Entre blecautes, escassez e tensões políticas, cubanos enfrentam uma nova fase da crise no país enquanto igrejas adventistas auxiliam a comunidade com itens básicos para sobrevivência cotidiana


Por Natalie Bruzon | Com a contribuição de Felipe Carmo. Traduzido e adaptado do original em inglês por André Kanasiro e Felipe Carmo para a revista Zelota. Republicado em colaboração com SPECTRUM: o periódico e website do Adventist Forum desde 1969.www.spectrummagazine.org

Em Cuba, não é raro ouvir o ditado popular “Vamos de Guatemala a Guate-peor” para descrever a ilha — bela, mas devastada. Para uma ilha que mudou de regime pelo menos quatro vezes nos últimos 150 anos — Espanha; a ocupação econômica dos EUA e a sombra do seu embargo; Fulgencio Batista; e Fidel Castro — nenhum deles cumprindo as promessas vendidas à população, “de mal a pior” é uma boa descrição para a história do país. Neste momento, Cuba enfrenta uma de suas piores crises econômicas e infraestruturais desde El Periodo Especial — os anos após a queda da União de Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), quando as estantes das bodegas passavam meses vazias, a falta de combustível levava a blecautes de até 12 horas, e carros, ônibus e tratores eram substituídos por bicicletas e bois, evidenciando uma cadeia de abastecimento estrangulada. Como naquela época, o país passa novamente por uma falta de combustível que limita o povo cubano em seus afazeres mais básicos, tais como fazer uma chamada telefônica sem interrupções.

“A conexão está muito ruim,” disse Heber Hernández Maya em nossa ligação, com sua voz distorcida por estática. Eu estava tentando terminar uma conversa com ele há mais de uma hora. Mas o telefone dele sempre ficava sem sinal. Nossa chamada pelo WhatsApp travou várias vezes, com a tela do celular sinalizando que a chamada falhou. “O problema é que, quando temos blecautes aqui, algo que acontece o tempo todo,” explicou Hernández Maya, “o sinal de internet some. Deve ser isso que está acontecendo agora.”

A entrada principal do Seminário Teológico Adventista do Sétimo Dia, em Havana, Cuba. Heber Hernández Maya

Depois de algum tempo, Hernández Maya e eu conseguimos estabelecer uma conexão estável o suficiente para conversar por 20 minutos. Eu, então, conversei com Yosvani Duran Rodríguez, o capelão do Seminario Teológico Adventista de Cuba (SETAC) — mas a conversa foi interrompida por problemas de conexão após 15 minutos. Nossas dificuldades de conexão refletiam a crise energética que assola Cuba nos últimos meses, com blecautes generalizados que duram dias e escassez de combustível após o governo dos EUA, sob ordens do presidente Donald Trump, tomou conta das exportações do petróleo venezuelano, do qual Cuba depende há muito tempo, e bloqueou o fluxo de petróleo para a ilha. O presidente ameaçou impor tarifas a qualquer país que envie petróleo a Cuba. O embargo econômico imposto pelos EUA existe há mais de seis décadas, reforçando limitações comerciais e financeiras e intensificando dificuldades estruturais da ilha.

Nota dos editores: O governo cubano calcula a estimativa de US$ 7,556 bilhões por ano de sanções econômicas, financeiras e comerciais dos EUA sobre a ilha, segundo o ministro das Relações Exteriores, Bruno Rodríguez, quando apresentou o relatório anual sobre o custo do bloqueio. Além disso, estudos demonstraram uma associação causal significativa entre sanções dos EUA e aumento da mortalidade, estimando que estejam associadas a um total anual de 564.258 mortes, um valor semelhante à carga global de mortalidade associada a conflitos armados.

Quando Hernández Maya me ligou, ele estava no campus do SETAC. Felizmente, o campus fica a menos de três quilômetros de sua casa, em Santiago de las Vegas — devido ao impacto da escassez de combustível sobre o transporte público, a maior parte dos cubanos agora precisa fazer tudo a pé.

O seminário, construído na década de 1990 e dedicado por Robert Folkenberg, ex-presidente da Associação Geral (AG), serve como o principal centro de treinamento para pastores adventistas e líderes da Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD) na ilha — assim como um punhado de alunos internacionais — e os prepara para o ministério nas congregações das províncias cubanas. Estabelecido há 30 anos, o SETAC surgiu após a IASD passar três décadas sem educação superior formal em Cuba, pois o Colégio Adventista Antilhano foi realocado para Porto Rico após a Revolução Cubana, em 1959. Hoje em dia, os estudantes do SETAC se formam para trabalhar numa estrutura eclesiástica que foi moldada pelo contexto político e cultural singular de Cuba.

O adventismo em Cuba

A IASD chegou a Cuba na virada do século 20, durante a transição da ilha de colônia espanhola para república, sob forte influência dos EUA — consolidada pela Emenda Platt — que deu aos EUA controle significativo sobre os assuntos políticos e militares da ilha recém-independente. A expansão adventista acompanhou o enfraquecimento da influência católica espanhola e se desenvolveu paralelamente à presença política e econômica dos EUA. Relatórios oficiais da época alinhavam explicitamente o sentimento da liderança à Emenda Platt, refletindo a hierarquia “ianque-cubana” em uma administração eclesiástica amplamente controlada por norte-americanos. Esse desequilíbrio gerou tensões internas e, em 1940, culminou em uma estrutura de liderança denominacional local dividida, com um presidente cubano e outro norte-americano.

Capela no campus do Seminário Adventista. Foto: Heber Hernández Maya

Essas primeiras tensões na administração da IASD, entre o controle norte-americano e a liderança cubana, anteciparam divisões ideológicas que surgiram durante o período revolucionário da ilha, à medida que alguns adventistas cubanos simpatizavam com a insurgência contra o regime de Batista, apoiado pelos EUA. Em 1956, por exemplo, após o fracasso do desembarque do Granma — o barco que levou Fidel Castro e seus guerrilheiros do México a Cuba — adventistas na região de Sierra Maestra forneceram abrigo e comida aos guerrilheiros, incluindo o revolucionário comunista Che Guevara. Em 1958, durante a Batalha de Santa Clara, que culminou na vitória das forças rebeldes, o Colégio Adventista Antilhano — na época localizado em Cuba — manteve relações cordiais com os combatentes rebeldes, oferecendo assistência humanitária. Devido à simpatia demonstrada pela comunidade adventista cubana, Guevara teria assegurado aos líderes da escola que respeitaria as convicções religiosas adventistas, marcando um momento incomum de coexistência entre insurgentes socialistas e uma instituição religiosa de origem norte-americana.

No entanto, após 1959, a situação mudou. À medida que os EUA impuseram progressivamente sanções econômicas — formalizadas em 1962 sob o ex-presidente dos EUA, John F. Kennedy —, o governo socialista passou a ver com crescente suspeita os grupos religiosos com vínculos institucionais com a América do Norte. Durante as décadas de 1960 e 1970, os adventistas enfrentaram vigilância, restrições educacionais e a expulsão de missionários estrangeiros.

Salas de aula do seminário, atualmente desocupadas, no campus do Seminário Teológico Adventista em Cuba. Foto: Heber Hernández Maya

A partir do final dos anos 1980 — especialmente após o colapso da URSS e após a reforma constitucional de Cuba em 1992, que redefiniu a nação como um Estado “laico” em vez de “ateu” — as relações entre igreja e Estado começaram a se estabilizar. Os canais de comunicação entre adventistas cubanos e norte-americanos — interrompidos até 1970 e posteriormente retomados de forma informal — foram oficialmente restabelecidos. 

Em 1994, a Maranatha Voluntários Internacional começou a trabalhar no país, levando à construção ou renovação de mais de 200 igrejas, além de facilitar a distribuição de medicamentos, alimentos e outros suprimentos essenciais por meio do SETAC. E, em 2012, o Seminário Teológico Adventista da Universidade Andrews iniciou o programa Care for Cuba — uma colaboração entre organizações sem fins lucrativos e igrejas sediadas em Berrien Springs, Michigan, que têm oferecido ajuda material contínua a Cuba.Embora permaneçam algumas limitações burocráticas, a relação entre a IASD e o governo socialista cubano é hoje mais estável do que durante o início do período revolucionário de Cuba. A igreja em Cuba atualmente é uma das denominações evangélicas com crescimento mais rápido na ilha, organizada sob a União Cubana, dentro da Divisão Interamericana (IAD). Por razões culturais e políticas, a ilha prefere chamar suas quatro associações de “delegações”: Delegação Central, Delegação Ocidental, Delegação Oriental e Delegação Del Amanecer. A união também inclui as Missões Villa Perla e Pinareña. As igrejas estão distribuídas dentro de cada delegação ou missão por província. Estatísticas de 2025 indicam a existência de 388 igrejas e 41.000 fiéis — 0,38% da população total de Cuba.

Uma ilha em crise

Hernández Maya, parte desses 0,38% e advogado por profissão, formou-se recentemente na Universidade de La Havana, em Cuba. No entanto, com o mercado de trabalho do país ainda fortemente controlado pelo Estado, diplomas profissionais podem render salários de apenas 20 a 40 dólares por mês, e, como muitos outros, ele não está atuando em sua área. Em vez disso, ele serve junto com sua esposa naquilo que considera sua verdadeira paixão — o ministério —, como pastor leigo da crescente congregação adventista de Vida Nueva.

Nota dos Editores: Em Cuba, a maior parte dos empregos formais está no setor público e, por isso, os salários são definidos por tabelas estatais, e a alocação de profissionais é fortemente regulada. O trabalho, em geral, não funciona como um mercado livre em que empresas competem por mão de obra com salários variáveis. O salário médio estatal gira em torno de 17 a 20 dólares mensais na conversão informal (dados de 2025, segundo a Oficina Nacional de Estadística e Información de Cuba, um aumento de 18,3% em relação ao ano anterior), podendo ser ainda menor em setores como educação e saúde. Com o controle estatal de salários, baixa produtividade econômica, crise cambial e uma economia onde só alguns setores conseguem pagar melhor, o resultado é que profissionais qualificados ganhem pouco no setor público. Além disso, o governo compensa os baixos salários oferecendo serviços básicos gratuitos ou subsidiados, como saúde e educação, além de um sistema de racionamento que garante alimentos básicos a preços baixos e uma rede de proteção com pensões e assistência social.

A congregação adventista de Vida Nueva, em Havana, Cuba. Heber Hernández Maya

Localizada em Santiago de las Vegas, um antigo e próspero polo de transporte nos arredores de Havana, Vida Nueva é uma congregação frequentada principalmente por pessoas de baixa renda. Como ainda não cresceu a ponto de ser considerado uma igreja, o grupo depende muito de seminaristas do SETAC para conduzir os cultos, visitas, e cuidar de outras funções ministeriais.

Então, no dia 9 de fevereiro de 2026, o seminário fechou indefinidamente para aulas presenciais, pois a escassez de combustível paralisou abruptamente o sistema de transporte público do país — algo indispensável numa ilha em que a maioria dos moradores não tem veículos. As operações do seminário e o seu ministério em congregações locais, como a Vida Nueva, pararam sem aviso prévio. Os alunos foram para casa numa quinta-feira, dia 5 de fevereiro, esperando um fim-de-semana prolongado; na segunda-feira, porém, não havia transporte público para levá-los de volta ao campus.

No dia 4 de março, a crise piorou, pois o desligamento de uma das principais usinas termelétricas da ilha desencadeou uma queda de energia que deixou aproximadamente dois terços de Cuba — quase sete milhões de pessoas — sem eletricidade. As autoridades levaram cinco dias para restaurar gradualmente a energia elétrica numa rede frágil e já sobrecarregada.

As salas de aula do seminário permanecem vazias, mas os professores ajustaram suas disciplinas para acomodar aulas remotas — algo que exige um esforço considerável num país com uma conexão tão instável à internet.

“Cada professor preparou seu plano de estudos,” disse Duran Rodríguez. “E eles enviam os materiais para os alunos quando há internet […] Ou fazem chegar a eles de alguma forma. Se há combustível, eles vão até cada aluno na região em que vivem para entregar-lhes o material.”

A rua de acesso ao SETAC, geralmente agitada, está silenciosa e vazia devido à crise energética da ilha. Heber Hernández Maya

Alguns alunos também estão terminando seu estágio nesse período, trabalhando em suas igrejas sob a supervisão do campo. Quando o seminário reabrir, “os exames serão administrados aqui”, explicou Duran Rodríguez.

Por outro lado, a escassez de combustível não atrapalha só o sistema de transportes. “Se não há eletricidade, [o seminário] não tem acesso a água,” disse Hernández Maya, explicando por que o seminário fechou. O poço que abastece o SETAC com água fica a quase um quilômetro da instituição, e a infraestrutura hídrica de Cuba depende de estações de bombeamento elétrico, apoiadas por geradores reserva abastecidos a diesel e sistemas antigos de encanamento. Sem combustível, os blecautes também interrompem o fluxo da água, explicou Duran Rodríguez. Isso impacta o saneamento básico, o acesso a água potável e a operação de cozinhas. Para um campus com 108 alunos, incluindo estudantes internacionais que vivem nos dormitórios do campus, esta escassez de água é um grande impeditivo.

O fechamento do seminário para atividades presenciais forçou os alunos internacionais a retornarem para seus países natais. Essa transição caótica não é o ideal, mas os líderes do seminários tiveram que tomar decisões difíceis em meio a muita incerteza.

“Não podemos mantê-los aqui com a possibilidade de que o seminário não tenha acesso a certos recursos,” disse Duran Rodríguez.

A escassez de combustível deve afetar mais que a distribuição hídrica — o sistema de saúde e a alimentação, questões críticas, também estão em risco.

No momento, os hospitais têm reservas de combustível para operar em blecautes, mas Hernández Maya tem certeza de que, caso a escassez de combustível continue, o celebrado sistema de saúde do país vai entrar em colapso. Os mais vulneráveis, disse ele, serão os primeiros a sofrer: “As pessoas que precisam de respiração artificial, tratamentos como hemodiálise, pacientes cirúrgicos,” disse ele. “Obviamente, se não houver mais recursos, vai acabar, e a crise será terrível.”

Almoço gratuito de sábado, com arroz, feijão preto, batata-doce e taro, oferecido pela congregação adventista Vida Nueva às pessoas que querem receber estudos bíblicos ou estão passando necessidade financeira. Heber Hernández Maya

A emergência energética causou uma escassez de alimentos que pode ter repercussões devastadoras para um país onde tantas pessoas já enfrentam pobreza e insegurança alimentar. “A maioria dos irmãos em Cuba está passando muita necessidade alimentar, pois há uma crise alimentar severa,” disse Hernández Maya. “Simplesmente não há comida o bastante sendo vendida, e com um problema ainda maior: sem combustível, não há forma de transportar alimentos até locais onde não se planta certos produtos.” Ele disse que a maioria dos cubanos prepara comida com lenha e carvão, “pois eles não têm outra forma de cozinhar”.

Henry Valero Pedroso é um membro da IASD Mirianao, na parte ocidental de Havana. Ele apresenta mensagens musicais em igrejas, cantando músicas cristãs do portorriquenho René González, e canta no coral da igreja. Ele também atua como secretário da escola sabatina e diácono, mas uma gastrite recorrente impactou o seu trabalho na igreja, e a escassez atual de combustível torna ainda mais complicado receber tratamento para seu problema de saúde. “Eu não tenho medicamentos devido ao bloqueio imposto pelos Estados Unidos,” disse.

Como Hernández Maya, Valero Pedroso não ganha muito por seu trabalho, que inclui cuidar de um alojamento do governo. “Meu salário não dá para nada, porque tudo nesse país é caro,” disse ele. Ele enfatizou que o acesso limitado a comida e medicamentos é o que mais pesa. “A situação está muito difícil,” disse. “Estamos bloqueados!”

Uma cartela de omeprazol saltou de 350 para 400 pesos cubanos (de aproximadamente R$76,00 para R$87,00), observa Valero Pedroso. O governo corta a energia elétrica por até 15 horas todos os dias, pois não há combustível, e há poucos meios de transporte: os ônibus passam a cada quatro ou seis horas, e isso quando estão funcionando. Sem energia, é preciso trabalhar à luz de velas.

“Eu quase sempre vou a pé da minha casa para o trabalho e para a igreja,” disse Valero Pedroso. “Às vezes, meu irmão me dá carona em uma moto elétrica,” disse, “pois a gasolina está extremamente cara: 1 litro custa quase 4 ou 5 mil pesos [de aproximadamente R$60 até R$80].” Em cidades cubanas antes movimentadas e barulhentas, as ruas afundaram num silêncio sinistro, com o cheiro forte de fumaça no ar, já que as famílias se reúnem em torno de fogueiras para cozinhar refeições fora de seus apartamentos. Em províncias no interior, os blecautes podem durar até três dias, com poucas horas de eletricidade antes do próximo blecaute. A sobrevivência se tornou um trabalho em tempo integral. Enquanto la yuma — uma gíria local para os EUA — debate política e Trump volta sua atenção ao governo cubano, os cubanos comuns passam por tudo isso com uma mistura de estoicismo e bom humor.

Um carro antigo na frente da IASD Marianao, em Cuba, no ano de 2024, antes da crise de combustíveis atual. Foto: Felipe Carmo

O próprio Hernández Maya ria das situações absurdas em que se encontra, mesmo enquanto descrevia realidades terríveis. Ele, no entanto, não criticou o governo cubano, reforçando que a IASD em Cuba permanece apolítica e se recusa a pedir mudanças políticas como outros cristãos.

“No momento, existe muita polêmica nas redes sociais,” disse Hernández Maya, “pois alguns cristãos — não adventistas, estou falando de pentecostais e metodistas — estão dizendo que comunismo não funciona, que é inútil, que é um sistema ditatorial, e que só buscando Cristo a nação poderá se levantar, prosperar e encontrar a verdadeira liberdade.”

Estes debates nas redes sociais ecoam tensões que emergiram publicamente em julho de 2021, quando Cuba sofria com um colapso econômico devido à pandemia global de COVID-19. O turismo, setor mais importante da economia do país, estava morto. Somado a isso, a reforma cambial do país criou uma inflação insustentável e um colapso na infraestrutura do país, o que resultou em escassez de produtos e blecautes recorrentes. Pela primeira vez em décadas, os cidadãos cubanos criticaram abertamente seus líderes.

No dia 11 de julho de 2021, milhares de cubanos tomaram as ruas da ilha, exigindo mudanças. Sob o lema “Patria y vida” — em desafio ao lema revolucionário “Patria o muerte”, popularizado em um hino de protesto tocado por artistas cubanos, incluindo o dueto de reggaeton Gente de Zona — os manifestantes ergueram sua voz, fazendo panelaços que ecoaram de Havana a Santiago.

A menos de 500 quilômetros de distância, sob o mesmo sol forte e a mesma umidade, milhares de migrantes cubanos se reuniram na SW 8th Street, em Miami, no bairro de Little Havana, na Flórida, em solidariedade a seus parentes e amigos na ilha.

Nota dos Editores: Há evidências de que as manifestações de julho de 2021 clamando por uma mudança de regime foram armadas com financiamento dos EUA, e coordenadas diretamente pelos cubanos de Little Havana, que estavam tentando articular a derrubada do governo cubano, inclusive com a participação de um pastor adventista cubano que vive em Miami: Alex Perez Rodríguez. Embora muitos dos manifestantes em Cuba estivessem nas ruas organicamente, revoltados com o que alguns descreviam como medidas “capitalistas” do governo cubano, tudo indica que as manifestações por melhorias nas condições de vida, mas favoráveis à revolução de 1959, foram comparáveis ou maiores do que as manifestações contra o governo, ao contrário do afirmado pela Reuters. “The Guardian, Fox News, The Financial Times, NBC e Yahoo! News, todos alegaram falsamente que a foto de uma grande aglomeração socialista era, na verdade, uma manifestação contra o governo. As grandes bandeiras pretas e vermelhas, com as palavras “26 Julio” (o nome do partido político de Fidel Castro), deveriam ter deixado isso bem claro para os editores ou checadores de informações. Enquanto isso, a CNN e a National Geographic ilustraram artigos dos protestos em Cuba com imagens de aglomerações em Miami — as quais pareciam muito mais cheias que manifestações similares na ilha.”

Os protestos em Cuba terminaram em violência. Forças do governo e agentes à paisana dispersaram as multidões, prendendo, batendo e atirando gás lacrimogêneo nos manifestantes. Depois do ocorrido, vários líderes protestantes e evangélicos condenaram publicamente a resposta do governo. Tensões entre grupos cristãos e o Estado já cresciam desde 2018, quando algumas igrejas protestantes começaram a criar agitação e exigir maior independência de órgãos associados ao Estado. Cinco anos depois, o conflito permanece sem solução.

Em meio a essa instabilidade nacional crescente, a IASD em Cuba escolheu uma postura diferente. Ao invés de fazer denúncias políticas públicas, os líderes da denominação em Cuba parecem estar focados no ministério prático.

“A Igreja Adventista não tomou posições políticas,” disse Hernández Maya. Ao invés disso, as congregações da ilha estão trabalhando para sanar necessidades imediatas das comunidades, como a distribuição de comida.

Classe da escola sabatina na IASD Marianao, em Cuba. Foto: Felipe Carmo

A Vida Nueva entrega comida para pessoas passando necessidade, e recebeu recentemente uma doação de US$400,00, usada para garantir a alimentação de vários idosos. “Nós demos leite, macarrão, arroz e feijão para eles,” disse Hernández Maya. “Temos confrontado assim a dura crise do país.”

A IASD Marianao tem atuado com a “jabita viajera”, ou “sacola viajante”. Jabita é uma palavra cubana para sacolas de mercado, e a jabita viajera é uma espécie de cesta básica para doação. Os irmãos “viajantes” da igreja, todos os sábados preparam sacolas para uma ou duas famílias específicas da igreja, colocando produtos como frango desossado, malanga — uma raiz caribenha parecida com o taro — dinheiro, arroz, óleo, etc.

Vida Nueva, uma congregação muito menor que Marianao, ainda enfrenta outros desafios. A congregação estava construindo banheiros em sua igreja há algum tempo, um projeto que foi paralisado quando os caminhões que carregavam os materiais de construção ficaram sem gasolina. Mesmo assim, Hernández Maya fez eco com Pérez e descreveu uma igreja com esperança, descrevendo o que crê ser um reavivamento espiritual no país: “Há muito fervor nas igrejas. As pessoas estão frequentando mais. Elas veem esperança em Cristo, e isso — como diz o apóstolo Paulo — tem beneficiado o evangelho, pois mais pessoas estão buscando a Deus e se apegando a Cristo,” disse Hernández Maya. Essa situação, segundo ele, dá a igrejas uma oportunidade de atender às necessidades físicas e espirituais das pessoas. “Em muitas igrejas, há doação de alimentos — não somente espirituais, mas também físicos,” disse Hernández Maya. “Várias pessoas que estão comendo muito mal têm ido a igrejas para comer.”

A IASD Vida Nueva, lotada, em Havana, Cuba. Heber Hernández Maya

Num país onde a vida se tornou um exercício de resistência, esse tipo de resposta reflete o instinto profundamente cubano de resolver. Para os cubanos, resolver significa mais do que aparenta. É parte vital da identidade de um povo que vive em instabilidade há mais de um século. Resolver significa sobreviver nas piores circunstâncias. Não significa que vai ficar tudo bem. Significa que as aulas continuam pelo WhatsApp quando as salas de aula se fecham. Significa que as igrejas distribuem comida, mesmo quando seus próprios membros têm dificuldade para obtê-la. Significa que o ministério persiste em um sistema que pode não durar muito.

Apesar de tantas dificuldades, as igrejas adventistas em Cuba permanecem esperançosas e ativas. Aldo Pérez, presidente da União Cubana, disse à IAD que “a igreja respondeu de um modo belíssimo”. Desde o dia 31 de janeiro, congregações adventistas por toda a ilha têm mantido vigílias de jejum e oração de sábado à noite até domingo de manhã, alternando entre as casas dos membros. Pérez também disse que o ministério local permanece ativo: as lições da escola sabatina seguem sendo impressas, e eventos evangelísticos seguem lotados. De sua perspectiva, este engajamento contínuo reflete a “resiliência e o entusiasmo da igreja apesar dos desafios” — uma luz que brilha na escuridão, e contra a qual a escuridão não prevaleceu.