Da marginalização religiosa ao protagonismo público, adventistas e outros evangélicos denunciam o ataque dos EUA à soberania da Venezuela e esclarecem as relações do evangelicalismo com o governo chavista
Por André Kanasiro e Felipe Carmo | editores-chefe da revista Zelota. Publicado originalmente em colaboração com a Spectrum Magazine.
Em vez de receber 2026 com fogos de artifício, moradores de Caracas e arredores foram surpreendidos por ataques aéreos nas primeiras horas de 3 de janeiro. A ofensiva aérea, seguida por operações militares especiais, foi realizada pelos Estados Unidos com o objetivo declarado de apreender o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores. Ambos foram sequestrados de seu país e levados para julgamento no Distrito Sul de Nova York, sob acusações de terrorismo e tráfico de drogas. Pouco depois, o Departamento de Justiça dos EUA retirou as alegações feitas pelo presidente Donald Trump de que Maduro liderava um cartel de drogas chamado “Cartel de los Soles”.
Após a operação, Trump declarou que os EUA passariam, a partir de então, a “comandar” a Venezuela para orientar a transição política do país. Especialistas em direito internacional, no entanto, questionaram a legalidade da ação, observando que não há base legal para a invasão militar de um Estado soberano sem autorização das Nações Unidas ou, evidentemente, o consentimento do governo venezuelano. Líderes governamentais de outros países, incluindo Brasil, Colômbia, Chile e México, interpretaram o ataque não apenas como uma violação da soberania da Venezuela, mas também como um aviso às nações latino-americanas vizinhas—demonstrando que os EUA eram capazes de agir com impunidade e que seu atual presidente já não se sente compelido a pensar “puramente na paz”.
Para além das consequências políticas, o ataque também provocou reações religiosas. Algumas comunidades evangélicas venezuelanas—particularmente entre grupos de imigrantes—interpretaram a operação como uma vitória espiritual e uma libertação da opressão, atribuindo às ações de Trump o caráter de intervenção divina. Ao mesmo tempo, outros grupos evangélicos foram às ruas para denunciar a ilegalidade do ataque em nome da paz e da justiça, enquadrando a ação dos EUA como uma ofensiva imperialista e extrativista que viola tanto os valores do Evangelho quanto o direito internacional.
A Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD) na Venezuela, no entanto, não se encaixa claramente em nenhuma dessas categorias. Embora a escatologia adventista tradicionalmente identifique os EUA como a “besta que sobe da terra” (Ap 13.11), atribuindo-lhes um papel violento e coercitivo no tempo do fim, a igreja limitou a resposta pública de seus membros a orações pela Venezuela ou a oportunidades de estudo da profecia bíblica e d’O Grande Conflito. Dois dias após o ataque, a Adventist Review publicou uma reportagem sobre o projeto “Health in Mission”, destacando o alcance e a relevância das iniciativas sociais da igreja na Venezuela. Embora a situação seja delicada e exija cautela institucional, a ausência de um comentário adventista explícito sobre os acontecimentos levanta questionamentos tanto sobre a relação da igreja com o governo venezuelano quanto sobre a relevância prática de sua mensagem profética em tempos de crise.
Adventistas venezuelanos falam sobre ataque dos EUA
Diante da dificuldade de estabelecer contato com adventistas na região, a Zelota optou por contatar outros líderes evangélicos. Dois deles explicaram que os adventistas são fechados ao diálogo inter-religioso e tendem a ser politicamente conservadores. Ainda assim, por essa via, a Zelota conseguiu conversar com um adventista venezuelano que concordou em falar anonimamente, não estando autorizado a falar em nome da igreja e temendo retaliação institucional. Além disso, a Zelota também conversou com outro adventista venezuelano que chegou recentemente ao Brasil e se dispôs a oferecer suas opiniões.
A convicção de que a Igreja Adventista e seus membros devem se distanciar das discussões políticas é clara para Ernesto Castro Bolívar (pseudônimo para proteger sua identidade), avô recente e pai de três filhos, todos ativos em diversas atividades da igreja. Ele pertence à denominação há quase 10 anos, atua como ancião na IASD Central de Cabudare, participa do comitê executivo de sua associação local e viaja com frequência pelo país como pregador leigo em campanhas evangelísticas. Por essa razão, Bolívar não se filia a partidos políticos, mas esclarece que a situação da Venezuela “precisa ser discutida para que possamos fazer o bem”.
Embora Bolívar não defenda preferências políticas, ele afirma que o tema do ataque é sensível, principalmente porque provoca divisão dentro da igreja. Para ele, ouvir falar de “guerras e rumores de guerras” em outros países é diferente de estar inserido no conflito. Ele explica que o sentimento predominante é de luto e de violência contra a soberania da Venezuela, especialmente por causa das vidas perdidas no ataque:
“Você sente uma espécie de luto. Mesmo que você não tenha uma preferência política, isso o afeta, porque aconteceu com você. Quando você se coloca no lugar do outro, o sentimento é diferente. Muitos irmãos morreram; irmãos e irmãs que tinham a oportunidade de salvação. E você se sente violado, porque atacaram a soberania do seu país, e isso dói. Não devemos nos alegrar com isso em momento algum, especialmente por causa das vidas que foram perdidas.”
O outro adventista venezuelano, José Luis Medrano Romero, professor e líder da comunidade hispânica na região do Centro Universitário Adventista de São Paulo (UNASP), explicou que o ataque dos EUA causou “danos à soberania [do país] de acordo com o direito internacional, ainda que alguns setores internos o vejam como uma oportunidade”. Apesar disso, Romero observa que muitos venezuelanos desejam uma melhora econômica para a Venezuela, independentemente de sua “cor política”—vermelha ou azul, esquerda ou direita.
Refletindo sobre sua vida passada na Venezuela—adventista há mais de 30 anos—, ao ser questionado sobre o governo Chávez e a possibilidade de viver sob uma ditadura, Romero afirmou: “Isso é mentira, irmão!” Ele explicou que, apesar das tensões entre diferentes setores do país, tanto Chávez quanto Maduro “não interferiram diretamente na prática ou na organização da Igreja Adventista na Venezuela”, acrescentando que a igreja continua a desenvolver sua missão espiritual, educacional e social “sem qualquer perseguição oficial ou ataques por parte do Estado”.
Para Romero, a liberdade da igreja na Venezuela é ainda mais facilitada quando a instituição se mantém restrita às atividades espirituais e sociais, sem envolvimento em confrontos partidários. Por outro lado, ele ponderou: “É plausível que, em localidades remotas, dentro de contextos militares, possa ter havido suspeitas de que a igreja tivesse vínculos estrangeiros pró-EUA, especialmente em áreas de fronteira como Santa Elena de Uairén, onde há uma presença adventista histórica desde o século XX”. No entanto, Romero entende que essa suspeita não equivale a uma política nacional de perseguição destinada a erradicar a religião.
Também abordando a ideia de viver sob um possível regime ditatorial, Bolívar gracejou e explicou que “embora as pessoas digam ao redor do mundo, e até mesmo na Venezuela, que vivemos sob uma ditadura e que não há liberdade religiosa, elas estão exagerando”. O ancião esclarece que a Igreja Adventista não sofre represálias do governo, abre seus templos todos os sábados, realiza cultos e até oferece almoço sem jamais ser impedida. “Eu mesmo sou pregador leigo e realizo trabalho evangelístico em toda a Venezuela. Nunca tive problemas.”
Segundo Romero, não há evidências de que a Igreja Adventista na Venezuela, como instituição, se posicione como “pró-Chavista” ou “pró-Guaidó”—uma referência a Juan Gerardo Guaidó Márquez, opositor de Maduro que, em 2019, proclamou-se “presidente interino da Venezuela” com o apoio do governo Trump. Em outras palavras, a igreja não se alinha a partidos políticos na Venezuela. Em sua visão, “Guaidó foi uma fraude para a maioria dos venezuelanos”. Romero explica, contudo, que há diferenças políticas moderadas, sem fanatismo, entre os membros adventistas. Esses membros geralmente seguem a orientação da igreja de manter distância de temas políticos, e a instituição não desconsidera as posições pessoais deles.
Embora não tenha frequentado uma congregação adventista entre 2005 e 2012, Bolívar disse ter ouvido relatos sobre a situação política da época, sob o governo do presidente Hugo Chávez: “Disseram-me que até os sermões do púlpito assumiam alguma direção política”. Ao imaginar o cenário adventista daquele período, ele acredita que a igreja estava dividida ao meio entre os que apoiavam e os que se opunham ao governo Chávez. No entanto, Bolívar explica que, com o tempo, os conflitos diminuíram e a igreja amadureceu; a igreja “entendeu que seu verdadeiro guia é Jesus Cristo, porque Ele estará conosco em todas as situações”.
Para Bolívar, nem os governos Chávez nem Maduro atuam no âmbito religioso. Ele chama a atenção para o fato de que o governo conhece muito pouco a Igreja Adventista ou sua história no país, principalmente porque a igreja se distancia de questões políticas e de relações com o Estado. “Muitos conhecem [a igreja] por causa da ADRA e de outros trabalhos sociais. Fora isso, ela passa despercebida. O governo não sabe quem são os adventistas.” Ainda assim, em tempos de guerra, Bolívar acredita que é essencial “orar por nossos líderes, para que Deus os guie — não para que sejam removidos”.
Ambos os venezuelanos concordam quanto à fragilidade da situação econômica do país, embora tenham visões diferentes sobre como responder a ela. Enquanto Romero imigrou para o Brasil em busca de melhores condições de vida, Bolívar considera permanecer na Venezuela uma virtude. O ancião observa que não vive “em um mar de rosas” e já passou por situações que poderiam dar num livro. Ainda assim, não vê a saída do país como solução e considera mais razoável permanecer e resistir, com fé no cuidado divino: “Confio em Deus, e posso dizer que até hoje, com a economia precária, nosso Deus tem nos alimentado todos os dias. Temos saúde, apesar das dificuldades.” Mesmo ao receber oportunidades de deixar o país, Bolívar argumenta: “É gratificante servir a Deus em meio às dificuldades.”
Segundo Bolívar, tanto a Igreja Adventista quanto outras denominações evangélicas sofrem com o êxodo de cidadãos venezuelanos que se veem obrigados a deixar o país. Ainda assim, a instituição segue em frente com dificuldade. De sua perspectiva e análise, todas as associações locais estão operando no vermelho devido à queda nas doações sistemáticas. Quanto ao crescimento, ele recorda que, há cinco ou seis anos, ocorriam entre quatro a cinco mil batismos, mas quase nenhum permanecia na igreja. “Hoje, se chegarmos a 1.200, temos que agradecer a Deus”, e “desses, posso dizer que cerca de 800 permanecem na igreja”.
Evangélicos venezuelanos convocam à resistência
No mesmo dia do ataque de 3 de janeiro, a Zelota recebeu um áudio de um pastor venezuelano não identificado, em Caracas, descrevendo o terror e a indignação de alguém que presenciou o bombardeio de perto:
“Nas primeiras horas da manhã, por volta de 1h30, fomos surpreendidos pelos bombardeios. Estou aqui em Miraflores, perto da casa presidencial. Acordamos porque portas e janelas começaram a tremer com a passagem dos aviões e, poucos segundos depois, ouvimos explosões. Aqui em Caracas há um aeroporto militar, uma base e um forte, mas a área ao redor é residencial, com muitos prédios. Eles tiveram que evacuar todos. Horas depois, ficamos sabendo que o presidente havia sido sequestrado. Acredito que essa seja a palavra correta, pois é um fato terrível para a região. Estamos de volta às intervenções dos EUA! Uma pessoa pode ser contra Maduro, mas não pode justificar uma intervenção estrangeira por qualquer motivo, especialmente nessa escala.”
O mesmo discurso assumiu a forma de denúncia em declarações de movimentos evangélicos na Venezuela. Uma delas foi publicada em 4 de janeiro pela União Evangélica Pentecostal da Venezuela (UEPV), no dia seguinte ao ataque, em uma carta pastoral sobre a “agressão imperial americana”, assinada por pastores, bispos e bispas. O documento somou-se ao coro de condenações às violações de direitos humanos e do direito internacional perpetradas pelos EUA contra a autodeterminação e a soberania da Venezuela. O movimento convocou orações e ações de solidariedade pelo povo e enfatizou a necessidade de intercessões específicas pela segurança de Maduro e de sua esposa.
“Não existe um narcoestado na Venezuela. O presidente legítimo da Venezuela, Nicolás Maduro Moros, não é um ditador, pois foi eleito pelo povo em eleições democráticas, diretas, livres e soberanas. Tampouco é um narcotraficante. Ele é um cristão fiel que apoia nossas igrejas evangélicas e nossos pastores”, afirma a carta, em defesa da legitimidade constitucional do país.
Um membro da UEPV, Exeario Josué de Sosa Ocanto, atua como bispo pentecostal, cientista político e professor universitário. Em entrevista à Zelota, Ocanto explicou que sua igreja está comprometida com causas populares e frentes de liderança espiritual e política. Para além de denunciar as ilegalidades do ataque, a UEPV também se mobilizou para proteger, exortar e prestar assistência pastoral a seus militantes, que atuam em diferentes regiões do país. “Usamos nossa voz profética para falar sobre a verdade na Venezuela e denunciar os abusos tanto de atores internacionais quanto nacionais”, explicou.
Ele também esclareceu que a agressão dos EUA faz parte de um programa intenso e prolongado destinado a desmantelar as conquistas sociais do país nas últimas décadas, como a saúde pública, a habitação e os direitos à terra. O ataque também teria como objetivo deslegitimar as instituições venezuelanas e os resultados das eleições de 2018 e 2024.
Após os bombardeios, Ocanto refletiu sobre a lógica de assédio comumente aplicada pelos EUA, que, de forma semelhante ao que ocorre na América Latina, provavelmente seria seguida por um golpe e perseguição política. O bispo acredita que isso não ocorreu porque a incursão estrangeira não contou com apoio interno nem com qualquer facção armada para tomar o poder. Assim—mesmo sem Maduro—o governo permanece o mesmo, embora o ataque seja um prenúncio de uma ameaça maior. Apesar das dificuldades impostas ao país, Ocanto insiste: “Nossa missão continua em meio à dominação imperial”.
A UEPV possui presença de base em igrejas localizadas em 10 estados do país. Segundo Ocanto, eles são considerados a “ovelha negra” entre os evangélicos devido ao tom político de sua fé. O fato, segundo o bispo, é que seus críticos “escondem sua ideologia de direita, enquanto nós [UEPV] assumimos nossa ideologia com propriedade e orgulho”. A UEPV não se relaciona apenas com a comunidade cristã na Venezuela, mas com grupos populares. Ela possui um representante na Assembleia Nacional, que ocupa essa posição para fortalecer o trabalho em políticas públicas.
Em 3 de janeiro, na Venezuela, o Movimento Cultural Cristão Caleb (CALEB) também divulgou uma “Declaração pela Paz e pela Vida”. Nela, o ataque é categorizado como “barbárie”, cujo objetivo é “tomar nossa liberdade, nossos recursos [e] nosso futuro”. Eles prometem resistir à ofensiva dos EUA em nome de uma fé ativa e da esperança, com a expectativa de que o sofrimento de seu povo seja redentor. O CALEB tem 53 anos de história e pertence à UEPV, que atua há 68 anos desde sua fundação.
O jornalista e coordenador de comunicação da Frente Evangélicos pelo Estado de Direito, Marcelo Santos, que acompanhou de perto o ativismo do movimento CALEB, deu testemunho das aspirações e da resistência do grupo na Venezuela. Esses seriam o “povo evangélico”, que persiste e ora pela vida, em contraste com a “direita evangélica”, que faz o mesmo, porém a favor da guerra, explicou. Os primeiros, segundo o relato de Santos, resistem em nome da autodeterminação e da soberania da Venezuela e repudiam o embargo econômico imposto pelos EUA, lamentando o fluxo migratório causado por tais restrições comerciais.
Em entrevista à Zelota, o líder do CALEB, Cristyan Sosa, de 26 anos, afirmou que o ataque não foi uma grande surpresa, mas sim o sequestro do presidente: “De certa forma, sabíamos que a possibilidade de um ataque militar à Venezuela era alta; mas que o sequestro do presidente ocorreria contra todas as normas do direito internacional? Isso realmente não esperávamos”. Após o ataque, Sosa reuniu-se com sua comunidade nas primeiras horas da manhã para orar e encontrar algum tipo de refúgio, tranquilidade e “alguma esperança sobre o que aconteceu”.
Sosa entende que a Venezuela ocupa uma posição e uma função estratégicas nas disputas geopolíticas, tanto em termos de localização quanto de recursos naturais. Em relação aos evangélicos em seu país, ele lamenta particularmente o fato de a religião ser utilizada como ferramenta ideológica para cumprir agendas políticas de extrema direita. Para Sosa, igrejas que se descrevem como “apolíticas” são, tipicamente, aquelas que se posicionam na extrema direita, fundindo um conservadorismo religioso com um tipo de conservadorismo político.
Outro movimentos evangélicos denunciam o ataque dos EUA
O Centro Memorial Martin Luther King, uma organização cristã ecumênica em Havana, Cuba, uniu-se à denúncia internacional ao ataque imperialista contra a Venezuela, expressando solidariedade aos aliados da Revolução Bolivariana. O mesmo foi feito pelo Movimento Estudantil Cristão de Cuba, um movimento de formação bíblico-teológica e reflexão crítica, “inspirado pelos valores evangélicos de paz, justiça e solidariedade”. Em um comunicado, a organização repudiou os ataques militares contra os venezuelanos por violarem a soberania do país e o direito internacional, afirmando que “como jovens cristãos, acreditamos na dignidade inviolável de toda pessoa e na resolução pacífica dos conflitos”.
A Igreja Menonita Anabatista de Buenos Aires, Argentina, divulgou uma declaração “pela paz, pela justiça e pela soberania dos povos”, repudiando o ataque militar dos EUA contra a República Bolivariana da Venezuela, por constituir uma violação do direito internacional. A igreja também expressou sua desaprovação ao governo argentino, que “optou por justificar e celebrar a ação”. Para a comunidade, “o governo de Donald Trump, coerente com sua agenda imperialista, busca, sob o pretexto de ‘democracia’ e ‘liberdade’, apropriar-se e controlar os vastos recursos naturais da Venezuela”.
Também o comitê executivo da Aliança das Igrejas Presbiterianas e Reformadas da América Latina condenou “toda ação violenta, toda interferência militar e política, todos os ataques contra a soberania da Venezuela e de qualquer outro país do mundo”. O Conselho Mundial de Igrejas, representado por seu secretário-geral Jerry Pillay, ao comentar o sequestro de Maduro e de sua esposa como uma “flagrante violação do direito internacional”, pediu o fim dos ataques em respeito aos princípios da soberania nacional e da resolução de disputas por meio da diplomacia.
Por fim, a Iglesia Antigua de las Américas, em solidariedade ao povo venezuelano, afirmou que este evento não diz respeito apenas à Venezuela, mas a toda a América Latina, historicamente marcada por intervenções semelhantes. Em um comunicado, denunciou “todas as formas de agressão contra a soberania nacional” e rejeitou a “lógica imperialista, extrativista e violenta” que busca se apropriar dos recursos naturais. “Todo ataque a um país da região é um aviso a todos os outros e uma ameaça direta aos movimentos populares que buscam seus próprios caminhos rumo à justiça social, à igualdade e à soberania.”
Adventistas, católicos e evangélicos na Venezuela
De modo geral, entende-se que a mensagem adventista chegou à Venezuela em 1910 por meio de duas entradas geográficas—o Norte e o Sul—, embora haja evidências de visitas anteriores. Esse impulso evangelístico, liderado por famílias missionárias norte-americanas, ocorreu durante o governo de Juan Vicente Gómez, um regime militar conhecido por facilitar a exploração do petróleo por investidores nacionais e estrangeiros sob os auspícios da modernização. Seu governo expandiu a infraestrutura básica e integrou a Venezuela ao mercado petrolífero global.
A administração de Gómez, embora descrita como “ilustre” por Luis Greenidge em seu livro Beginnings and Developments of Seventh-Day Adventist Work in Venezuela1, foi marcada pela repressão, pelo favorecimento das elites e de empresas estrangeiras, pela crescente dependência do petróleo e pela negligência das políticas sociais e educacionais. Apesar disso, o governo contribuiu para o desenvolvimento do adventismo e para o estabelecimento de sua primeira congregação em 1911. A mãe de Gómez, por exemplo, recebeu tratamentos naturais em instituições adventistas, e o próprio presidente mais tarde interveio em favor de adventistas que haviam sido presos após conflitos com católicos.
Na época, as elites venezuelanas mantinham laços estreitos com a Igreja Católica, criando um ambiente no qual o culto evangélico era restringido, mesmo sem proibições legais. De acordo com Aquí obró Dios2, um livro sobre o adventismo na Venezuela escrito por Carlos Freitas, os adventistas frequentemente optavam por realizar cultos discretos para não provocar a elite católica, que podia atirar pedras nos locais de reunião; forçar o fechamento de comércios em dias santos; e cooperar com a polícia para a prisão ou tortura de “suspeitos”. O episódio mais trágico envolveu o colportor Rafael López Miranda: à medida que seu trabalho evangelístico ganhava visibilidade, ele foi cercado por vários homens e morto a tiros por ordem de padres católicos; seu sepultamento chegou a ser proibido no cemitério de El Cobre pelo padre local.
Apesar desse longo período de aflição, a Igreja Adventista não deixou de crescer, o que possibilitou a organização da Missão Venezuela em 1919. Em 1950, ela estava pronta para ser dividida em duas missões distintas: Oriental e Ocidental. Em 1980, o número de membros já havia crescido 40 vezes em 30 anos, culminando na organização da União Colômbia-Venezuela em duas novas uniões-missões em 1989: a União Colômbia e a União Venezuela-Antilhas—naquele momento, esta última já contava com 43 mil membros.
Entre 1950 e 1990, a Venezuela alternou políticas voltadas à soberania nacional e períodos de dependência de interesses externos, especialmente no setor petrolífero. Marcos Pérez Jiménez manteve forte dependência do capital estrangeiro, apesar de sua retórica desenvolvimentista. Após 1958, os governos de Rómulo Betancourt, Raúl Leoni e Rafael Caldera ampliaram o papel do Estado e limitaram concessões externas, culminando, no primeiro mandato de Carlos Andrés Pérez (1974-1979), com a nacionalização da indústria petrolífera e a criação da Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA). Nos anos 1980, contudo, a crise econômica enfraqueceu esse projeto nacional-desenvolvimentista, e o segundo mandato de Pérez marcou um retorno às políticas neoliberais e a um maior alinhamento externo com os EUA.
É importante mencionar que a expansão do adventismo na Venezuela entre as décadas de 1990 e 2000 (um crescimento de 175% entre 1989 e 20023) coincidiu com um momento turbulento de transições políticas, a saber, o surgimento do chavismo, uma iniciativa política de esquerda, socialista e anti-imperialista nomeada em referência a seu fundador, Hugo Chávez Frías. Em 1992, Chávez tentou um golpe fracassado contra Carlos Pérez e foi preso até 1994. Após sua libertação, arregimentou um movimento de oposição que enfatizava a soberania nacional e respostas urgentes às necessidades da sociedade venezuelana sob a administração do Estado. Os discursos públicos de Chávez tinham forte apelo às classes populares, incluindo os evangélicos.
O presidente recém-eleito em 1999, no entanto, foi além de suas promessas de campanha no que diz respeito às instituições evangélicas na Venezuela. Chávez ampliou a noção de “liberdade religiosa”, concedendo às religiões não católicas o direito legal de registro, crença e culto, uma vez que lhes era proibido fazer discursos públicos e ensinar religião em escolas públicas. Também lhes foi concedido espaço para representantes evangélicos na Assembleia Nacional e auxílio financeiro do governo para projetos sociais e educacionais.4 Consequentemente, essa relação reforçou o número já crescente de fiéis em diferentes instituições evangélicas.
Durante o governo Chávez, as relações com os evangélicos foram pragmáticas, mas ocasionalmente tensas. Em 2005, por exemplo, o governo expulsou a missão evangélica norte-americana New Tribes Mission, acusando-a de violar a soberania nacional e de atuar como instrumento do imperialismo, o que gerou críticas em setores evangélicos. Também houve atritos com pastores que rejeitavam a “politização da fé”, embora o governo buscasse conceder reconhecimento legal às igrejas evangélicas e manter diálogo com esse campo religioso.
Essa tensão afetou a Igreja Adventista tanto em 2018 quanto em 2019, quando o general Robert González Cárdenas, no programa televisivo “Dossier”, do canal oficial da Venezuela, acusou a Divisão Sul-Americana (DSA) de promover um movimento separatista entre povos indígenas. Segundo ele, o esforço de doutrinação teria sido orquestrado pelo Departamento de Estado e pelo Pentágono dos EUA para se beneficiar das reservas de petróleo da Venezuela. Em resposta à acusação de 2018, a União Venezuelana Oriental publicou uma nota oficial insistindo que a denúncia era infundada, que suas atividades se restringiam a esforços espirituais, sociais e humanitários, e que a DSA cumpre as leis do governo venezuelano.
Ainda assim, o adventismo encontrou caminhos para seus empreendimentos evangelísticos e para o desenvolvimento institucional. Novamente, devido à sua rápida expansão, parte da União Venezuela-Antilhas foi organizada como União Venezuelana Oriental em 2010. Quatro anos depois, após alguns ajustes territoriais, a antiga foi renomeada União Venezuelana Ocidental. Dados de 2024 do Escritório de Arquivos, Estatísticas e Pesquisa mostram que tanto a União Oriental quanto a Ocidental alcançaram aproximadamente 350 mil membros, contribuindo com mais de 7 milhões de dólares em dízimos e ofertas.
Ocanto explicou à Zelota que os evangélicos na Venezuela estão divididos entre aqueles que apoiam Maduro e aqueles que celebram seu sequestro. “O mundo evangélico na Venezuela está fragmentado”, e não existem grandes fraternidades nem um grande conselho evangélico. Em geral, o tom beiraria a indiferença. No entanto, prevalecem “o chamado à oração, a busca pela paz e a reafirmação da soberania de Deus sobre os assuntos humanos”, compartilhou. Por outro lado, alguns evangélicos denunciariam a intervenção militar e o sequestro do presidente da República Bolivariana da Venezuela. Esse grupo, além de se unir em oração, se engajaria em manifestações em apoio à ordem constitucional. Ocanto também explica que a participação dos evangélicos na política venezuelana é forte em ambas as vertentes—embora, por vezes, de maneira contraditória.
Dados atuais mostram que a membresia evangélica na Venezuela supera a da maioria dos países da América Latina. Parte desse rápido crescimento ocorreu devido aos benefícios contínuos concedidos às igrejas evangélicas pelo sucessor de Chávez, Nicolás Maduro, com projetos como “Minha Igreja Bem Equipada”, para a restauração de templos; “Igreja Social”, para apoiar os empobrecidos e promover arte, cultura e espiritualidade; e a concessão de pequenos subsídios financeiros a milhares de pastores. Maduro também promoveu a criação da Universidade Teológica da Venezuela e o “Dia do Pastor”, a ser celebrado todo 15 de janeiro.
Mais de um mês antes dos ataques dos EUA contra a Venezuela, Maduro reuniu-se com líderes evangélicos em Caracas, no Palácio de Miraflores, para orar pela paz, enquanto a tensão entre Washington e Caracas aumentava. Em seu discurso, Maduro declarou que o palácio presidencial “a partir de agora será um altar para a glória de Deus” e que Jesus é “o dono e Senhor” da Venezuela. Apesar das sucessivas aproximações, os sentimentos de apoio a Maduro variam entre os evangélicos venezuelanos, assim como dentro do adventismo.
Para Ocanto, o governo Maduro tenta dialogar com os evangélicos, primeiro por meio do Movimento Cristão Evangélico pela Venezuela e agora com uma mesa ministerial—muito limitada à igreja apostólica—sob a liderança de Nahum Fernandes, do governo de Caracas. O governo concede uma ajuda mensal aos pastores para a realização de seu trabalho social e também auxilia na estruturação das igrejas. Os pastores, por sua vez, engajam-se em ações sociais. “O que importa na Venezuela é a participação”, explicou Ocanto. “Pastores e ministros participam de conselhos comunais, lideranças de base etc. As igrejas, como organizações, são outra coisa—mais tímidas.”
O bispo Ocanto explicou que, apesar do aumento da liberdade religiosa desde Chávez, o concordato especial do Estado venezuelano com a Igreja Católica permanece, resultando em um pacto tácito, porém não rompido, com a Revolução Bolivariana. Embora mais de 70% da população seja católica, a Teologia da Libertação nunca foi forte no país, ainda que alguns evangélicos tenham incorporado seus princípios. Tentativas de Chávez e de Maduro de criar um conselho inter-religioso enfrentaram resistência e tiveram sucesso limitado, evidenciando a necessidade de movimentos independentes das igrejas institucionais.
O cenário ideológico, no entanto, é diverso. O Movimento Apostólico da Igreja Católica (Movimiento Apostólico), que enfatiza a teologia da prosperidade e o individualismo, cresceu durante a crise, mas perdeu influência após o engajamento político. Em contraste, o movimento profético menor de Ocanto, enraizado em um congresso pentecostal bolivariano pré-chavista, busca recuperar influência. Ele critica a falta de coerência teológica entre alguns teólogos mais antigos, que são politicamente revolucionários, mas eclesiasticamente conservadores.
Ocanto expressa profunda preocupação com a diáspora venezuelana, que ele vê como ideologicamente cooptada pela mídia estrangeira, sonhando com uma Venezuela refeita à imagem de Miami. Ele argumenta que a invasão dos EUA deveria despertá-los para a realidade do império e reafirmar a necessidade de um projeto nacional venezuelano distinto—uma terra maravilhosa, com recursos para todos, onde todos possam retornar e participar de uma reconstrução genuína e não imperial.
O que está acontecendo na Venezuela?
O recente bombardeio da Venezuela e o sequestro de Maduro dão continuidade a uma década de sanções dos EUA que sufocaram a economia do país e degeneraram a Revolução Bolivariana.
A Revolução Bolivariana é um processo político em curso liderado por Hugo Chávez após sua eleição como presidente da Venezuela em 1999, mas que teve origem em décadas de organização popular contra governos alinhados aos EUA, sob forte repressão estatal. O episódio mais significativo foi o Caracazo, uma onda de protestos contra as reformas de ajuste estrutural do Fundo Monetário Internacional em 1989, violentamente reprimida pela polícia e pelas forças armadas—enquanto fontes oficiais estimaram 300 mortos, estimativas populares chegam a 3.000, sendo que 97% das vítimas foram mortas dentro de suas próprias casas.5
Com Chávez, as taxas de pobreza caíram drasticamente—de 55,1% em 2003 para 21,2% em 2012, segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe das Nações Unidas—e outros indicadores sociais melhoraram, financiados sobretudo pelo aumento no preço do petróleo, cujos lucros (o país possui as maiores reservas de petróleo do mundo) foram mantidos dentro do país graças à Lei Orgânica de Hidrocarbonetos. Aprovada em 2001, a lei desfavoreceu conglomerados privados de petróleo—especialmente a ExxonMobil (Exxon)—e favoreceu a exploração do petróleo nacional por empresas estatais, como a PDVSA.
Os benefícios, porém, foram de curta duração. Como uma economia fortemente dependente da exportação de petróleo e da importação de alimentos, medicamentos e maquinário, o país mostrou-se vulnerável às flutuações do preço do petróleo. A queda internacional dos preços a partir de 2014, aliada a uma série de sanções dos EUA contra o país, mostrou-se fatal para o sucessor de Chávez, Nicolás Maduro, e gerou uma crise humanitária que persiste até hoje. Apenas entre 2017 e 2018, estima-se que as sanções dos EUA tenham causado mais de 40 mil mortes na Venezuela.6
Segundo André Ortega, jornalista e analista geopolítico que cobriu pessoalmente as eleições venezuelanas de 2017, a situação se agrava pela ausência de um programa eficaz de desenvolvimento de longo prazo para o país. Em vez disso, ela se baseia em “políticas diretas, centralizadas e ad hoc promulgadas pelo poder executivo”, afirmou. De acordo com Ortega, embora muitas dessas políticas tenham como objetivo auxiliar a população em dificuldade, elas também enriqueceram bancos e empresas nacionais por meio de contratos e empréstimos estatais que carecem de qualquer estratégia de desenvolvimento e são, na melhor das hipóteses, paliativos.
Tudo isso levou ao aumento da instabilidade e da violência no país, dividido entre um governo cada vez mais autoritário e uma oposição violenta que, por meio de figuras como Juan Guaidó e María Corina Machado, pediu o endurecimento das sanções contra o país e apostou na promessa de intervenções dos EUA para mudança de regime. No auge dos protestos de 2017, aproximadamente cinco mil pessoas foram presas e cerca de 160 morreram—algumas em decorrência da repressão estatal, outras pela violência da oposição e outras ainda como vítimas indiretas, enquanto muitos casos seguem em disputa.
A criminalidade também aumentou, e operações policiais contra o crime organizado, como em muitos outros países da América Latina, têm sido uma importante fonte de violência estatal. A Missão Internacional Independente de Apuração de Fatos sobre a Venezuela, vinculada ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, constatou que, entre 2014 e 2019, 505 pessoas morreram em decorrência de operações policiais e 4.681 foram mortas por forças de segurança fora de operações.
A instabilidade política voltou a se intensificar após as eleições presidenciais de 2024, quando tanto Maduro quanto o candidato da oposição, Edmundo González, reivindicaram vitória, sem que o Conselho Nacional Eleitoral divulgasse as atas de votação. As tensões militares também aumentaram, com os EUA bombardeando várias pequenas embarcações venezuelanas no Caribe com base em alegações não comprovadas de que pertenciam a traficantes de drogas, seguidas pelo cerco à costa venezuelana e pela apreensão de navios petroleiros sob o pretexto de que financiariam um “narcoestado”—embora a Venezuela não seja um ponto relevante em rotas internacionais de tráfico de drogas.
Notas:
1.↑ Luis Greenidge, Beginnings and Developments of Seventh-Day Adventist Work in Venezuela (Angwin: Pacific Union College, 1935), p. 7. Ele era filho de Richard Greenidge, um dos primeiros missionários Norte-Americanos a chegar na Venezuela em 1910.
2.↑ Carlos Freitas, Aquí Obró Dios (Nirgua: Artes Gráficas del Instituto Universitario de Venezuela, 2010), p. 34, 35, 37, 55, 57.
3.↑ Edgar La Rosa Brito, Concepto Rebautismal de Adventismo en Venezuela (Dissertation, Seventh-day Adventist Theological Seminary, Andrews University, Montemorelos, 2002), p. 85.
4.↑ Veja David Smilde, “Religião e Conflitos Políticos na Venezuela: Católicos e Evangélicos frente ao governo de Hugo Chávez”, Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, 32(2), 13-28, 2002; “Los evangélicos y la polarización: la moralización the la política y la polarización de la religión”, Revista Venozelana de Economía y Ciencias Sociales, 10(2), 163-179, 2004; “Public Rituals and Political Positioning: Venezuelan Evangelicals and he Chávez Government”, In: Martin Lindhart (ed). Practicing the Faith: The Ritual Life of Pentecostal-Charismatevangelisticic Christians (New York: Berghahn Books, 2011), p. 306.
5.↑ Veja Iselin Åsedotter Strønen, “Understanding the Bolivarian Revolution from Below”, pp. 73–78. In Grassroots Politics and Oil Culture in Venezuela (Cham: Springer International Publishing, 2017), pp. 57–83.
6.↑ Assim como 564.000 mortes no mundo a cada ano. See Francisco Rodríguez, Silvio Rendón, Mark Weisbrot, “Effects of international sanctions on age-specific mortality: a cross-national panel data analysis,” The Lancet 13:8 (August, 2025).
Fé contra o Império: adventistas e evangélicos falam sobre a Venezuela
Redação Zelota
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