A participação massiva de adventistas no massacre de tutsis em Ruanda, no ano de 1994, demanda uma nova teologia que coloque a vida do próximo acima de divisões por crença, raça, gênero ou classe
Por Ronald Osborn | Professor associado de ética e filosofia na Universidade La Sierra e diretor executivo da Fundação John Henry Weidner por Altruísmo. Autor de vários livros, como Death Before the Fall (IVP Academic, 2014). Doutor em política e relações internacionais pela Universidade do Sul da Califórnia (2012). Traduzido e adaptado do original em inglês por André Kanasiro para a revista Zelota. Republicado em colaboração com SPECTRUM: o periódico e website do Adventist Forum desde 1969. www.spectrummagazine.org
Em outubro de 2010, enquanto líderes da Associação Geral (AG) se reuniam em Maryland para conduzir o concílio anual da Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD) sob o lema de Reavivamento e Reforma, eu viajava por estradas sinuosas na região acidentada e montanhosa perto do Lago Kivu, em Ruanda. Era uma espécie de peregrinação pessoal, parcialmente inspirada por uma preocupação que eu tinha há alguns anos em confrontar o que aconteceu com aproximadamente 3 mil homens, mulheres e crianças que enchiam um estabelecimento missionário da IASD em Mugonero numa manhã de sábado de abril de 1994.
Alguns dias antes, Juvénal Habyarimana — presidente de Ruanda — e a maior parte de seus principais assessores haviam sido mortos quando seu avião foi derrubado sobre a mansão presidencial em Kigali. Soldados e civis hutus — que por algum tempo haviam marcado avidamente os sinais dos tempos — imediatamente começaram o genocídio sistemático de todos os membros da tribo tutsi no país. Dentro de três dias, estima-se que 20 mil tutsis ruandeses foram mortos. Dentro de cem dias, aquele número chegava a mais de 800 mil, a maior parte morta por facões importados especificamente para o extermínio. Foi a matança mais rápida e eficiente do século 20: os mortos se acumularam em Ruanda três vezes mais rápido que a taxa de judeus mortos durante o Holocausto.
No entanto, Ruanda era, na época, uma das nações mais cristãs do mundo. Mais de 90% da população se autodeclarava cristã. De fato, sendo que mais de 10% de toda a população era adventista do sétimo dia, líderes da IASD descreviam Ruanda como o país mais adventista do mundo. E é por isso que os 3 mil fugiram para Mugonero.
De acordo com jornalistas e investigadores de direitos humanos, Elizaphan Ntakirutimana, um hutu que presidia a IASD na região de Kibuye, urgiu membros tutsis de sua congregação, assim como de outras, a se abrigarem na instalação adventista. Muitos também vieram de vilas ao redor sem serem chamados, evitando incontáveis pontos de checagem da milícia numa fuga angustiante rumo à propriedade adventista.

Os sobreviventes, no entanto, dizem que qualquer esperança de santuário em Mugonero logo desapareceu. O abastecimento de água foi a primeira coisa a ser cortada. Então todas as estradas para a missão foram fechadas pela polícia hutu. No dia 15 de abril, enquanto bandos hutu fortemente armados e membros da guarda presidencial rodeavam a instalação em picapes, um grupo de sete pastores adventistas do sétimo dia tutsi assinou uma carta desesperada para Ntakirutimana, que foi visto dirigindo ao redor da missão com os milicianos. O jornalista Philip Gourevitch depois usaria um pedaço da carta como título para sua reportagem premiada sobre as matanças: Gostaríamos de informá-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias:
“Nosso querido líder, Pastor Elizaphan Ntakirutimana, Como você está?! Desejamos ser fortes em todos estes problemas que agora enfrentamos. Gostaríamos de informá-lo de que ouvimos que amanhã seremos mortos com nossas famílias. Pedimos, portanto, que o senhor intervenha por nós e fale com o prefeito. Cremos que, com a ajuda de Deus, o qual confiou ao senhor a liderança deste rebanho que será destruído, sua intervenção seria muito apreciada, assim como os judeus foram salvos por Ester. Honramos o senhor.”
Assassinos por Cristo?
A resposta a este apelo chegou no dia seguinte, numa manhã de sábado, aproximadamente às 9h da manhã. Os agressores avançaram rumo à igreja de todos os lados, clamando “Eliminem os tutsis!” Eles trabalharam metodicamente com armas e facões, passando da igreja para a escola e depois para o hospital. As vítimas, fracas de fome e sede, montaram uma frágil defesa com tijolos e pedras. Mas os obstáculos foram superados com pouco esforço. Os assassinos, preocupados em poupar balas, só faziam pausas quando o esforço físico de cortar e perfurar exigia um momento de descanso. Quando caiu a noite, começaram as operações de varredura: gás lacrimogêneo foi lançado para que os tutsis sobreviventes entre os cadáveres fizessem barulho. Os agressores, então, garantiram que eles se juntassem aos outros.
No fim das contas, Mugonero pode ter sido o pior massacre isolado em todo o genocídio de 1994. Em um único dia, quase todos os 3 mil tutsis que haviam se reunido na missão adventista foram assassinados — cerca de 2 mil só dentro da construção da igreja. As manchas de sangue não eram mais visíveis nas paredes e no chão quando visitei Mugonero em 2010. A igreja, inclusive, ainda é usada como local de culto. Perto da entrada do colégio de Mugonero, no entanto, há uma pequena construção com pilhas de crânios cortados por facões, como um memorial ao que aconteceu ali mais de 30 anos atrás.
Muitos meses após o ataque, em uma breve entrevista publicada na Adventist Review, J. J. Nortey, presidente da Divisão Africana do Sul e do Oceano Índico, disse que cerca de 99% de todos os obreiros adventistas na região de Mugonero — entre eles pastores, funcionários do hospital e funcionários em missão — foram assassinados. No total, estima-se que 10 mil adventistas do sétimo dia morreram em Ruanda em menos de três meses.
Ainda mais alarmante após o genocídio, porém, é o fato de que os adventistas não estavam só entre as vítimas. No dia 19 de fevereiro de 2003, Elizaphan Ntakirutimana foi sentenciado pelo Tribunal Penal Internacional para Ruanda a 10 anos de prisão pela cumplicidade em crimes contra a humanidade. O tribunal descobriu que Ntakirutimana, junto com seu filho Gerard — o médico-chefe do Hospital Adventista de Mugonero — ajudou e instigou assassinos hutus, chegando ao ponto de ordenar a remoção do telhado da igreja para que os tutsis não tivessem onde se esconder.

Mas os Ntakirutimanas não foram os únicos adventistas a ficar do lado dos assassinos. Em regiões com grandes quantidades de adventistas do sétimo dia, as matanças foram tão terríveis quanto no resto do país. “Pessoas que frequentavam a igreja foram vistas nas turbas, torcendo […] pelos que faziam as matanças”, reportou Nortey. Na época da minha visita, as prisões de Ruanda ainda mantinham grandes quantidades de adventistas envolvidos no genocídio. De acordo com um líder importante da IASD com quem conversei na sede da união em Kigali, não só membros leigos adventistas, mas muitos pastores adventistas foram condenados pelas cortes gacaca nas vilas de Ruanda por seu papel nos crimes genocidas contra a humanidade. Durante o genocídio, ele me contou, alguns adventistas mantiveram seu adventismo descansando escrupulosamente da matança aos sábados.
Questões para uma teologia pós-Ruanda
Estes são fatos desconfortáveis que a maior parte de nós gostaria de evitar. Mas Ruanda suscita perguntas que não podem ser deixadas de lado pelos que buscam reavivamento e reforma de verdade para a igreja. Devemos nos perguntar: será que não estamos envolvidos no que aconteceu em Mugonero? Será que nossa resposta foi à altura do crime? O que devemos fazer com o fato de que o genocídio foi cometido por nossos irmãos e irmãs na fé — por indivíduos nada diferentes, em suas crenças e práticas religiosas, de milhões de outros adventistas na África e ao redor do mundo? E será que paramos para pensar no que Ruanda pode significar para o adventismo como um todo — para a forma como proclamamos o evangelho e para o evangelho que proclamamos?
Quando era criança, filho de missionários no Zimbábue, eu me lembro de participar de uma série evangelística que durou várias semanas e atraía milhares de pessoas todas as noites. A campanha era baseada em uma compreensão da escatologia adventista e do livro do Apocalipse. O orador, um televangelista adventista proeminente conhecido por sua habilidade de gerar batismos em massa, apresentou com grandes detalhes a doutrina do santuário, a importância do sábado, o dom de profecia, e a relação entre estas verdades e os eventos do fim dos tempos. Seu estilo era incisivo e confiante, empregando auxílios visuais sofisticados para incrementar seu ataque frontal a erros doutrinários. Logo sua campanha chamou a atenção dos jornais locais, que o desenharam em um cartum editorial balançando seu microfone como uma arma em combate contra o bispo católico local, cuja bengala estava erguida em autodefesa. Quando era criança, devo confessar que achei tudo isso muito empolgante. Como é bom estar do lado da Verdade!
Hoje em dia, não posso dizer que fico tão empolgado com a memória dessa campanha evangelística importante que culminou em vários dias batizando milhares como membros da “tribo” adventista. A razão para o meu desconforto se reflete em um artigo publicado em 2001 na revista Sette (uma revista italiana semanal importante). A história, depois republicada em seu livro de 2004, War, Evil, and the End of History [“A guerra, o mal e o fim da História”, em português], foi escrita por um intelectual e jornalista francês proeminente chamado Bernard-Henri Lévy. Seu título era “Burundi morre todos os dias, exceto aos sábados”.

Lévy reportou que, enquanto viajava por uma Burundi dividida pela guerra (o país faz fronteira com Ruanda e também é composto pelas tribos hutu e tutsi), pediu a um taxista que o levasse até a porção sul do país. O taxista aceitou, mas com uma condição: a viagem tinha que ser no sábado. “Por que no sábado?”, Lévy escreve. “Porque os ‘agressores genocidas’, esses hutus da Frente Nacional de Libertação, cujos crimes abomináveis o país segue relembrando […] eles também são bons cristãos, a maior parte de confissão adventista, que não fumam, não bebem, chegam em vilas cantando hinos bem alto e consideram o sábado um dia sagrado, dedicado à oração, no qual não se deve matar.”
A afirmação pode ser um exagero, ou até mesmo uma distorção grosseira dos fatos (alguns líderes da IASD com quem conversei creem que não seja mais do que isso). Contudo, o artigo não pode ser ignorado como pura anomalia. Na mesma época, a Agência de Notícias Panafricana reportou que alguns rebeldes da FNL em Burundi, alegando serem membros da IASD, faziam ataques enquanto cantavam hinos religiosos, com as Bíblias em uma mão e as armas na outra.
Será possível, estes relatos nos forçam a perguntar, que na verdade exista uma quantidade significativa de indivíduos em algumas partes do mundo que se contam como adventistas — que de alguma forma vislumbraram muitas doutrinas adventistas de distinção: o sábado, a segunda vinda, a mensagem de saúde — mas que não descobriram as questões de mais peso da aliança no coração do adventismo (fé, justiça e misericórdia)? Será possível que pessoas tenham sido introduzidas à IASD através de imagens de adventistas e católicos em combate religioso, mas nunca tenham conhecido o Jesus das escrituras — o Jesus que recusou o caminho da violência frente à injustiça e opressão, e que foi um conquistador, não através de manobras políticas, técnicas de evangelismo midiático em massa, ou jogos de poder burocráticos, mas através do sofrimento impotente nas mãos de seus inimigos? Será possível que alguns adventistas conheçam bem a doutrina do santuário e todas as outras crenças fundamentais, mas tenham esquecido que a igreja deve, acima de tudo, ser um santuário para todos os oprimidos e abatidos?
Ruanda e Mugonero suscitam outras questões perturbadoras para os adventistas. A narrativa que contamos a nós mesmos durante muito tempo é que, em um momento apocalíptico final da história, somente nós ficaremos do lado certo enquanto caem os céus. Mas em Ruanda o apocalipse chegou. Os céus caíram em 1994. E, coletivamente, os adventistas em Ruanda se comportaram da mesma forma que todos os outros. Enquanto isso, os fiéis na América do Norte seguiram suas vidas como se nada tivesse acontecido. Dez mil de nossos irmãos e irmãs foram assassinados… E vida que segue.
O tesoureiro da União Ruanda, Abel Habiyambere, ele mesmo um sobrevivente do genocídio, me contou que compilou uma longa lista de nomes de funcionários adventistas que foram assassinados durante o genocídio e que tentou conscientizar líderes da divisão e da AG sobre o que aconteceu. Eles tinham demonstrado pouco interesse em sua lista, a despeito — ou talvez por causa — das conexões perturbadoras dos adventistas com o caso. Então devemos perguntar: qual é o sentido desta obstinada amnésia corporativa? Será que haveria tanto silêncio e tão pouca introspecção se 3 mil adventistas fossem mortos com facões na Igreja da Universidade de Loma Linda em uma manhã de sábado, inclusive por seus irmãos adventistas?
Após a Segunda Guerra Mundial, teólogos judeus sentiram-se compelidos a construir uma teologia pós-Holocausto em resposta à catástrofe que havia caído sobre sua comunidade e a humanidade. No entanto, quinze anos depois do apocalipse chegar a Ruanda — o país mais adventista do mundo na proporção de membros na população — não há teologia pós-Ruanda a ser encontrada entre o povo remanescente. Nossa heroica compreensão de nós mesmos não foi alterada ou sequer temperada — só permanece a exigência insistente de que nos comprometamos novamente com a narrativa de sempre sem fazer perguntas. Isso, nos dizem, é “reavivamento e reforma”.
“Deus é amoroso demais para nos levar ao seu reino”
No entanto, houve alguns momentos passageiros de introspecção entre adventistas. Em 1996, a Review publicou o trecho de um sermão pregado pelo presidente da AG na época, Robert Folkenberg, a centenas de adventistas reunidos em Kigali. Sua mensagem é uma declaração poderosa que não recebeu a atenção ou reflexão que merece, mas contém as sementes de um profundo e autêntico reavivamento e reforma da igreja, mesmo que de formas não pretendidas ou compreendidas pelo próprio Folkenberg.
“Eu passei muito tempo de joelhos diante de Deus, tentando entender ‘o que aconteceu’. Eu cheguei a uma conclusão — o evangelho não fracassou. A cruz de Cristo não fracassou, o Espírito Santo não fracassou — nós fracassamos! Você e eu fracassamos! Nós, como pastores, fracassamos. O clero, os padres e pastores cristãos fracassaram! Nós devemos, eu acredito, confessar nossos pecados diante de Deus. Como líderes religiosos, nós decepcionamos a Deus e o povo de Ruanda. Nós nos contentamos em falar de Cristo. Nos contentamos em falar da cruz. Nos contentamos em falar de rituais, vidas e práticas — coisas externas. Mas o fruto de nossa relação com Cristo mostra que fracassamos.”
Fico grato ao ouvir um líder importante da IASD dizer essas coisas e dizê-las não simplesmente sobre os outros, mas sobre si mesmo. Não há respostas fáceis neste testemunho angustiante, mas, ao confrontar a realidade de Ruanda, podemos descobrir uma testemunha mais fiel em questões dolorosas que em certezas descoladas da realidade.
Uma coisa, no entanto, é certa: o que aconteceu em Ruanda não pode ser visto como uma questão étnica isolada, um espasmo tribal atávico, um mal-estar peculiarmente africano. O “tribalismo” pode assumir muitas formas. E o tribalismo, com sua lógica subjacente de exclusão purificadora daquele que não é como nós — não tão bom, não tão reto, não tão heroico, não tão escolhido — não é único ao mundo “subdesenvolvido”. Nortey, refletindo sobre o que o genocídio revela na natureza humana e em cada um de nós, diz que, para ele, o “cristianismo precisa sentar e examinar a si mesmo”:
“Eu tenho me perguntado: como eu olho para o meu próximo? Eu o vejo como alguém por quem Jesus morreu? Eu o vejo como alguém criado igual a mim? Ou eu o vejo pela cor da sua pele? Por sua nacionalidade? Por sua classe na sociedade? Como um africano que é um cristão, eu me pergunto: por que eu ainda sinto que minha tribo é melhor que a outra tribo? […] Enquanto o cristianismo não for valorizado em si mesmo, acima do tribalismo e do nacionalismo, ainda teremos um problema […] Eu fiz uma resolução pessoal: não achar que sou melhor que ninguém, e não usar estas distinções que nos dividem — tribos e nacionalidades […] Então, quando perguntam de onde eu sou na África, eu raramente digo que é Gana. Eu pergunto: por que você quer saber? Eu não posso esconder que sou de África. Mas será mesmo necessário saber de que país eu sou? Algumas pessoas chegam a perguntar: de que parte de Gana você é? Você é um ga ou um ashanti? Mas essas coisas nos dividem.”
Nortey, então, fez uma afirmação sombria, senão aterrorizante, sobre a condição da igreja: “Eu creio que o retorno do Senhor está demorando,” ele disse, “principalmente porque ainda não somos capazes de viver juntos. Se não conseguimos viver juntos aqui, Deus é amoroso demais para nos levar juntos ao seu reino.”
A culpa dos adventistas pelo genocídio em Ruanda: o que fazer?
Spectrum Magazine
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