havia ajudado a erigir o templo.
Como não havia quase ninguém na igreja, tive tempo para conversar. Ao me identificar como jornalista, Miguelito esgueirou-se em minha direção e apoiou o cotovelo no banco. Olhar fixo à porta e à nave da igreja, o ancião queria segredar algo, embora não houvesse ninguém ali. Como quem me revela um segredo de Estado, Miguelito descreveu o terror que experimentou em Cuba após a revolução. Ele testemunhou, a princípio, o sentimento otimista dos adventistas para com o socialismo, mas destrinchou especialmente a “traição” do governo; contou como pastores e pregadores leigos foram perseguidos e presos; sobre a maneira pela qual igrejas e campanhas evangelísticas eram vigiadas pela “patrulha do Castro”; e, acima de tudo, como o governo socialista repudiava a religião e “fingia”, atualmente, pacificar seus preconceitos. Miguelito acreditava que, em tempo oportuno, eles revelariam suas reais intenções novamente.
Sábio conselheiro, o ancião me olhou de cima pra baixo e ordenou: “Não pergunte a nenhum jovem sobre a repressão do governo, porque eles não sabem! Eu estou aqui desde 1954, eu sei o que aconteceu. O carro da patrulha do Castro ficava parado na frente da igreja até o final do culto,” exclamou o ancião enquanto apontava à entrada da igreja. Após a conversa, me peguei olhando para aquela porta e imaginando um grupo de revolucionários à espreita — prontos para me apanhar ao sinal de qualquer pensamento antirrevolucionário.
Fugi antes. Tinha outros compromissos, e não assisti ao culto. Havana é uma cidade grande. Me despedi de Miguelito e prometi voltar na próxima semana. A caminho do alojamento do CMLK, tive tempo para refletir sobre meus pecados, e concordei que é razoável àquele velho cubano sentir-se traído, até hoje. Principalmente por conta da existência de um sentimento, entre os adventistas cubanos, de desconfiança em meio a sucessivos desacordos.
De fato, como Caleb Rosado3 já havia explicado à Spectrum, vários adventistas “simpatizaram com os revolucionários e os ajudaram clandestinamente”. A exemplo de Argelio Rosabal — vulgo “el pastor” —, que ofereceu cuidados clandestinos a Ernesto Che Guevara e outros combatentes em Sierra Maestra, no início da revolução. Mesmo Rosabal experimentaria o gosto amargo de possíveis ingerências revolucionárias: parece ainda necessário detalhar o motivo de seus filhos serem acusados de agenciar prostitutas e, por isso, terem a casa expropriada pelo governo; parece também urgente restaurar — caso ainda não tenha ocorrido — a lápide de seu pai, que foi depredada no contexto das acusações.
A princípio, o gesto de Rosabal foi a evidência de que o exército revolucionário precisou para afirmar solidariedade à instituição. No confronto final pela conquista da ilha, Guevara e seus combatentes foram novamente auxiliados por eles, encontrando acolhida no Colégio da União Antilhana, em Santa Clara. Meses após a vitória, o guerrilheiro teria dito que “entre os adventistas e a revolução existe uma velha amizade”. E, sobre o colégio, o próprio Fidel Castro teria afirmado que “a revolução estabelecerá muitas escolas como esta, em Cuba”. Infelizmente, em 1967, em meio a um clima de desconfianças entre o governo cubano e o ensino privado, o colégio foi expropriado pela revolução e deixou de funcionar.Mas esse mundo de Miguelito não existe mais, embora o ancião ainda reviva seus conflitos. Aquele mundo tinha sua própria lógica, coerência, e direcionava a piedade do ancião enquanto adventista frente às ingerências da revolução — como reconheceu Fidel em célebre entrevista ao frade dominicano brasileiro Frei Betto.4 Graças a testemunhos como os do pastor Humberto Noble Alexander na Spectrum,5 o mundo de Miguelito foi exportado, consumido e reproduzido como narrativa sobre “a realidade do adventismo em Cuba” até hoje. Mas é impossível ir à ilha e afirmar isso sem flertar com a neurose. É preciso sussurrá-la a um jornalista estrangeiro, a fim de que a tradição seja continuada, e aquele mundo se sustente.




Desilusão e desistência
Andar por Havana, aliás, é também explorar um campo de guerra conquistado. Entulhados no chão estão os destroços da “Nice da América”, onde se finca, vitoriosa, uma bandeira revolucionária. Tive a impressão, enquanto passeava, de que tudo ao redor remetia à revolução, não apenas como memória, mas como palavra de ordem! O nome dos comércios, das ruas, as estátuas, os pontos turísticos, o cardápio do restaurante, tudo parecia comemorar, rememorar e, ao mesmo tempo, exigir reverência e coerência para com os ideais revolucionários.
Esse teatro não me pareceu ser apenas útil a propósitos turísticos — atividade do setor privado e individual que mais seduz a entrada do capital estrangeiro,6 para a qual, até 2024, deveria-se destinar ao menos 40% dos investimentos da ilha. Ele também serve para inculcar nos cidadãos que o sentimento ainda perdura, e que não há espaço para outras bandeiras. Passeando como turista nesse palco, tive a sensação de que a ilha possui um sentimento único, ordenado e coerente.
Já com os joelhos doendo, o único local em que percebi sentimentos mais complexos e contraditórios foi o Museu Nacional de Bellas Artes de Cuba. Quando o visitei, acho que me deti entre duas a três horas, impressionado com a pluralidade da arte cubana e sua audácia, que parecia desafiar tudo o que a cidade ao seu redor esbravejava. A arte cubana — mesmo sufocada pela crise econômica — ao longo das últimas décadas, se caracteriza por uma capacidade de adaptação, experimentação e crítica, articulando tradição, sociopolítica e influências internacionais.7
Sabe-se que, desde os anos 1990 — o “período especial” —, o fracionamento dos estratos sociais só aumentou. O Estado, embora tenha se demonstrado eficiente, não foi capaz de garantir aos indivíduos os meios necessários para uma vida digna. A fragilidade dessa relação resultou em um sentimento de desolação, um apocalipse anunciado, que ainda estimula a migração da população, em grande parte aos EUA — especialmente jovens brancos, com formação técnica ou universitária,8 por questões financeiras, e não político-ideológicas, como no passado. Já parece existir, inclusive, a estimativa de que 1 a cada 10 cubanos vivem no exterior. Esses sentimentos de desilusão e abandono precisavam ser expressos de alguma forma para além dos traços rígidos e otimistas da arte soviética.
A arte política e pedagógica dos anos revolucionários parece ter sido superada pela angústia social-psicológica e o desejo de fuga. Falo como leigo sobre dois artistas que expressaram respectivamente ambos os sentimentos, e me servem como exemplo. Antonia Eiriz (1929-1995), artista havanense, enfatizou a figura distorcida e cenas carregadas, envoltas em uma atmosfera opressiva. Uma crítica que ousou reivindicar o mal-estar e o desespero desde os primeiros anos da revolução. Aquela estética expressionista expunha as tensões sociais de Cuba, por meio de figuras grotescas e composições caóticas. Parecia também haver alguma denúncia contra a violência simbólica, o sofrimento coletivo, a alienação e as contradições do discurso revolucionário.
Mais impressionantes, recentes e didáticas são as obras de Alexis Leyva Machado (Kcho), artista natural da Isle of Pines, com um hiperfoco em barcos para aludir ao desejo de fuga, de saída, recorrência desesperada à migração, exílio e precariedade. Usando materiais simples como madeira, remos e embarcações improvisadas, ele expressa tanto o desejo de fuga quanto a vulnerabilidade dos que atravessam o mar, e uma sensação horrível entre esperança e desespero, sem uma crítica explícita ao projeto socialista.
Movido por esse sentimento artístico de rebeldia, voltei à igreja de Marianao para desobedecer o conselho de Miguelito: falar com os jovens. Tive a sorte de abordar, na época, o diretor desse departamento, Félix Soler Caballero, fotógrafo de 55 anos — um adolescente comparado ao ancião. Após o culto JA, como havíamos combinado, o diretor me esperava à porta, como quem espera por uma coletiva de imprensa. Terno alinhado, postura ereta e sorriso estampado, Félix consentiu responder qualquer questão que eu tivesse sobre o adventismo em Cuba.
As respostas de Caballero eram bem articuladas. O pragmatismo sempre justificado pela piedade religiosa de quem fala em nome de uma igreja que não possui nenhuma ambição mundana, a não ser a comissão cristã. O confronto com o projeto socialista, as “tensões” do passado — conforme definiu —, para ele, tudo foi superado, e não é digno de aprofundamento. A igreja coopera com o governo no âmbito das ações sociais, e, comparado às dificuldades do passado, “melhorou cerca de 80%”.
Para o diretor de jovens, as dificuldades mais urgentes são outras, e não têm caráter socialista. Ele lamentou, por exemplo, que “a igreja se esfria porque não há transporte”, em referência à falta de gasolina. A falta de luz e de água também atrapalha a frequência dos membros na igreja, e faz com que os jovens busquem “distrações carnais” ao invés de atividades espirituais. Assim, há esforços para que a igreja ofereça programações convidativas, e que haja o devido acolhimento comunitário nas Casas Culto — pequenos grupos caseiros evangelísticos que se reúnem para reuniões religiosas informais, onde se concentra o núcleo das relações comunitárias adventistas em Cuba.
Satisfeito com a conversa, já à noite, decidi voltar ao CMLK, mas fui interceptado por Miguelito e outro rapaz, um recém-converso que o acompanhava. Eles se ofereceram para me guiar por um caminho mais rápido até meus aposentos. O rapaz, que mais tarde se apresentou como Henry Valero Pedroso, camareiro de 45 anos, servia à igreja como secretário da escola sabatina. O caminho que deveria durar 20 minutos me custou quase o dobro do tempo, intercalado entre conversas indistinguíveis entre a dupla, e outras em que pude participar, quando eles se deixavam compreender. Henry e eu acompanhamos Miguelito até a porta de sua residência e seguimos o restante do caminho de papo furado.
Henry era muito mais despojado, informal; ria das minhas piadas ruins e do meu espanhol sofrível. Falava sempre com muita emoção e convicção, naturais para um recém-batizado. Ele parecia opinar de uma perspectiva mais humilde, de quem se esforça para ser grato um dia após o outro. Dada a insuficiência do Estado, o dever do cristão neste momento seria “fixar os olhos em Cristo”. Ele mesmo costuma passear pelas ruas de Havana com um fone de ouvido, sempre escutando adoração. Também posta diariamente no status de seu WhatsApp frases de efeito e autoajuda cristã; daqueles que enfatizam o espírito guerreiro do crente frente às tribulações cotidianas. Enfatizou mais de uma vez que críticas ao governo são irrelevantes, seja ele eficiente ou não, já que as autoridades são instituídas por Deus e não pela vontade humana.
Concluiu me explicando que a vida do cristão se resume a três atividades: “igreja, Casa Culto e estudo”, como referência à adoração, a comunhão entre os irmãos, e o fortalecimento das convicções. “Não nos envolvemos em temas políticos, mas mantemos nossa visão em Cristo. Claro, somos humanos, passamos necessidade, há muita fome, mas o governo está bloqueado por todos os lados”, Henry explicou, já se despedindo em frente ao alojamento do CMLK.
Após um final de tarde com novos conhecidos, o sentimento que me chamou a atenção foi o de um bunker. Tive a sensação de que o horizonte utópico dos membros se restringia à manutenção da comunidade, onde se refugiavam como um abrigo antibombas. A “tribulação”, a falência das condições básicas para a vida, não poderia ser superada pela igreja ou pelo Estado — que estaria esgotado de resoluções e convidava as instituições religiosas à cooperação. Ambos, povo de Deus e Estado, permanecem bloqueados e se articulam em condição de emergência para sustentar o “gozo da salvação”, isto é, o desejo de continuar fiel em um mundo colapsado.
Todos os meus amigos cubanos, no entanto, concordam que muitos não suportam as provações. Eles lamentam a migração massiva de líderes e pastores, e a dificuldade de realocar novos representantes. Não por motivos ideológicos, mas unicamente porque “não têm grana”, como me explicou Miguelito. O êxodo é, sem dúvida, o maior impasse no crescimento da igreja em Cuba. No período especial, entre 1998 e 2003, ela perdia ao menos 1,500 membros por ano.9 Entre 2021 e 2023, 44 famílias pastorais deixaram a ilha, isto, é ⅓ dos ministros que lideram em vários níveis administrativos. Tais condições afetam diretamente o funcionamento das comunidades e neutralizam o número de batismos.




Remamos em comunidade
Após dois dias de caminhada por Havana, era hora de ir ao evento do CMLK, objetivo principal de minha viagem. Por aproximadamente 4 horas, observei pela janela do ônibus os mais variados cenários ao longo dos 150 km de estrada para Varadero — uma estância balneária da ilha. Na região de Matanzas, por exemplo, a vida era mais pacata, e as famílias pareciam esbanjar tempo livre nas praças públicas. O eco do brado revolucionário ainda era audível nas fachadas das indústrias, comércios, escolas e quaisquer outros edifícios em destaque.
Aos poucos, surgem no horizonte áreas reservadas com resorts e outros tipos de construções luxuosas. O grito revolucionário se extinguia até desaparecer por completo enquanto nos dirigimos a um “hotel cinco estrelas”. Aspas porque, para a realidade da maioria dos cubanos, era muito mais do que isso. Anexado a ele, estava a porção de uma praia, cujas águas — me prometeram — seriam cristalinas a ponto de enxergar os pés, com o mar na cintura. Mas esse detalhe me foi privado por Oscar e Rafael, os dois furacões que haviam passado pela ilha.
Achei que nadaria em um mar de águas puras, mas me enganei: não havia uma única alma naquele hotel; os dançarinos, que faziam nossa alegria à noite, disseram “venham mais vezes, porque não tem ninguém aqui”. Como pode, em meio ao desastre, serem erigidos “mausoléus vazios”, alheios, ao passo que outros projetos carecem de investimento na ilha? Como sustentar a relevância de tais empreendimentos com o declínio do turismo, que, só no ano passado, caiu 17,8%? Deve existir, pensei, algum controle estatal dos lucros, e tais resorts devem estar ligados a conglomerados do governo. Mas a contradição entre a imensidão do local e o vazio que tomava conta dele era difícil de ser superada.
Creio que o bloqueio dos EUA, além de durar mais de seis décadas e asfixiar as condições de vida da ilha, induziu seus dirigentes a decisões errôneas. Concordavam comigo alguns camaradas no evento, que a ilha vinha aceitando concessões empresariais duvidosas, que recentemente favoreciam o desenvolvimento de uma classe e a miséria de outra. Esse bloqueio assassino — responsável por cerca de 564.258 mortes por ano no mundo,10 ou seja, 3,58% das mortes nos países sancionados —, avança com declarações esdrúxulas do atual presidente estadunidense, que se vê no direito de espoliar a ilha a seu bel-prazer. E ao passo que se fortalece, intensifica o cenário de guerra e seduz a ganância de empreendedores estrangeiros, conforme a ilha se abre para flexibilidade em seu modelo econômico.
Tudo isso — menos a parte do hotel, salvo conversas sussurradas — foi exposto e debatido por uma semana na Minga, intitulada “Remamos em Comunidade”. O grupo era variado, e altamente qualificado. Mesmo para um evento ecumênico, as discussões fugiram das mesmices — como a famigerada crítica aos fundamentalistas.11 Os grupos de debate foram destinados à mobilização a partir de regiões geográficas, possibilitando a criação de uma rede de contatos robusta. De manhã e à tarde, discussões geopolíticas instigantes; à noite, um jantar consolador com possíveis apresentações de salsa; nos intervalos, café e cerveja à vontade.
Mesmo assim, voltei a Havana de coração vazio. Uma semana na praia de um resort, remando com a comunidade por águas turvas, me rendeu a sensação frustrante de ter apenas colecionado contatos de WhatsApp. Durante a última noite na capital, houve tempo apenas para comer uma pizza raquítica, gastar meus últimos pesos com doces de uma vendedora ambulante e voltar à comunidade adventista — que permanecia lutando contra a falta de água, luz e outras necessidades básicas para o cotidiano. Ao menos pude me despedir.
Ainda falo com Henry e, por vezes, tento puxar assunto com Félix. A partir deles, sei que a capital continua a mesma — com amontoados de história e entulho em cada esquina. Não é novidade que a situação dos adventistas em Cuba se agravou com o recente assalto à Venezuela, intensificando a antiga crise energética; e que o governo cubano jura fidelidade à revolução enquanto Washington ameaça invadir a ilha. Embora bloqueados, e no escuro, sei que não faltam solidariedade e resiliência entre os adventistas cubanos, mas confesso: me intriga a ausência de uma mobilização institucional clara em auxílio de nossos irmãos.
Enquanto isso, me consolo com o presente que recebi de uma idosa, na igreja de Marianao, que quase não olhou no meu rosto, não me disse qualquer palavra, e sequer mencionou seu nome: um livro de meditações diárias — antigo e reaproveitado, como qualquer coisa na ilha. Uma página marcada correspondia à data em que o recebi, 30 de novembro, onde há alusão à história de Pedro e Silas cantando na prisão, após serem açoitados e presos (At 16.16-34). Uma frase salta aos olhos e me consola: “As canções da noite são as mais sublimes da alma.”12 Essa talvez seja uma forma mais tímida e adventista de dizer, “¡Aquí no se rinde nadie!”



Notas:
1.↑ José Martí, “Nuestra America”, La Revista Ilustrada de Nueva York, Estados Unidos, 10 jan., 1891.
2.↑ Leonardo Padura Fuentes, Ir até Havana (São Paulo: Boitempo, 2025), p. 36.
3.↑ Caleb Rosado, “Castro and the Churches”, Spectrum, Volume 15, Number 3, 1984, p. 24-27.
4.↑ Frei Betto, Fidel e a Religião: Conversas com Frei Betto (São Paulo: Fontanar, 2016), p. 169-221.
5.↑ Ronald Geraty, “Cuba: Testimony of a Prisoner of Conscience”, Spectrum, Volume 15, Number 3, 1984, p. 16-23.
6.↑ Fabiana Rita Dessotti, “Quais as regras para o capital estrangeiro em Cuba?”, In: Fabio Luis Barbosa dos Santos, Joana Belém Vasconcelos e Fabiana Rita Dessotti (orgs.), Cubas no século XXI: Dilemas da Revolução (São Paulo: Elefante Editora, 2018), p. 144-145.
7.↑ Adelaida de Juan, “Half a century of visual arts in Cuba”, Estudos Avançados, Volume 25, Number 72, p. 197-216, 2011.
8.↑ Carlos Iramina, “Como a juventude se relaciona com a revolução?”, In: Cubas no século XXI: Dilemas da Revolução, p. 46-48.
9.↑ Francisco Hernández Velázquez, Un programa de retención de miembros para la Unión Cubana de los Adventistas del Séptimo Día (tesis, Seminario Teológico Adventista Interamericano, Universidad de Montemorelos, agosto de 2007).
10.↑ Francisco Rodríguez, Silvio Rendón, Mark Weisbrot, “Effects of international sanctions on age-specific mortality: a cross-national panel data analysis”, Lancet Global Health, Volume 13, aug., p. e1358–66, 2025.
11.↑ Cf. André Castro, A luta que há nos deuses: da teologia da libertação à extrema direita evangélica (São Paulo: Editora Machado, 2024), p. 59-60.
12.↑ Ricardo Bentancur, Las oraciones más poderosas de la Biblia: Lecturas devocionales para adultos (Florida, IADPA), p. 340.
13.↑ Frase fortemente associada à retórica política da Revolução Cubana, especialmente ao discurso de resistência do governo após 1959.
Os espólios de Cuba
Felipe Carmo
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