Operação de deportação em massa na região de Minneapolis sequestra adventistas e aterroriza comunidades da região


Por Natalie Bruzon | Traduzido e adaptado do original em inglês por André Kanasiro para a revista Zelota

Para Ray Valenzuela, pastor sênior de uma congregação adventista na região metropolitana de Minneapolis, Minnesota, o dia 17 de janeiro começou como qualquer outro sábado. Após a escola sabatina, ele caminhava pelos corredores, preparando-se para iniciar o segundo culto da igreja com os anúncios semanais e uma oração. Foi quando um dos membros da igreja fez contato visual com ele. “Dá para saber quando alguém quer te contar alguma coisa,” disse Valenzuela. E era esse o caso. “Levaram a minha esposa,” disse o membro da igreja. O homem, marido e pai de três filhos, estava a caminho da igreja quando a família foi detida por agentes federais da imigração.

[Alguns nomes de pessoas e lugares foram omitidos do artigo para garantir a segurança dos envolvidos.]

Não era a primeira vez que Valenzuela ministrava a uma família impactada pelas atividades do Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos Estados Unidos (ICE) em Minnesota. Poucos dias antes, um casal da igreja dele havia sido detido a caminho do hospital. O marido corria com sua esposa para o pronto-socorro na manhã do dia 15 de janeiro, uma quinta-feira, quando ambos foram presos pelo ICE e separados na mesma hora. A esposa foi mantida no hospital, sob custódia do ICE. Enquanto isso, dentro de 24 horas, o marido já estava a mais de 1.600 quilômetros de distância, em um centro de detenção do ICE na fronteira entre os EUA e o México, sem meio de entrar em contato com a família.

A família não só se preocupava com a condição da esposa, detida no hospital, por questões de saúde, mas também não sabia se o marido diabético tinha acesso aos medicamentos de que necessitava. A família tentou de tudo para entrar em contato com o marido, cujo celular havia sido confiscado, mas ninguém conseguiu. Ao saber da situação, Valenzuela chamou a filha para orar por eles e oferecer apoio espiritual. Ele, então, foi até o hospital onde a esposa era mantida e perguntou na recepção onde estava a membra da sua igreja, explicando que era o pastor dela.

“Nós não temos ninguém com esse nome no sistema,” disse a enfermeira.

No início, Valenzuela pensou que tinha recebido alguma informação errada. Talvez ela estivesse em outro hospital, ou talvez ele tivesse anotado o número do quarto errado, pensou. Mas não, a informação estava correta. Sem permissão para ver a membra da própria igreja, ele ligou para a filha, que estava no quarto com a mãe. Valenzuela lembra que a filha estava nervosa, pois os agentes do ICE não davam privacidade nenhuma a ela ou à mãe. Ele perguntou: “Eles estão no quarto com você neste momento?”

“Sim,” ela respondeu. A filha contou a Valenzuela que, segundo os agentes do ICE, ela não poderia voltar ao quarto se saísse, então ele a aconselhou a permanecer com a mãe. Mais tarde naquela noite, os agentes disseram à filha que ela não poderia mais ficar com a mãe, e ela ficou no saguão do hospital, aguardando informações sobre a saúde da mãe. Pela manhã, um administrador do hospital a instruiu a deixar o hospital, dizendo que ela não tinha mais permissão para ficar no prédio.

A Operação Metro Surge, conduzida pelo ICE e pela Proteção de Fronteiras, foi iniciada na região metropolitana de Minneapolis e Saint Paul em dezembro de 2025, com o propósito explícito de apreender e deportar imigrantes sem documentos. No dia 6 de janeiro, a agência federal responsável por ambas, o Departamento de Segurança Doméstica (DHS), anunciou uma expansão da intervenção e a declarou “a maior operação de imigração já realizada”, enviando 2.000 agentes do ICE para as duas cidades. O DHS reportou ter apreendido 3.000 pessoas em Minneapolis até o dia 19 de janeiro.

A Associação Minnesota da Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD) fica no norte de Minneapolis e atua no estado de Minnesota, com aproximadamente 80 igrejas. Segundo Savannah Carlson, diretora de comunicação e recursos humanos da associação, “dentro das duas cidades temos igrejas hispanas, temos uma congregação Hmong, e temos igrejas primariamente africanas. Temos muitas igrejas multiculturais.” Dados demográficos da associação sugerem que mais de 20 igrejas e grupos são predominantemente compostos de imigrantes.

Associação Minnesota da IASD, em Minneapolis, Minnesota. Foto: Google Maps

A igreja de Valenzuela não foi a única congregação a sofrer com a Operação Metro Surge. “Algumas das nossas igrejas hispanas estão fechadas há pelo menos três semanas, justamente porque a membresia está com medo de tudo que tem acontecido,” disse Carlson. Além disso, “em duas de nossas igrejas hispanas, nossos tesoureiros foram pegos, detidos e deportados.”

Para alguns, os relatos desses incidentes podem parecer exagerados, ou as ações do ICE podem parecer legais e justificadas. Valenzuela reconhece que muitos estadunidenses não fazem ideia das realidades enfrentadas por comunidades de imigrantes. Mesmo quem vive nessas duas cidades muitas vezes não está ciente do medo generalizado em bairros de Minnesota onde há igrejas adventistas. Segundo Valenzuela, algumas pessoas vão dizer que ele está sendo político com essas histórias, mas, da perspectiva dele, “parecem duas realidades diferentes”. Isso porque “nós, que estamos em contato com a comunidade de imigrantes, estamos vendo algo completamente diferente”, acrescentou Valenzuela. Com base em conversas com adventistas locais, a ansiedade das comunidades de imigrantes é extremamente palpável e impacta até a escola ligada à igreja de Valenzuela, que alguns alunos pararam de frequentar presencialmente. “Temos que dar caronas para as crianças porque os pais delas estão com medo”, disse Valenzuela. “Algumas só estão assistindo às aulas pela internet. Nossos professores estão bem, mas isso preocupa muito todos eles. Eles amam essas crianças, e é difícil saber que tantas famílias estão com medo.”

Originalmente do México, Valenzuela sente na própria pele o sofrimento das comunidades de imigrantes. Ele migrou para os EUA com a família quando era criança, e, embora seja um cidadão dos EUA, Valenzuela sempre carrega seu passaporte para o caso de ser confrontado por agentes do ICE. No dia 17 de janeiro, quando o membro da igreja dele contou a Valenzuela sobre a esposa, ele se lembra de entrar na nave da igreja quase em transe, com seu coração de pastor doendo profundamente ao ver outra família sob seus cuidados se tornar vítima de iniciativas de deportação em massa.

“Eu compartilhei a história com a igreja durante o momento de oração e me emocionei”, disse Valenzuela. Mostrando honestidade e vulnerabilidade, ele disse à congregação: “Isso tem sido difícil para mim como pastor de vocês.” Ele acrescentou: “Eu disse a eles que isso não era questão de política. Era só o pastor deles abrindo o coração. Eu estava em dúvida se deveria falar alguma coisa, pois não queria deixar as pessoas com medo. Mas então eu pensei: alguns de vocês já estão com medo. Vocês já estão carregando esse fardo. Por que não fazer isso abertamente ao invés de fingir que não há nada acontecendo?”

Mais tarde, em uma reunião com a liderança da igreja, Valenzuela compartilhou informações específicas sobre famílias na congregação que foram afetadas pelas atividades do ICE. Com a congregação ele compartilhou fotos no telão, de modo a humanizar as famílias. Quanto ao casal que foi detido a caminho do hospital, Valenzuela contou que o marido era parte de um grupo cristão de mariachi, o qual tocava em hospitais e casas de repouso. O casal visitava enfermos para orar com eles. A esposa levava crianças para os aventureiros e era uma ótima cozinheira. Valenzuela não queria que a congregação fizesse vista grossa. “São pessoas,” disse ele.

Do ponto de vista da associação, Carlson disse que as atividades do ICE estão afetando toda a IASD em Minnesota, observando que muitos pastores e funcionários têm visto de trabalho. Para ela, eles têm sido uma inspiração, mesmo frente ao medo de serem alvejados. “Para mim, particularmente, está sendo incrível testemunhar como é profunda a fé deles,” disse Carlson. “Várias pessoas me disseram: ‘Deus nos trouxe até aqui. Ele está conosco. Ele vai nos proteger. Ele vai nos manter em segurança.’ Isso não é uma negação da possibilidade de serem detidos. É como eles entendem a fidelidade de Deus para conosco.”

Com a mesma fidelidade, a Associação de Minnesota respondeu publicamente ao caos, oferecendo orientação e apoio a suas igrejas e comunidades. Em uma declaração por escrito que foi compartilhada com as congregações do estado no dia 27 de janeiro, a associação afirmou que sua resposta é pastoral e teológica, enfatizando que a fé cristã mantém o respeito pela autoridade civil, mas também a responsabilidade de defender quem está sendo prejudicado. Citando Provérbios 31, a declaração convoca os membros a “erguer a voz pelos que não podem se defender”, além de pedir que as igrejas respondam com atos palpáveis de cuidado — entregando compras, apoiando famílias juridicamente, etc.

Mesmo antes da crise atual, há um ano, quando uma ordem executiva presidencial derrubou proteções que designavam igrejas e escolas como santuários, a associação já havia desenvolvido e espalhado orientações para igrejas e escolas sobre como lidar com possíveis intervenções em seus espaços. Estas orientações foram atualizadas nas últimas semanas, em resposta à intensidade atual da intervenção do ICE, e compartilhadas outra vez.

Além disso, a associação trabalhou com um advogado de imigração para criar recursos voltados especificamente para organizações religiosas. Líderes da associação também gravaram uma mesa redonda jurídica para responder às perguntas que atormentavam os membros afetados pelo ICE. As perguntas iam de “É seguro viajar” até “O que eu faço se o ICE vier e derrubar a minha porta?”

Serviço Comunitário Adventista, em Detroit Lakes, Minnesota. Foto: Google Maps

Para ajudar famílias com medo de ir ao supermercado, a associação também mobilizou o Serviço Comunitário Adventista (ACS), que é focado primariamente em assistência social após desastres naturais. Segundo Carlson, “[o diretor do ACS] já recebeu mais de 300 pedidos de cestas básicas”. “Ele também recebeu o pedido de uma escola pública em uma das cidades das redondezas: fornecer cestas básicas para algumas crianças do ensino básico que não estão indo à escola porque as famílias estão com medo de levá-las.”

A igreja de Valenzuela também não pretende permitir que o medo paralise seu ministério. No dia 25 de janeiro, ele reuniu a liderança da igreja para avaliar e votar quais são as necessidades a serem atendidas para além do choque e do luto, focando em assistência concreta. “Eu não queria só dizer ‘Vejam o que está acontecendo’ e deixar por isso mesmo,” disse Valenzuela. A liderança votou a favor de uma mobilização, e a igreja começou a organizar um ministério alimentar para famílias que estavam com medo de sair de casa ou subitamente não tinham mais como obter renda. A igreja criou uma conta para doações, um panfleto, e organizou voluntários. Horas após a votação, já estava clara a quantidade de pessoas necessitando de ajuda. “Na manhã seguinte, já havia 60 famílias [inscritas],” disse Valenzuela.

Ray Valenzuela falando na IASD que ele pastoreia em Minnesota, no dia 10 de janeiro de 2025. Foto: @mtkasda/YouTube.

A velocidade com a qual a associação e a igreja de Valenzuela reuniram recursos demonstra a força da rede da IASD. Valenzuela, como muitos pastores, tem a confiança de muita gente para organizar redes de assistência mútua em momentos de crise. Por exemplo, quando a família não conseguiu encontrar informações sobre o marido diabético e se ele tinha acesso aos medicamentos, Valenzuela — que já foi pastor no Texas — entrou em contato com um membro de sua ex-congregação em Dallas, cuja mãe é advogada em El Paso.

“Eu entrei em contato e disse ‘Ei, eu só preciso de uma ajuda. Nem sei se você pode fazer algo. Só queremos saber se ele está recebendo os medicamentos de que precisa.’ Ela foi ótima. Ela disse: ‘Pastor, eu vou fazer o possível.’ Ela começou a falar com outras pessoas, e conseguimos que um grupo de direitos humanos fosse visitá-lo. Foi a primeira vez que ouvimos alguma informação direta. Eles conseguiram confirmar que ele estava recebendo os medicamentos, e ele conseguiu enviar uma mensagem à família.”

Um dos anciãos atuais de Valenzuela também é um advogado, e, quando o membro da igreja contou a Valenzuela que sua esposa foi detida a caminho da igreja, Valenzuela chamou este ancião para maiores orientações. A mulher detida estava legalmente no país como refugiada, e todos os documentos estavam em ordem. O ancião submeteu uma petição de habeas corpus, argumentando que ela foi detida ilegalmente, sem mandado ou justificativa legal. Embora a família, inicialmente, tivesse sido informada de que a mulher seria liberada em três dias, ninguém — nem a mulher, nem a família, nem o advogado — foi notificado quando um juiz aprovou a libertação dela. A família teve que ir até o centro de detenção e insistir que ela estava sendo mantida ali; só então os guardas a “encontraram” no sistema e a libertaram após 30 minutos. Os funcionários, então, lhe disseram que ela havia sido liberada dias antes. Segundo Valenzuela, este é o padrão: as pessoas ficam perdidas no sistema, a menos que alguém as defenda e pergunte por elas persistentemente.

Quanto ao casal detido a caminho do hospital, a esposa foi transportada ao centro de detenção com o marido, e ambos escolheram se deportar. “Eles estão cansados,” disse Valenzuela. “Eles não querem mais viver com medo e pressão. Mas mesmo após aceitarem se deportar, ambos seguem em cativeiro.”

Os incidentes que afetam essas famílias adventistas têm se desdobrado em meio a uma desconfiança crescente do país em relação às táticas do ICE em Minnesota e no resto do país. No dia 7 de janeiro de 2026, agentes do ICE balearam e mataram Renee Good, uma cidadã dos EUA, enquanto ela estava sentada em seu carro, no que testemunhas descrevem como um esforço comunitário de monitoramento das atividades do ICE. Dias depois, outro cidadão estadunidense e enfermeiro de uma UTI, Alex Pretti, foi baleado e morto por um agente do ICE após tentar intervir durante outra abordagem dos agentes. Ambas as mortes ocorreram em Minneapolis.

Em casos envolvendo pessoas baleadas por agentes, a autorização legal nem sempre elimina preocupações éticas. Um policial local que atua na região metropolitana de Washington, D.C., falando com a Spectrum sob anonimato, explicou que delegacias tipicamente conduzem revisões administrativas à parte de investigações criminais. “Um oficial pode ser liberado legalmente e, ainda assim, enfrentar consequências internas,” disse o policial. “O legal e o moral nem sempre são a mesma coisa.”

Segundo o policial, o serviço de imigração federal nem sempre opera em estruturas que respondem de forma comparável. Ele apontou problemas e inconsistências nos processos de contratação e treinamento do ICE, sugerindo que os agentes podem estar sendo colocados nas ruas com preparo limitado.

Em resposta à morte de Pretti, o JustLove Collective, uma rede de organizações adventistas organizada recentemente, publicou uma declaração dizendo que “justiça sem amor não passa de GELO [trocadilho com “ICE”] — e não serve para nada.” Chris Blake, cofundador da rede, acrescenta que o coletivo “manifesta solidariedade para com o casal adventista e os apoia,” concluindo que “o amor divino derrete o GELO”.

Após as mortes, segundo o DHS, dois dos agentes do ICE envolvidos foram suspensos. O comandante Gregory Bovino também foi removido de sua posição em Minnesota, e Donald Trump, presidente dos EUA, afirmou que diminuiria a escala das operações do ICE no estado.

Considerando a realidade enfrentada pelos imigrantes, diz Carlson, muitas pessoas estão em uma tensão entre o respeito a autoridades civis e o caminho de Jesus. Por um lado, crê Carlson, a Bíblia diz claramente que os cristãos devem mostrar amor uns pelos outros. Este, inclusive, é um selo do povo de Deus: o amor a todos. “Não há diferença entre quem recebe amor e quem não recebe,” diz Carlson. “Todos são amados.”

No entanto, Carlson reconhece que Jesus lembrava seus seguidores de reconhecerem as autoridades designadas por Deus. Jesus, segundo Carlson, obedecia às autoridades civis. Paulo, segundo ela, dizia aos cristãos que obedecessem às leis da terra.

Para Carlson, em última instância, a resposta diz respeito ao mandamento cristão do amor. Nesse sentido, diz ela, a IASD tem oferecido historicamente uma “terceira via” — não baseada em afiliações políticas, e sim em uma presença fiel — que se recusa a permitir que divisões obscureçam a missão da igreja. “Deus também nos diz que devemos erguer a voz pelas pessoas que não podem se defender,” diz Carlson.

Para Valenzuela, também é importante que sua congregação entenda uma coisa: os imigrantes alvejados não são um grupo abstrato. Eles são pessoas de verdade, parte da família da IASD, que contribuem, que amam pessoas, que têm família no país — filhos, netos, primos — e que estão sendo impactados pelos ataques.

Em resumo, diz Valenzuela, “nossa situação não melhorou por terem levado eles embora”.