Evangélicos que antes demarcavam sua diferença da violência brasileira rejeitando o discurso armamentista hoje abraçam o porte de armas e se confundem com a própria nação
Por Rilton Filho | Formado em Teologia e em História, é pós-graduando em Filosofia Contemporânea pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Atua como pastor batista e professor.
“todo artista tem de ir aonde o povo está”, na voz de Milton Nascimento.
O pentecostalismo moldou a tradição cristã brasileira, ao menos nos últimos 30 anos. O fenômeno que, no início do século passado, vivenciou uma “guerra santa” com as outras denominações históricas no país, agora tem sido parte decisiva para favorecê-las na luta política, cultural e religiosa do Brasil. Essa relação vai desde a cristalização política do “irmão vota em irmão”, até a publicidade teológica dos reformados, que panfletam seus pontos calvinistas em certas lideranças pentecostais.1 Rubem Alves fez um diagnóstico desconfiado, ainda em 1969, sobre o que se viria a formar 20 anos depois:
O futuro do Protestantismo nos apresenta, assim, duas possibilidades. Ou se perpetuam as estruturas historicamente batizadas como Protestantes, mas que são, na sua essência, uma ressurreição do Catolicismo medieval, ou os grupos reprimidos e dispersos se descobrem para constituir uma comunidade que expresse as marcas éticas da liberdade e do amor, frutos do Espírito de Deus.2
Os protestantes ruíram porque interpretaram ser o medievo um atraso intelectual e as iniciativas éticas uma afronta ao próprio status quo. Por isso, Rubem Alves talvez tenha sido o último deles, fazendo com que seja necessária a reimaginação da fé dos crentes, agora, nos termos dos evangélicos.
Esticando a corda da descrição da pesquisadora Magali Cunha3 acerca da virada evangélica do Brasil, podemos inferir que essa nova onda obedeceu a uma cadência, isto é, a derrota concreta dos protestantes, em sua tentativa de se fazerem entendidos e relevantes num Brasil de democracia liberal, levava-os para o encastelamento dos templos — o pesadelo medieval agora se tornava a única possibilidade de manter em funcionamento o conjunto de crenças que veio do Norte para cá. Disso, depreende-se um sinal: o que antes fazia sentido, como construir escolas, hospitais, praças e cemitérios como resultado da consciência missional e do discernimento da escassa política pública brasileira, agora dava lugar aos investimentos internos, que deixavam os templos mais caprichosos.
A contrapelo, os pentecostais performavam uma outra dinâmica que ora era estigmatizada, ora servia como ponto de constrangimento aos mais conservadores. Os irmãos da fé, chamados de barulhentos e espalhafatosos, improvisavam púlpitos nas praças construídas por protestantes, visitavam presídios e lotavam os estádios de futebol. Os retalhos de suas pregações emolduravam-se nos discos e eram vendidos a 3 por 20 em cada canto do país. O sucesso batia na porta de todos, inclusive dos protestantes ressentidos que recolhiam a inveja e emprestavam seus corações para serem edificados por novos pregadores que falavam sua língua. Era um novo tempo brasileiro, cuja linguagem colocava a panos quentes as feridas abertas de uma derrota religiosa: “a glória da segunda casa será maior do que a primeira”. No entanto, lembremos: quando muda uma religião, muda uma sociedade.
Essas pregações, que se escutavam nas salas e cozinhas das casas dos crentes do Brasil inteiro, moldavam a mobilização política em torno de certos temas. Aborto, bebidas alcoólicas, divórcio, casamento gay e armas sempre foram parte desse imaginário cruzado que, por sinal, progrediu da repreensão ao elogio. Mas quanto ao lapso da repreensão, pode-se dizer que as pregações ou cajadadas faziam parte de um segmento religioso que precisava se inculturar na nação e no seu povo. Era preciso demarcar uma linha grossa entre o antes e o depois, entre o álcool e o suco de uva da ceia, entre o facão e a arma do cristão (a Bíblia). Não se tratava de um conjunto teológico que glosava sobre tais temas — essa era uma preocupação ultrapassada que ajudou a enterrar os protestantes medievais —, mas uma diretriz interna que mobilizava certos textos bíblicos para curar a consciência ferida de famílias que tinham experimentado o caos e a violência de vícios, brigas de trânsito e crime organizado. Nesse sentido, testemunhos, pregações e canções que explicitavam essa glória eram publicizados, pois faziam crescer o seu público e aumentavam o prestígio moral do grupo. Os pentecostais ainda não sabiam (hoje sabem), mas esse era um gesto dos mais significativos da teologia: aproximar-se do texto bíblico e alocá-lo, dando sentido concreto. Afinal, na voz de Milton Nascimento, “todo artista tem de ir aonde o povo está”, e os pregadores são uma espécie de artistas da fé, que mobilizam a imaginação de uma certa visão de mundo.
O povo crente acolhia o discurso, pois este reagia ao chão em que pisava. O chão de negros mortos pela belicosidade técnica das armas e da deformação urbana que os empurravam para os guetos e periferias, onde conviviam com o calibre, obrigando-os a criar um outro mundo onde as pregações, cultos e campanhas de orações simbolizavam a esperança da glória. Era a igreja pentecostal brasileira trocando os dogmas mais ou menos ensaiados pela coerência da vida e da correspondência direta entre sepultamentos e a certeza da proteção divina. O convite religioso era o de guardar-se em Deus, mostrando assim quebrantamento e arrependimento.
Homem 1: Ei, você que é o zé da bíblia que anda mentindo por aí, né? (Agressão)
Homem 2: É dito por Jesus, se alguém lhe ferir um lado, oferece também o outro. (Agressão)
Homem 3: Rapaz, você bateu nele?
Homem 1: Ah, tu também é crente?
Homem 3: Eu sou, agora meu facão não é não!
Homem 2: Calma, Paulo! Quem com o ferro fere, com o ferro será ferido. Está escrito na Bíblia: os mansos herdarão a terra.
Homem 3: Tudo bem. Se não fosse essa palavra, ele iria pagar tudo.
— Esquete teatral viralizado nas redes sociais e pregações de igrejas evangélicas no início dos anos 2000.
A discursiva pentecostal, embora satisfatória, sofria de um mal interno. Onde ficaríamos no nosso Êxodo? No “Não matarás” (Êxodo 20.13) ou no “Se um ladrão for achado arrombando uma casa e, sendo ferido, morrer, quem o feriu não será culpado do sangue” (Êxodo 22.2)? A resposta precisa ser compreendida na luta interna que sempre se estabelece nas instituições e, neste caso, é menos sobre exegese e mais sobre eclesiologia. A pergunta não seria de ordem filológica ou até mesmo de hermenêutica, mas passaria a ser a de qual tipo de igreja os pentecostais queriam formar nos anos em que ditariam a cena pública brasileira.
Nesse sentido, se Guaracy Silveira foi um deputado protestante e constituinte, eleito por um partido socialista, o qual destoava em ideias do que se compreende hoje como bancada evangélica, Marco Feliciano é o símbolo mais recente que realmente importa para entendermos os novos discursos que influenciariam o pentecostalismo e a própria sociedade brasileira. Isso porque Feliciano ligava os sentidos dos púlpitos de grandes igrejas e grandes eventos religiosos (“Gideões”) ao púlpito da Câmara dos Deputados, fazendo assim a cristalização das ideias que vencem. Vejamos, pois, a disputa na arena política.
Legis-orando
Magno Malta, em discurso durante sessão no Senado Federal no ano de 2005 sobre apoio à proposta de emenda à Constituição, no referendo contrário à comercialização de armas e munições:
Encerro, Sr. Presidente, dizendo ao segmento evangélico, com quem professo a minha fé: vá lá domingo e vote “não”, mas depois rasgue a sua Bíblia e peça uma oportunidade para desmentir tudo o que você falou como verdade, porque, se Deus não guardar a sua casa… Nunca vi que quem confia em Deus defender arma. Nunca vi.
No mesmo ano, Marco Feliciano contrariava o imaginário pentecostal, ao comentar sobre a morte de John Lennon:
Eu queria estar lá no dia em que descobriram o corpo dele. Ia tirar o pano de cima e dizer: “Me perdoe, John, mas esse primeiro tiro é em nome do Pai. Esse é em nome do Filho e esse, em nome do Espírito Santo. Ninguém afronta Deus e sobrevive para debochar!”
Ali, tão cedo, já era possível perceber que os crentes fariam uma transição de compreensão. Se o senador Magno Malta apelava para a linha grossa que separava o antes e o depois da vida moral dos pentecostais fazendo uso da Bíblia, o deputado Feliciano demonstrava para a opinião pública que os pentecostais agora falariam de igual pra igual até mesmo com grandes ídolos da cena artística, e já não precisavam se colocar como sujeitos quebrantados — à época, o gênero gospel era o terceiro mais escutado no país. Em resumo, subjugar a morte de John Lennon e Mamonas Assassinas, como fez Marco Feliciano, é a plena contemplação da batalha espiritual, agora, mobilizada por armas nas mãos do próprio Deus, como se as orações anteriores, que expurgavam uma interioridade controversa, sugerissem um fracasso divino.
Quem venceu? Ao que presenciamos, as ideias felicianas, embora provenientes do segundo escalão do legislativo brasileiro, representaram melhor os pentecostais e tudo quanto se pode tocar, porque tanto já é possível ver igrejas que fazem rifa de espingarda, quanto ministro da educação, por sinal pastor presbiteriano, portando arma de fogo em aeroporto.
Os crentes pentecostais, mas não só eles, passaram por uma transformação de caráter político que os levou a uma certa mobilidade social, mudando assim seus endereços, locais de trabalho e posições políticas. Talvez seja essa uma explicação possível para aceitar pegar em armas novamente e guardar-se de tudo e todos, visto que agora já não se conhecem os donos do morro (dos quais no passado eram amigos de infância), mas experimenta-se a vigilância permanente de condomínios e bairros de classe média baixa. O que antes era motivo de constrangimento e repreensão, agora passa a ser elogio para uma massa considerável de pessoas, que, retornando a outros textos bíblicos (ou não), reificam a pregação para atender à superioridade moral que se construiu em púlpitos improvisados. Já não se pode exortar quem puxa uma arma durante um culto ou qualquer outra reunião, porque a nova onda de convertidos já não precisa diferenciar-se da nação brasileira; são uma coisa só.
Quando a Bíblia diz não matarás, ali é não assassinarás. Ninguém pode matar sem amparo pela lei. Agora, na sua casa, invadiu, mete bala. Eu conheci uma missionária que ela estava tentando evangelizar alguns índios e ameaçaram de entrar na casa dela. Ela adquiriu uma doze: Bíblia na mão e a doze do lado, aguardando os ameaçadores chegarem. Se chegassem, era bala no peito. — Pr. Elizeu Rodrigues, em 2026.
O elogio neste caso parece não ser uma sentença explícita e sem causa, mas uma troca justa para quem tem a sua crença impedida de ser manifestada em combate religioso com povos reconhecidos, pelos pentecostais, como atrasados. Entretanto, a aposta aqui é o exato oposto: a explicitação do elogio acontece na sua forma pura. A “doze do lado” não se trata de justificação ao acesso a territórios periculosos ou coisa parecida, pois os mesmos pentecostais que outrora subiam em morros e entravam em favelas, não pareciam sugerir a necessidade de ter armas para se proteger. A “doze” é, na verdade, a manifestação religiosa da extirpação de certos tipos de conversão, ou seja, o ex-traficante, meliante ou qualquer que opere sob regimes de armas, seria visto a partir dos olhos das mesmas, excluindo, portanto, o sentido da compaixão e misericórdia. A bala no peito é o clarim que desenha a pregação: “se não vem pelo amor, vem pela dor”.
O curso da fé pentecostal, ironicamente, segue em direção às mesmas ruínas dos seus antecessores protestantes, porque paulatinamente passou a se preocupar mais com templos, ritos e casas do que com presídios, orações e ruas. Note que a rifa da espingarda, mencionada anteriormente, tinha como finalidade a melhora da estrutura de um templo. Por isso mesmo, o elogio às armas calibra duas percepções: primeiro, a de que o Brasil entrou numa nova fase da democracia liberal, ou seja, o fascismo que reorganiza o imaginário social a partir da violência, a dessensibilização dos afetos e do progresso técnico; segundo, e consequência direta da primeira, a de que os pentecostais passariam a acreditar que “em vão o divino vigiava a sentinela”, restando a indiferença ao choro das famílias que velam corpos crivados de bala e a técnica arquitetônica do templo como chave para se afirmarem como modernos.
Notas:
1.↑ Cf. Marcelo Lopes, “Na corda bamba: notas introdutórias sobre a adesão ao calvinismo nas Assembleias de Deus no Brasil”. Revista de Cultura Teológica, n. 94 (São Paulo, 2019), p. 145-157.
2.↑ Rubem Alves, “Há algum futuro para o protestantismo na América Latina?”. CEI Suplemento (mar. 1969), p. 1-8.
3.↑ Cf. Magali Cunha, “Religião e política no Brasil nas primeiras décadas dos anos 2000: o protagonismo dos evangélicos”. Fronteiras – Revista de Teologia da Unicap, v. 3, n. 1 (2020). DOI: https://doi.org/10.25247/2595-3788.2020.v3n1.p40-65




