Movimento religioso, fundado por um ex-adventista na década de 1960, promove o desmatamento na Amazônia e alimenta o narcotráfico na Tríplice Fronteira
Por Iván Brehaut | Jornalista ambiental. Reportagens produzidas em parceria com a Rede de Investigações de Florestas Tropicais do Centro Pulitzer. Traduzido e adaptado do original em espanhol para a revista Zelota.
Há mais de 50 anos, na selva central do Peru, um homem chamado Ezequiel Ataucusi Gamonal fundou um dos mais importantes movimentos religiosos emergentes da América do Sul. Sua doutrina, baseada em um profundo sincretismo das tradições incas e andinas, bem como da fé cristã, foi acolhida por pessoas no Peru, mas também se espalhou para países como Colômbia, Bolívia, Brasil, Argentina, Paraguai, Costa Rica e Estados Unidos. Existem até mesmo grupos em alguns países europeus, como a Espanha.
A Associação Evangélica da Missão Israelita da Nova Aliança Universal, fundada em 1968 por Ezequiel Ataucusi Gamonal, possui milhares de membros. Segundo um de seus pastores em Ucayali e uma investigação do LaMula.pe, o número de membros pode ultrapassar 100.000. Seus membros, que se autodenominam “congregados”, são homens e mulheres que adaptaram seu modo de vida, vestimenta e trabalho a um credo baseado nos ensinamentos e mandamentos de seu profeta e fundador.
Entre suas profecias, Ataucusi previu grandes mudanças para o mundo. Ele falou sobre o sol se aproximando da Terra, o que aumentaria o calor, causando uma grande seca e, consequentemente, sete anos de fome severa. Quando isso acontecesse, os congregados deveriam ter ocupado lugares isolados, dedicando-se ao trabalho agrícola, para que pudessem suportar esse período crítico.
Assim, Ezequiel Ataucusi ordenou a seus seguidores que fossem para a nova “terra prometida” na selva amazônica peruana. Ele também os instruiu a levar a mensagem divina do profeta aos quatro cantos da Terra. De acordo com sua doutrina, os israelitas de Ezequiel Ataucusi são o novo e verdadeiro povo escolhido, assim como o povo de Israel na Ásia e os incas no Peru.
Sob essa ordem, a congregação tem se deslocado do litoral e das terras altas peruanas em direção à selva, frequentemente cruzando as fronteiras do Peru. Os processos de ocupação e troca de terras florestais pelos israelitas, também chamados de “os Ataucusi”, raramente são violentos; no entanto, mais de meio século após o início de sua colonização da Amazônia e vinte anos após a morte do profeta, vemos que a migração para a selva peruana não cessou.

A Terra Prometida
“A Terra Prometida está na selva”, diz Dom Albino Ramos, um pastor israelita peruano que vive em Iparía, no sopé de uma cordilheira na selva onde se estabeleceram há mais de 30 anos. Quando Albino fala de Ezequiel Ataucusi, seu Mestre, seus olhos brilham com uma luz que não se apagou em seus mais de 70 anos. Albino Ramos é um dos fundadores de Santa Cecília, uma comunidade localizada em Ucayali, na selva centro-leste do Peru.
“Ele nos disse para deixarmos a pobreza, abandonarmos os patrões e irmos para onde está a terra fértil, a terra da salvação, para nos prepararmos para a grande vinda de Deus”, diz Albino. Sentado em sua pequena loja de ferragens, o homem de barba e bigode brancos e espessos conta que nasceu em Andamarca, nos Andes peruanos, mas deixou tudo para se estabelecer nas montanhas arborizadas de Ucayali, na Terra Prometida.
Assim como Albino, dezenas, até mesmo centenas de pessoas foram inspiradas por Ataucusi. Em 1964, Ezequiel Ataucusi iniciou seu próprio esforço para colonizar a Amazônia peruana. Embora as primeiras tentativas tenham resultado em fracassos ou projetos de curta duração, a fé e a determinação dos colonizadores cresceram. Em 1968, Ezequiel já contava com uma base de seguidores bastante sólida em Lima, a capital do Peru, localizada na costa desértica do Oceano Pacífico. Nessa mesma época, a migração andina para as cidades costeiras, especialmente Lima, era muito intensa. Ataucusi viu nesse grupo os candidatos perfeitos para se juntarem ao seu movimento.
A mensagem de Ezequiel Ataucusi, um orador carismático, erudito e intérprete da Bíblia, era poderosa. Numa época em que a propriedade da terra estava concentrada nas mãos de algumas famílias poderosas e seus negócios, Ezequiel promoveu a conquista de novas terras, supostamente muito férteis, onde a igreja nascente garantia trabalho comunitário livre de patrões exploradores. Os migrantes andinos pobres e desenraizados encontraram na fé israelita um refúgio, um grupo ao qual podiam pertencer e uma nova fé que colocava os agricultores e os pobres no centro da salvação.
Mas a história pessoal de Ezequiel Ataucusi, e a mitologia que se criou em torno dele, também é poderosa. Em 1958, Ataucusi fundou a Associação Evangélica da Missão Israelita da Nova Aliança Universal (AEMINPU). A associação foi legalmente registrada em 1968, pouco depois do início da ditadura do General Juan Velasco Alvarado, lembrado, entre outras coisas, por empreender uma profunda reforma agrária, essencial em um país onde as grandes propriedades rurais e a exploração do campesinato eram comuns.

Ezequiel Ataucusi, nascido em 1918, explorou diversas religiões antes de fundar a sua própria. Seu credo foi inspirado por suas experiências com o catolicismo, o adventismo e o pentecostalismo. Segundo seu próprio testemunho, suas experiências religiosas remontam aos nove anos de idade. Nessa idade, ele teria começado a perceber sinais de um diálogo com Deus, que o guiava e instruía em um caminho de revelações. Em outro episódio, aos 16 anos, enquanto nadava em um rio em sua cidade natal, Arequipa, no sul do Peru, quase se afogou, mas um peixe gigante veio em seu auxílio e o levou para a margem. À noite, em sua cama, ele testemunhava o aparecimento de uma estrela que o iluminava e reaparecia todos os meses.
Após trabalhar como soldado, mineiro, comerciante e operário, Ezequiel Ataucusi migrou para a região central do planalto, para Junín. Lá, ocorreu outro evento importante. Tendo se tornado sapateiro, um cliente adventista deixou uma Bíblia em sua loja. Movido por um impulso, ele abriu o livro e encontrou uma passagem que o transformou, como testemunhou um de seus seguidores:
“Ezequiel abriu a Bíblia uma vez e viu que seu modo de vida estava condenado. Abriu a Bíblia outra vez e viu que a humanidade estava condenada. Na terceira vez que a abriu, viu que Deus declarou que, embora seus pecados fossem como a areia da praia, por causa do Seu nome, Deus disse: “Eu te perdoarei e te purificarei dos teus pecados”. Então, Ezequiel desabou em lágrimas.”
Entre os 30 e 40 anos, após sua passagem pelo adventismo, Ataucusi começou a criar seu próprio culto, o qual atraiu seguidores que haviam abandonado outros movimentos, como o próprio adventismo.
Mais especificamente, em 1955, Ezequiel recebeu mensagens em sonhos instruindo-o a viajar da cidade de Tarma, no planalto central do Peru, até Sanchirio Palomar, uma das portas de entrada para a Amazônia, a cerca de 90 quilômetros de distância. Em Sanchirio Palomar, diz-se que Ezequiel Ataucusi recebeu o “chamado divino”. Nesse chamado, foi-lhe confiada a missão de evangelizar a humanidade, conduzindo os fiéis a uma nova aliança com Jeová (Deus) e criando um povo escolhido renovado, o novo povo de Israel.
No final da década de 1950, o profeta afirmou ter recebido uma revelação divina de que a Terra Prometida ficava na Amazônia e o fim do mundo estava próximo. Ele também alegou ter recebido os Dez Mandamentos de Deus, mas os explicou novamente para que fossem observados fielmente.
Portanto, Deus disse-lhes que os crentes deveriam isolar-se na selva, em lugares remotos, para se prepararem cultivando a terra e criando gado. Assim, os primeiros assentamentos israelitas foram organizados. O processo de colonização da Amazônia havia começado.
Na década de 1960, no início do movimento israelita, Ezequiel Ataucusi demonstrou suas habilidades de oratória persuasivas e carismáticas, falando às pessoas de forma simples sobre temas religiosos, usando exemplos do cotidiano dos agricultores. Durante esse período, ele estabeleceu algumas das características distintivas do movimento que permanecem até hoje: começou a usar túnicas, a ostentar cabelos e barbas compridas, sandálias e outras vestimentas, ao estilo de personagens bíblicos.
A ruptura com o catolicismo foi completa. Ele começou a denunciar os católicos como traidores dos ensinamentos sagrados. Em mais de uma ocasião, foi pregar em uma igreja adventista, despertando a inveja dos pastores locais, que, com falsas acusações, conseguiram prendê-lo. Ao longo de sua vida, Ataucusi foi preso diversas vezes, acusado de crimes como tumultos, grilagem de terras e estupro. Mas sempre era absolvido.
Seus hagiógrafos — por exemplo, o antropólogo Juan Ossio — afirmam que as acusações possivelmente estavam relacionadas à inveja de pastores que estavam perdendo poder e influência, e a lutas pelo poder dentro do próprio movimento. O próprio Ataucusi destaca isso em várias entrevistas com pesquisadores interessados no movimento religioso.
O primeiro assentamento israelita foi fundado por volta de 1964, na área de Alto Paucartambo, na região de Junín, na selva, a cerca de 300 km da cidade de Lima, na selva central do Peru. Foi chamado de “Piñaplás, Terra de Canaã da Palestina”. Mas essa primeira empreitada de colonização teve vida curta. Terminou num confronto violento com uma empresa madeireira, forçando os colonos a se reassentarem na cidade de Boca Samaya.
Após a fundação de Boca Samaya, ao longo das décadas de 1960 e 1970, outras colônias foram estabelecidas: Presbe, Guacamayo — Orellana (Pasco), Puerto Sira (Huánuco), Puerto Sibonia, Santa Anita (Pasco), Honoria (Huánuco) e Antigua Honoria (Huánuco). Todas foram fundadas na Amazônia central peruana. Em outras partes do Peru, colônias menores foram estabelecidas, abrindo caminho para outros colonizadores. Desde aquela época até os dias atuais, os israelitas continuam na vanguarda da colonização na Amazônia peruana.

A ocupação de territórios na selva para estabelecer colônias atraiu a atenção da imprensa, que acusou Ataucusi de ser um impostor e um vigarista. Em 1980, com o retorno da democracia ao Peru, Ezequiel Ataucusi já contava com um grupo grande e fiel de seguidores. Os “congregados” já eram milhares, e suas colônias conseguiam produzir alimentos que a AEMINPU distribuía entre os segmentos mais pobres da população. A estratégia para atrair mais fiéis era muito eficaz. No entanto, Ataucusi sabia que seu projeto religioso seria difícil de concretizar sem uma ligação com o poder político. Assim, ele ofereceu uma quantidade significativa de alimentos ao presidente recém-eleito, Alan García Pérez, do partido APRA, para serem distribuídos em eventos governamentais, como feiras públicas. Mas García recusou a oferta.
Ataucusi interpretou a rejeição como o impulso necessário para dar o próximo grande passo: a formação da Frente Popular Agrária do Peru (FREPAP). De fato, as críticas da imprensa gradualmente o convenceram de que uma carreira política era essencial para gerenciar a opinião pública e consolidar sua “missão divina”. Por essa razão, candidatou-se à presidência da República três vezes. Nunca obteve sucesso nessa empreitada, mas ela deu a Ataucusi e à FREPAP notoriedade nacional, para além de seus apoiadores imediatos. Entrevistas na mídia o questionavam sobre seus planos de governo. Ezequiel Ataucusi defendia a orientação divina, uma teocracia e o desenvolvimento econômico por meio do “agropoder”.
Em 2000, quarenta anos após a fundação das primeiras colônias, Ezequiel Ataucusi Gamonal, o profeta que disse que ressuscitaria ao terceiro dia, morreu em Lima. Seu funeral, já que a ressurreição esperada não ocorreu, custou mais de 200 mil dólares, quantia que incluía joias, uma coroa de ouro e pedras preciosas com as quais foi sepultado num mausoléu construído em tempo recorde. O mausoléu está localizado na sede do movimento em La Molina, quase nos arredores de Lima.
Até então, a AEMINPU havia reunido 36 comunidades amazônicas, uma quantidade indeterminada de imóveis avaliada em US$ 50 milhões e uma membresia que chegou a 200 mil membros em seu auge. Seu herdeiro e filho caçula, Jonás Ataucusi Molina, agora lidera a igreja e o partido FREPAP. Sem o carisma e a oratória do pai, acreditava-se que o movimento agonizaria e morreria em pouco tempo. Mais de 20 anos depois, a FREPAP continua sendo uma força política significativa em algumas regiões, e a migração para a Amazônia segue sem cessar.

A estrada para a selva
A migração das cidades costeiras e dos Andes peruanos para a Amazônia é um mandamento para os israelitas, ordenado pela mensagem de seu profeta. Florencio Camacho Limaco emigrou do Peru no início da década de 1990. Sua rejeição ao então presidente Alberto Fujimori e suas políticas econômicas o obrigou a viajar para a Argentina e, em seguida, para a fronteira entre o Paraguai e o Brasil. Durante anos, sozinho e com a saúde frágil, Florencio sofreu muito até encontrar um compatriota que o acolheu e o levou a um templo israelita. Cercado por outros peruanos, migrantes como ele, Florencio redescobriu uma parte de sua terra natal e agradeceu pelo milagre de, de repente, ver-se rodeado por compatriotas e amigos. Naquele momento, sua fé em Ezequiel e seus ensinamentos tornou-se inabalável.
Em 2006, Florencio já havia retornado a Lima e morava no bairro de Magdalena. Lá, dedicou-se completamente ao culto e vendeu todos os seus bens para embarcar em sua jornada rumo à capital israelita prevista pelo profeta Ezequiel. Seu destino: a tríplice fronteira entre Peru, Brasil e Colômbia. Com uma longa barba e cabelos grisalhos, cansado, mas com um sorriso enorme, Florencio conta como tomou a decisão:
“Ouvi o profeta Ezequiel… ele falou comigo em um sonho e me disse que eu precisava ser salvo. Para isso, eu tinha que me mudar para Caballococha e me juntar aos outros reunidos para fortalecer nossa terra. Aqui fica Alto Monte de Israel, a capital que o próprio profeta fundou… é um lugar sagrado para nós…” Florencio continua: “O Sr. Jonas (Ataucusi) também falou comigo em um sonho. Ele me disse que é o verdadeiro guia para a salvação. Ele me disse que eu encontraria a verdade em minha jornada, e assim tem sido. A salvação nos será dada…”
Maribel Vargas, uma varoa — assim os congregados chamam as mulheres israelitas — emigrou da região de San Martín, no norte do Peru, em 2001, para seguir o desejo do profeta Ataucusi. Durante sua jornada, acompanhada por dois de seus filhos, Maribel voltou a cultivar a terra em Alto Monte de Israel. Ela havia abandonado o trabalho agrícola devido ao terrorismo que assolou San Martín e todo o Peru por mais de 20 anos. “O Senhor Ezequiel nos disse que nossa salvação está aqui, em vivermos longe do pecado, e que devemos nos preparar para o cumprimento das profecias que ele proferiu.”
Maribel se veste de acordo com o costume israelita. Sua cabeça fica coberta por um lenço, escondendo seus longos cabelos grisalhos. Ela usa uma longa saia azul. Não usa maquiagem para disfarçar a tez pálida. Sua fala é simples, mas ela não fala sem pensar. Seus olhos percorrem a sala onde conversamos, e ela observa atentamente o que estou escrevendo, mas não quer ser fotografada.
Alto Monte de Israel foi fundado em 1995, sob a direção e liderança do próprio Ezequiel Ataucusi. Ele supervisionou pessoalmente a construção e negociou com o governo regional de Loreto, a maior região do Peru, inteiramente coberta pela floresta amazônica, a concessão das terras. Em pouco tempo, o Projeto Especial de Titulação de Terras (PETT) do Ministério da Agricultura concedeu títulos de propriedade aos colonos israelitas para aproximadamente 5.000 hectares. Politicamente, Alto Monte de Israel pertence ao distrito de San Pablo, na província de Ramón Castilla, Loreto. Está localizado na margem direita do rio Amazonas, a cerca de 400 km da cidade de Iquitos, e só é acessível por via fluvial.
A rápida titulação de terras levou a uma colonização em massa entre 1996 e 1998. Numerosas embarcações fluviais chegaram pelos rios Marañón (Yurimaguas) e Ucayali (Pucallpa), repletas de famílias israelitas, a maioria de origem andina. Em 1999, a população de Alto Monte havia atingido aproximadamente 5.000 habitantes, que ocupavam cerca de 10.000 hectares.
Entretanto, ao longo dos anos seguintes, as comunidades israelitas cresceram na região, com a chegada de membros de comunidades mais antigas de outras regiões do Peru, principalmente das partes central e norte do país. A chegada de novos membros não estava relacionada apenas à ordem do profeta Ezequiel. Segundo Dora, uma mulher da antiga comunidade de Nazaré, também localizada em Loreto, mas na província do Alto Amazonas, longe da tríplice fronteira, a migração ocorreu porque a terra, com o passar dos anos, deixou de ser produtiva.
“Muitos foram embora daqui, quase todos desde 2000. A terra aqui já não é fértil, então é melhor irmos procurar as terras melhores que o profeta Ezequiel disse que ficavam perto de Alto Monte… Eu não fui embora porque tenho meu pequeno negócio aqui e meus filhos mais velhos estão estudando em Yurimaguas. Eu também estou ficando velha…”, diz Dora, com as rugas se acentuando e um meio sorriso. Terminamos uma garrafa de água quase fria, já que não há eletricidade em Nazaré. O que se vê ao longo da estrada são campos desmatados, alguns bois magros e plantações raquíticas em ambos os lados da longa estrada de terra que serve como único acesso.
Em Ucayali, os vizinhos de Don Albino Ramos, que haviam se estabelecido em outra colônia israelita chamada Jerusalém, migraram para a província de Mariscal Castilla, em Loreto, por volta de 2010. De uma só vez, quase toda a população, que havia lutado por nove anos para obter títulos de propriedade, decidiu mais uma vez vender tudo e migrar. Apenas alguns dos colonos originais permanecem na região.
Na Colômbia, onde também existe um grupo significativo de israelitas, a migração para a fronteira também ocorreu. Os israelitas chegaram à Colômbia por volta de 1994 e imediatamente começaram seu trabalho missionário na região do Cauca.
As famílias colombianas que migraram internamente são, em muitos casos, deslocadas pela violência interna do país, e também pessoas que deixaram, por exemplo, o Vale do Cauca, fugindo do narcotráfico. Esses assentamentos também foram estabelecidos nas áreas fronteiriças do sul da Colômbia. Um exemplo é León de Judá, perto de Leticia, e outro é Puerto Ezequiel, no lado colombiano do rio Putumayo, que faz fronteira com o Peru.
A Tríplice Fronteira
Segundo a plataforma Global Forest Watch, Mariscal Ramón Castilla perdeu mais de 113.000 hectares de floresta primária entre 2001 e 2021. De acordo com fontes consultadas do IIAP (Instituto de Investigações da Amazônia Peruana) e da Gestão Florestal, o desmatamento na província de Mariscal Castilla e seus distritos está intimamente ligado à demanda por mandioca, milho amarelo, abacaxi, banana-da-terra, milho duro e feijão-caupi nos mercados locais, nacionais e internacionais (Colômbia e Brasil). Embora nem todo o desmatamento possa ser atribuído aos israelitas, cabe ressaltar que Alto Monte de Israel, o principal assentamento israelita, sozinho, já possui mais de 20.000 hectares desmatados. O desmatamento causado pela população israelita dispersa é difícil de mensurar, mas certamente supera o de Alto Monte.
O desmatamento é observado em pequenas parcelas, na maioria das vezes com menos de 5 hectares, mas algumas ultrapassando 20 hectares, concentradas em áreas próximas às cidades de San Pablo, Caballococha, Alto Monte, Cushillo Cocha, Jerusalén, Santa Teresa, Santa Rosa e ao longo das margens dos rios. Grandes áreas de pastagem também foram criadas para a criação de gado, concentradas em áreas próximas às cidades de Alto Monte, Caballococha, Santa Teresa, Santa Rosa e também em áreas adjacentes aos rios.

A criação de gado bovino e caprino é uma das atividades que também contribuem para o desmatamento. Os distritos mais afetados pelo desmatamento para a criação de gado são San Pablo (onde se localiza Alto Monte de Israel), Ramón Castilla e Yavarí.
Os israelitas praticam a agricultura itinerante não tradicional, utilizando sistemas intensivos de monocultura, cultivando principalmente arroz, inhame, banana-da-terra e, em menor escala, amaranto e mandioca, entre outras culturas. Eles se tornaram a principal força econômica nessa região fronteiriça, influenciando cidades como Leticia, na Colômbia, Tabatinga, no Brasil, e Santa Rosa e Iquitos, no Peru.
Também no Sul
Até recentemente, apenas se conheciam os assentamentos israelitas em Loreto e na selva central. O mandamento de Ezequiel Ataucusi parecia estar direcionando toda a migração para a Tríplice Fronteira em Loreto. No entanto, há alguns anos, o crescimento de um foco de desmatamento implacável em Madre de Dios, também próximo à fronteira do Peru com a Bolívia e o Brasil, chamou a atenção de especialistas do Projeto MAAP, da ONG ACCA. A área é chamada de Arca Pacahuara e sofreu mais de 4.300 hectares de desmatamento, grande parte dentro de uma concessão florestal.
Os moradores de Arca Pacahuara relatam que Ezequiel Ataucusi realizou uma reunião com os presentes na cidade de Cusco no final de 1994. Nessa reunião, ele selecionou um grupo para colonizar a selva da fronteira sul, em Madre de Dios, no ponto mais remoto da região, próximo à tríplice fronteira com a Bolívia e o Brasil. Ataucusi indicou que todos os reunidos em Cusco e Puno (e, de modo geral, no sul do Peru) deveriam ir para Madre de Dios.

Assim, no início de 1995, 46 homens viajaram de Cusco para Puerto Maldonado, capital de Madre de Dios, no sudeste do Peru. De lá, com poucos pertences e uma fé inabalável nos mandamentos do profeta, partiram para Iberia, capital do distrito homônimo, na província de Tahuamanu, a cerca de 170 km de Puerto Maldonado. Em Iberia, reabasteceram-se e os 46 colonos continuaram a pé por cerca de 17 quilômetros. “Havia apenas uma pequena casa, a cerca de 5 quilômetros de Iberia. Depois disso, só havia floresta”, contam.
Segundo Hercilio, um dos colonos mais antigos, os israelitas se estabeleceram na área do desfiladeiro de Pacahuara e deram ao local o nome de “Arca Pacahuara”, em referência à Arca da Aliança bíblica. Hercilio relata a árdua jornada e a difícil experiência. “Não foi fácil para os 46 que vieram. No início, tivemos até mortes por picadas de cobra. Não havia assistência, nenhum apoio… viemos apenas com a nossa fé.”
“Não viemos todos de uma vez, foi aos poucos. E aqueles que permaneceram o fizeram por causa da força da nossa fé em nosso líder, o Sr. Ezequiel Ataucusi Gamonal”, diz Juan, enquanto realiza reformas no Campo Real, local de encontro e oração da congregação.
As terras que começaram a ocupar eram terras florestais, propriedade do Estado peruano. Em 28 de dezembro de 2001, foi aprovada a criação das Florestas de Produção Permanente Madre de Dios, e, em 2002, após 5 anos de ocupação da área pelos israelitas, em 4 de julho, foi assinado o contrato de concessão com a Corporação Florestal Tres Fronteras.
Segundo Federico Ríos, representante legal da concessão, e outras fontes consultadas, como o jornalista Manuel Calloquispe, no início das operações, a empresa permitiu que os israelitas mantivessem atividades agrícolas dentro da área da concessão. A autoridade florestal excluiu 6.148 hectares de terra da concessão, que então se tornou ocupação regular dos israelitas, compensando a empresa com mais 5.272 hectares.
Contudo, mesmo com essa facilidade, os israelitas não respeitaram os limites da concessão. Aos poucos, mais e mais pessoas chegaram em grande número. Muitos dos recém-chegados eram de Puno, do povo indígena aimará, conhecido por suas habilidades no comércio e na cooperação entre os grupos familiares. Assim, a colonização se intensificou e a agricultura tornou-se mais tecnologicamente avançada para a produção massificada de milho.
Em poucos anos, a expansão dos agricultores em Pacahuara tornou-se mais agressiva, e as queixas de Federico Ríos, representante do concessionário, tornaram-se cada vez mais frequentes. Os esforços de diálogo e conciliação entre as partes mostraram-se infrutíferos. Os apelos de Ríos para que interrompessem as invasões na concessão caíram em ouvidos moucos. Durante uma operação policial, os israelitas protestaram e sequestraram os policiais, o concessionário e sua advogada, forçando a libertação de três agricultores israelitas detidos pelos crimes de invasão de terras e desmatamento. Apesar da natureza flagrante dos crimes, o anonimato da multidão permitiu que esses delitos ficassem impunes. Até hoje, após novas investigações e queixas, Ríos Gonzales, o titular da concessão, não conseguiu levar nenhum dos perpetradores à justiça.
Atualmente, cerca de 2.000 pessoas vivem em Arca Pacahuara. Apesar de estarem cientes dos problemas com a concessão, já investiram consideráveis recursos financeiros e tempo na conversão da floresta tropical em plantações de milho. E, segundo os moradores entrevistados, não estão dispostos a abandonar o que consideram suas terras e seus lares.
Enquanto isso, do outro lado da fronteira, em Pando, Bolívia, bem perto de Arca Pacahuara, um novo assentamento israelita está se formando. O nome soa familiar. Chama-se Alto Monte AEMINPU e é composto por pessoas que migraram de La Paz, Cochabamba e Santa Cruz — em outras palavras, israelitas bolivianos. O assentamento fica a cerca de 12 quilômetros da fronteira com o Peru e a 14 quilômetros da Rodovia Interoceânica. Até o momento, eles já desmataram cerca de 200 hectares.
Não se come madeira
Isabel, uma mulher na casa dos cinquenta que, como a maioria dos israelitas, não gosta de ser fotografada, me pergunta com irritação: “O que você está fazendo aqui? Por que está carregando uma câmera? Quem te deu permissão para vir?”. Isabel é aimará, veio de Puno e agora mora em Arca Pacahuara. Finalmente, ela nos conta que “a fé nos trouxe até aqui, por meio da palavra do profeta Ezequiel e do Sr. Ezequiel Jonas… a fé é o que nos deu forças para vir até aqui”, diz ela com a convicção de uma varoa.
Lúcio, um israelita de Ucayali, acredita firmemente que a criação está a serviço da humanidade e que Deus a colocou ali para ser dominada. “É o que dizem as escrituras, irmão. Leia as escrituras; está tudo claro lá. Devemos cuidar da natureza, mas as pessoas vêm em primeiro lugar. Além disso, já estamos caminhando para o caos, como previu o profeta Ezequiel. Tudo já foi dito. Portanto, o caminho para a salvação é a agricultura; esse é o motor mais importante dos países desenvolvidos. É isso que a FREPAP quer para o Peru, que deixe de ser um país pobre. Mas somente os congregados serão salvos quando chegar o juízo. Ele virá; não pode ser evitado.”
“Eles nos condenam, nos acusam, chamam a polícia… Por quê? Os madeireiros, os concessionários, extraem madeira, e quem se beneficia? É para o povo? É só para o bolso deles. Nós trabalhamos a terra e produzimos alimentos para todos. É para o povo, não só para nós”, diz Wilder, morador de Arca Pacahuara. Wilder veio de Cusco aos 14 anos e agora, com quase 40, mantém uma enorme plantação de milho.
“Árvores não se comem; já existem muitos lugares com árvores. Deveriam fazer mais para controlar os ladrões, esses que roubam as árvores, os ilegais. Produzimos alimentos para a cidade, para o distrito. Não fazemos isso às escondidas. Árvores não se comem. Temos que cuidar delas, sim, mas também precisamos comer. E este é o nosso sustento”, diz Justino, que migrou das terras altas centrais para Loreto e depois se mudou novamente para o outro extremo do Peru, para Madre de Dios.
O impacto combinado dos assentamentos israelitas na Amazônia peruana atinge dezenas de milhares de hectares. Estimativas da especialista em monitoramento do desmatamento, Carla Limas, indicam que os 36 assentamentos fundados por Ezequiel Ataucusi podem ter causado o desmatamento de pelo menos 108.000 hectares. “Se presumirmos que os assentamentos conhecidos ultrapassam 3.000 hectares, faz sentido pensar nesse número. Estamos falando de décadas de processos de colonização e uma migração que não parou. Os israelitas foram pioneiros na ocupação de diversas partes da Amazônia peruana. Além disso, devido à longa história de seus deslocamentos, sua verdadeira pegada ecológica nas florestas talvez nunca seja totalmente conhecida”, afirma.
Negócios profanos
Mariscal Castilla é uma das províncias peruanas que apresentam um aumento constante no cultivo de folha de coca. Apesar das reclamações de moradores e autoridades locais, a expansão dessas plantações continua sem controle. Somente entre 2020 e 2021, segundo dados oficiais, a área cultivada com coca cresceu de 4.318 para 6.472 hectares, um aumento de 49,9%. Os principais distritos onde a coca é cultivada são Ramón Castilla, Pebas e San Pablo. Esses três distritos abrigam a maior população israelita do país.
Esta província é um território atravessado pela maior hidrovia do mundo, o rio Amazonas, que oferece um espaço ideal para o transporte clandestino de todos os tipos de carga. Ao longo de seu curso, a miríade de afluentes, rios e córregos, bem como os próprios braços do Amazonas, cria uma área navegável difícil de definir em mapas. Uma embarcação deve escolher o melhor canal para evitar encalhar ou navegar pelos estreitos canais, sendo as embarcações menores, como os peque-peques, as mais versáteis para navegar no labirinto aquático que flui em direção ao Atlântico.

“Aqui, se você não souber o caminho, se perde, chefe… O rio te deixa bobo, te faz agir como um idiota, e se você não prestar atenção na rota, pode acabar num lugar sem saída…” comenta Moisés. O homem, resistente como o calor da selva, tem a pele curtida pelo sol, braços musculosos e veias saltadas, e é um dos motociclistas que nos levaram pela Amazônia. “Faço isso há uns trinta anos, desde criança… Eu ia pescar com meu tio, e ele me dizia: ‘Olha com atenção, olha com atenção… aprende a enxergar o rio… não vira a moto… é assim que se aprende…’, ele dizia. E foi assim que eu aprendi, a dirigir, a limpar o motor, a transportar a carga sem molhar… a evitar ser enganado no caminho.”
Curioso, pergunto a ele sobre a carga. “Transportamos todo tipo de coisas, chefe. Se pagarem bem, pode-se arriscar. Todo o pessoal diz que é dinheiro fácil, mas quero ver se eles aguentam passar 10 horas no barco, faça chuva ou faça sol, e se vão dizer que é muito dinheiro. E se te pegarem, você pode não viver para contar a história. É assim que funciona este negócio…” Moisés é um dos muitos transportadores que frequentemente movimentam insumos químicos ou cocaína na região. É um trabalho arriscado. E os seus clientes não toleram erros.
“Há muitos cunchis (outro nome que usam para os israelitas), dos Ataucusi, envolvidos nesse negócio… Certa vez, levei um deles com a carga. Mas fiquei surpreso porque eles não bebem álcool, não fazem sexo, e esse era diferente. Pareceu-me muito astuto. Não é à toa que dizem que algumas pessoas se disfarçam com as roupas deles para não serem questionadas ao atravessar a fronteira”, continua Moisés.
Segundo um funcionário local da DEVIDA, a agência antidrogas peruana, cuja identidade prefere não revelar, em San Pablo, um dos distritos de Ramón Castilla, em 2020, 90% dos beneficiários dos programas de assistência à substituição de cultivos eram membros do movimento israelita.
Maribel, a mulher que veio de San Martín para Alto Monte de Israel, deixou a colônia em 2006. “No começo, as coisas iam muito bem, não havia problemas com ninguém. Vendíamos tudo na fronteira, em Caballococha, e trazíamos para cá, para Iquitos. Aí, um dia, apareceram uns colombianos. Queriam comprar toda a nossa colheita e pagar bem. Vendemos tudo duas ou três vezes. Estávamos felizes. Era um bom dinheiro. E então, um dia, nos disseram que podíamos alugar terras para eles, que pagavam bem pelas folhas de coca. No começo, ninguém aceitou e não se importaram. Mas depois, com as pessoas novas que vieram de outras colônias, as mais jovens, começaram a fazer contratos com elas. Aí apareceu mais gente, escondendo seus negócios sujos… Eu vivi isso na minha terra natal quando era jovem, primeiro a coca, depois balas, criminosos, terroristas, nunca mais quero viver isso de novo. Por isso fui embora, dizendo que estava doente demais para trabalhar na terra, mas eles ainda me recebem bem. Muitos congregados discordam, mas não sei o que farão agora.”
A expansão israelita na Tríplice Fronteira não afetou apenas as florestas, mas também a população indígena Ticuna da província. Diversas comunidades Ticuna foram invadidas por essa expansão israelita. “Basta uma permissão para que um israelita, sempre um colono andino ou costeiro, se estabeleça dentro dos limites da comunidade. Depois de alguns meses, tivemos que ir lá e remover uma dúzia de famílias. Eles não respeitam acordos, não respeitam nada”, afirma Francisco Hernández, presidente da Federação das Comunidades Ticuna da Baixa Amazônia (FECOTIBA). “Além disso, primeiro plantam mandioca, sua principal cultura, e depois, mais adiante em suas terras, começam a plantar coca. Não se pode confiar neles”, explica.
Na região da Tríplice Fronteira, Letícia (Colômbia) e Tabatinga (Brasil) são praticamente cidades gêmeas. Em ambas, a violência relacionada ao narcotráfico é uma ocorrência diária. Grupos nas redes sociais, especialmente no WhatsApp, exibem regularmente as consequências dessa violência. Imagens de assassinatos, listas de pessoas a serem mortas e todo tipo de notícia circulam, alimentadas por uma fascinação mórbida e pelo medo.
Os israelitas dominam partes de Tabatinga com seus negócios, sempre localizados perto do porto principal. Seus barcos chegam carregados de bananas, mandioca e outros produtos, que vendem a preços mais baixos que os comerciantes colombianos. Duas ruas inteiras, repletas de lojas, são controladas por israelitas peruanos, mas também por israelitas brasileiros. A principal base dos israelitas brasileiros nesta parte do mundo fica na cidade de Benjamin Constant. Lá, os israelitas têm seu campo real, o espaço onde realizam suas cerimônias e rituais, o espaço a partir do qual pretendem se expandir em direção ao Atlântico. De fato, uma pequena comunidade israelita já começou a se formar em Manaus.
Para um israelita que chamaremos de Martin, “a coca é uma planta sagrada, e uma planta sagrada, se semeia. É um legado de nossos ancestrais incas, o primeiro povo escolhido aqui no Ocidente. Alguns de nossos irmãos e irmãs a cultivam para consumo tradicional; isso não é crime. Se houver excedente, às vezes as pessoas vêm e compram. O que fazem com ela é decisão delas, não nossa…”
De acordo com as fontes consultadas e reportagens jornalísticas, cidadãos israelitas foram flagrados transportando cocaína em diversas ocasiões e presos pelas polícias federais peruana e brasileira. A tese de doutorado de Lucía Meneses detalha muitas das acusações e conexões entre israelitas e o cultivo de folha de coca, remontando a meados da década de 1990. Disputas internas dentro do movimento são expostas, assim como declarações da Polícia Federal brasileira, que começou a denunciar publicamente esses vínculos com o narcotráfico em 2014. Já em 1995, a revista peruana Caretas havia noticiado que Ezequiel Ataucusi, fundador da AEMINPU, estava seriamente envolvido com o narcotráfico.
Em 2017, 25 quilos de cocaína foram encontrados a bordo da embarcação María Fernanda II, pertencente à empresa VQ Arco Iris, cujo proprietário é o israelita Víctor Quispe Vilcatoma. O caso aparentemente foi arquivado, e a embarcação continua operando até hoje. O que intriga é a prosperidade econômica da família, que inclui grandes empresas em Iquitos, propriedades, centros comerciais e outros negócios, todos fundados com o aparente sucesso agrícola. Este não é o único caso conhecido envolvendo empresários israelitas, mas a Unidade de Inteligência Financeira da Superintendência de Bancos, Seguros e Administradoras de Fundos de Pensão Privados (SBS) do Peru parece estar ignorando esses casos.

Talvez seja uma coincidência, um mero evento fortuito, mas todos os grandes assentamentos israelitas, como os de Yurimaguas e da Tríplice Fronteira em Loreto, em El Sira, na fronteira entre Ucayali e Huánuco, e em áreas próximas a Arca Pacahuara em Madre de Dios, ou Puerto Ezequiel, no lado colombiano do rio Putumayo, são áreas de produção de coca ou zonas de trânsito de cocaína. As tentativas recentes de expansão israelita ao longo do rio Napo também coincidem com relatos de atividades de narcotráfico na bacia.
Essas aparentes coincidências somam-se aos incidentes envolvendo o próprio Jonás Ataucusi Molina, atual líder da AEMINPU, que foi preso enquanto viajava de Lima para Ayacucho em um comboio de dois carros. Dentro dos veículos, as autoridades encontraram dois revólveres, uma pistola automática e duas carabinas modernas de múltiplos tiros. Também foram apreendidos 132 cartuchos de espingarda calibre 12, 294 cartuchos calibre .223, 36 balas de pistola e 12 carregadores municiados. Entre seus pertences, foram encontrados ainda uma câmera de vídeo, equipamento de radiocomunicação e dinheiro em espécie. Ayacucho é a porta de entrada para o VRAEM, a maior região produtora de coca do Peru.
Contatos políticos
O Peru é um país com uma instabilidade política surpreendentemente persistente. O desencanto da população com a classe política, que apresenta candidatos eleição após eleição, trouxe ainda mais precariedade a um país que parece estar em um piloto automático invisível. Em parte, esse desencanto, esse desprezo pelos políticos estabelecidos, refletiu-se na eleição inesperada de 16 membros do Congresso pela FREPAP, o braço político dos israelitas. Após 20 anos sem representação no Congresso, a FREPAP tornou-se a segunda maior força política no parlamento.
Em 2020, a FREPAP contava com 41.294 membros registrados, distribuídos em 105 comitês nos 24 departamentos do Peru. Segundo seu site, a Frente Popular Agrícola do Peru – FREPAP “é um partido teocrático, nacionalista, inspirado no Tahuantinsuyo, revolucionário, agrário-ecológico, de base ampla e integracionista, defensor ferrenho dos direitos humanos fundamentais, da verdade e do Estado de Direito; e inspirado pelos princípios da liberdade e igualdade, da solidariedade, da justiça e da paz, verdadeiros preceitos da doutrina cristã”.
A atuação da FREPAP no Congresso visava projetar uma imagem alinhada aos seus princípios morais. No entanto, funcionários do Congresso peruano que trabalharam durante o mandato do partido afirmam que seus votos eram muito negociados. Mariano Castro, ex-vice-ministro de gestão ambiental do Ministério do Meio Ambiente, lembra que os congressistas se opunham a qualquer iniciativa que pudesse dificultar sua expansão territorial.
Por outro lado, um dos congressistas do partido, Robledo Gutarra, representante de Junín, apoiou integralmente a construção de rodovias na Amazônia, especialmente a rodovia Bolognesi – Nueva Italia – Sawawo – Puerto Breu. Essa rodovia, designada UC-105, visa criar uma estrada pavimentada ligando Junín e Ucayali, no Peru, ao Acre, no Brasil, atravessando vastos territórios indígenas sem levar em consideração as consequências. Apesar dos alertas e protestos de organizações indígenas, essa rodovia permanece como uma proposta no Congresso, apoiada por autoridades que veem a nova estrada como uma oportunidade para expandir a fronteira agrícola às custas do aumento do desmatamento e do crescimento do narcotráfico, já presente na região. De fato, quando o projeto começou a ser promovido, representantes da FREPAP em Junín e regiões vizinhas o apoiaram imediatamente.
No entanto, como aponta o pesquisador Carlos Raez, “a FREPAP apoiou e elaborou leis que, na prática, beneficiaram a população, principalmente no âmbito econômico. Contudo, essas leis receberam críticas quanto ao seu fundamento jurídico, ou seus proponentes foram acusados de populismo. A bancada da FREPAP apresentou um total de 326 projetos de lei, dos quais 48 foram aprovados, além de 4 resoluções legislativas…”. “(A FREPAP) também conseguiu a aprovação de leis que favoreceram a agricultura, em consonância com sua ideologia, como as que promovem o terraceamento, os mercados digitais no setor agrícola e as compras estatais de produtos alimentícios. Merecem destaque, ainda, a prorrogação da moratória sobre organismos geneticamente modificados, a modificação da antiga Lei de Promoção Agrícola e um novo regime agrário.”

Além da representação no Congresso, em Loreto, na região da Tríplice Fronteira, o partido Frepap venceu as eleições municipais de 2018 na província Mariscal Ramón Castilla e nos distritos de Pebas e San Pablo, pertencentes àquela província. Há anos, as administrações municipais são ocupadas ou fortemente influenciadas pela comunidade israelita. Sob sua gestão, estradas locais foram construídas sem levar em consideração os processos de consulta prévia exigidos por lei quando afetam territórios indígenas. Essas estradas se tornaram novas frentes para invasões de terras e para o crescimento do narcotráfico que prevalece na província.
Em Iberia, Madre de Dios, Arca Pacahuara também se beneficiou da presença de autoridades municipais israelitas. Com vias de acesso e conexões com outras cidades, Arca Pacahuara possui uma rede viária bem conservada, em contraste com vilarejos cujas estradas estão em péssimas condições. Os 4.300 hectares de terra desmatada em Arca Pacahuara estão em constante crescimento.
Contudo, suas investidas em prol do poder político em nível nacional estão agora um tanto mais evidentes. Enquanto se preparava para o segundo turno das eleições, Pedro Castillo, recentemente destituído da presidência do Peru, recebeu publicamente a bênção de um pastor israelita. Durante a apuração desta reportagem, foi revelado que David Pérez Curi está entre os colaboradores mais próximos de Castillo.
Como indica o Portal da Transparência, desde agosto de 2021, David Pérez foi um visitante frequente do gabinete do presidente, e realizou reuniões no Ministério da Habitação, no Ministério do Comércio Exterior e Turismo, e nos gabinetes de congressistas do partido governista. Desde dezembro de 2021, ele consta como assessor em diversas instituições públicas, mas é visto acompanhando Castillo em quase todos os eventos públicos. David Pérez é filho de María Curi, uma varona da comunidade israelita, que concorreu a uma vaga no Congresso representando Madre de Dios nas últimas eleições. Além disso, na Tríplice Fronteira, a embarcação María Fernanda, da família Quispe Vilcatoma, hasteou as bandeiras de candidatos mais alinhados ao governo de Castillo antes das eleições regionais e municipais de outubro de 2022.

Mas não é apenas no Peru que a AEMINPU buscou o poder político. Na Bolívia, durante as eleições de 2005, a Frente Patriótica Agrícola Boliviana (FREPAB) lançou 61 candidatos a senador e deputado. Já o seu candidato à presidência, Eliseo Rodríguez Pary, que havia liderado a AEMINPU na Bolívia por 18 anos, teve que retirar sua candidatura quando sua origem peruana foi revelada. A FREPAB continuou participando de eleições até 2008, quando se dissolveu em alianças com outros partidos.
Um futuro sem profecias
É impossível prever com certeza o futuro político da FREPAP e o que acontecerá com os seguidores de Ezequiel Ataucusi. Uma mulher em Ucayali comentou que o profeta havia previsto tudo até 2020 e que essas previsões se concretizaram, mas que agora caberia a Ezequiel Jonás, o herdeiro, anunciar os próximos passos do movimento. Quaisquer que sejam as previsões ou ordens que o novo profeta possa emitir, uma coisa é certa: a Amazônia está deixando de ser a terra livre sobre a qual o fundador dos israelitas planejou a salvação de seus fiéis.
A expansão dos israelitas e sua força política, evidentes em vários distritos e províncias, bem como seus avanços em diversos países da América Latina, permitem-nos afirmar que a já mencionada agonia do movimento não ocorrerá, pelo menos não em um futuro próximo.
Com o avanço do século 21, a Amazônia está cada vez mais ameaçada. Se os israelitas, assim como os menonitas e outros grupos, continuarem a enxergar as florestas como um obstáculo à expansão de seu modo de vida, o único resultado possível será o desaparecimento permanente da floresta amazônica.
Religião e desmatamento no Peru: os Israelitas da Nova Aliança
Redação Zelota
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