A história de Leif Lind, aposentado do ministério adventista, que construiu uma carreira internacional como missionário e foi pastor em três continentes
Leif Lind se aposentou em fevereiro de 2025 após mais de duas décadas servindo a mesma congregação na Califórnia. Sua trajetória é singular dentro da Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD), por ele ser o único pastor da denominação a exercer o ministério de forma aberta, sendo gay e vivendo com o seu marido.
Ordenado em 1980, Leif construiu uma carreira internacional como missionário e pastor em três continentes. Em 1996, porém, foi demitido da função após revelar sua orientação sexual à esposa, aos filhos e, meses depois, à liderança da igreja. A decisão institucional foi tomada em menos de uma hora.
Seu retorno ao púlpito ocorreu oito anos depois, em 2004, na Glendale City Adventist Church, uma congregação de perfil progressista na região de Los Angeles. Ali, Leif permaneceu por 20 anos, apoiado pela congregação, bem como por acordos informais com a liderança regional, que ao longo dos anos se tornou gradualmente mais favorável a ele até sua aposentadoria.
Em busca de acolhimento
“Quando nosso pastor associado parte o pão e derrama o vinho na mesa da comunhão, enquanto seu marido toca música suave de órgão para nossa congregação, fico cheio de uma felicidade que excede em muito todas as dificuldades que enfrentei”, escreveu o então pastor sênior da Glendale City Church, Todd Leonard, ao se referir a seu colega de equipe pastoral, em 2021.
No fim de 2019, iniciei uma pesquisa sobre igrejas da IASD que acolhessem pessoas LGBTI+ como membras plenas de suas congregações. Queria saber se existiam comunidades em que pudéssemos viver uma fé segura, sem abrir mão de nossas crenças, nem de nossa identidade.
Foi então que me lembrei de uma edição da revista Conexão, da SDA Kinship, com a história de uma pessoa que havia saído da China para se batizar em uma IASD na Califórnia, Estados Unidos. Isso me chamou a atenção. Naquele momento, tudo o que eu queria era reencontrar aquela revista para descobrir que igreja era aquela. Eu a reencontrei e descobri: era a Glendale City Church.

Já no ano seguinte, após uma série de circunstâncias, entrei em contato com a igreja para confirmar se aquele era, de fato, um espaço seguro para pessoas LGBTI+. A resposta foi afirmativa, e recomendaram que eu falasse com o pastor Leif, por ser “a pessoa mais indicada para conversar sobre o assunto”. Entrei em contato, e ele me recebeu com tanto afeto que, mesmo à distância, senti seu cuidado me acolher.
Nos primeiros contatos, ainda não tinha ligado os pontos. Não percebi que já havia lido sua biografia no livro Christianity and Homosexuality: Some Seventh-day Adventist Perspectives (“Cristianismo e homossexualidade: algumas perspectivas adventistas do sétimo dia”, em português). Talvez por seu nome e sobrenome não serem tão familiares a nós, brasileiros. Até que, entre uma indicação de leitura e outra, Leif comentou: “O livro inclui algumas histórias pessoais (a minha está incluída como um dos capítulos).” Dias depois, recorri ao livro, e lá estava sua história.
“Trabalhei como pastor e missionário para a Igreja Adventista do Sétimo Dia por vinte anos, em três continentes. Sou pai de dois filhos adultos que, como eu, têm vivido e trabalhado em várias culturas e continentes diferentes. Eu sou gay”, introduziu Leif em seu capítulo. Acho que nem ele mesmo imaginava que ainda teria mais duas décadas de ministério pela frente.

Foi então que liguei os pontos. Ali estava eu, ainda que virtualmente, diante de quem parecia ser o primeiro, e até agora único, pastor adventista do sétimo dia publicamente gay e casado com outro homem. E mais: foi o único que exerceu seu ministério até a aposentadoria, em fevereiro de 2025.
Da infância missionária ao ministério
Para aqueles que ainda não conhecem sua história, Leif nasceu em 21 de novembro de 1952, na Estação Missionária de Mitandi, no sopé das Montanhas Rwenzori, no oeste de Uganda. Ele é filho dos missionários noruegueses Magdalon e Kezia Lind. Seu pai serviu a igreja em muitas posições internacionais: foi desde diretor local da Missão em Uganda até presidente da Divisão em Beirute, no Líbano, e é descrito em registros históricos como um líder dinâmico no adventismo, enquanto sua mãe trabalhava como enfermeira e massagista. Ainda na infância, Leif cruzou oceanos em navios, acompanhando sua família em suas viagens missionárias.

Sua infância foi marcada pela itinerância entre as missões em Uganda, o período escolar em Edgware, no norte de Londres, e os verões na Noruega. Nesse trajeto, conviveu com múltiplos idiomas e enfrentou uma asma severa, contraída no ar poluído (smog) da capital britânica na década de 1950.
Entre o povo Bakonjo, da região onde nasceu, Leif recebeu o nome tribal “Muhindo”, tradicionalmente dado a um menino nascido depois de irmãs mais velhas. Suas irmãs são Gerd, chamada “Musoki” (a primogênita), e Elsa, “Biira” (a segunda filha).
Leif descreve o ambiente familiar como acolhedor, apesar da rigidez institucional da época. “Tive uma infância muito feliz. Meus pais eram espirituais, mas não especialmente conservadores. O lema do meu pai sempre foi ‘moderação em todas as coisas’”, recorda Leif, mencionando que, apesar da posição de liderança do pai, a família vivia uma espiritualidade menos dogmática do que se poderia supor.

Crescendo praticamente como filho único, já que as irmãs eram muito mais velhas e estudavam em internatos no exterior, ele teve contato com diversas culturas e idiomas desde cedo. Leif cresceu em um lar adventista e, exceto pelos dois primeiros anos de alfabetização, frequentou escolas da igreja. Ele relata que seus pais eram espirituais, mas tinham uma mente aberta. “Íamos à igreja todos os sábados. Às vezes em uma língua local que eu não entendia, às vezes em inglês. Na escola da igreja, fazíamos todas as atividades típicas dos adventistas, como acampamentos e peças de Natal”, detalha.

Formação, fé e itinerância
Com pouco mais de vinte anos, Leif já havia acumulado experiências de vida em oito países de quatro continentes, incluindo Inglaterra, Uganda, Quênia, Zimbábue, África do Sul, Líbano, Noruega e Canadá. Sua formação acadêmica abrangia desde escolas públicas seculares até instituições adventistas. Sua jornada incluiu o domínio do inglês, do francês, que aprimorou durante um período em uma escola rural na Suíça, e do norueguês, que aprendeu de forma autodidata.
Seu rito de passagem religioso ocorreu aos 12 anos, quando foi batizado por seu próprio pai na Igreja Adventista Central em Nairóbi. A música também ocupou um lugar central em sua vida até que, aos 17 anos, enquanto estudava no Helderberg College, na África do Sul, obteve um diploma de piano (Grau VIII, Final) pela Royal Schools of Music em Londres, uma habilidade que o acompanhou ao longo de sua carreira ministerial.


Em 1973, Leif concluiu as graduações em Teologia e Inglês no Middle East College, em Beirute. O período foi marcado pela tensão política no Líbano, com a instabilidade pré-guerra civil atrasando e quase inviabilizando sua formatura.
Aos 19 anos, após uma juventude itinerante, ele partiu rumo ao extremo norte da Noruega: viajou de Beirute a Tromsø, onde passou o verão trabalhando no sanatório Nord Norges Kurbad, dividindo o tempo entre o emprego, cursos universitários por correspondência e o estudo da língua norueguesa.

Leif iniciou sua carreira ministerial como estagiário voluntário na Noruega, trabalhando em Bergen e Sandnes entre 1973 e 1974, sendo remunerado apenas com acomodação e uma pequena ajuda de custo. Em busca de qualificações acadêmicas, ele foi para o Newbold College, na Inglaterra, e cursou mestrado em Religião. Ele o concluiu no Seminário Teológico da Andrews University, em Michigan (EUA), em dezembro de 1975, se graduando oficialmente em 1976.

Casamento, silêncio e conflito interno
Durante uma temporada no Canadá, no primeiro semestre de 1976, Leif trabalhou no Silver Hills Institute, uma comunidade adventista de estilo de vida natural e rígida, descrita por ele como uma fase de “conservadorismo teológico idealista”, onde também adotou o vegetarianismo estrito. Hoje, ele analisa esse comportamento com clareza, e avalia que a “adesão ao pensamento idealista era provavelmente, em algum nível inconsciente, parte da minha tentativa de mascarar quem eu realmente era”. Foi nesse período que conheceu a mulher com quem se casaria em 1977, em Lumby, na Colúmbia Britânica, em cerimônia oficiada pelo pai do noivo, Magdalon Lind.
De volta à Noruega, ele consolidou sua identidade pastoral ao longo de sete anos, servindo em cidades como Mandal, Flekkefjord, Ålesund e Tromsø. Em Flekkefjord (1977-1978), enfrentou desafios pastorais em uma pequena congregação marcada por décadas de disputas teológicas entre duas famílias locais. Leif foi o primeiro pastor a aceitar o cargo naquela igreja desde seu próprio pai, 44 anos antes, e permaneceu na função por apenas um ano. O período seguinte, em Ålesund (1978-1980), trouxe tempos mais tranquilos e o nascimento da filha do casal, Sonja Camilla, em dezembro de 1979.
Curiosamente, no Dia Internacional do Orgulho LGBTI+, Leif foi ordenado ao ministério em 28 de junho de 1980, em Bergen. Ele assumiu a liderança pastoral e departamental em Tromsø, no norte do país, onde a família cresceu com a chegada do filho, Svend Erik, em 1981.

Em maio de 1982, a família recebeu um chamado para Kendu Bay, no oeste do Quênia. Durante oito anos, Leif trabalhou como editor de livros e gerente de circulação na editora da igreja, Africa Herald Publishing House. Ele vivia em condições que incluíam eletricidade gerada apenas à noite, consumo de água da chuva fervida e a proximidade estratégica de um hospital missionário para tratar doenças tropicais recorrentes, como a malária. Enquanto morava lá, Leif conciliava o trabalho editorial com a pregação e visitas pastorais a igrejas da região.

Em março de 1985, porém, a distância geográfica cobrou seu preço: seu pai morreu subitamente de um ataque cardíaco em um café em Oslo, no momento em que sua mãe lia uma carta que ele havia enviado aos pais.
No ano seguinte, em 2 de janeiro de 1986, aos 33 anos, Leif escalou o Monte Kilimanjaro, o pico mais alto da África, como um gesto simbólico de superação da asma severa que marcou sua infância, uma vitória atribuída em parte ao hábito de correr que mantinha desde a adolescência.

Em agosto do mesmo ano, Leif retornou a Uganda, seu país natal, como orador convidado, em uma visita que reacendeu suas raízes e que só se repetiria em abril de 2005, desta vez com foco no apoio à comunidade LGBT local.
Dois anos depois, entre abril e agosto de 1988, a família embarcou em um périplo de 99 dias ao redor do mundo como parte de um período de licença missionária (furlough), que inclui escalas na Europa, Ásia, Oceania e Américas, antes do retorno ao Quênia.

A mudança definitiva da África ocorreu em agosto de 1990. Aos 37 anos, Leif fixou residência em Parksville, na Ilha de Vancouver (Colúmbia Britânica, Canadá), onde assumiu o pastorado das igrejas de Nanaimo e Port Alberni.
A revelação e a demissão
O ponto de ruptura deu-se em 2 de fevereiro de 1996, quando Leif revelou sua orientação sexual à esposa e aos filhos, ciente do risco iminente à sua carreira e aos laços familiares. A liderança da associação, contudo, só foi notificada meses depois, em 22 de agosto, por meio de um ancião da igreja local.
A reação institucional foi a demissão de Leif “dentro de uma hora” após a exposição.
Apesar de 20 anos de serviço ininterrupto, a denominação inicialmente se recusou a pagar a indenização rescisória, concordando apenas parcialmente após uma ação judicial. A recusa inicial em pagar qualquer valor contrariava tanto as normas da igreja quanto as do governo.
A ocasião ainda revelou a fragilidade das alianças institucionais. “O diretor Ministerial da Associação, que sempre se gabou de ser nosso ‘camarada’, não nosso ‘chefe’, se recusou a negociar comigo depois que descobriu. De repente, ele não era mais um camarada”, lamenta Leif.
Este período pôs fim a décadas do que Leif descreve como uma “agonia solitária” e medo de condenação espiritual.“Para mim, foi um despertar gradual e nauseante para o fato de que eu era diferente”, relata Leif. “Jejuei, orei e implorei a Deus durante anos para que ele me ‘mudasse’, e eventualmente percebi que isso não aconteceria”, disse ele. A constatação de que a mudança era impossível foi o catalisador para a sua autoaceitação, mas ele também enfrentou por anos o medo do julgamento divino, um pesadelo recorrente de ser “desmascarado no fim dos tempos”.
Ele recorda que, anos antes, quando ainda era recém-casado e atuava como pastor no sul da Noruega, chegou a passar de carro em frente a um bar gay movido pela curiosidade, mas jamais teve coragem de entrar. Sem exibir os estereótipos comportamentais frequentemente associados à homossexualidade, ele acredita que sua orientação permaneceu insuspeita nos círculos eclesiásticos até o momento de sua revelação.
A demissão marcou uma ruptura dolorosa, mas um detalhe canônico marca a peculiaridade de sua situação: embora a igreja tenha recolhido suas credenciais de trabalho (a licença funcional renovável) após a revelação de sua orientação sexual, sua ordenação ao ministério jamais foi anulada. A ordenação é considerada vitalícia na prática adventista, revogável apenas por disciplina eclesiástica específica, o que nunca ocorreu no caso de Leif. Tecnicamente, ele permanece um ministro ordenado pela denominação durante todo o período de seu afastamento e posterior retorno.
Uma nova etapa
Em 1997, buscando alternativas de subsistência, Leif obteve o certificado CELTA pela Universidade de Cambridge (cursado via Columbia College, em Vancouver), habilitando-se para o ensino de inglês como segunda língua. Ele passou a lecionar em Vancouver e permaneceu no Canadá durante essa fase de transição.
Naquele mesmo ano, em julho, durante um encontro da SDA Kinship, Leif conheceu Taylor Ruhl, um músico com raízes adventistas que também fora casado, com quem iniciaria um relacionamento duradouro. Na sequência, Leif se mudou para a região de Washington D.C., nos Estados Unidos, para viver com Taylor. Lá, entre 1998 e 2004, trabalhou em um escritório de advocacia especializado em imigração.
Leif residiu no estado de Maryland, passando por cidades como Greenbelt, Laurel e Crownsville, durante esses seis anos. Foi nesse período, em 23 de julho de 2000, que ele celebrou uma união civil com Taylor em Vermont, o primeiro estado americano a oferecer esse reconhecimento legal. Embora o casal considere o início espiritual de sua união em 1997, a celebração em Vermont marcou o primeiro passo jurídico, anos antes de a Califórnia (brevemente em 2008) e a Suprema Corte dos EUA (2015) legalizarem o casamento igualitário em âmbito nacional.
O avanço jurídico, contudo, ocorreu em tensão com a liderança eclesiástica no território onde Leif atuava. Em reação à decisão da Suprema Corte, a Divisão Norte-Americana da Igreja Adventista emitiu um comunicado oficial reafirmando que, “mesmo com a decisão da Suprema Corte, a organização mantém sua crença fundamental de que o casamento foi divinamente estabelecido no Éden e reafirmado por Jesus como sendo a união vitalícia entre um homem e uma mulher”. O documento destaca que essa posição era defendida pela IASD em âmbito mundial.
A nota oficial pontuava ainda que, “embora a IASD respeite as opiniões dos que diferem disso, continuará ensinando e promovendo sua crença baseada na Bíblia”, ressalvando, no entanto, a crença de que “todas as pessoas, independente de raça, gênero e orientação sexual são filhos de Deus e devem ser tratados com civilidade, compaixão e amor semelhante ao de Cristo”.
Em outro documento emitido naquele mesmo ano, a IASD estabeleceu limites rígidos para seus líderes. “Os funcionários da Igreja Adventista do Sétimo Dia não devem oficiar, realizar ou ter um papel ativo de participação em cerimônias de casamento entre pessoas do mesmo sexo”, determinava a Declação da Divisão Norte Americana sobre Sexualidade Humana, acrescentando que o simples comparecimento a tais eventos era uma “questão de consciência pessoal” a ser considerada com “discrição”.
Durante o ministério de Leif em Glendale, no entanto, ele desafiou abertamente essa norma. Com a aprovação dos pastores seniores locais que, por medo da Associação, evitavam realizar os ritos pessoalmente, Leif oficiou casamentos entre pessoas do mesmo sexo, incluindo um dentro da própria igreja de Glendale, onde um casal adventista expressou seu forte desejo de se casar dentro de sua própria igreja.
Um retorno improvável ao púlpito
Em julho de 2004, Leif retornou ao ministério pastoral na Califórnia, assumindo a posição de pastor associado na Glendale City Adventist Church. Ele se tornou o primeiro pastor declaradamente gay a servir de forma contínua e aberta dentro da estrutura da denominação adventista do sétimo dia.
A Glendale City Church não era uma congregação comum dentro do adventismo; como descrita por Leif, ela é como um espaço de “teologia progressista, mas liturgia tradicional, uma mistura um tanto incomum. Com destaque para um órgão de tubos sinfônico e música clássica de alto nível, a igreja atrai membros dispostos a dirigir longas distâncias para estar nesse ambiente afirmativo”.
Para viabilizar a contratação de Leif em 2004, a liderança local e a Associação costuraram um acordo tácito, no qual a congregação pagava o salário à Associação, que repassava o valor a ele, permitindo que ele acumulasse tempo de serviço oficial sem chamar atenção imediata da estrutura mundial. Mesmo assim, o início exigiu cautela, pois o pastor sênior da época, apreensivo com as repercussões, inicialmente impediu Leif de pregar. A situação mudou quando o pastor titular adoeceu e faleceu pouco depois, deixando Leif como o único pastor da igreja por seis meses. Anos depois, Leif também serviu durante um período de transição de 12 meses em 2023, quando a igreja ficou sem pastor.
Uma dupla jornada pastoral
Durante esse período, sua ligação com a Redlands United Church of Christ precedeu sua contratação formal como pastor nesta outra igreja. Desde 2005, Leif atuava como pianista na congregação, onde seu marido dirigia o coral. Foi nesse ambiente familiar que, em 23 de julho de 2008, aproveitando uma breve janela legal de três meses na Califórnia, o casal oficializou a união civil. A cerimônia, realizada no próprio templo da Redlands United Church of Christ, foi ironicamente celebrada por Rudy Torres, um pastor adventista aposentado.



A ascensão ao pastorado na Redlands United Church of Christ ocorreu no ano seguinte, em 2009, motivada por uma admiração institucional. Ao descobrirem que Leif atuava como pastor associado na Glendale City Adventist Church, os líderes da Redlands United Church of Christ ficaram impressionados com a existência de uma igreja adventista disposta a manter um pastor gay em seus quadros. Diante da necessidade de reforço na equipe e da disponibilidade de Leif aos domingos, já que seu trabalho em Glendale se concentrava nos sábados e dias de semana, fizeram o convite.
O arranjo de dupla jornada funcionou por cinco anos, mas cobrou um preço alto. Leif descreve o período como exaustivo, notando que “trabalhar meio período em duas congregações exige mais do que tempo integral em uma só”, devido às demandas pastorais duplicadas. Essa rotina durou até fevereiro de 2014.
Tensões, acordos e resistência
A permanência de Leif em Glendale exigiu habilidade política. Ele recorda ter sido chamado ao escritório da Associação logo no início, quando o presidente lhe perguntou, “à queima-roupa”: “você é um ativista?”. A resposta definiu seu futuro. “Acho que, se tivesse dito sim, teriam me pedido para sair. Sou, por natureza, um diplomata, para o bem ou para o mal. Se eu fosse do tipo confrontador, nunca teria sobrevivido 20 anos nesta congregação”, afirma.
A tensão com a liderança regional atingiu seu primeiro pico em setembro de 2007, quando um administrador da Associação cancelou unilateralmente o pedido de residência permanente (green card) de Leif, ameaçando sua permanência nos Estados Unidos. A decisão só foi revertida após protestos da igreja de Glendale, que motivaram a Associação a mudar de posição, o que resultou na concessão de sua residência permanente em 2009.
Entre 2006 e 2019, a relação de Leif com a estrutura adventista foi marcada por sinais ambíguos. Em 2006, ele foi convidado a falar em uma conferência da denominação na Califórnia sobre o tema “Cristianismo e homossexualidade”, ocasião em que compartilhou publicamente sua trajetória pessoal. O relato viria a ser publicado posteriormente na revista Spectrum e no livro Christianity and Homosexuality: Some Seventh-day Adventist Perspectives, (versão em português).

Em 2014, já após anos de atuação em Glendale, o presidente da Associação local solicitou que Leif apresentasse sua história de vida à comissão organizadora da igreja e respondesse a perguntas durante uma sessão de duas horas. Segundo ele, teve liberdade para abordar o tema da forma que considerasse adequada, um gesto que interpretou como uma inflexão em relação à postura anterior da liderança.
Dois anos depois, em 2016, Leif foi convidado pelo então pastor sênior da Glendale City Church a compartilhar sua trajetória com a própria congregação durante o culto de sábado. Em 2019, voltou a ser chamado para tratar do tema da homossexualidade com estudantes do programa de doutorado em Ministério da Universidade Andrews, na Universidade de Loma Linda, na Califórnia.


Apesar desses convites, a relação com a estrutura ministerial permaneceu ambígua. Leif relata que raramente era incluído em reuniões ministeriais formais. “Às vezes eu era tratado como colega da equipe pastoral; outras vezes, não”, afirma. Segundo ele, nunca houve uma explicação clara para essa oscilação.
A rotina em Glendale, no entanto, nem sempre foi isenta de hostilidades. Além de membros de igrejas vizinhas que denunciavam Leif à Associação sempre que viam seu nome em outdoors, ele enfrentou a perseguição obsessiva de uma membra da igreja. Disfarçada com um chapéu, ela se escondia em pontos estratégicos do saguão da igreja para abordar e interrogar fiéis sobre suas condutas morais e sexuais. A campanha de assédio contra a comunidade e a equipe pastoral tornou-se tão insustentável que a comissão da igreja, em uma decisão, votou unanimemente por bani-la do templo, sob ameaça de acionamento da polícia.
A longevidade do ministério de Leif em Glendale deveu-se em grande parte à ao apoio de seu marido. Ambos compartilhavam cicatrizes e paixões semelhantes. Eles são músicos, têm raízes adventistas profundas e vinham de casamentos heteroafetivos anteriores. Taylor não era apenas um suporte, mas um parceiro litúrgico visível. Durante anos, a congregação assistiu à dupla executar arranjos complexos, com Leif ao piano, e Taylor ao órgão da igreja.

A segunda década de Leif na igreja foi marcada por momentos de luto e turbulência profissional. Em julho de 2013, sua mãe, Kezia Lind, faleceu na Noruega, aos 103 anos. Anos antes, em 2009, Leif havia viajado ao país para coordenar sua transferência para um lar de idosos em Sandefjord. Mesmo diante dessas perdas, Leif e Taylor continuaram a oferecer música na igreja de Glendale, além de liderar peregrinações internacionais, como a viagem de 2010 aos chamados “lugares sagrados” (thin places) na Inglaterra, Escócia e Irlanda.
A escalada da igreja
O cenário para a demissão de Leif começou a se formar a partir de uma mudança profunda na governança global da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Desde 2017, a crise institucional da denominação se intensificou com a adoção de uma lógica disciplinar mais rígida.
Embora a criação de comissões de conformidade, que incluía uma voltada especificamente à homossexualidade, tenha sido apresentada como um mecanismo colegiado, na prática houve uma concentração de poder na Associação Geral e em um círculo restrito de dirigentes. O modelo histórico de governança representativa deu lugar a um exercício mais vertical de autoridade.
Nesse novo arranjo, temas como ordenação e diversidade sexual passaram a funcionar como testes de lealdade institucional, e foi nesse contexto que Leif se tornou um alvo simbólico.
Segundo ele, a pressão teve início em dezembro de 2017, quando o então presidente da Associação Geral, Ted Wilson, passou a exigir formalmente sua remoção, inclusive por meio de contatos diretos com a liderança da Associação local, sem êxito naquele momento.
Dois anos depois, em 2019, a ofensiva foi retomada. Ainda de acordo com Leif, desta vez a pressão exercida por Wilson por meio do União e da Associação local resultou em sua demissão oficial, em 30 de junho daquele ano.
Aposentadoria e legado
A reação da Glendale City Church foi imediata e desafiadora: para contornar a ordem hierárquica, a congregação criou uma estrutura de folha de pagamento independente com o objetivo exclusivo de assumir o salário de Leif. Dessa forma, ele continuou atuando como pastor da igreja por mais cinco anos, pago diretamente pelos fiéis, até sua aposentadoria em 2025.
Em 25 de maio de 2024, Leif oficiou a cerimônia religiosa de casamento de sua filha, Sonja, com Hossein Fazel, em Pasadena, Califórnia.
Ao oficializar sua aposentadoria em 1º de fevereiro de 2025, Leif encerrou um ciclo inédito na história da denominação. Refletindo sobre a singularidade de sua posição, ele declara: “Sinto-me honrado por ter sido o único pastor adventista abertamente gay, vivendo com meu marido, que conseguiu continuar servindo minha amada congregação por 20 anos.”
Essa permanência, mantida à revelia da hierarquia mundial que exigia sua saída, foi garantida pela congregação de Glendale, que criou uma estrutura financeira independente para assegurar que ele continuasse no púlpito. Para Leif, a visibilidade foi uma escolha estratégica de sobrevivência e testemunho: “Ao nos afastarmos da igreja, não podemos esperar muita mudança. Mesmo quando discordamos da igreja, seja em relação aos seus ensinamentos ou às suas práticas, ainda somos parte da família da fé”, reflete.
Quem é Leif Lind?
“Bem, eu me vejo como alguém que leva os desafios da vida a sério, mas com senso de humor. Frequentemente reflito sobre a questão da “vida” e seu significado, e realmente acredito que o mandamento que recebemos em Miqueias 6.8 é tão verdadeiro hoje quanto era na época em que foi escrito: ‘O que o Senhor exige de você senão que pratique a justiça, ame a misericórdia e caminhe humildemente com o seu Deus?’. Creio que todos somos chamados a amar uns aos outros e a ajudar a tornar a vida de alguém um pouco mais iluminada. Se fizermos isso, nossa vida não terá sido em vão”, conclui o pastor gay e adventista.
“Sinto-me honrado por ter sido o único pastor adventista abertamente gay”, diz Leif Lind
Jonathan Monteiro
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