Reclamações formais e relatos anônimos detalham como a administração da Universidade Andrews, nomeada por Ted Wilson, negligencia a saúde acadêmica e financeira da instituição ao privilegiar o patrulhamento ideológico


Por Alexander Carpenter | editor-chefe da Spectrum Magazine. Traduzido e adaptado do original em inglês por André Kanasiro para a revista Zelota

No dia 19 de agosto de 2025, a Associação de Colégios Teológicos (ATS) enviou um comunicado de queixa formal ao presidente da Universidade Andrews e ao reitor do Seminário Teológico Adventista do Sétimo Dia no campus. Segundo o comunicado, uma queixa em relação a práticas de contratação no seminário foi revisada e enviada ao conselho para novas análises. Documentos obtidos pela Spectrum, que incluem o comunicado da ATS e a resposta da universidade por escrito, mostram que a queixa diz respeito a um processo seletivo para o cargo de professor de Antigo Testamento no seminário; a alegação é de que os administradores do seminário não seguiram suas próprias políticas de contratação, enganaram lideranças importantes e passaram um candidato estrangeiro na frente de candidatos estadunidenses qualificados. Embora a universidade tenha disputado as alegações, várias conversas com funcionários e professores da Universidade Andrews (UA) sugerem que o problema é sintoma de uma questão mais ampla no campus — envolvendo a administração, políticas e regulamentos, transparência, e o estilo de liderança do presidente na instituição de educação superior mais antiga da denominação.

Fundada em 1918, a ATS é o principal órgão de credenciamento e aprovação para a pós-graduação teológica na América do Norte. Ela é responsável por garantir que suas mais de 270 instituições sigam princípios de integridade, equidade e cumpram suas políticas internas, assim como leis governamentais. Embora a ATS não arbitre conflitos individuais ou determine questões empregatícias, ela avalia se as ações de uma instituição correspondem aos critérios de credenciamento—algo que pode levar a consequências institucionais significativas. Neste caso, a ATS determinou que partes da queixa satisfaziam seus critérios para entrar em análise e exigiu uma resposta formal da UA.

Comunicado de 19 de agosto de 2025 da Associação de Colégios Teológicos (ATS) para a Universidade Andrews (UA), reconhecendo o recebimento e a revisão de uma queixa formal.

Segundo o comunicado da ATS, a queixa alega que o reitor do seminário, Jiří Moskala, junto com um presidente de departamento, retiveram os nomes de dois candidatos pré-selecionados que são cidadãos dos EUA e encaminharam somente um candidato—um residente estrangeiro da Romênia—para os níveis superiores da administração. A queixa ainda alega que o cargo foi posteriormente modificado de “Antigo Testamento” para “Estudos Bíblicos”, uma mudança que supostamente correspondia melhor ao currículo do único candidato e deveria dar origem a um novo processo seletivo para novos candidatos qualificados.

A queixa foi apoiada por ambos os candidatos estadunidenses e foi enviada pela esposa de um dos candidatos. Um deles foi convidado para ser professor auxiliar numa disciplina sobre o livro de Daniel—logo após ouvir que não seria aprovado para o cargo supracitado por não ter maior especialização no assunto.

A carta da ATS inclui a citação de um ex-diretor da UA, Christon Arthur, que afirmou ter sido “enganado durante o processo de contratação”, e que a pessoa contratada não deveria ter sido considerada segundo os termos originais do processo seletivo. A queixa da ATS alude a uma confirmação de Arthur de que Moskala “reteve deliberadamente” os nomes recomendados pela comissão de avaliação.

A UA, entretanto, disputa esta caracterização, afirmando, em sua resposta, que não foi apresentada uma declaração de Arthur corroborando as citações, e que o reitor agiu de acordo com as políticas institucionais ao encaminhar a recomendação de um único candidato.

Em uma resposta detalhada, enviada no dia 29 de setembro de 2025, a UA solicita que a ATS dê baixa na queixa, argumentando que a autora da queixa não estava em posição para enviá-la, que sua submissão foi precoce, e que o seminário seguiu seus protocolos estabelecidos para contratação. A universidade alega que a política da ATS limita autores de queixas a professores, funcionários ou estudantes que esgotaram os processos internos de resolução de conflitos, e enfatiza que a ATS não tem poder para reavaliar decisões empregatícias ou questões de imigração. John Wesley Taylor V, presidente da UA, escreveu que o processo seletivo estava “totalmente alinhado” com a política interna da universidade, e que não ocorreu engano algum.

Em resposta a uma lista extensa de perguntas da Spectrum a respeito da carta da ATS, do estado da instituição em termos de matrículas e finanças, e dos esforços de reorganização do presidente, a universidade afirmou: “Até onde sabemos, a universidade segue suas políticas de contratação de professores através do estabelecimento de comissões de avaliação focadas em encontrar indivíduos que melhor representem a missão e os valores da universidade e ofereçam a especialização técnica necessária para preparar os futuros líderes da nossa igreja.”

Corpo docente relata outros problemas com a liderança

Ao longo de mais de dez conversas com professores e funcionários, um padrão similar começou a surgir. Um processo parece estar estabelecido, até que ocorre uma ação súbita fora do processo, sem supervisão ou comunicação com as partes interessadas. Todos se mantiveram anônimos para compartilhar suas histórias. Seus relatos apontam para problemas mais sérios em relação ao exercício de autoridade pela presidência atual.

Em entrevistas com três membros do corpo docente da UA, um ex-funcionário, e um ex-professor que foi promovido para um cargo superior em outra universidade, foram feitas alegações de que o presidente Taylor é passivo-agressivo e controlador. Todos os professores descreveram um padrão em que decisões eram postergadas indefinidamente, particularmente no que diz respeito a contratações. Foram relatados vários casos em que conversas com administradores sobre substituir professores ou funcionários que estavam deixando a instituição permaneciam sem resolução até serem encerrados os prazos de contratação, deixando departamentos inteiros na incerteza quanto à contratação e continuidade de seus programas, e prejudicando planejamentos a longo prazo.

Um caso ilustrativo envolve os esforços do Departamento de Música para substituir Stephen Zork, professor de música e há muitos anos o condutor do coral universitário. A UA é a única instituição adventista que oferece um mestrado em condução de coral, um programa de alcance global na denominação. Embora Zork, em 2025, tenha anunciado sua aposentadoria com meses de antecedência, seu cargo ainda não foi aberto para novas contratações. A Associação Nacional de Colégios de Música desaconselha a oferta de cargos no corpo docente para o próximo ano acadêmico a partir do dia 1º de maio caso os candidatos já tenham outro emprego, e qualquer processo seletivo iniciado agora poderia ser apressado ou desregulamentado.

Professores e alunos também descreveram um microgerenciamento cada vez maior por parte dos administradores, incluindo a restruturação de alguns departamentos como “programas” menores. Segundo os entrevistados, estas mudanças reduziram a autonomia do corpo docente e concentraram a autoridade executiva, restringindo cada vez mais decisões acadêmicas e organizacionais importantes ao nível presidencial. Como resultado, o corpo docente e discente é cada vez menos consultado, e há cada vez menos clareza quanto a decisões institucionais.

Matrículas e conselho

Não se sabe o quão efetivo tem sido o presidente para arrecadar recursos e aumentar o número de matrículas. O anúncio do dia 10 de outubro a respeito de matrículas não apresenta o FTE — uma medida padronizada que converte as matrículas de todos os alunos, em período parcial e integral, num único valor representativo de alunos no período integral. Segundo o Programa de Excelência Universitária do Instituto Aspen, o FTE, “como forma de medir entradas, tendências nas matrículas, e demanda por cursos, é melhor que a simples contagem de alunos — estejam estes no período integral ou parcial”. Durante a reunião de final de ano da União Lake, o presidente reportou ter “as maiores turmas de matriculados desde antes da pandemia”. Dito isso, no relatório de outono, a UA reportou quedas na contagem de alunos internacionais e alunos no geral. Visto que a contagem de alunos pode ser inflada de várias formas que não dizem respeito diretamente à saúde financeira, não está claro quantos alunos FTE a Andrews tem no momento. A única coisa clara é que preocupações com números de matrícula estão sendo usadas pela administração para fazer cortes e reorganizar o campus, reduzindo departamentos e a oferta de disciplinas.

Em uma carta enviada no dia 21 de novembro ao corpo docente, o presidente afirmou: “Combinar unidades cria oportunidades naturais para compartilhar cursos, especializações do corpo docente, e abordagens inovadoras de forma interdisciplinar. Isso também leva a eficiência nos custos, combinando cursos substancialmente similares e reduzindo a redundância.” Ele acrescentou que isso estava sendo feito para “alinhar nossa estrutura com a quantidade atual de matriculados e de professores”.

Explicando este plano de reorganização, Taylor afirmou: “As propostas estão sendo analisadas pela administração, juntamente com outras opiniões que recebemos.” Ele acrescentou: “Haverá um novo relatório quando estes passos forem completados.” Segundo dois professores que estão participando do processo, até o momento não foi distribuído sequer o esboço de um novo relatório.

O conselho e o presidente parecem estar concentrados em outros assuntos que não a saúde administrativa e financeira da instituição. Membros do conselho estão focados em eliminar iniciativas de diversidade e igualdade do campus, e até protestaram contra o surgimento da palavra “justiça” em documentos departamentais. Um dos mais novos membros da junta diretiva, o advogado Bruce N. Cameron, escreve com regularidade artigos politicamente polêmicos para o Fulcrum7.1 Em um texto recente, Cameron criticou líderes de liberdade religiosa da denominação que alertaram contra o nacionalismo cristão e sua subversão de crenças adventistas. Alguns professores expressaram sua preocupação de que tais opiniões, proferidas por um membro atual da direção, possam influenciar os rumos da instituição.

Em 2024, Willie Hucks II foi nomeado assistente do presidente para missão e cultura. Ele saiu no final de 2025 para trabalhar na Divisão Norte-Americana. Com ele, já são três as pessoas conectadas a iniciativas de diversidade e equidade no campus que saíram recentemente.

Um ex-funcionário disse à Spectrum: “O conselho começou a selecionar novos membros da administração ciente das dificuldades enfrentadas pelo ensino superior atualmente. Ainda assim, está cada vez mais claro que a seleção não prioriza a experiência necessária para os desafios que enfrentamos hoje, e não tem visão o bastante para manter de pé o adventismo em sua amplitude.”

Muitos dos membros da universidade que foram entrevistados para este artigo expressaram uma lealdade profunda à instituição, e detalharam muitos exemplos de como tentaram cortar seus orçamentos várias e várias vezes. Conforme o presidente diminui a universidade — convertendo departamentos em programas — alguns temem que a cultura acadêmica do campus sofra, com cada vez menos professores dando aulas para cada vez menos alunos. O presidente já escreveu antes a respeito de como foi formativa a sua experiência com homeschooling através de aulas on-line, assim como seus anos estudando no Weimar College2 (não credenciado oficialmente na época), no qual ele se formou em saúde e religião.

Segundo José Bourget, ex-vice-presidente assistente para envolvimento na fé e capelão da UA, “o que fica claro é a responsabilidade do conselho: como ele está apoiando — e responsabilizando — uma administração à qual foi confiada a resiliência, a retenção, e a saúde a longo prazo da missão da Universidade Andrews, que é o ensino acadêmico e o serviço.” Ele acrescentou: “No momento, é difícil ver esse alinhamento. A instituição parece estar estreitando sua visão de formas que parecem desconectá-la da amplitude de seu chamado.”

Notas:

1. N.E.: blog adventista estadunidense que apoia explicitamente alas trumpistas e antivacina do país, além de perseguir alas progressistas da igreja.

2. N.E.: Faculdade adventista nos EUA que é conectada a ministérios independentes da teologia de última geração.