Homenagem ao empresário zimbabueano Kudakwashe Tagwirei reacende debate na Igreja Adventista sobre influência política, financiamento institucional e uso do púlpito para manifestações partidárias
Por Stanton Witherspoon | Traduzido e adaptado do original em inglês para a revista Zelota. Republicado em colaboração com SPECTRUM: o periódico e website do Adventist Forum desde 1969. www.spectrummagazine.org
Em uma importante convenção de educadores organizada pela Divisão Africana do Sul e do Oceano Índico (SID) em março de 2025, o empresário zimbabueano Kudakwashe Tagwirei recebeu o que foi denominado de Prêmio Global de Excelência Adventista. O prêmio foi entregue pela Dra. Lisa Beardsley-Hardy, diretora de educação da Associação Geral (AG) da Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD), em reconhecimento ao trabalho filantrópico de Tagwirei em apoio à educação adventista. Embora o título do prêmio seja às vezes usado informalmente, é mais comumente referido como Medalha de Distinção — a mais alta honraria que a IASD confere por contribuições à educação, concedida conjuntamente pela AG e suas divisões mundiais.
O reconhecimento mencionou que a Fundação Bridging Gaps de Tagwirei — que, segundo relatos, revitalizou pelo menos 63 escolas adventistas no Zimbábue — doou infraestrutura, equipamentos agrícolas, poços artesianos e veículos. Autoridades da Universidade Solusi estimam que suas contribuições ultrapassam US$ 7 milhões. Ele também supostamente fornece auxílios mensais de US$ 450 para despesas de subsistência a mais de 600 obreiros da IASD em três uniões adventistas do Zimbábue.
A cerimônia recebeu elogios de alguns líderes religiosos, mas também gerou críticas de membros, que questionaram o quão adequado é homenagear uma figura com ligações políticas e sob sanções do governo dos EUA desde 5 de agosto de 2020. O Secretário Adjunto do Tesouro dos EUA, Justin G. Muzinich, declarou: “A ação de hoje coincide com o segundo aniversário da violenta repressão do governo do Zimbábue contra seus cidadãos, os quais protestavam contra eleições governamentais fraudulentas e o atraso na divulgação dos resultados, que resultou na morte de pelo menos seis civis.” Ele acrescentou: “Tagwirei e outras elites do Zimbábue prejudicaram o desenvolvimento econômico e o povo zimbabueano por meio da corrupção.” O recente reconhecimento do bilionário de 56 anos por importantes líderes denominacionais reacendeu o debate interno sobre a relação da IASD com dinheiro, influência política e a neutralidade do púlpito adventista.
Durante anos, Tagwirei teve grande influência no cenário econômico e político do Zimbábue. Através de sua empresa, a Sakunda Holdings, e de uma parceria com a gigante suíça de comércio de commodities Trafigura, ele acumulou uma fortuna dominando o setor de combustíveis do país. No início deste ano, o mais importante tribunal da Suíça condenou o ex-diretor de operações da Trafigura por suborno, sentenciando-o a 32 meses de prisão e multando a empresa em US$ 132 milhões. De acordo com o Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCP), Tagwirei, que controla os setores de combustíveis, platina e ouro do país, lucrou pelo menos US$ 100 milhões em comissões por meio de sua relação com a Trafigura desde 2018. Esses lucros foram possíveis, em parte, por sua ligação com o presidente do país, Emmerson Mnangagwa. O Departamento do Tesouro dos EUA afirmou que Tagwirei usou seus “relacionamentos próximos com altos funcionários zimbabueanos” para obter acesso preferencial a moedas fortes e contratos governamentais, “prejudicando a economia do Zimbábue” no processo.
Tagwirei nega qualquer irregularidade e afirma que seus investimentos contribuíram positivamente para o desenvolvimento nacional. No Zimbábue, onde a inflação tem sido instável há anos e o desemprego permanece alto, sua filantropia gerou tanto admiração quanto ceticismo. Em nenhum lugar essa percepção ambivalente é mais evidente do que dentro da IASD.
No final de 2024, a IASD no Zimbábue tinha aproximadamente 504.854 membros, refletindo um crescimento constante em relação aos 491.918 membros registrados no terceiro trimestre de 2023. Esses membros estão distribuídos em três grandes unidades administrativas da igreja: a União Central (136.540), a União Leste (231.361) e a União Oeste (136.953).
A infraestrutura adventista do Zimbábue está ancorada na SID. De acordo com as estatísticas oficiais, o país contava com 2.729 igrejas em 2024. O setor educacional também é significativo; em 2022, o Zimbábue possuía 148 escolas adventistas, incluindo 101 escolas primárias, 46 secundárias e uma instituição de ensino superior — a Universidade Solusi. Esses números refletem a longa presença da igreja no país desde o final do século 19 e ressaltam tanto a importância quanto a vulnerabilidade de suas instituições diante de influências políticas e financeiras.
No entanto, críticos argumentam que tal generosidade vem com condições. Nos últimos anos, Tagwirei foi convidado a discursar em púlpitos adventistas — às vezes com conotações políticas explícitas. Um exemplo particularmente controverso ocorreu durante uma campanha evangelística recente chamada Operação Macedônia, em 14 de junho de 2025, na qual Tagwirei teria aproveitado a plataforma para defender emendas constitucionais que prolongariam o mandato presidencial de seu aliado político, Mnangagwa.
A reação foi imediata. Alguns membros da igreja solicitaram à União-associação Oriental e à AG que revogassem a premiação, alegando preocupações de que a igreja estivesse comprometendo sua postura apolítica. De acordo com veículos de imprensa locais, Thabani Mpofu, um membro batizado da igreja e um advogado proeminente, alegou, em uma queixa formal, que a igreja violou suas próprias normas ao permitir discursos políticos do púlpito.
Em resposta, a União-associação Zimbábue Leste emitiu uma declaração pública no dia 27 de junho de 2025, reafirmando sua posição apartidária. “Quaisquer comentários políticos partidários feitos não eram previstos, não foram autorizados pela liderança da igreja e não refletem a posição da IASD”, escreveu o secretário executivo Zibusiso Trust Ndlovu. “O púlpito jamais deve ser usado como plataforma para defesa, apoio ou comentários políticos. Este padrão é inegociável e se aplica a todos os eventos e atividades organizados pela igreja.”
A declaração, citando João 18.36 — “O meu reino não é deste mundo” — exortou membros e líderes a se concentrarem em “nossa vocação sagrada como embaixadores de Cristo” e a usarem mecanismos bíblicos e do Manual da Igreja (Mateus 18.15-17; MI 65-67) para expressar suas preocupações. Embora redigido de forma diplomática, o comunicado representou um raro distanciamento público de seu rico doador.
Ainda assim, dúvidas persistem. O Prêmio Global de Excelência concedido a Tagwirei não foi revogado, e a AG também não respondeu publicamente aos crescentes apelos por maior fiscalização na gestão de suas parcerias financeiras. O NewsDay Zimbabwe relatou que alguns líderes religiosos defenderam abertamente a presença política de Tagwirei, enquanto outros temem que a retirada do apoio possa desestabilizar operações já fragilizadas na região.
No dia 27 de julho, Tagwirei fez o discurso de formatura para os 3.229 graduados da Universidade Babcock, uma das maiores instituições de ensino superior adventistas do mundo. Ele recebeu um doutorado honorário.

Tagwirei negou ter ambições políticas, embora The Africa Report tenha citado analistas para os quais ele pode estar se posicionando como sucessor presidencial de Mnangagwa. Sua trajetória — independentemente da direção que tomar — reflete a convergência de riqueza, fé e política em uma nação que ainda se recupera de décadas de colapso econômico e governos autoritários.
Tagwirei, o bilionário adventista que une Igreja e Estado
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