A Igreja Adventista atua como aparelho ideológico religioso, incentivando seus membros à conformação social e ao desengajamento político em nome da “cidadania celestial”
Por Jonathan Niger | Mestre e Doutorando em Filosofia pela Universidade Federal da Bahia. Bolsista FAPESB.
O alagoano Graciliano Ramos, em Vidas Secas1, uma de suas obras-primas, aborda uma família de retirantes nordestinos que, em razão da seca, precisa constantemente migrar para outras localidades em busca de vida — em sentido material e figurado. O título do livro reflete tanto o “exterior” quanto o “interior” das personagens: as paisagens descritas e o modo de vida são secas, duras, brutas e cruéis, e a escrita de Ramos quase nos sufoca. Da mesma forma, as subjetividades das personagens principais também o são: brutalizadas pela vida dura, lhes faltam até as ferramentas de linguagem para que consigam desenvolver um mínimo de articulação cognitiva e raciocínio. Como não conseguem se expressar ou articular o pensamento, a maioria dos diálogos entre si ou com terceiros são grunhidos ou xingamentos. As duas crianças, filhos do casal Fabiano e Sinhá Vitória, sequer possuem nomes: são chamados de o filho mais novo e o filho mais velho.
Próximo ao fim do livro, no capítulo “Contas”, o personagem Fabiano vai à cidade para ter com o patrão e receber o seu pagamento — era vaqueiro de uma pequena fazenda. Evidentemente ludibriado pelo fazendeiro, recebe bem menos do que deveria. Amuado, senta-se na calçada da rua e recorda-se de outras injustiças que sofreu tempos atrás: foi espancado e jogado na cadeia da cidade pelos soldados por motivos banais, bem como, quando tentou vender carne suína na feira da cidade, confrontado pelo fiscal da prefeitura, não consegue fazê-lo, pois precisava pagar altos impostos e taxas.
Graciliano assim nos descreve:
Aparentemente resignado, sentia um ódio imenso a qualquer coisa que era ao mesmo tempo a campina seca, o patrão, os soldados e os agentes da prefeitura. […] Pois não estavam vendo que ele era de carne e osso? Tinha obrigação de trabalhar para os outros, naturalmente, conhecia o seu lugar. Bem. Nascera com esse destino, ninguém tinha culpa de ele haver nascido com um destino ruim. Que fazer? Podia mudar a sorte? Se lhe dissessem que era possível melhorar de situação, espantar-se-ia. Tinha vindo ao mundo para amansar brabo, curar feridas com rezas, consertar cercas de inverno a verão. Era sina. O pai vivera assim, o avô também. E para trás não existia família. Cortar mandacaru, ensebar látegos — aquilo estava no sangue. Conformava-se, não pretendia mais nada. Se lhe desse o que era dele, estava certo. Não davam. Era um desgraçado, era como um cachorro, só recebia ossos. Porque seria que os homens ricos ainda lhe tomavam parte dos ossos?1 (grifos acrescentados)
Para além da bela escrita de Ramos, o que mais chama a atenção nesse trecho é que ele poderia perfeitamente servir de exemplo do que concebo como, à luz das teses filosóficas do filósofo marxista francês Louis Althusser (1918-1990), a função principal da ideologia, levando-se em consideração o seu âmbito sociopolítico.
Althusser é bastante conhecido por suas contribuições teóricas para a crítica da ideologia. De maneira panorâmica, podemos dividir as teses althusserianas sobre o tema em dois grandes prismas: num primeiro momento, em obras como Por Marx (1965) e Ler o Capital (1965), fase clássica de seu pensamento, o filósofo francês preocupa-se com a relação entre ideologia e ciência, num campo de discussão eminentemente epistemológico, isto é, dentro de um ramo da filosofia que estuda o conhecimento, sua natureza, limites, validade, etc.2
Para ele, neste âmbito epistemológico, a ideologia representa a pré-história de uma ciência, ou seja, antes de possuirmos o conhecimento científico sobre algo, existe ali uma ideologia que funciona como um saber sobre determinado assunto. Nesse sentido, por exemplo, em química, antes da descoberta do papel do oxigênio na combustão de materiais orgânicos por Lavoisier, pensava-se que materiais como madeira ou carvão pegavam fogo por conta de um elemento chamado “flogisto”, uma espécie de essência que podia fluir entre materiais. Noutro exemplo mais banal, na era antiga, pensava-se que a chuva ocorria por feito divino. Posteriormente, descobriu-se que a chuva, grosso modo, ocorre pelo ciclo de evaporação, condensação e precipitação da água na terra, sendo, portanto, um fenômeno natural.
Num segundo momento, Althusser volta-se para o fenômeno da ideologia a partir de outro âmbito, de natureza mais sociopolítica. Para além de alguns textos intermediários entre um prisma e outro, chamamos a atenção principalmente para uma obra denominada Sobre a reprodução,3 onde o filósofo irá assentar as bases de sua teoria da ideologia em geral, teoria esta bastante original e inovadora.
Nesta obra, partindo da concepção marxista clássica, Althusser aponta que toda sociedade4 possui modos de produzir e reproduzir as suas condições materiais de existência. Assim, grosso modo, toda sociedade precisa produzir os produtos necessários para sua existência, sejam eles materiais como alimentação, habitação, vestuário etc., sejam para suprir as necessidades “do espírito” — produtos culturais, artísticos etc.
Ocorre que nenhuma sociedade poderia subsistir se, além de produzir, não reproduzisse continuamente as suas condições de produção. Dessa forma, é necessário manter a continuidade da produção, a renovação de matérias-primas, máquinas e ferramentas etc., e também a nossa formação como seres humanos que vivem em sociedade e necessitam estar aptos para poder desempenhar os mais diversos papéis.
De forma geral, somos nós, seres humanos, que produzimos nossas condições de existência. E nós o fazemos a partir de certas relações muito especiais, que se impõem de maneira compulsória: as relações de produção. Vejamos: quando viemos ao mundo, já existiam essas relações de produção, que, para cada modo de produção e em cada formação social, têm suas especificidades. No capitalismo, existem algumas classes sociais, mas duas delas são as principais: a classe dos capitalistas e a classe trabalhadora. Nós, da classe trabalhadora, não possuímos os meios de produção, e, portanto, somos obrigados a vender a única coisa que possuímos, que é nossa força de trabalho, em prol de um salário para poder sobreviver. Nesse sentido, não somos nós que simplesmente “escolhemos” as relações de produção, elas se impõem a nós. E, no modo de produção capitalista, as relações de produção são relações de exploração capitalista.
Pois bem, para Althusser, a ideologia funciona como o instrumento ou a estrutura fundamental desse processo de reprodução e, principalmente, da reprodução das relações de produção. É ela, a ideologia, que irá transformar/moldar os seres humanos em sujeitos, sujeitos assujeitados, adaptando-os para desempenhar os mais diversos papéis na divisão social das funções inerentes à produção e reprodução da vida.
Para Althusser, contrariando a concepção mais rasa e corrente de ideologia, que a pensa como um conjunto de falsas ideias ou uma falsa consciência, a ideologia não possui uma existência ideal ou espiritual, “no mundo das ideias”, possuindo, em verdade, uma existência material e concreta, em instituições e nas práticas próprias destas. A meu ver, essa tese althusseriana é sua perspectiva mais original e inovadora sobre o tema. Como um materialista convicto, o filósofo francês se recusa a compreender o fenômeno do pensamento de um ponto de vista idealista. Para tanto, nesta obra, de certa forma, constrói um arcabouço inicial para uma teoria do materialismo do imaginário, baseando-se na filosofia de Baruch Spinoza.
Nesse sentido, é relevante destacar que em momento algum Althusser negou ou desconsiderou a atividade do pensamento. Todavia, rejeita que as “ideias” possuam uma existência espiritual. Assim, em verdade, para Althusser, nossas “ideias” são nossas crenças materiais, no seguinte sentido: pensando-se em um indivíduo, suas “ideias” são seus atos materiais, inseridos em práticas materiais, reguladas por rituais materiais que, por sua vez, são definidos pelo aparelho ideológico material do qual dependem.
O conceito de Aparelhos Ideológicos de Estado (AIE) também é bastante original, e faz parte desse esforço de Althusser para compor uma teoria materialista da ideologia. Para ele:
Um Aparelho ideológico de Estado é um sistema de instituições, organizações e práticas correspondentes, definidas. Nas instituições, organizações e práticas desse sistema é realizada toda a Ideologia de Estado ou uma parte dessa ideologia (em geral, uma combinação típica de certos elementos). A ideologia em um AIE garante sua unidade de sistema ‘ancorada’ em funções materiais, próprias de cada AIE, que não são redutíveis a essa ideologia, mas lhe servem de ‘suporte’.5
Aduz o filósofo francês que existem diversos tipos de AIE, apresentando em Sobre a reprodução um rol exemplificativo (e provisório) dos AIE, composto de suas instituições ou organizações: AIE escolar (as diferentes escolas e graus de ensino); AIE religioso (diferentes igrejas e suas organizações); AIE político (o parlamento, partidos políticos etc.); AIE da informação (imprensa de maneira geral); AIE familiar (todas as instituições que dizem respeito à família, e.g., associações de pais de alunos etc.); AIE cultural (todos os espetáculos, incluindo o esporte, e toda uma série de instituições); AIE sindical e AIE da edição-difusão (que por vezes incorpora o aparelho cultural).
Althusser, em Sobre a reprodução, ainda faz uma distinção entre ideologia primária, ou ideologia de Estado, e ideologia secundária. O filósofo francês, em sua arquitetura teórica, está de acordo e absorve uma tese marxista clássica de que a ideologia dominante de uma sociedade de classes é a ideologia da classe dominante, da classe que possui poder de Estado. A esta, ele denomina ideologia primária ou de Estado, sendo essa a ideologia que é primariamente realizada nos AIE. Noutro giro, cada AIE “produz”, através de suas práticas e rituais específicos, de maneira complexa, mediada e permeada de contradições, ideologias internas que lhes são próprias, sendo compreendida como um subproduto. A estas, Althusser denomina secundárias, sendo um exemplo delas, no âmbito do AIE religioso, as diversas doutrinas eclesiásticas.6
Desse modo, conceituando a ideologia em sua acepção althusseriana, dentro desse prisma sociopolítico, podemos dizer que ideologia é uma estrutura muito especial que faz parte da estrutura geral de toda e qualquer formação social. No âmbito da clássica metáfora tópica marxista, ela é um nível ou uma instância da superestrutura, que, de modo complexo e mediado, permeia e faz ligações entre a infra e a superestrutura.
A ideologia (em geral) é uma estrutura formada por aparelhos ideológicos, práticas e rituais materiais (que culminarão em nossas crenças materiais), sendo ela que constitui/molda/transforma os indivíduos concretos em sujeitos concretos através de um “mecanismo” que Althusser nomeia de interpelação. A função social primordial da ideologia, seja numa sociedade com ou sem classes, é de coesão social: ela forma os sujeitos, transformando-os incessantemente para se adaptarem às suas condições reais de existência. Já numa sociedade de classes, além da primeira, possui uma outra dupla função: constituir a classe dominante, fazendo-a aceitar sua condição de dominação como justificada, bem como submeter a classe dominada à exploração da classe dominante.
Ademais, pela interpelação, o sujeito é assujeitado a uma ideologia, de tal sorte que o indivíduo é sempre já sujeito, antes mesmo de nascer. Althusser exemplifica isso magistralmente em Sobre a reprodução, e peço licença para representá-la com minhas próprias palavras e com exemplos mais próximos a nós: ainda no útero da mãe, já existe toda uma aparelhagem ideológica, com seus rituais e prescrições à espera da criança. Os que esperam a criança guardam enormes expectativas sobre ela, se será “menino ou menina”, e, com isso, os papéis de gênero que deverá performar — se for menino, terá o seu quarto pintado de azul, irá brincar com carrinhos e bonecos, jogará futebol e, depois, será ensinado que levantar a saia para ver a calcinha das meninas “é coisa de macho”. Se for menina, terá o quarto pintado de rosa, brincará com bonecas e simulações em forma de utensílios domésticos; se for de classe média, entrará para o balé e, ocasionalmente, será repreendida quando se sentar com as perninhas abertas, porque “mulheres de respeito sentam de pernas cruzadas” (trata-se dos rituais de criação-adestramento-educação familiares, diz Althusser).
Ademais, se a família for cristã, a criança será apresentada na igreja, e, se católica, será batizada quando bebê. Se protestante, membra da Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD), antes da pré-adolescência frequentará uma classe bíblica específica e participará do ritual de “confirmar a sua crença” nas doutrinas da igreja frente à congregação antes de ser batizada, na festa conhecida como “batismo da primavera”, tornando-se sujeito-religioso, além do sujeito-familiar acima demonstrado. Depois, irá para a escola, onde aprenderá certos “savoir-faire” e, mais importante que isso, aprenderá que deve chegar no horário, que precisa se preparar e ter uma profissão para conseguir entrar no mercado de trabalho, obedecerá ao professor e mais tarde obedecerá ao patrão. É, então, sujeito-familiar-religioso-escolar. E assim sucessivamente: será sujeito-familiar-escolar-religioso-político-cultural etc.7
Voltando ao trecho supracitado de Vidas Secas, vemos que o personagem Fabiano exemplifica perfeitamente o que abordamos em linhas anteriores. Ele, um trabalhador rural em condição de pauperismo, foi interpelado desde o nascer à sujeição prescrita pela ideologia dominante, que é a ideologia da classe dominante. Nesse sentido, sua crença material é mais ou menos a seguinte: é evidente que ele tem a obrigação de trabalhar para os outros. Trata-se de algo “natural”: ele conhecia “o seu lugar”. Ele “nascera com esse destino” e ninguém teria culpa de ele haver nascido com um “destino ruim”. Que poderia ele fazer?
No livro, pode-se ver claramente a revolta, a raiva, o embrulho no estômago ocasionados pelas mais diversas explorações e injustiças a que está constantemente submetido. Todavia, e a despeito disso, Fabiano conforma-se. Quando é espancado pelos soldados e jogado na cadeia, primeiro sente raiva, mas depois conforma-se: “apanhar do governo não é desfeita”, disse. É descaradamente ludibriado pelo patrão e revolta-se, mas o que ele pode fazer? Claro, existe aqui a questão concreta de que ele é um despossuído. Se o patrão lhe demitisse, para onde ele e sua família, mortos de fome, iriam? Todavia, chamo a atenção para a questão da ideologia: para além do aspecto concreto, é natural para Fabiano que existam pessoas que mandem e pessoas que são mandadas, que existam ricos e pessoas “finas” e que ele não seja um deles. É um cabra, um bruto, um cachorro que só merece ossos.
É precisamente esse aspecto da conformação que eu gostaria de abordar, tanto sob o ponto de vista de experiências pessoais, crescendo na IASD, como a partir de materiais e documentos oficiais/institucionais da igreja. E, para sermos claros, neste ensaio compreendo a conformação como o comportamento, a crença material de resignadamente submeter-se ao estado atual das coisas, das dores, dos sofrimentos, das angústias derivadas da exploração da classe dominante sobre os dominados, que em sociedades sob a égide do modo de produção capitalista é a exploração da classe dominante capitalista sobre as demais classes, em especial a classe trabalhadora. Conformar-se com que “o mundo é assim mesmo”, que “é natural que as coisas sejam assim”, que “as coisas são assim desde que o mundo é mundo”.
É sabido que, dentre as vinte e oito crenças fundamentais da IASD, duas de suas principais, além, evidentemente, do sábado como dia sagrado e de guarda, são a crença na segunda vinda de Jesus Cristo e a crença na criação de uma Nova Terra, onde “[…] Deus proverá um lar eterno para os remidos e um ambiente perfeito para vida, amor, alegria e aprendizado eternos, em Sua presença”, local este onde “[…] o próprio Deus habitará com Seu povo, e o sofrimento e a morte terão passado”. Desse modo, o tempo e a vida que vivemos “aqui na terra” são passageiros e efémeros: a verdadeira vida, eterna, feliz, é a vida no porvir. Noutras palavras, como diz a letra de uma conhecida música do grupo adventista Novo Tom: “A glória desta terra é passageira. A vida passa e tudo que ela traz. Não temo o futuro, pois tenho Deus comigo. Pode cair o mundo… Estou em paz”.
Na minha experiência pessoal, não faltam exemplos de membros da IASD que suportaram e continuam suportando um sem número de dores e sofrimentos ocasionados pelas desigualdades sociais e pela exploração a que todos nós estamos submetidos enquanto classe trabalhadora no modo de produção capitalista. Quando jovem-adulto, na iminência de um despertar para um pensamento mais politizado, questionava alguns conhecidos e familiares o motivo de nós não nos engajarmos em causas sociais e políticas para além das questões religiosas. As respostas que sempre ouvia eram variações da seguinte posição: “pra que fazê-lo? É inútil. Essa terra é passageira e não tem jeito. O jeito é Jesus voltar. A nós cabe apenas esperar. Ademais, engajar-se nesses assuntos ‘mundanos’ é perigoso, pode nos levar a perder a salvação”.8 E assim, efetivamente, conformaram-se/conformam-se.
Penso que esse tipo de resposta é coerente com a doutrina oficial da IASD, e deriva direta ou indiretamente dela — ou, utilizando termos althusserianos, advém das práticas e rituais materiais definidos pelos aparelhos internos a essa peça do AIE religioso. Além disso, entendemos que a doutrina adventista, ao menos em um nível institucional, colabora de forma relevante para a conformação daqueles que são seus membros e/ou fazem parte de seus quadros religiosos/laborais. Buscarei demonstrar essa hipótese a partir de três fontes oficiais.
Em primeiro lugar, gostaria de demonstrá-lo a partir do ensino religioso propriamente dito, tendo como base o mais recente guia oficial de estudos bíblicos da IASD, que se chama Lição da Escola Sabatina.9 Na Lição da Escola Sabatina deste primeiro trimestre de 2026, a sua sétima lição possui o título “Cidadania Celestial”. No texto correspondente ao dia 07 de fevereiro, assim lemos:
Mesmo quando as coisas não acontecem do jeito que planejamos (o que acontece com mais frequência do que gostaríamos), não precisamos ficar preocupados, ansiosos ou desanimados. Em vez disso, podemos recorrer a princípios que nos fortalecem para enfrentar os desafios da vida, permitindo-nos experimentar uma paz interior duradoura que somente Deus pode proporcionar. O presente e o futuro estão em Suas mãos, e Ele supre tudo de que precisamos. Mais importante: não precisamos colocar nossas esperanças em sistemas de governo terrenos, que frequentemente nos decepcionam. Como cristãos, somos cidadãos do reino celestial de Deus. E com essa cidadania vêm privilégios maravilhosos, e também responsabilidades. (grifos acrescentados)
Grosso modo, o tema da lição nº 7 deste guia oficial de estudos é a carta de Paulo de Tarso aos Filipenses. Na Lição, há pequenas reflexões diárias que giram em torno de interpretações desse e de outros textos bíblicos, sempre na toada da desvalorização da “vida terrena” em prol da “vida celestial” por vir. Desse modo, os leitores e membros da igreja são aconselhados durante tais lições a não se envolverem com a “cidadania terrena” e se voltarem completamente à “cidadania celestial”. Isso porque, “ao contrário dos inimigos da cruz, que ‘só pensam nas coisas terrenas’ (Fp 3.19) e têm como deus o próprio ventre, a cidadania do cristão está no Céu, e seu governante é Jesus Cristo”.
Foge do escopo deste ensaio realizar um estudo histórico-sistemático das Lições; todavia, em minha experiência pessoal, afirmo com tranquilidade que se trata de um tema bastante comum e difundido, que de tempos em tempos aparece de volta na Lição.
Em segundo lugar, gostaria de examinar alguns documentos institucionais de teor público. Nas Declarações e documentos oficiais da IASD, no documento denominado “Os adventistas e a política” (2023), a IASD apresenta “um guia conciso e unificado sobre o pensamento da Igreja quanto às questões políticas”. Em geral, o documento traz o que pode e o que não pode ser realizado a nível institucional, incluindo o que é proibido ou permitido aos pastores e funcionários da IASD, bem como traz “recomendações” aos membros sobre política partidária, eleições, exercício do voto, manifestações de teor político em redes sociais e participação em manifestações e eventos públicos.
Na conclusão do documento, sintetiza as normativas da seguinte forma:
Como cristãos, reconhecemos o papel legítimo dos governos organizados na sociedade, respeitamos o direito do Estado de legislar nas questões seculares e consentimos com essas leis quando não contrariam os preceitos divinos. Entendemos também que nossos membros devem assumir responsabilidades civis com seriedade e exercer o papel de cidadãos, mas sem se esquecer da cidadania celestial. Não desmerecendo as questões políticas e sua importância, entendemos ser um dever da Igreja dar o devido destaque ao objetivo de desenvolver práticas que resultem no fortalecimento da fé e promovam a esperança na iminente volta do Senhor Jesus Cristo. (grifos acrescentados)
Além da conclusão, que é bastante clara, este documento possui uma série de diretrizes e normativas que dão suporte à tese da conformação. Por exemplo: relativo ao posicionamento político no ambiente digital, determina a todos que têm vínculo religioso/missional ou laboral com a IASD que “não postem nas mídias sociais nem encaminhem mensagens com opiniões ou manifestações sobre política partidária nem opções de candidatos a cargos eletivos, especialmente em período de eleições”. Quanto aos membros, aponta a diretriz para que “sejam muito prudentes ao se envolver em posicionamentos e discussões nas mídias sociais a respeito de política, partidos e eleições. Há outros temas de relevância espiritual e missionária que merecem atenção maior por parte dos que compreendem seu papel como multiplicadores do evangelho”. O mesmo se repete, com algumas mediações, com a participação em protestos e manifestações públicas, esforçando-se para parecer e recomendar estar o mais longe possível do âmbito político, engajando-se, quando muito, em questões sociais pontuais, como ações de filantropia/solidariedade ou manifestações contra a violência, tal qual o “Quebrando o silêncio“.10
Relativo ao que denomina como política partidária, o documento afirma que a IASD possui como um dos princípios fundamentais que regem a sua posição o da separação entre Igreja e Estado, no sentido de que este princípio informa que cada uma dessas instituições deve cumprir suas respectivas funções sem interferir nas atividades da outra. Dessa forma, para além da postura de não envolvimento ou filiação partidária/compromisso com partidos políticos (ao menos oficialmente), aduz que
A Igreja encontra nos ensinos do Senhor Jesus e dos apóstolos base segura para evitar qualquer militância político-partidária institucional. O cristianismo apostólico cumpriu sua missão evangélica sob as estruturas opressoras do Império Romano sem se voltar contra elas. O próprio Cristo afirmou que Seu reino “não é deste mundo” e que, portanto, os Seus “ministros” não empunham bandeiras políticas (João 18:36). Qualquer posicionamento ou compromisso com legendas partidárias dificultaria a pregação do evangelho a todos indistintamente. (grifos acrescentados)
Há algumas ambiguidades nesse trecho. Se, num primeiro plano, seria possível argumentar como correta e desejável a posição de não relacionar-se com partidos políticos no nível institucional, num segundo momento há posicionamentos que pertencem a escopos diferentes, e que organizados dentro do mesmo argumento, mostram-se deslocados. Uma coisa é defender a não participação da instituição religiosa na política partidária; outra coisa é defender que, diante de uma estrutura sociopolítica opressora, deve-se cumprir a missão religiosa sem “se voltar contra ela”, suportando-a ou ignorando-a, noutras palavras, conformando-se com o estado das coisas.
Por outro lado, é possível argumentar que existem tópicos no documento que apresentam diretrizes numa tendência contrária à que venho defendendo. Isso porque, ato contínuo ao tópico sobre a política partidária, na seção sobre a questão do voto e das eleições, apresenta, com base em textos pouco conhecidos da cofundadora da IASD, Ellen G. White, algumas orientações e normativas. Estas, se, por um lado, vetam a possibilidade do uso dos templos para qualquer tipo de propaganda política-eleitoral ou apresentação de candidatos, por outro, orientam seus membros a cumprir o direito ou dever do voto, desde que “nessas ocasiões não haja qualquer incompatibilidade com os princípios bíblicos defendidos pela Igreja”.11 Na prática, se inicialmente orienta seus membros a votarem de acordo com a “consciência individual”,12 por outro lado, aduz que devem escolher “candidatos que defendam os princípios da qualidade de vida e da saúde, do modelo bíblico de família, dos valores éticos e morais, da liberdade religiosa e da separação entre Igreja e Estado”.13 Ora, levando-se em consideração o contexto político brasileiro contemporâneo, pode-se dizer que essas diretrizes não são tão apolíticas e apartidárias assim.
Por fim, em terceiro lugar, gostaria de analisar um texto publicado no site institucional da IASD. Na coluna do teólogo adventista Felippe Amorim, publicada no site oficial da IASD em português do Brasil, foi publicado um texto de sua autoria denominado “O cristão, a polarização política e relacionamento com autoridades” (2025). Nele, vemos mais um exemplo de orientação aos fiéis sobre como se portar em relação à política. No texto, o autor argumenta que o Brasil, como outras partes do mundo, vive uma polarização política cada vez mais intensa entre a “esquerda progressista” e a “direita dominionista”. Aduz que muitos cristãos têm sido cooptados por tais ideologias, sendo que alguns tentam conciliar cristianismo e progressismo, o que para o autor seria algo impossível, enquanto outros sonham com um Estado teocrático. A partir desse contexto, apresenta orientações de como um cristão deveria lidar com a política e com os governantes.
Focando na carta de Paulo de Tarso a Timóteo, que o autor apelida de “curso de teologia pastoral”, o ensinamento de Paulo seria que a igreja de Éfeso não deveria ser militante política, nem promover movimentos para derrubar Nero, imperador que perseguia os cristãos e dificultava as práticas de culto. Longe disso: a missão da igreja seria pregar o evangelho e interceder para que os líderes abrissem espaço à liberdade religiosa, devendo, portanto, orar pelo imperador e por todos os que exercem autoridade. Desse modo, Paulo não haveria proposto uma manifestação pública, mas uma ação discreta, espiritual e intercessora.
A conclusão do texto se dá a partir de um mote que ficou conhecido contemporaneamente ao se debater sobre o tema da política em meios cristãos: “Na disputa política entre direita e esquerda, o cristão tem um lado bem definido: o de cima.” E finaliza:
Mas o que significa estar do lado de cima? Significa escolher os valores do reino de Deus, colocando a justiça, a misericórdia, a verdade e o amor ao próximo acima de qualquer ideologia política. O reino de Deus é eterno e prevalecerá sobre todos os reinos terrenos, como anunciam os profetas Daniel e João em Apocalipse. O cristão vive como cidadão do céu (Filipenses 3:20), consciente de que nenhum projeto político humano é capaz de representar plenamente os princípios divinos. Por isso, sua lealdade última é a Cristo e sua missão é ser sal e luz em qualquer contexto político. (grifos acrescentados)
Em minha experiência pessoal na IASD, qualquer olhar um pouco mais atento para questões políticas ou sociais era visto com desconfiança e desincentivado pela Igreja. O correto mesmo era nos voltarmos completamente para a igreja e os assuntos religiosos. Do mesmo modo, explicações de caráter secular, não religiosas, para “questões terrenas” também eram mal vistas ou desincentivadas. Assim, exemplificativamente, não é que nosso país esteja submetido a uma economia baseada na agroexportação de commodities/produtos primários, desindustrializado e prostrado como um país da periferia do sistema capitalista aos países centrais desse modo de produção. Não é que possuímos uma burguesia nacional vira-lata e entreguista, subserviente e dependente da burguesia dos países centrais. Não é que vivemos no período de crise do imperialismo, o qual impõe, então, um jugo mais pesado. Não é que o capital fictício impera como uma força dominante e o rentismo nos domina. Grosso modo, na verdade estaríamos vivendo no fim dos tempos, e no fim dos tempos iríamos passar por diversas adversidades. Afinal de contas, “no mundo tereis aflições”, disse Jesus em “algum lugar da Bíblia”. Que fazer, então? Evangelizar e aguardar a volta de Jesus.
Interessante notar que em todos esses textos/documentos está presente essa noção de “cidadania celestial”. Essa noção se contrapõe a uma outra que, no entanto, está presente de forma implícita: a de “cidadania terrena”. Em conjunto, essas noções delineiam as doutrinas oficiais da IASD em relação à segunda vinda de Cristo e da Nova Terra, realizando uma clara clivagem entre uma cidadania que é desejada e eterna e outra que é efêmera e sofrida.
Nesse sentido, todos esses textos/documentos institucionais possuem uma clara diretriz no sentido do desengajamento com as questões relativas à cidadania terrena em prol da cidadania celestial. É relevante ressaltar que, como busco apontar a partir de minha experiência pessoal, esses textos/documentos não se tratam de doutrinas ou normativas pontuais, mas de uma doutrina eclesiástica institucionalizada e efetiva que faz parte das práticas religiosas concretas da IASD.
Ademais, também é possível perceber que, ao tratar das questões da cidadania terrena, das coisas mundanas, indesejáveis e perigosas, estas possuem um escopo mais ou menos definido, qual seja, o escopo do político. Nesse sentido, como pudemos notar, existe toda uma tentativa de afastar-se e afastar os membros de questões políticas. E isso torna bastante peculiar a escolha do termo “cidadania” para o conceito de cidadania celestial, posto que cidadania é um conceito advindo diretamente da política e da filosofia política — desde A república de Platão ou a Política de Aristóteles debate-se e conceitua-se o que é cidadão e cidadania num âmbito eminentemente político-filosófico.
Nessa esteira de pensamento, essas posições e normativas eclesiásticas, longe de serem apolíticas ou antipolíticas, representam efetivamente uma posição política: numa sociedade cindida em classes, omitir-se ou incentivar o desengajamento das lutas materiais contra as opressões significa, direta ou indiretamente, conformar-se em prol da opressão da classe dominante.14
Ademais, analisando hoje, é possível perceber que é tendência crer, dentro do âmbito religioso da IASD, que a história da humanidade é teleológica e unitária, ou seja, concebe-se a história da humanidade dentro do escopo do que no adventismo é conhecido como o grande conflito, o conflito eterno entre Deus e Satanás pelo destino da humanidade, onde a vitória de Deus é certa em razão do plano da redenção e do sacrifício de Jesus. Desse modo, a história da humanidade tem uma origem, a criação divina, e um fim (compreendido tanto na sua concepção de finalidade como de termo final): a redenção divina. No interstício da origem e do fim, teremos obstáculos e aflições. E, desde o começo do mundo, com o pecado primordial de Adão e Eva, estamos condenados ao sofrimento terrestre, apenas mitigado pela fé e pelo auxílio divino. Portanto, não existe a menor possibilidade ou o menor interesse em interferir na vida terrena, eis que a história já foi escrita. Se hoje sofremos, sofre-se desde o início. E não há o que fazer, a não ser aguardar a volta de Jesus.
À luz da teoria da ideologia de Althusser, poder-se-ia considerar a IASD como uma das inúmeras outras peças componentes de uma estrutura maior, que seria o AIE religioso. E levando-se em consideração a função social da ideologia em geral, pensada nos estritos termos althusserianos ventilados linhas acima, poder-se-ia analisar tanto os textos/documentos oficiais da IASD, bem como os acontecimentos relativos à minha experiência pessoal, como exemplos empíricos do seu cumprimento.
Nesse sentido, compreendo que as doutrinas eclesiásticas da IASD analisadas: I) corroboram para a construção de crenças materiais, isto é, de atitudes e comportamentos materiais, de que o estado atual das coisas era natural, pois as coisas sempre foram assim, “desde que o mundo é mundo”; II) corroboram não apenas para aceitar “as coisas como elas são”, mas efetivamente para retirar os seus membros do campo onde efetivamente poder-se-ia construir alguma alternativa, que são as lutas político-econômicas-sociais de massas; III) corroboram para manter um certo equilíbrio e mansidão, uma disciplina e um controle da subjetividade, dos comportamentos e atos materiais.
E, dessa forma, como diz Althusser, “funcionamos sozinhos”, sem a necessidade de um policial em nosso pé constantemente. Sei que sou um sujeito e sei o que é esperado de mim. Sei o que devo fazer e, principalmente, o que não fazer.
A guisa de conclusão, devo adicionar: dentro do escopo da teoria althusseriana, nós somos desde já sujeitos assujeitados pelas mais diversas ideologias, não apenas a ideologia realizada no AIE religioso, mas também no AIE escolar, AIE familiar, AIE das comunicações, AIE político etc. Somos constantemente interpelados, a todo momento, por diversos AIE e, sobretudo, pela Ideologia Primária, que é a ideologia da classe dominante, cabendo a cada um de nós, como disse o filósofo francês, “se virar como pode”.
Ademais, é importante ressaltar que, de maneira geral, a experiência religiosa é bastante plástica e não necessariamente reacionária ou desmobilizante. Na história existem diversos exemplos disso, como a revolução sandinista na Nicarágua. Além disso, este ensaio de maneira nenhuma tem o escopo de dissecar a questão da religião, objeto de pesquisa que não faz parte de minha formação pessoal, e que com todos os votos de apreço deixo para os especialistas, que sempre estão publicando nesta estimada revista, mas apenas para realizar uma crítica com o fito de contribuir para o debate.
Nota:
1.↑ Graciliano Ramos, Vidas Secas (Jundiaí: Editora Principis), 2024, p. 73.
2.↑ Disclaimer importante: Althusser rejeita frontalmente os estudos clássicos da epistemologia moderna, ou seja, dos debates epistemológicos ocorridos na era moderna e que até hoje são paradigmas sobre o tema. Ele busca em seus primeiros escritos sobre o tema (Por Marx, Ler o Capital, etc.), refletir sobre o conhecimento dentro do âmbito teórico marxista, esforçando-se para criar bases teórico-filosóficas para tanto.
3.↑ Trata-se de um manuscrito publicado após seu falecimento, mas que serviu de base para o famoso ensaio Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado, publicado em 1970. Este ensaio é um texto clássico de Althusser, muito influente no campo da crítica da ideologia.
4.↑ Farei aqui um pequeno preciosismo: Althusser rejeita a noção de “sociedade”, pensada como sociedade em geral. Para ele, não existem “sociedade” ou “sociedades”, pensadas assim em abstrato, mas sim, seguindo Marx, formações sociais, ou seja, uma formação social concreta, determinada historicamente. Portanto, não existiria a sociedade brasileira, em geral e abstrato, mas sim, por exemplo, a formação social brasileira contemporânea do século 21, submetida ao modo de produção de capitalismo dependente, etc. Feito este apontamento, neste ensaio utilizarei o termo mais corrente de sociedade.
5.↑ Louis Althusser. Sobre a reprodução. Petrópolis: Editora Vozes, 2008, p. 100-101.
6.↑ Ibid, p. 100-106.
7.↑ Minha dissertação de mestrado abordou especificamente a teoria da ideologia de Althusser e sua relação com a própria filosofia. Para quem tiver interesse, está disponível em: https://repositorio.ufba.br/handle/ri/41885
8.↑ Hoje em dia, é notável uma inflexão desse tipo de crença noutra direção. Mesmo em meios adventistas, uma certa ideologia religiosa de caráter eminentemente neoliberal é facilmente percebida. Por exemplo, durante algum tempo, na IASD da Paralela em Salvador (BA), existia um programa fixo que se chamava “Negócio Fechado”. Tratava-se de um culto voltado para “empresários e empreendedores”, onde, de forma direta ou indireta, consciente ou inconscientemente, estavam inseridas ideias muito próximas a uma teologia da prosperidade. O que, de certa forma, não deixa de ser uma forma de conformação: “já que as coisas são assim, Deus será o meu sócio e me trará prosperidade”.
9.↑ A cada trimestre, é confeccionado pelas editoras da instituição esse guia de estudos bíblicos, onde um tema é estudado pela membresia sob a forma de pequenas lições diárias e que, aos sábados, são revisadas de forma coletiva dentro da igreja, fazendo parte da programação sabática.
10.↑ Campanha da IASD contra o abuso e a violência doméstica.
11.↑ Ibid.
12.↑ Ibid.
13.↑ Ibid.
14.↑ Creio que, dado o teor do ensaio e a tradição teórica que mobiliza, resta claro que não estou incentivando, de modo caricato, que a IASD emule outros segmentos evangélicos e crie seus próprios partidos políticos, ou faça alianças diretas com outros partidos, nem que crie quadros atrelados à instituição para se engajar diretamente com o sistema parlamentar. Todavia, dado o estado atual do debate público, penso que seria interessante fazer este apontamento.




